24 de fevereiro de 2018

Capítulo 10

Para: SreSraBernardClark@yahoo.com
De: AbelhaAtarefada@gmail.com
Oi, mãe
Desculpe por não ter respondido antes. Estou muito ocupada aqui! Nunca tenho um momento livre!
Fico feliz que tenha gostado das fotos. Sim, os carpetes são 100% lã, alguns tapetes são de seda, a madeira definitivamente não é compensado, e perguntei a Ilaria: eles mandam lavar as cortinas a seco uma vez por ano enquanto passam um mês nos Hamptons. Os faxineiros são muito competentes, mas Ilaria limpa o chão da cozinha todo dia, porque não confia neles. Sim, a Sra. Gopnik realmente tem um chuveiro separado da banheira e um closet no quarto de vestir. Ela gosta muito do quarto de vestir e passa muito tempo lá dentro com o celular, falando com a mãe na Polônia. Não tive tempo de contar os sapatos, como você pediu, mas eu diria que são bem mais do que cem pares. Ela guarda todos empilhados em caixas com fotos coladas na frente para saber qual é qual. Quando ganha um sapato novo, faz parte do meu trabalho tirar a foto. Ela tem uma câmera só para isso!
Que bom que o curso de artes correu bem e as aulas de Melhor Comunicação para Casais parecem magníficas, mas diga ao papai que não tem nada a ver com o Negócio do Quarto. Ele me enviou três e-mails esta semana, perguntando se eu acho que ele devia fingir um sopro no coração. Que pena saber que o vovô tem andado doente. Ele continua escondendo os legumes embaixo da mesa? Tem certeza de que você precisa abrir mão do curso noturno? É uma pena.
Bom, tenho que ir. Agnes está me chamando. Vou mandar mais informações sobre o Natal, mas não se preocupe, estarei aí.
Amo você.
Bjs, Louisa
P.S.: Não, não vi o Robert de Niro de novo, mas, sim, se eu vir, sem dúvida vou falar que você gostou muito dele em A Missão.
P.P.S.: Não, juro que não passei tempo nenhum em Angola e não estou precisando urgentemente de uma transferência de dinheiro. Não responda a essas mensagens.

