14 de fevereiro de 2018

Capítulo 10. O que eles querem é guerra!

A tensão que pesava no ar dos aposentos presidenciais do hotel transformara J. Edgar Hooper em alguém semelhante ao detetive Andrade: seu terno preto estava amarrotado e a gravata torta. Àquela altura, os relatórios que chegavam às suas mãos abatiam-lhe o ânimo.
— Mister President... Por favor, preciso falar a sós com o senhor.
— A sós? — surpreendeu-se MacDermott que, com o presidente do Brasil ao lado, examinava a imensa tela do monitor, onde eram exibidas as trilhas do rastreamento feito pelos satélites. — Não há nada que você tenha a me dizer que meu amigo Augusto não possa ouvir. Vamos, o que há?
Os olhos de Hooper agitaram-se de um lado para outro como se ele estivesse procurando as palavras certas. De qualquer modo, ele sabia que não havia palavras certas para que ele pudesse dizer o que tinha de ser dito:
— Já são mais de oito horas, senhor. Até agora, Não temos nem um fio de esperança de encontrar miss Peggy. Quanto mais o tempo passa, mais distante fica essa esperança. Minha conclusão é que o helicóptero pode ter conseguido furar o bloqueio dos radares e dos satélites e agora está totalmente fora do nosso alcance.
— Continue, Hooper. Onde você quer chegar?
O diretor da CIA suspirou fundo:
— Não há mais nenhuma pista a seguir, senhor. Se tivéssemos mais tempo, estou certo de que, mais cedo ou mais tarde, acabaríamos encontrando sua filha. Mas essa tarefa é impossível de ser cumprida até a meia-noite de hoje...
— Muito bem, Hooper, vá direto ao ponto. Por que essa conversa?
O homem pigarreou:
— Sinto muito, mas devo aconselhá-lo a fazer o que os sequestradores estão exigindo...
Wilbur MacDermott encarou-o, furioso:
— O que você está me dizendo, Hooper?
— Mister President, desculpe-me, mas este não é o momento para decisões românticas. Trata-se da vida de sua filha e...
MacDermott cortou, ríspido:
— Hooper, deixe que eu me preocupe em saber se minhas decisões são românticas ou não!
— Mas, senhor...
A reação de MacDermott era violenta. Levantou-se e apontou ameaçadoramente o indicador para a cara do outro: “Quem você está pensando que é o seu presidente, Hooper? Não há nada que me faça ceder a esses bandidos. Nada!”
— Nem mesmo a vida de miss Peggy?
— Nem mesmo a vida de minha filha!
— Mas, Mister President, o senhor poderia pelo menos adiar o seu discurso, até que essa crise esteja resolvida!
— E você por acaso conhece o conteúdo do discurso que eu vou fazer?
— Não, senhor, mas eu calculo que deve ser sobre sua política de desarmamento...
— Contra a qual você sempre foi, não é, Hooper?
O diretor da CIA empertigou-se, ofendido:
— Mister President, por favor, não duvide de minha fidelidade. Minhas ideias pessoais não têm nenhuma interferência na minha lealdade para com o meu presidente. Eu...
— Por acaso você é simpático a esses tais “Heróis em Defesa da América para os Americanos”? — cortou MacDermott, forçando a pronúncia da palavra “heróis”.
Hooper ficou pálido. Seus olhos arregalavam-se para o presidente como se o político tivesse xingado sua mãe:
— Eu... Como pode dizer uma coisa dessas, Mister President?
O presidente encerrou, duramente:
— Está bem. Já ouvi o que você tinha a dizer. Agora deixe-me tomar minhas próprias decisões.
— Mas, Mister President...
— Já chega, Hooper!
O diretor da CIA recuou para a porta, andando de costas, sem desviar os olhos de seu superior. Abriu a porta do salão e quase se chocou com o Doutor Pacheco, que entrava com uma pilha de papéis nas mãos.
— Saia da frente, mister Petchico!
MacDermott evitou olhar para o presidente do Brasil envergonhado pela covarde sugestão de Hooper. Voltou-se para a secretária:
— Miss Malloy, por favor, telefone para o celular de Sherman Blake. Não há mais nada que ele possa fazer no colégio. Diga-lhe que eu quero que ele volte para cá.
Sherman Blake fechou seu celular e guardou-o no bolso, depois de receber o telefonema da secretária do presidente. Saiu apressado e logo tinha embarcado num dos carros da embaixada. Ansioso, tentava empurrar com berros o motorista no caminho para o hotel:
— Hurry up, man! Depressa!
Em menos de quinze minutos, o automóvel chegava ao luxuoso hotel, cuja rua estava tomada pelas equipes das redes de televisão e por centenas de curiosos. Desta vez era bem maior o número de manifestantes que portavam faixas e bandeiras e gritavam contra ambos os presidentes. Tudo era uma confusão de porta de estádio em dia de final. E Sherman Blake temia que o final estivesse mesmo se aproximando.
Um policial brasileiro tentou barrar-lhe os passos. Blake mostrou-lhe as credenciais diplomáticas e, empurrando a massa ululante de jornalistas, entrou no amplo saguão do hotel, onde mais uma multidão de repórteres dominava a cena. Um deles o reconheceu:
