16 de fevereiro de 2018

Capítulo 10

O quarto de Kaden ficava no fim de um longo e escuro corredor. Tinha uma pequena porta com amplas dobradiças cobertas de ferrugem e uma tranca cuja forma era da boca de um urso, porta esta que não cedeu quando ele tentou empurrá-la e abri-la, como se a madeira estivesse inflada com a umidade, de modo que ele colocou o ombro na porta, que cedeu e abriu-se com tudo, batendo na parede. Ele estirou a mão para que eu entrasse primeiro. Entrei no quarto mal vendo os arredores, apenas ouvindo o pesado e oco som da porta que se fechava atrás de nós. Ouvi Kaden dar um passo mais perto de mim e senti o calor de seu corpo próximo ao meu, atrás de mim. O gosto de sua boca ainda estava fresco em meus lábios.
— É isso — ele disse simplesmente, e eu estava grata pela distração. Olhei ao redor, por fim absorvendo a extensão do quarto.
— É maior do que eu esperava — eu disse.
— Um quarto na torre — respondeu ele, como se isso explicasse o fato de ser maior do que o esperado.
No entanto o quarto era grande, e a parede externa, curvada, então talvez essa fosse mesmo a explicação. Andei mais para dentro, pisando em um tapete preto de pele, com meus pés descalços finalmente sentindo um pouco de alívio do chão frio. Mexi os dedos do pé bem fundo na lã macia e então meus olhos pousaram em uma cama. Uma cama muito pequena empurrada contra a parede. Notei que tudo, na verdade, estava apoiado na parede em uma sucessão banal e metódica, da forma como um soldado que só se preocupava com praticidade poderia arrumar. Ao lado da cama havia uma arca de madeira com uma pilha de cobertores dobrados, um grande baú, uma lareira fria, um recipiente vazio de combustível, uma arca e uma tina para banho, seguido de uma fileira de paramentos apoiados lado a lado na parede: uma vassoura, espadas de madeira usadas para prática de esgrima, três varas de ferro, um castiçal alto e as mesmas botas detonadas que ele havia usado para cruzar o Cam Lateux, ainda com crosta de lama. Acima, pendurado no teto, havia um candelabro de madeira rudimentar, e o óleo que estava em suas lanternas estava tão velho que sua cor era de um intenso marrom-amarelado. Porém, eu vi detalhes ali que não se enquadravam com os aposentos de um soldado, em sua pequenez, de repente, era maior que o quarto em si.
Havia vários livros empilhados em cima de sua cama. Mais provas de que ele havia mentido em relação a não ler. Porém, eram as quinquilharias que me deixavam um nó na garganta. Do outro lado do quarto, pedaços de vidro colorido azul e verde pendurados em couro trançado pendiam de uma viga. Enfiada no canto havia uma cadeira, e, na frente dela, um tapete espesso, tecido com trapos coloridos e lã embaraçada. Os dons do mundo. Eles vêm em formas e forças. O tapete de Dihara. E então, em um cesto raso no chão, havia fitas, pelo menos uma dúzia delas, de todas as cores, pintada com sóis, estrelas e luas crescentes. Aproximei-me e ergui uma, deixando que a seda púrpura fizesse uma trilha pela palma da minha mão. Pisquei para conter o ardor em meus olhos.
— Eles sempre me mandavam ir embora com alguma coisa quando eu partia — explicou-me Kaden.
Mas não desta última vez. Apenas uma praga de doce e gentil Natiya, na esperança de que meu cavalo fosse chutar pedras nos dentes dele. Ele nunca seria bem-vindo de volta àquele acampamento de nômades novamente.
Fui varrida pelo temor. Algo se agigantava, até mesmo para os nômades. Eu tinha visto nos olhos de Dihara e senti no tremor de sua mão em minha bochecha quando ela se despediu de mim. Vire seu ouvido para o vento. Permaneça forte. Será que ela ouviu algo ser sussurrado pelo vale? Eu sentia isso agora, alguma coisa rastejando pelos pisos e paredes, subindo pelas pilastras. Um final. Ou talvez estivesse sentindo a aproximação da minha própria mortalidade.
Ouvi os passos de Kaden atrás de mim e depois senti as mãos dele na minha cintura, mãos que a circundaram, puxando-me para junto dele.
Inspirei incisivamente.
Os lábios dele roçaram meu ombro.
— Lia, finalmente nós podemos...