* * *
Não sou especialista em depressão. Eu não tinha nem mesmo entendido a minha própria depressão depois da morte de Will. Mas achei o humor de Agnes especialmente difícil de entender. As amigas da minha mãe que sofriam de depressão — e aparentemente havia uma assombrosa quantidade de casos — pareciam derrubadas pela vida, lutando no meio de uma névoa que descia até que não conseguissem ver nenhuma alegria, nenhuma perspectiva de prazer. A depressão obscurece o caminho adiante. Dava para ver na maneira como andavam, os ombros curvados, a boca estanque em estreitas rugas de comiseração. Era como se a tristeza emanasse delas.
Agnes era diferente. Podia ser barulhenta e tagarela um minuto e chorona e furiosa no seguinte. Haviam me contado que ela se sentia isolada, avaliada, carente de aliados. Mas essa situação nem sempre se encaixava. Porque, quanto mais tempo eu passava com ela, mais eu reparava que, na realidade, essas mulheres não a intimidavam: elas a deixavam furiosa. Ela morria de ódio com a injustiça dessa situação e gritava com o Sr. Gopnik; imitava-as com crueldade quando ele dava as costas, ou resmungava com raiva de Kathryn ou Ilaria e seus estratagemas. Era volúvel, uma chama humana de afronta, rosnando sobre cipa ou debil ou dziwka (eu dava um Google nessas palavras nas horas vagas até ficar constrangida).
E então, de repente, tornava-se alguém completamente diferente — uma mulher que desaparecia pelos quartos e chorava baixinho, um rosto tenso e paralisado após um longo telefonema em polonês. A tristeza de Agnes se manifestava em dores de cabeça, que eu nunca tinha certeza se eram reais.
Falei sobre isso com Treena no café com wi-fi liberado ao qual eu tinha ido na minha primeira manhã em Nova York. Estávamos usando o áudio do FaceTime, o que, em minha opinião, era melhor do que ficarmos olhando o rosto uma da outra enquanto conversávamos — eu me distraía com a maneira como o meu nariz parecia enorme, ou com o que alguém estava fazendo atrás de mim. Também não queria que ela visse o tamanho dos muffins amanteigados que eu estava comendo.
— Talvez ela seja bipolar — disse Treena.
— É. Eu pesquisei, mas não parece ser o caso. Ela não tem um comportamento maníaco, por assim dizer, só meio... acelerado.
— Não tenho certeza se a depressão é uma doença tamanho único, Lou — comentou minha irmã. — Além do mais, todo mundo nos Estados Unidos não tem alguma coisa de errado? As pessoas não tomam um monte de comprimidos?
— Ao contrário da Inglaterra, onde a mamãe levaria você para um agradável e revigorante passeio.
— Para levantar o ânimo.
Minha irmã deu um risinho.
— Ver as coisas por outro ângulo.
— Passe um pouquinho de batom. Para dar uma iluminada no rosto. Pronto. Quem precisa de todos esses remédios ridículos?
Alguma coisa tinha acontecido com Treena e nossa relação desde que eu me fora. Falávamos ao telefone um dia por semana e, pela primeira vez em nossa vida adulta, ela havia parado de reclamar comigo o tempo todo. Parecia genuinamente interessada em como estava a minha vida, perguntando sobre o trabalho, os lugares que eu tinha visitado e o que faziam as pessoas à minha volta durante o dia todo. Quando eu pedia algum conselho, geralmente ela me dava uma resposta ponderada, ao invés de me chamar de tapada ou de perguntar se eu entendia para que servia o Google.
Ela estava gostando de uma pessoa, segundo me confidenciara duas semanas antes. Haviam tomado uns drinques em um bar hipster em Shoreditch, depois ido a um cinema pop-up em Clapton, e Treena tinha ficado nas nuvens durante vários dias depois disso. Minha irmã nas nuvens era uma novidade.
— Como ele é? Já deve dar para você me contar alguma coisa agora.
— Ainda não vou contar nada. Toda vez que falo dessas coisas elas dão errado.
— Nem para mim?
— Por enquanto. É... bem. Seja como for. Estou feliz.
— Ah. Então é por isso que você está tão boazinha.
— Como assim?
— Você está satisfeita. Achei que era porque finalmente estava aprovando o meu rumo na vida.
Ela riu. Normalmente minha irmã não ria, a não ser que fosse de mim.
— Só acho legal que tudo esteja dando certo. Você está com um ótimo emprego aí nos Estados Unidos. Eu adoro o meu trabalho. Thom e eu estamos curtindo muito a cidade. Sinto como se os horizontes estivessem realmente se abrindo para todos nós.
Era uma afirmação tão improvável de ser feita por Treena que não tive coragem de contar sobre Sam. Conversamos um pouco mais, sobre a mamãe querer trabalhar meio período na escola local, mas não ter aceitado por causa do estado de saúde do vovô, que vinha piorando. Terminei de comer o bolinho e tomar o café e percebi que, embora estivesse interessada, não sentia nem um pouco de saudade de casa.
— Mas você não vai começar a falar com esse maldito e horroroso sotaque desse lado do Atlântico, certo?
— Sou eu, Treen. Isso dificilmente vai mudar — falei, em um maldito e horroroso sotaque deste lado do Atlântico.
— Você é tapada mesmo — disse ela.

