6 de fevereiro de 2018

Capítulo 1. Telegrama em islandês

Magrí* acordou e espreguiçou-se gostosamente, ainda aconchegadinha sob as cobertas do luxuoso hotel. A perfeita calefação do apartamento amornava o ambiente, deixando lá fora o gelado inverno americano.
Entre os seus braços, aquecido por toda uma noite junto ao calor de seu corpo, estava o seu ursinho de pelúcia. Já era um velho ursinho, tão velho quanto ela, mas a menina sempre dormia com ele. Era um segredo seu. Imaginem se um dos Karas soubesse disso! Uma aluna do primeiro colegial dormindo abraçada a um ursinho, feito um bebê!
Sobre a mesa de cabeceira, o relógio marcava seis horas. Magrí levantou-se, escondeu o ursinho na mala e abriu as cortinas.
Lá embaixo estava Nova Iorque, nublada, cinzenta, gelada, e a menina pensou no calor que já estaria fazendo no Brasil àquela mesma hora.
Sentiu saudades. Do país, da família, do Colégio Elite, de cada um dos Karas.
Os Karas! Os seus Karas! Miguel, Crânio, Calú, Chumbinho e... e ela! Os cinco Karas, aquele grupo secreto de alunos do Colégio Elite que Miguel tinha reunido quase por brincadeira, pelo desejo de aventura, mas que acabara se envolvendo em investigações perigosíssimas, em riscos tremendos...
Magrí sorriu ao pensar que muitos policiais aposentam-se sem jamais se defrontar com algo parecido com os desafios que aqueles cinco adolescentes já haviam enfrentado.
Os cinco Karas! Saudades... Uma saudade diferente de cada um. Uma dessas saudades era especial. Era imensa.


* Chamamos a atenção para a grafia dos nomes Magrí e Calú. Embora gramaticalmente incorreta, a acentuação desses nomes visa evitar pronúncia diferente daquela pretendida pelo autor.

* * *

A funcionária da agência do correio sorriu. Nunca tinha passado um telegrama em “islandês” antes.
Quando o menino que entregara o texto para ser enviado a Nova Iorque ia saindo, a funcionária perguntou:
— Ei, garoto, o que quer dizer “minisgsais”?
Com o olhar mais cândido e inocente possível, o menino encarou a moça com um lindo sorriso:
— Em islandês? Quer dizer... hum... quer dizer “mamãe”... Balançando a cabeça, a balconista releu aquele texto tão estranho:
MINISGSAIS VENTERNPOMBER UFTERSGOMBERLPOMBER. KINISSINISR OMBERM TOMBERSAISGENTER
CHUFTERMBAISLHENTER
“Que língua maluca é esse tal de islandês...”, pensava ela, depois que o menino já tinha ido embora.

* * *

Como um furacão que chega sem avisar, uma mulher alta e magra entrou no apartamento de Magrí, empurrando um carrinho com um farto café da manhã americano que um garçom acabara de trazer.
— Bom dia, bom dia, bom dia, Magrí! O que esses americanos pensam? Que nós viemos do Brasil para fazer regime de engorda? Se você comer a metade do que tem nessa bandeja, é melhor mudar da ginástica olímpica para o sumô!
— Bom dia, dona Iolanda! — cumprimentou Magrí, sorrindo, ainda à janela.
— Que bom que você já está de pé. Vamos, vamos, vamos! Você tem cinco minutos para tomar o seu breakfast. Só as frutas e o leite, hein? Ginástica olímpica é como o balé. Meio quilo a mais e é desastre na certa! Depois uma ducha e vamos direto para o ginásio. Quero que você faça duas horas de aquecimento, antes de ensaiarmos mais uma vez. Lembre-se que a prova final de ginástica de solo vai ser depois de amanhã. Vamos, vamos, vamos, menina!
Magrí suspirou. Sua treinadora e também professora de educação física do Colégio Elite era mesmo um furacão exigente, estafante para os atletas.
— Ainda mais com você, Magrí! — tinha se explicado no avião a professora, enquanto as duas viajavam para os Estados Unidos, onde a menina era a única brasileira inscrita para disputar o Campeonato Mundial de Ginástica Olímpica. — Nunca tive uma atleta como você. Você vai ganhar essa competição. Você tem de ganhar! No ano que vem são as Olimpíadas. E eu tenho certeza que a medalha de ouro também será nossa! Quer dizer, sua... quer dizer, nossa mesmo, de todos os brasileiros!
Magrí lembrava-se dessas palavras de dona Iolanda, mesmo porque a professora a pressionava tanto nos treinamentos que ela não podia esquecer-se nem por um momento do que viera fazer em Nova Iorque: vencer o Campeonato Mundial de Ginástica Olímpica, competindo com as melhores atletas do mundo.
— Vai ser difícil, dona Iolanda. Como vou poder disputar com aquelas meninas? Principalmente contra aquela miudinha da Ucrânia... Ela é uma pluma. Vai voar sobre a quadra!
— Ora, ora, ora, Magrí! — cortou a professora, confiante. — Você foi arrasadora nas três provas até agora. Sua nota foi nove e noventa e nove no salto sobre o cavalo, nove e noventa e oito na trave e dez nas barras paralelas! Daqui a dois dias vai ser a última prova: a ginástica de solo. Se você estiver concentrada, a vitória está no papo! Vamos lá: café e ducha. Volto em quinze minutos. Vamos, vamos, vamos!
Deixou a bandeja sobre a mesa e saiu. Um furacão.
Magrí tomou apenas dois goles do suco de laranja. Deixou cair a camisolinha no meio do quarto e correu nua para o chuveiro.

