14 de fevereiro de 2018

Capítulo 1. Sequestro no Elite

A noite friorenta daquele início de junho caía quando as luzes se acenderam iluminando a área esportiva do Colégio Elite, completamente deserta, não fossem os dois cadáveres estendidos à frente da metade feminina dos vestiários. Estranhas gravatas vermelhas, pegajosas, escorriam do pescoço de cada um deles, maculando-lhes o branco das camisas. Os dois sisudos e mal-encarados agentes de segurança da filha do presidente dos Estados Unidos tinham sido praticamente degolados...
Se não estivessem mortos, e se o ruído do motor de um helicóptero não se sobrepusesse a todos os sons, de dentro do vestiário os dois teriam ouvido uma voz de menina, que desafiava, furiosa, em inglês:
I’m the president’s daughter! What do you think you’re doing? — Eu sou a filha do presidente! O que você pensa que está fazendo?
Estas foram as últimas palavras de Magrí no momento em que estava sendo sequestrada em pleno vestiário do Colégio Elite...
Na semana anterior, tinha sido acalorada a reunião entre J. Edgar Hooper, o todo-poderoso diretor da CIA, a Agência Central de Inteligência dos Estados Unidos, onde a palavra “inteligência” na verdade queria dizer “espionagem”, e dois policiais brasileiros: Doutor Pacheco, o delegado da Polícia Federal, que andava sempre de óculos escuros, e o gordo detetive Andrade, que enxugava a careca com um lenço, apesar da perfeita refrigeração da sala de conferências do luxuoso hotel brasileiro.
— Bem, senhores, os detalhes da segurança pessoal do presidente dos Estados Unidos durante sua permanência no Brasil já estão resolvidos. Vamos agora discutir o esquema de proteção à filha dele no Colégio Elite, na tarde em que ela estará participando da exibição de ginástica olímpica — propôs o Doutor Pacheco.
— J. Edgar Hooper deu um soco na mesa de reuniões:
— This is the problem! Esse é o ponto mais fraco, mister Pach... Pachino... Patchico...
— Pacheco, mister Hooper. Pacheeeeco!
— Hum...? — fez Andrade, olhando para a intérprete, que estava ali porque, embora o Doutor Pacheco falasse a língua do visitante, o detetive Andrade não conhecia mais de meia dúzia de palavras em inglês.
— Não estou gostando nada da ideia de miss Peggy MacDermott participar dessa exibição de ginástica com sua amiguinha brasileira — continuou Hooper. — Com o ginásio do Colégio Elite lotado, vai ser difícil garantir a segurança dela!
— Pode ficar sossegado, seu Hooper — garantiu Andrade, depois de ouvir a tradução. — O quarteirão inteiro estará cercado pelo exército brasileiro. E meus policiais são perfeitamente capazes de proteger essa menina de qualquer ameaça, até de correntes de ar!
— Just a moment, detective And... Androu... Android... — Hooper praticamente interrompeu a intérprete. — Como é que alguém consegue pronunciar um nome como esse?
— Andraaaade, seu Hooper — ajudou o detetive, contrariado.
— O que quer que seja! Nesse caso, só posso confiar nos policiais americanos. Nos meus homens! O senhor já pensou que desastre seria se, justamente no Colégio Elite, algum grupo de malucos resolvesse, por exemplo, sequestrar a filha do presidente?
— Nem diga uma coisa dessas! — exclamou Pacheco. — Não brinque com uma coisa séria como um sequestro!
— Não sou homem de brincadeiras, mister... Patchiec... ahn... mister policeman. Estou dizendo que a proteção de miss Peggy MacDermott durante sua permanência no colégio da amiga terá de ficar somente sob a minha responsabilidade.
— Só sob a sua responsabilidade?! — estranhou o detetive Andrade. — O que quer dizer com isso? E nós?