* * *

— Ah, meu Deus. Você ainda está aqui.
Na hora em que cheguei em casa, a Sra. De Witt estava de saída do prédio, vestindo as luvas embaixo do toldo. Dei um passo para trás, cuidadosamente evitando que os dentes de Dean Martin beliscassem minha perna, e sorri para ela com educação.
— Bom dia, Sra. De Witt. E onde mais eu estaria?
— Achei que a dançarina erótica estoniana já tivesse dispensado você. Fico surpresa que ela não tenha sentido medo de que você fugisse com o velho, como ela fez.
— Não é exatamente o meu jeito de ser, Sra. De Witt — retruquei, em tom alegre.
— Ouvi quando ela ficou gritando no corredor uma noite dessas. Uma algazarra horrível. Pelo menos a outra passou as duas décadas de cara amarrada. Muito mais fácil para os vizinhos.
— Não vou comentar.
Ela balançou a cabeça e se preparou para sair, mas se deteve e olhou para a minha roupa. Eu usava uma saia dourada plissada, meu colete de pele falsa e uma boina vermelha, parecendo um morango gigantesco, que Thom tinha ganhado de presente de Natal dois anos antes e havia se recusado a usar porque era muito de “menininha”. Nos meus pés, oxfords de um tom vermelho brilhante, de uma marca boa. Eu os havia comprado na liquidação de uma loja de calçados infantis e, na ocasião, ao perceber que cabiam, comemorei com socos no ar no meio de mães atordoadas e criancinhas aterrorizadas.
— A sua saia.
Olhei para baixo e me preparei para o comentário cruel que estivesse a caminho.
— Eu tinha uma igual, da Biba.
— Esta aqui é Biba! — falei, encantada. — Consegui em um leilão na internet há dois anos. Quatro libras e cinquenta! Só um buraquinho no cós.
— Tenho uma saia idêntica. Eu costumava viajar bastante na década de sessenta. Sempre que ia a Londres passava horas naquela loja. Costumava despachar malas inteiras só de vestidos da Biba para Manhattan. Não tínhamos nada parecido por aqui.
— Que sonho. Já vi em fotos — falei. — Que coisa incrível poder fazer isso. O que a senhora fazia? Quer dizer, por que viajava tanto?
— Eu trabalhava com moda. Para uma revista feminina. Era...
Balançou o corpo para a frente, acometida de um ataque de tosse, e eu esperei enquanto ela recuperava o fôlego.
— Bom. Deixa para lá. Você está com uma aparência bastante correta — disse ela, colocando a mão na parede.
Em seguida, virou-se e saiu mancando rua acima, Dean Martin lançando olhares malignos simultaneamente para mim e para o meio-fio atrás dele.

* * *

O restante da semana foi, como Michael descreveria, interessante. O apartamento de Tabitha no SoHo estava em obras e por isso, durante uma semana mais ou menos, o nosso se tornou um campo de batalha para uma série de episódios de disputa por território aparentemente invisíveis para o olhar masculino, mas óbvios demais para Agnes. Eu a via falando aos sussurros exaltados com o Sr. Gopnik quando pensava que Tabitha estava fora de alcance.
Ilaria aproveitava seu papel de soldado raso. Ela fez questão de servir os pratos prediletos de Tab — pratos apimentados e carne vermelha —, nada que Agnes comia, e, quando Agnes reclamava, ela alegava não saber de nada. Assegurou-se de lavar a roupa de Tab primeiro que tudo, deixando-a cuidadosamente dobrada em cima da cama, enquanto Agnes, de robe, corria pelo apartamento na tentativa de descobrir o que acontecera com a blusa que tinha planejado usar naquele dia.
À noite, Tab ficava na sala de estar enquanto Agnes estava ao telefone com a mãe, na Polônia. Ela cantarolava alto, rolando páginas no iPad, até que Agnes, em uma raiva silenciosa, se levantasse e batesse em retirada para seu quarto de vestir. De vez em quando, Tab convidava amigas e elas ocupavam a cozinha ou a sala de televisão, um bando de vozes barulhentas, fofocando, rindo, uma roda de cabeças louras que ficava em silêncio se por acaso Agnes passasse por perto.
— É a casa dela também, meu bem — dizia o Sr. Gopnik suavemente, quando Agnes protestava. — Ela cresceu aqui.
— Ela me trata como se eu fosse um acessório temporário.
— Com o tempo ela vai se acostumar com você. Ela ainda é uma criança em vários sentidos.
— Ela tem vinte e quatro anos.
Agnes emitia uma espécie de rosnado, um som que eu tinha certeza de que nenhuma mulher inglesa jamais saberia fazer (tentei algumas vezes), e jogava as mãos para o alto, exasperada. Michael passava por mim, o rosto impassível, os olhos encarando os meus para indicar uma solidariedade muda.