Cerrei os olhos. Eu não conseguia fazer isso. Dei um passo, afastando-me dele, e girei para ficar cara a cara com ele.
Kaden estava sorrindo. Suas sobrancelhas estavam erguidas. Um sorriso largo, pleno e indulgente. Ele sabia.
Fui golpeada pela culpa e pela raiva ao mesmo tempo. Girei e caminhei até o baú, abrindo-o com tudo. A coisa mais próxima de uma camisola que consegui encontrar ali foi uma de suas camisetas gigantescas. Apanhei-a e me virei.
— E eu vou ficar com a cama! — Joguei um dos cobertores dobrados para ele.
Ele pegou-o, rindo.
— Não fique com raiva de mim, Lia. Lembre-se de que eu sei a diferença entre um beijo de verdade vindo de você e um dado apenas por causa do Komizar.
Um beijo de verdade. Eu não tinha como negar como havia sido o nosso primeiro beijo.
Ele deixou o cobertor cair sobre o tapete.
— Nosso beijo na campina estabeleceu um alto nível, embora eu admita que eu sempre valorizarei esse beijo forçado também. — Ele ergueu a mão e tocou no canto de sua boca, provocante, como se estivesse saboreando a memória.
Olhei para ele, cujos olhos ainda estavam iluminados com malícia, e alguma coisa foi puxada dentro de mim. Eu vi alguém que, por um momento, esquecia que era o Assassino, aquele que havia me arrastado até aqui.
— Por que você entrou no jogo? — perguntei.
Seu sorriso desapareceu.
— Foi longo dia. Um dia difícil. Eu queria dar um tempo a você. E talvez eu nutrisse esperanças de que não fosse apenas a menos pior de suas opções.
Ele era perceptivo, mas não o bastante.
Ele apontou para o baú.
— Se você escavá-lo um pouco mais ao fundo, vai encontrar algumas meias de lã também.
Escavei até o fundo do baú e encontrei três pares de meias longas  de cor cinza. Ele virou de costas para eu me trocar, e me livrei do vestido dos infernos que era costurado com várias rebarbas. A camisa dele era quente e macia e ia até meus joelhos, e suas meias subiam até acima deles.
— Elas ficam bem melhores em você — disse Kaden quando se virou.
Ele arrastou o tapete de pele para perto da cama e apanhou um outro cobertor do baú, jogando-o em cima do tapete, ao lado do outro. Usei a tina de banho no canto, enquanto ele se preparava para dormir, livrando-se do cinto e das botas e acendendo uma vela. Ele me disse que a porta no canto dava para o closet da câmara. Era um quarto pequeno, longe de ser luxuoso, mas, em comparação com as minhas últimas e poucas noites passadas acampando em meio a centenas de soldados com menos de uma migalha de privacidade, era a perfeição. Ali havia ganchos para toalhas e até mesmo mais um dos tapetes trançados de Dihara, que proporcionavam mais calidez do que o chão descoberto.
Quando saí, ele abaixara o candelabro e apagara as lanternas. O quarto tremeluzia com luz da única vela, e fui para a cama estreita, encarando o teto acima de mim, que dançava com longas sombras. O vento uivava lá fora e socava as persianas de madeira. Puxei a colcha para cima, em torno de meu queixo. O emissário tem uma chance melhor de estar vivo no fim do mês do que você.
Rolei e me curvei, formando uma bolinha. Kaden deitou com as costas apoiadas no tapete e com os braços cruzados atrás da cabeça, olhando para o teto. Seus ombros estavam nus, o cobertor cobrindo apenas metade do seu peito. Eu podia ver as cicatrizes que ele disse que não tinham mais importância, mas sobre as quais se recusava a falar. Movi-me rapidamente para mais perto da borda da cama.
— Conte-me sobre o Sanctum, Kaden. Ajude-me a entender melhor o seu mundo.
— O que quer saber?
— De tudo. Dos governadores, da irmandade, das outras pessoas que vivem aqui.
Ele rolou sobre o tapete para me encarar, levantando-se e apoiando-se sobre um cotovelo. Ele me disse que o Sanctum ficava na parte mais interna da cidade, uma fortaleza protegida e alocada para o Conselho, que regia o Reino de Venda. O Conselho compreendia a Legião de Governadores das catorze províncias de Venda, os dez Rahtans, que eram a guarda de elite do Komizar, os cinco chievdars que supervisionavam o exército, e o próprio Komizar. Trinta, ao todo.