Um comentário:

  1. "Era um segredo seu. Imaginem se um dos Karas soubesse disso! Uma aluna do primeiro colegial dormindo abraçada a um ursinho, feito um bebê!"

    Beeeeeem, eu também tenho um bicho de pelúcia bem velho, que está na minha cama. Entendo bem como Magrí se sente...

    Mas pra falar a verdade, o medo da opinião dos outros não vai fazer-me envergonhar-me (quanto "-me", lol), então é por isso que estou confessando isso ;D

    Garotas e garotos, se vocês dormem com bicho de pelúcia ou algo "tão infantil quanto" (de acordo com a opinião de pessoas assim -> -.-"), não se preocupem com isso...

    Todos têm sua mania e hábitos, e não se sintam rebaixados por opiniões de pessoas que nem conhecem e que só querem fazer com que você se sinta pequeno.

    Eu durmo com um bicho de pelúcia, e olha que já passei dos 14, e assumo isso com orgulho!

    Não se envergonhem.

    Como uma vez meu professor disse: não tenha medo de fazer algo que você gosta por medo das opiniões dos outros.

    Ele então contou uma história, em que ele passeou naqueles carrinhos de crianças, sabe? Motorizados. Tipo esse:

    https://conteudo.imguol.com.br/c/noticias/da/2017/05/31/carrinhos-de-bichinhos-usados-em-shoppings-centers-1496251130259_615x300.jpg

    Foi em um shopping, cheio de gente. Ele estava com a filha e decidiu aproveitar também. Com muitos adultos encarando - na verdade, eu não tenho ideia de como ele conseguiu fazer isso... porque deve ter um limite de peso ou idade, não? Mas ainda assim eu acredito na veracidade da história (do jeito que ele é...).

    E ele continuou dizendo, que não era para temermos a opinião dos outros, porque no fundo esses adultos que encaravam com desaprovação ("um cara adulto, como pode...?"), na verdade queriam ter a coragem para fazer isso também: dirigir esses carrinhos motorizados, por exemplo.

    Mas por temer estragar sua "imagem de adulto", simplesmente as pessoas não o fazem...

    E acho que ele estava certo. Eu não sou adulta, mas também não sou criança. Queria ir nesses brinquedos, mas não fui por causa "o-que-será-que-eles-irão-pensar-meu-Deus-que-vergonha"...

    Ainda assim isso requer muita coragem.

    Enfim, pra vocês que têm a coragem pra enfrentar isso... sempre guardem consigo sua "criança interior". Podem crescer, ficarem adultos e então envelhecer... mas não se esqueçam: apesar do corpo velho, a mente pode também ser jovem.

    Talvez seja assim que funciona as cabeças daquelas pessoas que parecem velhas demais, mas ainda assim aproveitam a vida fazendo coisas radicais.

    E se os velhinhos podem, por que não nós, jovens com ossos mais... adequados? xD

    #ficadica

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