20 de fevereiro de 2018

Capítulo 10

Saí da gruta e olhei para a paisagem. A beleza das árvores revestidas de mantos brancos brilhantes e de um mundo tão silencioso e sagrado quanto uma Sacrista veio até mim... exceto por um gentil sussurrar sem palavras que ondulava por entra os topos das árvores. Shhhhh.
Os últimos dias haviam finalmente me propiciado um tempo para passar com Rafe, tempo pelo qual eu tinha rezado quando estávamos presos no outro lado do rio. É claro que, com uma escolta de quatro homens, nós nunca estávamos realmente sozinhos, então nossas afeições foram restringidas, mas pelo menos tínhamos tempo para cavalgar ao lado um do outro.
Nós conversamos sobre as nossas infâncias e sobre os nossos papéis na corte. O papel dele era bem mais cheio de propósitos do que o meu. Citei a ele sobre como eu frustrava minha tia Cloris além da conta, nunca entendendo os padrões dela nas artes femininas.
— E quanto à sua mãe? — ele me perguntou.
Minha mãe. Nem eu mesma estava muito certa de como responder à pergunta dele. Ela sempre tinha sido um enigma para mim.
— Ela dava de ombros para as expressões de desaprovação da minha tia Cloris — falei para ele. — Ela dizia que era saudável que eu corresse e brincasse com os meus irmãos. Ela encorajava isso.
No entanto, de repente, alguma coisa havia mudado. Antes ela ficava do meu lado contra o Erudito Real, mas depois começou a aceitar os conselhos dele; antes ela nunca fora grosseira comigo, mas então começou a perder o controle. Apenas faça o que estou falando, Arabella! E então, quase como pedindo desculpas, ela me puxava para os seus braços e sussurrava, com lágrimas nos olhos: Por favor. Faça como estou falando. Depois do meu primeiro ciclo menstrual, eu tinha ido correndo até a câmara dela para perguntar a ela sobre o dom, que não tinha aparecido ainda. Ela estava sentada perto da lareira com suas coisas de costura. Um lampejo de raiva havia passado pelos olhos da minha mãe, então ela errou um ponto, e sua agulha arrancou uma gota de sangue do seu polegar, maculando a peça em que ela vinha trabalhando havia semanas. Ela se levantou e jogou a coisa toda no fogo. O dom virá quando tiver que vir, Arabella. Não tenha tanta pressa assim. Depois disso, eu trouxe à tona o assunto do dom apenas com cautela. Eu e sentia envergonhada, pensando que ela tivera uma visão das minhas deficiências. Não havia passado pela minha cabeça que ela fosse a causa delas.
— Eu acho que, de alguma forma, minha mãe faz parte de tudo isso, mas não sei ao certo como.
— Parte do quê?
Além do kavah no meu ombro, eu não sabia o que dizer.
— Ela queria me mandar para Dalbreck.
— Somente depois que o meu pai fez a proposta. Lembre-se de que foi ideia dele.
— Ela concordou com isso com muita facilidade — falei. — Minha assinatura nos contratos nem estava seca e ela já tinha começado a chamar as costureiras.
Um lampejo de surpresa de repente iluminou o rosto dele, e ele até deu risada.
— Esqueci de contar a você. Eu achei o seu vestido de casamento.
Parei o cavalo.
— Você o quê?
— Eu o peguei dos arbustos quando estava rastreando você. O vestido estava rasgado e sujo, mas não ocupava muito espaço, então eu o enfiei na minha bolsa.
— Meu vestido? — falei, desacreditando. — Você ainda está com ele?
— Não, aqui não. Era arriscado demais carregá-lo por Terravin. Eu tive medo de que alguém fosse vê-lo, então, quando surgiu a oportunidade, eu o enfiei atrás de uma manjedoura que estava guardada no celeiro. Provavelmente Enzo já o encontrou a essa altura e o jogou fora.
Berdi talvez, mas não Enzo. Ele nunca arrumava as coisas mais do que o mínimo que tinha que fazer.
— Por quê, em nome dos deuses, você manteria o vestido com você? — perguntei a Rafe.
Um sorriso brincou atrás dos olhos dele.
— Eu não sei realmente ao certo. Talvez quisesse ter alguma coisa para queimar, para o caso de eu nunca conseguir chegar até você. — Uma sobrancelha foi erguida em desaprovação. — Ou talvez eu quisesse ter algo com que estrangular você, se eu a encontrasse.
Suprimi um largo sorriso.
— Ou talvez o vestido me levasse a imaginar como seria a moça que o havia trajado — disse ele. — Aquela que fora valente o bastante para meter o nariz entre dois reinos.
Ri.
— Valente? Receio que ninguém no meu reino fosse ver as coisas dessa maneira; aliás, nem no seu, provavelmente.
— Então todos estão errados. Você foi valente, Lia. Acredite em mim. — Ele começou a se inclinar para me beijar, mas foi interrompido pelo relinchado de cavalo de Jeb não muito atrás de nós.
