2 de fevereiro de 2018

Capítulo 10

No fim da tarde, quando Pauline tinha voltado à nossa cabana, e Enzo e Gwyneth haviam partido pela escuridão, eu, cansada, raspava a última caldeira vazia de cozido, no fundo da qual alguns restos estavam teimosamente grudados.
Senti como se estivesse de volta à cidadela e tivesse sido mandada para os meus aposentos mais uma vez. Lembranças das proibições que sofri mais recentemente zombavam de mim, e pisquei para refrear as lágrimas. Eu não vou dizer isso de novo, Arabella, mas você tem que aprender a controlar sua língua!meu pai rugira, com o rosto vermelho, e, na ocasião, eu me perguntei se me bateria, mas ele apenas saiu tempestuosamente do meu quarto. Estávamos em um jantar da corte, com a presença de todo o gabinete real. O Chanceler estava sentado do outro lado da mesa, na minha frente, usando seu casaco ornamentado em prata, as juntas de seus dedos tão cheias de joias que eu me perguntava se ele não estava tendo alguma dificuldade para erguer o garfo. Quando a conversa se voltou para o assunto de cortes no orçamento e piadas de bêbados daquelas que faziam os soldados caírem de seus cavalos, eu entrei na conversa e disse que se o gabinete juntasse suas joias e quinquilharias, talvez os cofres do tesouro tivessem excedentes. É claro que olhei para o Chanceler e ergui meu copo a ele para certificar-me de que meu ponto não ficasse perdido nas mentes cheias de cerveja deles. Era uma verdade que meu pai não queria ouvir — não vinda de mim, pelo menos.
Ouvi um farfalhar, ergui o olhar de relance e me deparei com uma Berdi muito cansada arrastando os pés para dentro da cozinha. Redobrei meus esforços com a caldeira. Ela veio na minha direção e ficou parada, em pé e em silêncio, ao meu lado. Esperei que Berdi me repreendesse novamente, mas, em vez disso, ela ergueu meu queixo de modo que eu tivesse que olhar para ela e disse baixinho que eu tinha todo o direito de disciplinar o soldado de forma dura, e que ela estava feliz por eu ter feito aquilo.
— Porém, palavras duras vindas de uma jovem mulher como você, em oposição àquelas vindas de uma velha como eu, provavelmente farão com que seus egos ardam em chamas, em vez de domá-los. Você precisa tomar cuidado. Fiquei tão preocupada por você quanto fiquei por mim. Isso não quer dizer que as palavras não tivessem que ser ditas, e você as disse bem. Eu peço desculpas.
Minha garganta ficou apertada. Todas as vezes em que eu tinha falado o que pensava a meus pais, eles nunca me disseram que eu expressara algo bem, e menos ainda pediram alguma ponta que fosse de um pedido de desculpas.
Pisquei, desejando ter uma cebola para explicar o ardor em meus olhos. Berdi me puxou para seus braços e me abraçou, dando-me uma oportunidade de recompor-me.
— O dia foi bem longo — sussurrou ela. — Vá. Descanse. Eu termino as coisas por aqui.
Assenti, ainda não confiando ser capaz de falar alguma coisa.
Fechei a porta da cozinha depois de sair e subi os degraus entalhados na encosta da colina atrás da taverna. A noite ainda estava silenciosa, e a lua aparecia e desaparecia em meio às faixas de névoa que deslizavam para cima, vindas da baía. Apesar do frio, eu estava aquecida pelas palavras de Berdi.
Quando cheguei ao último degrau, puxei o gorro da minha cabeça, deixando meus cabelos caírem sobre os ombros, sentindo-me plena e satisfeita enquanto, mais uma vez, ponderava sobre o que ela havia me dito. Eu me dirigi trilha abaixo, com o fraco brilho dourado da janela da cabana servindo como farol. Provavelmente Pauline já estava em um sono profundo, banhando-se em sonhos com Mikael e sendo abraçada com tanta força que nunca mais teria que se preocupar com ele a deixando novamente.
Soltei um suspiro enquanto descia a trilha escura. Meus sonhos do tipo sem graça e chatos, isso se eu sequer me lembrasse deles, certeza, nunca foram do tipo em que eu era abraçada. Esse tipo de sonho, eu tinha que trazer à vida quando estava acordada. Uma brisa agitou as folhas à minha frente, e esfreguei meus braços para aquecê-los.
— Lia.
Dei um pulo e inspirei com força.
— Shh. Sou eu. — Kaden saiu da sombra de um grande carvalho. — Não queria assustá-la.