* * *

Agnes me pediu para enviar por FedEx um pacote para a Polônia. Ela queria pagar em dinheiro e ficar com o recibo. A caixa era grande, quadrada e não muito pesada, e falamos sobre isso no seu escritório, que ela passara a trancar, para desgosto de Ilaria.
— O que é?
— Só um presente para a minha mãe.
Fez um gesto com a mão.
— Mas Leonard acha que gasto demais com a minha família e por isso não quero que ele saiba tudo o que eu mando.
Carreguei o pacote até a agência da FedEx na West 57th e esperei na fila. Quando preenchi o formulário, o funcionário perguntou:
— Qual é o conteúdo? Para a Alfândega.
Percebi então que não sabia. Mandei uma mensagem para Agnes, que respondeu rápido: Diga apenas que são presentes para a família.
— Mas que tipo de presente, senhorita? — perguntou o homem, com ar cansado.
Mandei outra mensagem. Ouvi claramente alguém suspirar na fila, atrás de mim.
Tchotchkes.
Encarei a mensagem. Depois ergui o telefone.
— Desculpe. Não consigo pronunciar isso.
Ele olhou.
— É, senhorita. Isso não ajudou nada.
Falei de novo com Agnes, que respondeu: Diga para ele se meter com a própria vida! Que intromissão dele querer saber o que estou mandando para a minha mãe!
Enfiei o celular no bolso.
— Ela disse que são cosméticos, um pulôver e alguns DVDs.
— Valor?
— Cento e oitenta e cinco dólares e cinquenta e dois centavos.
— Até que enfim — murmurou o funcionário do FedEx.
Entreguei o dinheiro e esperei que ninguém visse meus dedos cruzados na outra mão.

* * *

Na tarde de sexta-feira, quando começou a aula de piano de Agnes, fui para o meu quarto e liguei para Sam. Enquanto digitava os números, senti o familiar estremecimento de animação apenas com a perspectiva de ouvir a voz dele. Alguns dias eu sentia tanta saudade dele que chegava a doer. Sentei e fiquei esperando enquanto chamava.
E uma mulher atendeu.
— Alô?
Era articulada, a voz ligeiramente rouca no fim das sílabas, como se tivesse fumado vários cigarros.
— Ah, me desculpe. Devo ter ligado para o número errado.
Rapidamente tirei o fone do ouvido e encarei a tela.
— Com quem você quer falar?
— Sam? Sam Fielding?
— Ele está no banho. Só um segundo, vou chamar.
A mulher tapou o bocal com a mão e gritou o nome dele, a voz um pouco abafada. Fiquei completamente imóvel. Não havia mulheres jovens na família de Sam.
— Ele já vem — disse ela depois de um minuto. — Quem está falando?
— Louisa.
— Ah. Ok.
Telefonemas de longa distância podem deixar você estranhamente sintonizada com ligeiras variações no tom e na ênfase, e alguma coisa naquele “Ah” me deixou pouco à vontade. Eu estava prestes a perguntar com quem eu estava falando quando Sam atendeu.
— Oi!
— Oi!
O ‘oi’ saiu de uma forma esquisita, meio quebrada, já que minha boca tinha ficado seca de repente, e tive que repetir.
— O que aconteceu?
— Nada! Quer dizer, nada urgente. Eu... eu só, sabe, queria ouvir sua voz.
— Só um segundo, vou fechar a porta.
Eu podia visualizá-lo no pequeno vagão, fechando a porta do quarto. Quando voltou, sua voz soava alegre, bem diferente da última vez que nos falamos.
— Então, como vão as coisas? Tudo bem com você? Que horas são aí?
— Passa das duas. Huuum, quem era aquela?
— Ah. É a Katie.
— Katie.
— Katie Ingram. Minha nova parceira.
— Ah, sim, Katie! Sei! Então... Hum... o que ela está fazendo na sua casa?
— Ah, ela só está me dando uma carona para o bota-fora da Donna. A moto está na oficina. Problema com o escapamento.
— Então, ela está realmente cuidando de você!
Fiquei imaginando, distraída, se ele estaria enrolado em uma toalha.
— É. Ela mora logo aqui no final da rua, então faz todo o sentido.
Sam disse isso com a neutralidade casual de alguém que sabia que havia duas mulheres o escutando.
— Então, para onde vocês todos vão?
— Aquele lugar de tapas em Hackney. O que era uma igreja antigamente. Não tenho certeza se nós já fomos lá.
— Uma igreja! Ha-ha-ha! Então, vocês todos vão ter que se comportar muito bem!
Eu ri, alto demais.
— Um bando de paramédicos em noite de folga? Duvido muito.
Houve um breve silêncio. Tentei ignorar meu estômago revirando. A voz de Sam ficou mais suave:
— Tem certeza de que está bem? Você parece um pouco...
— Estou bem! Super! Já disse. Só queria ouvir a sua voz.
— Meu amor, é ótimo falar com você, mas preciso ir. Katie fez o maior favor me dando carona, e nós já estamos atrasados.
— Tudo bem! Bom, tenha uma ótima noite! Não faça nada que eu não faria! — Eu estava falando com pontos de exclamação. — E mande um beijo para Donna!
— Vou mandar. A gente se fala em breve.
— Amo você.
Soou mais lamentoso do que eu pretendia.
— Me escreva!
— Ah, Lou... — disse ele.
E aí desligou. Fiquei encarando a tela do celular em um quarto para lá de silencioso.