— Vocês ficam de fora. Meus agentes especiais revistarão os espectadores na entrada e só eles farão a segurança interna. E vão esvaziar toda a área esportiva da escola logo que terminar essa exibição idiota. Enquanto a filha do presidente não sair de lá, não quero por perto nenhum aluno, nenhum funcionário, nenhum professor!
— Ei, espere aí! — protestou Andrade. — O senhor pensa que os alunos, professores e funcionários do Elite são um bando de terroristas? A senhorita Peggy não correrá nenhum perigo lá. Ainda mais com Magrí!
— Who? — estranhou Hooper. — Quem é Magrí?
— Bem... é que... ela é... — Andrade percebeu que sem querer tinha revelado sua amizade com seus queridos meninos do Colégio Elite. Gaguejou e enxugou novamente a careca com o lenço. — Esse é o apelido da amiga brasileira da senhorita Peggy... É que ela é magrinha, sabem?
— Deixe esse caso conosco, mister Hooper — pediu o Doutor Pacheco, contrariado com a divagação de Andrade.
— Definitely not! — cortou Hooper. — Definitivamente não! Insisto que a polícia e o exército brasileiros fiquem fora do colégio!
Não adiantou discutir mais: o Colégio Elite teria mesmo de ser ocupado pelos agentes americanos e os policiais brasileiros ficariam de fora, ainda que o detetive Andrade deixasse bem clara sua desaprovação:
— Só quero saber se o senhor tem certeza de que seus orangotangos são mesmo os melhores, seu Hooper...
Automaticamente, a intérprete traduziu a frase malcriada e Hooper arregalou os olhos ao ouvir seus agentes especiais chamados de “apes”:
— What?! O senhor chamou os agentes da CIA de macacos?
Pacheco interveio, salvando a situação:
— Oh, não, mister Hooper! O detetive Andrade quer saber é se os seus policiais são mesmo azes... Acesl
— Azes? É claro que meus homens são azes. São os melhores!
A intérprete sorriu, sem jeito, e baixou os olhos entendendo a pequena mentira do delegado da Polícia Federal, que continuou, tranquilizador:
— Vai dar tudo certo, senhores. O Presidente Wilbur MacDermott não correrá nenhum risco no Brasil. Muito menos a filha dele no Colégio Elite. Então fica acertado que a CIA fará a segurança da área de esportes da escola enquanto nós cercaremos os quarteirões do colégio de tal modo que nem um gato possa entrar na área sem crachá de identificação. Para sequestrar a filha do presidente americano, só mesmo se houver terroristas com asas!
— Bullshit! Ora, que bobagem! — cortou Hooper. — Crachá de identificação para gatos! E terroristas voadores! Ora essa!
E os três continuaram a discutir outros detalhes da visita dos americanos ao Brasil, mais tranquilos com a parte do Colégio Elite. Nada poderia dar errado. Tudo seria um mar de rosas.
A exibição de ginástica olímpica no ginásio de esportes do Colégio Elite tinha sido um sucesso dos grandes. A plateia tinha adorado, apesar da falta de modos dos inúmeros brutamontes engravatados que revistaram todo mundo na entrada e permaneceram o resto do tempo de costas para a quadra, encarando a assistência de pais, parentes e alunos da escola como se cada um fosse um terrorista pronto para atacar de surpresa.
Ninguém tinha reclamado desse excesso de policiamento nem do alto preço dos ingressos, pois o dinheiro seria destinado à campanha contra o trabalho infantil e todos estavam ansiosos para ver a filha do presidente dos Estados Unidos bem de perto. De fato, a americana era boa atleta, assim como algumas das outras ginastas brasileiras presentes, mas a plateia tinha vibrado mesmo com a apresentação de Magrí, que parecia não ter peso ao evoluir nas barras assimétricas e na ginástica de solo.
— Que maravilha! — exclamara uma senhora. — Essa é que é a americana?
— Essa magrinha? Nada! É uma aluna do colégio...
No final daquele verdadeiro espetáculo de graça e elegância, os aplausos ainda nem tinham começado a diminuir de intensidade e os brutamontes de terno escuro já começavam a expulsar todo mundo das arquibancadas como se tangessem um rebanho.