Fiquei paralisada.
— O que você está fazendo aqui?
— Estava esperando por você.
Ele veio andando para mais perto de mim. Ele podia ter sido inofensivo o bastante na taverna, mas o que queria tratar comigo ali fora no escuro? Minha fina adaga ainda estava enfiada debaixo do meu colete. Abracei as laterais do meu corpo, sentindo a lâmina debaixo do tecido, e dei um passo para trás.
Kaden notou meu movimento e parou.
— Eu só queria me certificar de que você chegaria em casa em segurança — disse ele. — Conheço soldados como aquele que você humilhou na taverna. Eles têm memórias que guardam as coisas por um bom tempo, assim como têm grandes egos também. — O rapaz abriu um sorriso, hesitante. — E acho que eu queria dizer que admiro o que você fez. Não demonstrei antes o quanto apreciei aquilo. — Depois de uma pausa, e quando eu ainda assim não lhe respondi, ele acrescentou: — Posso acompanhá-la pelo restante do caminho? — Ele me ofereceu o braço, mas não o aceitei.
— Você ficou esperando esse tempo todo? Achei que já estivesse na estrada a essa altura.
— Estou hospedado aqui. Não havia nenhum quarto disponível, mas a dona da taverna e da estalagem graciosamente me ofereceu o celeiro. Um colchão macio é uma melhoria bem-vinda, depois de um saco de dormir empoeirado. — Ele deu de ombros e acrescentou: — Até mesmo se eu tiver que ouvir um ou dois asnos reclamando.
Então ele era um hóspede da estalagem, e um dos respeitosos. Além disso, era um freguês pagante que, por direito, deveria ficar na nossa cabana, que tinha uma goteira, sim, mas que era aconchegante. Relaxei os braços nas laterais do corpo.
— E o seu amigo?
— Meu amigo? — Ele inclinou a cabeça para o lado, que nem um garotinho, o que tirou instantaneamente anos de sua cuidadosa linguagem corporal. Com os dedos, ele afastou um cacho de cabelos loiros para trás. — Ah, ele. Ele vai ficar aqui também.
Aquele rapaz não era um mercador de pele de animais, disso eu tinha certeza. Separar animais de suas peles não era a especialidade dele. Seus movimentos eram silenciosos e deliberados como poderia ser próprio e adequado a um caçador, mas seus olhos... seus olhos! Eles eram cálidos e nebulosos, e uma turbulência agitava-se logo abaixo da superfície enganadoramente calma. Olhos estes que estavam acostumados a um tipo diferente de vida, embora eu não conseguisse imaginar qual poderia ser.
— O que o traz a Terravin? — perguntei a ele.
Antes que eu pudesse ter alguma reação, ele esticou a mão e a segurou na minha.
— Permita-me acompanhá-la até sua cabana — disse ele. — E contarei a você tudo sobre...
— Kaden?
Puxei minha mão para longe da dele, e nos viramos na direção da voz que o chamava na escuridão. A escura silhueta de Rafe, apenas a uma curta distância na trilha abaixo, era inconfundível. Ele tinha chegado até nós sem indicar que estava se aproximando, seus movimentos tão sorrateiros quanto os de um gato.
Eu pude ver as feições dele enquanto se aproximava vagarosamente de nós.
— O que foi? — perguntou Kaden, cujo tom estava cheio de irritação.
— Aquela sua égua arisca está dando coices na baia dela no estábulo. Antes que ela cause mais danos, você...
— Égua não, garanhão — Kaden corrigiu-o. — Ele estava bem quando eu o deixei.
Rafe deu de ombros.
— Ele não está bem agora. Imagino que tenha ficado nervoso com as novas acomodações.
Ah, ele era cheio de si.
Kaden balançou a cabeça e saiu, indignado, pelo que fiquei grata. Berdi não ficaria feliz com uma baia destruída no estábulo, isso sem falar que passei a pensar, com preocupação, em como os meus dóceis Otto, Nove e Dieci poderiam lidar com um vizinho tão destrutivo. Passei a gostar muito deles, que estavam ao lado de fora, em uma construção coberta adjacente ao estábulo, mas apenas uma fina parede de madeira os separava dos animais alojados no celeiro. Em segundos, Kaden se foi, e eu e Rafe ficamos desconfortavelmente sozinhos, com uma leve brisa agitando as folhas caídas entre nós. Empurrei os cabelos da frente do meu rosto e notei a mudança na aparência dele, cujos cabelos estavam bem penteados e presos para trás, e seu rosto recém-lavado reluzia sob a fraca luz do luar. Suas maçãs do rosto eram pungentes e bronzeadas, e ele estava com uma camisa trocada há pouco tempo. Parecia perfeitamente contente em me fitar em silêncio — um hábito dele, suponho.