— Receio que estejamos atrasando todo mundo — falei.
Ele fechou a cara, mexendo nas suas rédeas, desajeitado, e seguimos em frente.
Valente o bastante para meter o nariz entre dois reinos. Acho que essa era a forma como meus irmãos viam isso também, mas com certeza não os meus pais... nem o gabinete.
— Rafe, você já se perguntou por que tinha que ser eu a ir para Dalbreck para garantir a aliança? Isso não poderia ter sido obtido também com a sua ida a Morrighan? Por que sempre é a moça que precisa desistir de tudo? Minha mãe teve que deixar sua terra natal. Greta teve que deixar dela. A princesa Hazelle da Eilândia foi enviada a Candora de forma a criar uma aliança. Por que um homem não pode adotar a terra natal da esposa?
— Eu não poderia por que serei regente de Dalbreck um dia. Não posso fazer isso estando no seu reino.
— Você não é rei ainda. Seus deveres como um príncipe eram mais importantes do que os meus como princesa?
— Também sou soldado do exército de Dalbreck.
Eu me lembrei da minha mãe falando que eu era um soldado no exército do meu pai, um ângulo do dever que ela nunca havia usado antes.
— Assim como eu sou um soldado no exército de Morrighan — falei.
— É mesmo? — disse ele, com um tom duvidoso. — Você pode ter tido que deixar a sua terra natal, mas já considerou tudo que teria ganhado como minha rainha?
— Você considerou tudo que poderia ter ganhado como meu rei?
— Você estava planejando depor os seus irmãos...?
Soltei um suspiro.
— Não Walther teria sido um belo rei. — Ele me perguntou sobre o meu irmão e consegui falar dele sem lágrimas nos olhos pela primeira vez, lembrando-me de sua bondade, de sua paciência e de todas as formas como ele me encoraja. — Foi Walther que me ensinou a lançar uma faca. Um dos últimos pedidos que ele fez a mim foi para que eu continuasse praticando.
— Foi com a mesma faca que usou para matar o Komizar?
— Sim. Adequado, não acha? E depois que o esfaqueei, eu a usei para matar Jorik. Foi onde a deixei, presa no meio do pescoço dele. Provavelmente ela está a venda na jehendra a essa altura. Ou Malich a está usando na lateral do corpo como uma lembrança da sua afeição eterna por mim.
— Você tem tanta certeza assim que Malich é o próximo Komizar?
Dei de ombros. Não, eu não tinha certeza disso, mas, dos Rahtans, ele parecia o mais cruel e sedento por poder... pelo menos aqueles que ainda estavam vivos. A preocupação cava um túnel pela minha pessoa. Como será que haviam se saído as pessoas que estavam na praça e o que elas pensaram quando eu desapareci? Uma parte de mim ainda estava lá.
— Fale-me mais sobre seu reino — pedi, tentando banir os piores pensamentos da minha cabeça. — Não vamos desperdiçar mais nenhuma palavra falando de vermes como Malich.
Rafe parou o cavalo mais uma vez, então desferiu um olhar feio e carregado de aviso, mesmo que de relance e por cima do ombro para, para que os outros mantivessem distância de nós. O peito dele se ergueu enquanto dava uma respirada profunda, e sua pausa fez com que eu me sentasse mais alta na cela.
— O que foi? — perguntei.
— Quando vocês estavam viajando, cruzando o Cam Lanteux... ele... machucou você?
Ali estava a pergunta. Finalmente.
Eu ficara pensando em quando essa pergunta seria feita. Rafe nunca tinha me questionado, uma única vez que fosse, sobre aquele meses em que fiquei sozinha em terras inóspitas com os meus captores... O que acontecera, como eu conseguira sobreviver, o que eles tinham feito... e ele evitava toda e qualquer menção a Kaden. Era como se um fogo ardesse tão brilhante dentro de Rafe que ele não poderia se permitir chegar perto demais.
— A que ele você está se referindo?
A compenetração no olhar dele não estava lá por um instante.
— Malich — foi a resposta. — É dele que estamos falando.
Não, não apenas Malich. Kaden sempre estava a ponto de ferver por baixo da superfície. Isso tinha mais a ver com Kaden do que com qualquer outra pessoa que fosse.
— O tempo em que cruzei o Cam Lanteux foi difícil, Rafe. Na maior parte do tempo eu estava com fome. Eu sentia medo o tempo todo. Mas ninguém pôs a mão em mim. Não do jeito que está pensando. Você poderia ter me feito essa pergunta há muito tempo.
O maxilar dele estremeceu.
— Eu estava esperando que você trouxesse o assunto à tona. Eu não tinha certeza se seria doloroso demais para você falar disso. Tudo que eu queria era que você sobrevivesse para que pudéssemos ficar juntos de novo.
Abri um largo sorriso e chutei a bota dele com a minha.
— E nós estamos juntos.