* * *

Organizei uma sessão privada de um filme novo, em uma pequena sala de cinema, para as esposas dos sócios do Sr. Gopnik e providenciei os petiscos que seriam servidos. Questionei uma cobrança da floricultura por flores que não tinham sido entregues, depois corri até a Sephora e comprei dois frascos de esmalte que Agnes tinha visto na Vogue e queria levar para o campo.
Dois minutos depois de terminar meu horário e os Gopnik terem partido para a viagem de fim de semana, eu disse “não, obrigada” quando Ilaria me ofereceu as sobras de almôndega e corri para o quarto.
Então fiz uma coisa idiota. Procurei o nome dela no Facebook.
Não levou mais de quarenta minutos para filtrar a Katie Ingram certa das outras centenas de possibilidades. O perfil dela não estava bloqueado e tinha o logotipo do NHS, o serviço de saúde. A descrição profissional dizia: “Paramédica: Amo Meu Trabalho!!!” O cabelo podia ser ruivo ou louro-avermelhado, era difícil dizer pelas fotos, e tinha possivelmente vinte e tantos anos, era bonita com um nariz arrebitado. Nas primeiras trinta fotos que tinha postado, aparecia rindo com os amigos, congelada no meio da Good Times. Ficava irritantemente bem de biquíni (da Skiathos, de 2014!! Muito divertido!!!!), tinha um cachorrinho peludo, uma queda por sapatos de salto vertiginosamente alto e uma melhor amiga com cabelo comprido escuro que gostava de beijar a bochecha dela nas fotos (por um tempo alimentei a esperança de que ela fosse gay, mas ela fazia parte de um grupo do Facebook chamado Levanta a mão quem secretamente está adorando ver o Brad Pitt solteiro de novo!!).
Seu “estado civil” estava marcado como solteira.
Rolei pelas publicações, secretamente me odiando por fazer isso, mas incapaz de me controlar. Examinei as fotos, tentando encontrar alguma onde ela parecesse gorda ou carrancuda ou talvez vítima de alguma terrível doença de pele escamosa. Cliquei várias vezes. E, quando eu estava prestes a fechar o notebook, parei. Lá estava, postada três semanas antes. Katie Ingram em um dia claro de inverno, em seu uniforme verde-escuro, a mochila orgulhosamente aos pés, diante de um estacionamento de ambulância na parte leste de Londres.
Dessa vez, seu braço estava em volta de Sam, também de uniforme, de pé, braços cruzados, sorrindo para a câmera.
“Melhor parceiro do MUNDO”, era a legenda. “Amando meu novo emprego!”
Logo embaixo, sua amiga de cabelo escuro havia comentado: “Imagino por quê...?!” e acrescentou uma carinha dando uma piscadela.