— Senhor Sherman Blake! Pode nos dar uma entrevista? Blake afastou-o, de mau humor:
— I don’t speak Portuguese!
Calú seguia pelos telhados furtivamente, com uma maciez incapaz de deslocar uma telha sequer. Ele conhecia a planta do Colégio Elite como a palma da mão e, mesmo no escuro, sabia muito bem para onde se dirigia. Vez por outra o trajeto o obrigava a saltos de trapezista, para alcançar telhados separados. Mas a pressa e a ansiedade de reencontrar Magrí e Chumbinho não o faziam perder a concentração.
Se algum dos tiras americanos que enxameavam lá embaixo o descobrisse, tudo estaria perdido. Chegou aos telhados que cobriam as salas das primeiras séries. Dali, passando pelo recreio dos pequenos, faltaria pouco para atingir os vestiários e o esconderijo secreto dos Karas.
“Ah, tomara que nossa hipótese esteja certa! Tenho de encontrar Magrí e Chumbinho. E eles têm de estar bem!”
De repente, seu olhar já acostumado à escuridão divisou algo estranho. Eram duas sombras encolhidas na junção de dois lances de telhado. “Será que são eles? Que danados! Esconderam-se no telhado!”
Abaixou-se silenciosamente e avançou com cautela redobrada. Poucos metros depois, mal iluminado pela claridade difusa vinda debaixo, um casalzinho estava encolhido e abraçado num desvão do telhado. “Ótimo! Como eu pensava, Chumbinho e Magrí estão... Ei, Mas essa não é a Magrí!”
Calú estava paralisado, de boca aberta e olhos arregalado à frente dele, enrodilhada em Chumbinho, estava filha do presidente dos Estados Unidos! Um turbilhão de dúvidas e sentimentos confundia seu coração e cérebro num só órgão. O que fazia ali aquela menina cujo desaparecimento levava o mundo à loucura? Onde Magrí tinha se metido? E por que Chumbinho estava de cuecas? Com a agitação que havia tomado conta do hotel, a pequena sala de contabilidade estava vazia, pois todos os funcionários tinham sido mobilizados para servir à comitiva presidencial americana, agora avolumada pelo aparato policial e militar que as circunstâncias haviam imposto: homens fardados ou em ternos escuros tudo exigiam dos exaustos funcionários.
Um homem de preto entrou na salinha e, sem acender a luz, ligou um computador. Digitou alguma coisa e introduziu um disquete no drive. Em pouco tempo, retirava o disquete, desligava tudo e saía furtivamente, ajeitando a gravata. O Doutor Pacheco debatia aspectos da investigação com os Presidentes Rodrigues Lobo e MacDermott, quando rompido por um longo bip vindo do monitor.
— O que foi isso?
Na tela, um texto berrava, em letras garrafais: Ao mesmo tempo, os dois presidentes e vários policiais, assessores e militares que ocupavam a sala liam a nova comunicação:
— Que canalhas! — exclamou Rodrigues Lobo.
Em seguida, o monitor exibia um novo texto:
Estou bem, papai. Eles não estão me ameaçando. Apenas faça tudo o que eles pedirem e eles vão me soltar. Estou realmente muito bem, não se preocupe comigo. Sinto-me como se estivesse em Nova Yorty, como eu falava quando era pequena. Rápido, papai. Salve-me. Peggy, sua canguruzinha.
MacDermott estava lívido, sem conseguir tirar os olhos do monitor:
— Acho que nós dois subestimamos a oposição, Augusto. O que eles querem é guerra. E vamos ter de lutar!
O presidente brasileiro apoiou a mão no ombro do amigo americano, tentando confortá-lo:
— Vamos ser fortes, Wilbur. Tenho certeza de que toda nação brasileira está do seu lado, neste momento.
MacDermott estava mais decidido do que nunca. Voltou-se para a secretária:
— Miss Malloy! Onde está o texto do meu discurso? Quero repassar os olhos nele.
O Doutor Pacheco perguntava, nervoso:
— Senhor presidente, há algo nessa mensagem que possa provar que ela foi escrita mesmo pela senhorita Peggy? Ela falava errado a palavra “York” quando era pequena?
MacDermott examinava cada palavra da mensagem.
— Hum... Não me lembro, toda criança fala errado não é? Mas os sequestradores nunca poderiam saber que eu às vezes chamo minha filha de “my little kangaroo”. É uma brincadeira, por causa das diabruras que ela faz na cama elástica e nas barras assimétricas. Foi ela mesma quem escreveu este texto sim, Doutor Pacheco. Bom, pelo menos isso quer dizer que minha filha ainda está viva!
Nesse momento, a porta da sala foi aberta e J. Edgar Hooper estava de volta, transtornado com o conteúdo das mensagens que havia lido no monitor da sala dos agentes da CIA.
— Mister President, perdoe-me a interferência de ainda há pouco. A situação é dramática e ficarei a seu lado, quaisquer que sejam suas decisões.
— Está bem, Hooper — concordou MacDermott. — Confio plenamente em sua lealdade.
— Obrigado, Mister President. Eu não o decepcionarei.

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