* * *

À noite, quando conseguimos encontrar um abrigo que provesse um pouco que fosse de conforto, eu lia em voz alta o texto dos Últimos Testemunhos de Gaudrel. Todos eles me ouviam, fascinados.
— Parece que Gaudrel era nômade — disse Rafe.
— Mas sem nenhuma carroça colorida — acrescentou Jeb.
— E nenhum daqueles saborosos bolos de sálvia — ponderou Orrin.
— Isso foi logo depois da devastação — falei a eles. — Ela e os outros eram sobreviventes, simplesmente tentando encontrar caminhos. Eu acho que Gaudrel pode ter sido tanto uma testemunha deles quanto um dos Antigos originais.
— Isso não é muito parecido com a história de Dalbreck — respondeu Sven.
Percebi o quão grandemente ignorante eu era acerca da história de Dalbreck. Por ser um reino que havia nascido de Morrighan muitos séculos depois que nosso reino estava estabelecido, eu havia presumido que a visão de história deles era a mesma que a nossa. Não era. Embora eles reconhecessem que Breck fora um príncipe exilado de Morrighan, os relatos deles da devastação e do que vieram em seguida eram diferentes, e, ao que parecia, mesclavam se com as histórias das tribos nômades que deram ao príncipe fugitivo passagem segura para as plataformas acima das terras montanhosas do sul.
Parecia que eu havia tropeçado em mais uma história que entrava em conflito com os Textos Sagrados de Morrighan. O relato de Dalbreck, pelo menos conforme Sven o contara, tinha um número preciso para os Remanescentes: exatamente mil sobreviventes escolhidos. Eles se espalharam pelos quatro cantos da terra, porém os mais fortes e os corajosos dirigiram-se para o sul, para o lugar que um dia se tornaria Dalbreck. Breck uniu-se a eles e firmou a primeira pedra de um reino que haveria de se tornar maior do que todos os outros. Desse ponto em diante, a história toda era sobre heróis, batalhas, e do poder crescente de um de um novo reino favorecido pelos deuses.
As únicas coisas que todas as histórias tinham realmente em comum eram um Remanescente como sobrevivente e uma tempestade. Uma tempestade de proporções épicas que avassalaram completamente o mundo.
— Eu havia avisado Venda para não sair vagando para muito longe da tribo — li no Testemunho de Gaudrel.  — Centenas de vezes eu a avisara disso. Ela viera anos depois da tempestade. Ela nunca sentira o chão tremer. Nunca vira o sol ficar vermelho. Nunca vira o céu ficar preto. Nunca vira o fogo irromper no horizonte e queimar o ar.
Eu li mais umas poucas passagens, e então parei com a leitura por aquela noite, mas as descrições da tempestade permaneciam na minha mente, e eu repassava o relato de Gaudrel em silêncio na cabeça. Onde estava a verdade? O chão tremia e o fogo irrompia no horizonte. Era uma verdade que Gaudrel de fato havia testemunhado.
E foi o que eu tinha visto também.
Quando o Komizar me mostrou a sua cidade-exército, o fogo irrompia à frente quando os Brezalots explodiram, o chão tremia, e os campos de testes maculavam o céu com uma fumaça de cobre, sufocando o horizonte.
Sete estrelas. Talvez toda aquela destruição não tivesse vindo dos céus.
Talvez até mesmo naquela época, houvesse um Dragão de muitas faces.

4 comentários:

  1. Hmm nossa parece os cavaleiros do apocalipse ._.

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  2. parece mais uma previsão do que vai acontecer, do que do passado

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    1. Não isso é interessante! Um adágio diz assim: um povo que desconhece sua história tende a repetir os erros do passado.
      Parece que o acontecido aos antigos está para se repetir agora em Morrighan e Dalbrechk

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Boa leitura, E SEM SPOILER!