— Você mesmo não poderia ter acalmado o cavalo? — perguntei, por fim.
Um sorriso afetado ergueu o canto de sua boca, mas ele respondeu à minha pergunta com outra pergunta.
— O que Kaden queria?
— Ele só queria se certificar de que eu chegaria à minha cabana em segurança. Ele ficou preocupado com o soldado da taverna.
— Ele está certo. O bosque pode ser perigoso... especialmente quando se está sozinha.
Será que Rafe estava tentando me intimidar deliberadamente?
— É raro que eu fique sozinha. E não estamos exatamente embrenhados no bosque. Há muitas pessoas por aqui que podem nos ouvir.
— É mesmo? — O rapaz olhou ao redor como se estivesse tentando ver as pessoas de quem eu estava falando, e então seus olhos assentaram-se em mim de novo. Um nó se contorcia nas minhas costelas. Ele deu um passo na minha direção. — É claro que você tem aquela pequena faca enfiada debaixo do colete.
Minha adaga? Como ele sabe disso? Ela estava embainhada bem justinha na lateral do meu corpo. Será que eu a tinha revelado ao tocá-la, distraída?
Notei que Rafe era uma cabeça mais alto do que eu. Ergui o queixo.
— Não é tão pequena assim — falei. — Tem uma lâmina de quinze centímetros. Longa o bastante para matar alguém se for usada com destreza.
— E quanta destreza você tem com ela?
Apenas com alguma coisa que não se mexa, como uma porta... a porta do meu quarto.
— Muita — respondi.
Ele não me respondeu, como se tanto a minha lâmina quanto minhas professadas habilidades não o impressionassem.
— Bem, boa noite, então — disse e virei-me para ir embora.
— Lia, espere.
Parei, ainda de costas para ele. O bom senso me dizia para continuar andando. Vá, Lia. Siga em frente. Eu ouvi uma vida inteira de avisos. Da minha mãe. Do meu pai. Dos meus irmãos. Até mesmo do Erudito. Todo mundo que havia me restringido antes e de forma indireta, fosse para o bem ou para o mal. Continue andando.
Mas não fiz isso. Talvez fosse a voz dele. Talvez fosse por ouvi-lo dizer meu nome. Ou talvez eu estivesse me sentindo plena por saber que, às vezes, eu estava certa, que, às vezes, minha intuição impulsiva poderia me conduzir ao perigo, mas que essa era a direção certa a seguir. Talvez fosse a sensação de que o impossível estava prestes a acontecer. Temor e expectativa enrolavam-se um no outro.
Virei-me e me deparei com seu olhar contemplativo, sentindo o perigo daqueles olhos, seu calor, mas não disposta a desviar meu próprio olhar do dele. Esperei que ele falasse. Ele avançou mais um passo para perto de mim, e o espaço entre nós se fechava, agora era pouco mais de um metro. Ele ergueu a mão na minha direção, e recuei um passo, tremendo, mas vi que ele estava segurando o meu gorro.
— Você deixou cair isso.
Ele o estirava, esperando que eu fosse pegá-lo, com pedacinhos de folhas esmagadas, ainda grudados em sua renda fina.
— Obrigada — sussurrei, e estiquei a mão para pegar o gorro, meus dedos roçando nos dele, mas ele o segurava com firmeza. Sua pele ardia, pegando fogo em contato com a frieza da minha. Encarei seus olhos, questionando sua pegada, e, pela primeira vez, vi uma fissura em sua armadura, sua costumeira expressão de aço atenuada por uma ruga entre suas sobrancelhas, um momento de indecisão lavando sua face, e então, um erguer em seu peito, uma respiração mais profunda, como se eu o tivesse flagrado com a guarda baixa.
— Peguei — disse. — Pode soltar.
Ele soltou, desejando-me um apressado boa-noite, e então, de forma abrupta, virou-se e voltou a desaparecer caminho abaixo.
Ele ficou confuso. Eu o deixei desconcertado. Mais do que perceber isso, eu senti essa inquietude palpável na minha pele, fazendo cócegas no meu pescoço. Como? O que eu tinha feito? Não sabia, mas fitava o buraco negro no caminho onde ele desaparecera até que o vento mexeu ruidosamente os galhos acima de mim, lembrando-me de que estava tarde, de que eu estava sozinha, e de que o bosque estava muito escuro.