— Você faz parte do grupo dos Rahtans?
Ele assentiu.
— Eu, Griz, Malich, e outros sete.
— E quanto a Eben e Finch?
— Eben está sendo preparado para o posto e haverá de se tornar um Rahtan um dia. Finch é um dos primeiros guardas que ajudam o Rahtan, mas quando ele não está em serviço, vive fora do Sanctum com sua esposa.
— E os outros Rahtans?
— Quatro deles estavam aqui hoje: Jorik, Theron, Darius, e Gurtan. Os outros estão fora, cuidando dos deveres que lhes foram atribuídos. Rahtan significa “nunca falhar”. É disso que somos encarregados, de nunca falharmos em nosso dever, e nunca falhamos.
Exceto por mim. Eu era o seu fracasso, a menos que eu conseguisse provar ser de grande valor para Venda, e isso era algo que seria determinado apenas pelo Komizar.
— Mas será que o Conselho realmente tem algum poder? — perguntei. — Não é o Komizar que, no fim das contas, decide tudo?
Ele rolou para ficar com suas costas no tapete, com as mãos entrelaçando atrás de sua cabeça novamente.
— Pense no gabinete do seu próprio pai. Eles aconselham-no, apresentam-lhe opções, mas não é ele quem tem a palavra final?
Pensei no que ele disse, mas eu não tinha tanta certeza disso. Eu havia escutado sem querer reuniões de gabinete, assuntos tediosos cujas decisões já haviam sido tomadas, membros do gabinete cuspindo números e fatos de forma mecânica. Raramente um discurso terminava em uma pergunta a ser respondida pelo meu pai, e se ele mesmo levanta-se alguma questão, o Vice-regente, o Chanceler, ou algum outro membro do gabinete iria intervir e dizer que eles investigariam o assunto mais a fundo, e a reunião seguiria em frente.
— O Komizar não tem uma esposa? Um herdeiro?
Ele soltou um grunhido.
— Nada de esposa, e, se ele tem algum filho que seja, a criança não carrega o nome dele. Em Venda, o poder é passado adiante através do sangue derramado, e não do herdado.
Aquilo que o Komizar tinha me dito era verdade. Isso era tão estranho para os modos de Morrighan, e para os costumes de todos os outros reinos também.
— Isso não faz sentido! — eu disse. — Você quer dizer que a posição do Komizar está aberta a qualquer um que o mata? O que impede alguém no Conselho de matá-lo e assumir ele mesmo o poder?
— É uma posição perigosa para ser assumida. No minuto em que alguém faz isso, coloca um alvo em suas costas. A menos que os outros o vejam como mais valioso vivo do que morto, a chance de sobrevivência até a sua próxima refeição é pequena. Poucos estão dispostos a correr o risco.
— Parece uma forma brutal de governar.
— E realmente é, mas também quer dizer que, se você escolhe liderar, deve trabalhar muito arduamente para Venda. E o Komizar faz isso. Em Venda, houve banhos de sangue durante anos. É preciso um homem forte para navegar nessas águas e permanecer vivo.
— Como é que ele consegue fazer isso?
— É melhor do que os últimos Komizares. Isso é tudo que importa.
Ele continuou falando, contando-me sobre as diversas províncias. Algumas eram grandes, outras pequenas, cada uma delas com recursos e povos únicos. A liderança era passada adiante da mesma forma, por meio de desafios quando os governadores regentes ficavam fracos ou se tornavam preguiçosos. Ele gostava da maioria dos governadores, desprezava alguns, e outros poucos estavam entre os fracos e preguiçosos que poderiam não durar muito nesse mundo. Os governadores deveriam passar meses alternados em suas províncias e na cidade, embora a maioria preferisse o Sanctum às suas próprias fortalezas e estendesse as suas estadas.
Se esta cidade sombria era preferível aos seus lares, eu podia apenas imaginar o quão deploráveis deveriam ser tais lugares. Questionei-o sobre a estranha arquitetura que eu tinha visto até agora. Ele disse Venda era uma cidade construída em cima das ruínas de uma cidade caída, reutilizando os recursos disponíveis das ruínas.
— Está já foi, certa vez, uma grande cidade. Nós estamos apenas começando a aprender quão grande. Alguns acham que ela continha todo o conhecimento dos Antigos.
Essa era uma declaração um tanto quanto soberba para uma cidade tão destruída.
 — O que o faz pensar assim? — perguntei.