Chumbinho tentava entrar na quadra para falar com Magrí quando um deles, do tamanho de um armário, agarrou o menino pelo braço. Sentindo a indignação tingir-lhe o rosto, Chumbinho encarou o sujeito, falando num inglês perfeito:
— What is going on? Take your hands off me! O que está havendo? Me largue!
— Get out of there! Fora daqui! Todo mundo pra fora!
— Que negócio é esse? Fora daqui por quê?
— I don’t have to explain anything! Não tenho de explicar nada! — respondeu o homem. — Just obey, kid! Apenas obedeça, garoto!
— Obedecer?! Assim, sem mais nem menos? Ah, ah, isso é que Chumbinho jamais faria! Enfrentar fisicamente o orangotango engravatado isso ele não podia, mas como iria aceitar mansamente que alguém o expulsasse de algum lugar dentro de sua própria escola?
Conhecendo cada palmo do Elite, Chumbinho fingiu que ia embora, mas deu um jeito de driblar a vigilância dos policiais estrangeiros. Entrou furtivamente no quartinho das vassouras, que ficava ao lado da porta de entrada da metade masculina do vestiário. Em seguida, num salto, alcançou o alçapão que levava ao forro de concreto, onde ficava o... O esconderijo secreto dos Karas!
Por que tinha subido para lá? Bem, talvez só para contrariar o orangotango americano e sentir-se aliviado como sempre se sentia quando conseguia resistir a alguma imposição absurda. Mas, no fundo, queria estar ali porque aquele era seu lugar de refúgio, porque ali Chumbinho gostava de isolar-se às vezes, mesmo quando não havia nenhuma “emergência máxima”, nenhuma reunião secreta dos Karas programada. Havia momentos em que ele queria ficar só, com seus pensamentos e com as lembranças dos perigos excitantes que vivera com seus queridos amigos Miguel, Magrí, Crânio e Calú.
Deitou-se no chão do esconderijo, rememorando o espetáculo de ginástica: “Que gatas! E a Natália, então?”.
De olhos fechados, revia a imagem da graça que era a Natália da oitava, toda fresquinha, jogando para trás aquele manto perfumado de cabelos negros ao preparar-se para alguma evolução. Pena que Natália fosse quase um palmo mais alta do que ele...
No esconderijo secreto estava quieto, agradável... Dava um sono... Pensou nos Karas, seu grupo maluco de amigos... Há quanto tempo!
Chumbinho sentia como se os Karas tivessem sido esquecidos dentro do sarcófago de alguma múmia. Há quanto tempo o grupo dos Karas não se envolvia em uma daquelas enrascadas que fariam tremer os adultos mais valentes! Há um tempão não se falava mais em lutas secretas e arriscadíssimas contra vilões fabulosos que o garoto Chumbinho ansiava por voltar a combater.
O que estariam os outros Karas fazendo depois de terem sido expulsos do ginásio de esportes? Chumbinho apostava que os três estariam pensando em Magrí. E ele mesmo sabia muito bem qual deles o coração de Magrí tinha escolhido... E a própria Magrí? Ora, era certo que ela não estaria pensando nos Karas.
Agora mesmo estaria com sua amiga americana e com as outras atletas, tomando sua ducha no vestiário feminino, exatamente debaixo da outra metade do forro de concreto, que ficava separada do esconderijo secreto por uma grossa parede.
Nenhum deles estaria, como Chumbinho, ansiando por novas aventuras. Mas que graça tem a vida sem aventuras, sem riscos estupendos a enfrentar? Sem ações arriscadas que... A luz do entardecer, filtrada pelas poucas telhas de vidro do telhado, mal iluminava a silhueta adormecida de Chumbinho.
O menino estava sonhando com Natália, quando foi despertado pelo ruído ensurdecedor das hélices de um helicóptero que parecia pousar sobre o telhado do vestiário.

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