* * *

Eis o que acontece com o ciúme. Não é bonito de ver. E a sua parte racional sabe o motivo. Você não é ciumenta! Esse tipo de mulher é horrível! E não faz sentido! Se alguém gostar de você, vai ficar com você; e se não gostar o suficiente para ficar com você, então não vale a pena ficar com ele. Você sabe disso, pois é uma mulher madura e sensata de vinte e oito anos. Já leu os artigos de autoajuda. Já assistiu ao Dr. Phil.
No entanto, quando você mora a mais de cinco mil quilômetros do seu namorado paramédico lindo, fofo e sexy, e ele tem uma parceira nova que soa e parece a Pussy Galore — uma mulher que passa pelo menos doze horas por dia intimamente próxima do homem que você ama, um homem que já confessou como tem achado difícil estar fisicamente longe —, então a sua parte racional é esmagada pelo monstro gigantesco e acachapante que é o seu lado irracional.
Independentemente do que eu fizesse, eu não conseguia esquecer a imagem dos dois. Como um negativo em preto e branco, ela ficou alojada em algum lugar atrás dos meus olhos, me assombrando: o braço dela, ligeiramente bronzeado, ao redor da cintura dele, seus dedos apoiados de leve no cós do uniforme dele. Será que os dois estavam lado a lado em um happy hour, ela o cutucando por causa de alguma piadinha interna? Seria Katie o tipo de mulher extremamente afetuosa que estende a mão e toca no braço do cara para enfatizar algo? Será que ela tem um perfume bom, de modo que todo dia, quando ele vai embora, fica com a sensação indefinível de que alguma coisa está faltando?
Eu sabia que esse era o caminho para a loucura, mas não consegui me conter.
Pensei em ligar para ele, mas não tem nada mais típico de uma namorada insegura e perseguidora do que ligar às quatro da manhã. Meus pensamentos zumbiam e giravam, formando uma grande nuvem tóxica. E eu me odiava por causa deles. E eles zumbiam e pioravam ainda mais.
— Ah, seu parceiro não poderia ser um cara de meia-idade e simpático? — murmurei para o teto.
E, em algum momento da madrugada, finalmente adormeci.

* * *

Na segunda-feira, nós corremos (só parei uma vez), depois fomos até a Macy’s e compramos um monte de roupas para a sobrinha pequena de Agnes. Desta vez, quando fui ao escritório da FedEx enviar o pacote para a Cracóvia, eu estava segura quanto ao conteúdo.
No almoço, Agnes me contou sobre a irmã: ela se casara jovem demais com o gerente de uma cervejaria local, que a tratava de modo pouco respeitoso, e ela agora se sentia tão oprimida e imprestável que Agnes não conseguia convencê-la a deixá-lo.
— Todo dia ela chora com a minha mãe por causa das coisas que ele diz. Que ela está gorda ou feia ou que ele podia ter conseguido coisa melhor. Aquele mau-caráter fedorento de merda. Um cachorro nem sequer ia mijar na perna dele, mesmo que tivesse bebido cem baldes de água.
Seu objetivo máximo, confidenciou, comendo a salada de acelga e beterraba, era trazer a irmã para Nova York, para longe daquele homem.
— Acho que consigo convencer o Leonard a dar um emprego a ela. Talvez como secretária no escritório dele. Ou, melhor, como empregada lá em casa! Então, podíamos nos livrar da Ilaria! Minha irmã é muito boa, sabe. Muito meticulosa. Mas ela não quer sair da Cracóvia.
— Talvez ela não queira interromper os estudos da filha. Minha irmã ficou muito nervosa quando levou Thom para Londres — falei.
— Humm — foi a resposta de Agnes.
Mas eu percebi que ela não considerava isso um obstáculo. Fiquei pensando se as pessoas ricas não veem obstáculos em nada.

* * *

Não fazia nem meia hora que tínhamos retornado quando ela olhou o telefone e anunciou que iríamos para East Williamsburg.
— O artista? Mas achei...
— Steven está me ensinando a desenhar. Aulas de desenho.
Pisquei.
— Tudo bem.
— É uma surpresa para o Leonard, então não fale nada.
Ela não olhou para mim durante todo o trajeto.