13 comentários:

  1. Sinto um triângulo amoroso no ar em...

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  2. Kaden é o assassino... acho

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  3. pois é
    eu adoro triângulos amorosos,mas a parte da escolha são sempre tristes,mas são histórias emocionantes

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  4. O loiro é o príncipe e o moreno é o assassino, quase certeza

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  5. É... Até nas pistas mesmo. Isso me lembra a maldição do tigre. Aiai gente

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  6. Rapaz, a autora está nos levando a crer que o Rafe é o assassino e isso só me faz ter certeza de que ele é o príncipe. Seria muito óbvio se o príncipe fosse o loiro, Kaden, tenho quase certeza de que é o moreno. E isso me faz pensar o que ele ia fazer? Confrontá-la? Perguntar por que ela o abandonou no altar? Não sei, mas a estória tá ficando muito interessante.

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  7. P mim n sei de mais nada ... Kkkkk o autor escreveu muito bem a história p n revelar quem é o príncipe e quem é o assassino... Ela pode se apaixonar pelos dois e eles tbm podem se apaixonar por ela da mesma forma q pode n haver paixão nenhuma da parte de nenhum deles... E muito enigmático... E viciante... N tem disso de o kaden e um e Rafe outro o livro vai revelar só no finalzinho tenho certeza... Até pq o príncipe flou q agora ele ia avaliar ela é o assassino quer brincar com ela primeiro antes de mata-la então o certo é os dois se aproximarem dela p descobrir mais sobre ela eles já sabem q ela é a princesa e n tem como confundir com a Pauline pq lia tem cabelos negros e Paulyne tem cabelos mais loiros. Eles já sabiam q ela tem cabelos negros a única informação q eles tinham.

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  8. Eu tenho certeza de que o Rafe é o príncipe, pq quando ele se despediu do seu instrutor, falou que não dirigiria uma palavra a ela. E ele está se comportando como se cada palavra que sai da sua boca ferisse o seu orgulho. Agora o assassino está agindo como se quisesse primeiro ganhar a sua confiança, para que assim ela nunca desconfiasse dele, e no final, acabar facilitando o seu trabalho.

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  9. O Rafe é o assassino e o Kaden é o principe

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  10. O cavalo do Príncipe é uma pista TÃO obvia, eu to rindo

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  11. O loiro é o assassino porque quando eles chegam na taverna ele pede o cozido e no capítulo do assassino ele pergunta pra um menino se a comida é boa e o menino fala do cozido, e o príncipe fala que está com raiva dela acho que por isso ele é o mais... digamos "rude" com ela (desculpa Karina acho que dei spoiler sem querer comentei em um capítulo achando que era outro). Amando 😍😍😍

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Comentários de volta!
Passamos algumas horas sem essa opção, mas estamos à ativa novamente :)

Boa leitura! E SEM SPOILER!