Ele me disse que os Antigos tinham templos grandes e elaborados construídos bem ao fundo no subterrâneo, embora ele não soubesse ao certo se todos eles sempre estiveram na superfície ou se possivelmente foram enterrados pela devastação. Ele disse ainda que, de vez em quando, parte da cidade entrava em colapso, literalmente caindo sobre si mesma, quando ruínas soterradas abaixo dela cediam. Às vezes, isso levava a descobertas. Ele me contou mais sobre as alas do Sanctum e as trilhas que as conectavam. O Saguão do Sanctum, os aposentos da torre, além de outras câmaras de reunião, tudo isso era parte do edifício principal, e a Ala do Conselho ficava conectada por túneis ou passadiços elevados.
— Porém, por maior que o Sanctum possa parecer — disse ele — é apenas uma pequena parte da cidade. O restante espalha-se por quilômetros, e continua crescendo.
Lembrei-me do primeiro vislumbre que tive disso, erguendo-se ao longe como um monstro preto sem olhos. Mesmo então eu senti o sombrio desespero de sua construção, como se não houvesse amanhã.
— Existe alguma outra maneira de entrar na cidade em além da ponte que atravessamos? — perguntei.
Ele fez uma pausa, fitando as vigas acima dele. Ele sabia o que eu realmente queria saber: se havia alguma outra forma de sair dali.
— Não — ele finalmente respondeu calmamente. — Não existe qualquer outra maneira de fazer isso até que o rio se alargue a centenas de quilômetros ao sul de onde estamos, e onde as correntezas se acalmam. No entanto, existem criaturas nessas águas que poucos gostariam de encontrar, mesmo em uma jangada. — Ele se virou e olhou para mim, erguendo-se e apoiando-se em um braço. — Só a ponte, Lia.
Uma ponte que precisaria de, pelo menos, uma centena de homens para ser erguida ou abaixada.
Nossos olhares contemplativos estavam fixos um no outro, e a pergunta que não foi feita – como faço para sair daqui? – pairava entre nós. Por fim, segui em frente, fazendo-lhe mais perguntas sobre a construção da ponte. Ela parecia uma maravilha cuidadosamente forjada, considerando-se a construção disforme do resto da cidade.
Ele disse que a nova ponte foi concluída há dois anos. Antes dela só existia um pequeno e perigoso pontilhão. Os recursos eram limitados em Venda, mas a única coisa que não faltava era pedra, e dentro de rochas havia metais. Eles tinham aprendido maneiras de misturá-los de forma a deixar o metal mais forte e impérvio à névoa constante do rio.
Extrair metais de rochas não era uma tarefa fácil, e fiquei surpresa com o fato que eles pareciam ser bons nisso. Eu tinha notado o estranho brilho nos braceletes que Calantha usava, algo que nunca tinha visto antes, um belo metal preto azulado que reluzia em contraste com seus pulsos pálidos. Os círculos de metais tilintavam pelos braços dela quando ela erguia a bandeja de ossos, como sinos tocando no Sacrista em Terravin. Ouça. Os deuses aproximam-se. Para um povo que ignorava as bênçãos dos deuses, o silêncio que tinha caído quando Calantha falou tinha sido surpreendentemente devoto.
— Kaden — eu sussurrei — quando estávamos no jantar, e Calantha proferiu e fez a bênção, você disse que era um reconhecimento do sacrifício. Quais foram as palavras? Eu entendi um pouco, mas algumas eram novas para mim.
— Você entende mais do que eu pensei que entendesse. Você surpreendeu a todos quando falou esta noite.
— Não deveria ser uma surpresa depois do meu discurso esta manhã.
Ele sorriu.
— Falar as palavras básicas em vendano não é a mesma coisa que dominar o idioma.
— Mas ainda há palavras que são estranhas para mim. Nenhum de vocês disse aquela bênção em uma refeição em todo o caminho através do Cam Lanteux.
— Nós nos acostumamos a viver muitas vidas diferentes. Temos que deixar para trás alguns de nossos modos assim que passamos das fronteiras de Venda.
— Diga-me a oração de Calantha.
Ele sentou-se relaxado e me encarou. O brilho da vela iluminava um lado de seu rosto.
E cristav quiannad unter — disse ele, reverentemente. — Um sacrifício sempre lembrado. Meunter ijotande. Nunca esquecido. Yaveen hal um ziadre. Nós vivemos mais um dia.
 As palavras penetraram em mim. Eu havia interpretado errado o uso dos ossos.