* * *

— Você está atrasada — disse Nathan quando cheguei em casa.
Ele estava saindo para jogar basquete com alguns amigos da academia, uma bolsa de apetrechos no ombro e o capuz do moletom na cabeça.
— Estou.
Deixei minha bolsa tombar e enchi uma chaleira. Tirei uma embalagem de macarrão japonês do saco plástico e o coloquei na bancada.
— Foi a algum lugar interessante?
Hesitei.
— Só... aqui e ali. Sabe como ela é.
Liguei a chaleira.
— Você está bem?
— Estou ótima.
Senti o olhar dele fixo em mim até eu me virar e forçar um sorriso. Então ele deu uns tapinhas nas minhas costas e se virou para sair.
— Um dia daqueles, não é?
Um dia daqueles mesmo. Fiquei encarando a bancada da cozinha. Não sabia o que dizer a ele. Não sabia como explicar as duas horas e meia que eu e Garry havíamos esperado por ela no carro, olhando várias vezes para a luz na janela escura e depois de volta para o celular. Após uma hora, Garry, cansado de suas fitas de aula de idiomas, mandou uma mensagem para Agnes dizendo que um funcionário do estacionamento avisou que ele precisava sair e que ela deveria mandar uma mensagem quando quisesse ir embora, mas ela não respondeu.
Demos uma volta no quarteirão e ele abasteceu o carro; depois sugeriu que tomássemos um café.
— Ela não disse quanto tempo ia demorar. Isso em geral significa que vai demorar pelo menos duas horas.
— Isso já aconteceu antes?
— A Sra. G faz o que quer.
Ele comprou um café em uma lanchonete quase vazia, onde o cardápio laminado trazia fotos mal-iluminadas de cada prato, e ficamos sentados quase em silêncio, cada um monitorando o próprio celular à espera de um chamado dela, enquanto assistia ao entardecer de Williamsburg se tornar aos poucos uma noite iluminada por neon. Eu havia me mudado para a cidade mais emocionante do planeta; mas, alguns dias, sentia que minha vida tinha encolhido: da limusine para o apartamento; do apartamento de volta para a limusine.
— Você trabalha para os Gopnik há muito tempo?
Garry lentamente misturou dois pacotinhos de açúcar no café, apertando as embalagens com o punho gordo.
— Um ano e meio.
— Para quem você trabalhava antes?
— Outra pessoa.
Tomei um gole do café, que estava surpreendentemente bom.
— Você não se importa?
Ele me olhou por debaixo das sobrancelhas grossas.
— De passar o tempo assim? — esclareci. — Quer dizer... ela faz muito isso?
Ele continuou mexendo o café e voltou o olhar para a xícara.
— Garota — disse, depois de um minuto. — Não quero ser grosseiro. Mas dá para perceber que você não está há muito tempo nesse tipo de trabalho, e você vai durar muito mais se não fizer perguntas. — Ele se recostou na cadeira, sua barriga volumosa se espalhando devagar. — Sou o motorista. Estou aqui quando precisam de mim. Falo quando falam comigo. Não vejo nada, não ouço nada, esqueço tudo. É por isso que estou neste ramo há trinta e dois anos e foi por isso que mandei dois filhos ingratos para a universidade. Em dois anos e meio, me aposento e me mudo para minha casa de praia na Costa Rica. É assim que se faz.
Ele limpou o nariz com um guardanapo de papel, fazendo a papada vibrar.
— Entendeu?
— Não ver nada, não ouvir nada...
— ... esquecer tudo. Já entendeu. Quer um donut? Fazem uns donuts gostosos aqui. Saem fresquinhos o dia todo.
Ele se levantou e andou pesadamente até o balcão. Quando voltou, não me disse mais nada, apenas assentiu, satisfeito, quando eu falei que, sim, os donuts eram mesmo muito bons.

* * *

Agnes não disse nada quando se juntou a nós de novo. Após alguns minutos, perguntou:
— Leonard ligou? Sem querer desliguei meu telefone.
— Não.
— Ele deve estar no escritório. Vou ligar para ele. — Ela arrumou o cabelo e depois se recostou no assento. — Foi uma aula ótima. Sinto que estou aprendendo muitas coisas. Steven é um artista muito bom — comentou.
Só quando estávamos a meio caminho de casa percebi que ela não tinha trazido nenhum desenho.

16 comentários:

  1. Opaaaaa Opaaaaa senhora Agnes está aprontando

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  2. Eeeeee essa Agnes .... vai dar problema



    By:Eríneas Graças

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  3. Eita lerê aí tem!! 👀🍿

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  4. Nossa Jojo às vezes força a barra! Aquela coisa q o Sam comeu. Desnecessário. Quem atende o celular de outra pessoa igual está Katie fez????

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  5. Tá ficando difícil gostar da Agnes fazendo a putiane. E Sam meu filhooooo abre o olho com essa ruiva !

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  6. Genteeeee, pelo amor de deus, consegui sentir a aflição da Louisa ao imaginar essa Katie com o Sam. Tomara que ele não esteja traindo ela, eu não aguentaria.
    P.S.: Agnes está aprontando kkkkkk

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  7. To preocupada,to incomodada com essa tal de Katie, como assim atender o cel de Sam????? Eu heimmmm!!!! Não gostei

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  8. Super indignada com essa tal de Katie.
    E OMG! Agnes safada��


    P.S:Brenda Cândido

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  9. Super indignada com essa tal de Katie. E OMG! Agnes safada

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