— Os alimentos podem ser escassos em Venda — explicou. — Especialmente no inverno. Os ossos são um símbolo de gratidão e um lembrete de que vivemos somente pelo sacrifício de até mesmo o menor dos animais e por meio do sacrifício combinado de muitos.
Meunter ijotande. Eu me sentia envergonhada com a beleza de cada sílaba do idioma ao qual uma vez me referi como sendo grunhidos bárbaros. Era uma emoção estranha se sentir lado a lado com a amargura do meu cativeiro.
Houve tantas vezes que eu havia olhado para Kaden lá em Terravin e me perguntado que tormenta estaria passando pelos olhos dele. Ao menos agora eu sabia o que era parte daquela tormenta.
— Sinto muito — eu sussurrei.
— Pelo quê?
— Por não entender.
— Até que você estivesse morando aqui, como poderia? Venda é um mundo diferente.
— Havia mais uma palavra. Todos a disseram juntos no final. Paviamma.
Sua expressão ficou alterada, seus olhos buscando os meus e a calidez iluminando-os.
 — Isso quer dizer... — Ele balançou a cabeça em negativa. — Não há nenhuma tradução direta em morriguês para paviamma. É uma palavra de ternura e tem muitos significados, dependendo de como ela é usada. Até mesmo o tom em que é dito pode mudar o seu significado. Pavia, paviamas, paviamad, paviamande. Amizade, gratidão, cuidado, misericórdia, perdão, amor.
— É uma bela palavra — eu sussurrei.
— Sim — ele concordou. Fiquei observando o peito de Kaden subir em uma respiração profunda. Ele hesitou, como se quisesse dizer mais alguma coisa, mas, em seguida, ele deitou-se e voltou a olhar para as vigas. — Nós deveríamos dormir um pouco. O Komizar espera nos ver cedo pela manhã. Há algo mais que você queria saber?
O Komizar espera. A calidez que havia enchido o quarto foi varrida com uma única frase, e eu puxei a colcha mais para junto de mim.
— Não — respondi baixinho.
Ele estendeu a mão e apagou a vela com os dedos.
No entanto, ainda havia uma pergunta que me apunhalava e que eu tinha medo de fazer. Será que o Komizar realmente enviaria Rafe para casa pedacinho por pedacinho? Lá no fundo, eu sabia a resposta. Vendanos haviam executado uma companhia inteira de homens, meu próprio irmão entre eles, um massacre, e o Komizar os havia elogiado por isso. Você se saiu bem, chievdar. O que era mais um emissário para ele? Tudo o que eu poderia fazer era me certificar de que ele não percebesse que Rafe era algo valioso a ser tirado de mim.
Virei-me em direção a parede, não conseguindo dormir, ouvindo a respiração de Kaden e escutando-o virar-se, inquieto. Fiquei pensando no arrependimento dele com as escolhas que tinha feito e todas as gargantas que ele não se conteve em cortar. O quão mais fácil sua vida seria agora se ele tivesse cortado a minha garganta como lhe fora ordenado a fazer. O vento aumentou, assoviando através de fissuras, e eu me aninhei mais profundo debaixo das cobertas, me perguntando sobre meus próprios arrependimentos vindouros, pelas coisas que eu ainda haveria de fazer.
O quarto fechado, escuro e preto e longe de tudo que eu já tinha conhecido. Eu me sentia como uma criança de novo, desejando poder me aconchegar nos braços de minha mãe em uma noite de tempestade e que ela pudesse com sussurros afastar meus medos. O vento socava as persianas, fazendo com que batessem, vento implacável, e  senti alguma coisa úmida escorrendo pela lateral do meu rosto. Ergui a mão e limpei a umidade salgada.
Que estranho.
Muito estranho.
Como acreditar que algumas coisas duram para sempre.
Uma lágrima.
Como se isso pudesse fazer a diferença.

4 comentários:

  1. Tô com pena do Kaden, ele realmente gosta dela e tá fazendo tanto para manter ela viva. Eu espero que ele encontre alguém que realmente ame ele.

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  2. Sinceramente, queria que a Lia ficasse com os dois, sei lá, gosto mt deles...

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  3. Tô tentando muito odiar o Kaden.....
    Mais eu não consigo kkkk

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Comentários de volta!
Passamos algumas horas sem essa opção, mas estamos à ativa novamente :)

Boa leitura! E SEM SPOILER!