2 de janeiro de 2018

Capítulo um

O sol de início de tarde brilhou através da janela de Charles Dodgson. Grãos de poeira flutuavam na luz, dançando e girando conforme correntes de ar entravam. Do lado de fora, estudantes caminhavam pelo pátio da Universidade de Oxford onde ele lecionava. Suas vozes chegavam pela janela junto com a luz do sol, sutis da mesma maneira.
— Então — Dodgson disse de sua poltrona, que estava virada de modo que Sherlock podia ver seu perfil. Ele estava inclinado para trás, encarando o teto. — Você p-p-pensou sobre a sequência de n-n-números que eu lhe passei um tempo atrás? Se bem me lembro, era 1, 5, 12, 22, 35, 51 e 70. Você pode me d-d-dizer qual a ligação lógica entre eles que cria essa sequência?
— Sim — Sherlock respondeu. — Eu entendi o que a sequência era. Por fim.
— Por favor... me esclareça.
— É difícil descrever, mas tudo tem a ver com pentagramas.
— T-t-talvez você poderia desenhar a solução para mim. — Dodgson indicou um quadro que ficava em um cavalete sobre a lareira.
Sherlock se levantou, caminhou até o quadro e pegou um pedaço de giz, tentando imaginar em sua mente o diagrama que ele havia levado meses para solucionar. Rápida e ordenadamente ele esboçou uma série de pontos no quadro e os uniu com linhas.


— O primeiro ponto é o “1”, claro — ele explicou. — O pentagrama menor tem cinco pontos, nos dando o valor seguinte, “5”. O próximo pentagrama, pouco maior, tem dez pontos, três dos quais são compartilhados com o primeiro pentagrama, mas se você adicionar os dois pontos do primeiro pentagrama que não são compartilhados, você obtém o “12”. O terceiro pentagrama tem quinze pontos, dos quais cinco são compartilhados com o primeiro e com o segundo pentagrama, mas se você adicionar os sete pontos dos dois primeiros pentagramas que não são compartilhados, você obtém o “22”. E assim por diante.
— Excelente — Dodgson disse, batendo palmas com suas mãos finas. — E o q-q-que isso te diz?
— Diz que solucionar esse problema tomou um tempo terrivelmente longo.
— Sim, mas qual a utilidade desses números p-p-pentagonais? O que eles nos d-d-dizem a respeito do mundo? Que significado eles têm?
— Eu não faço ideia — Sherlock disse honestamente.
— Certo. Números pentagonais não têm nenhum significado que eu saiba... diferente dos n-n-números Fibonacci, que parecem brotar em todos os tipos de circunstâncias. Talvez nós descubramos um uso para eles, ou um s-s-significado, ou talvez não. Somente o tempo dirá. O grande matemático Leonhard Euler fez um trabalho t-t-teórico muito interessante com eles, é claro, e p-p-publicou seus resultados em um artigo em 1783. Ele mostrou que o produto infinito (1-x)(1-x2)(1-x3)... se expande em uma s-s-série infinita, com os expoentes sendo os números pentagonais. O que você acha disso?
— Eu não consigo realmente assimilar esse fato — Sherlock falou calmamente.
Dodgson não captou o sarcasmo, ou se captou, escolheu ignorá-lo. O tutor continuou por mais uma hora, discursando sobre diferentes áreas da matemática, e no momento em que Sherlock saiu da sala, sentia que sua cabeça zumbia. Foi preciso uma longa caminhada na tarde fria, porém ensolarada, para acalmá-lo.
Quando ele chegou ao alojamento da Sra. McCrery, onde estava hospedado em Oxford, ele encontrou Matty do lado de fora, sentado no muro. Uma carruagem preta estava estacionada na estrada. Seu condutor estava sentado lendo um jornal, enquanto o cavalo estava parado calmamente com seus olhos fechados, descansando.
— Você tem um visitante — Matty observou, apontando com seu dedão para a carruagem.
— Posso perceber — Sherlock respondeu.
Ele caminhou até ficar ao lado da roda mais próxima à calçada e olhou pela janela. Nada havia sido deixado ali dentro, mas as almofadas tinham sido amassadas pelo peso do corpo do passageiro – e parecia ser um peso considerável.
— Meu irmão — ele observou, espantado. — Mycroft está aqui.
— Isso foi perspicaz. Ele usa uma colônia pós-barba especial?
— Não exatamente. — Sherlock decidiu não contar a Matty que havia reconhecido seu irmão pelo tamanho e formato de suas nádegas. — Onde ele está agora?
— Ele tá lá dentro tomando uma xícara de chá com a senhora.
— Mas Mycroft detesta viajar.
— Rússia — Matty observou, levantando um dedo — Irlanda — enquanto erguia outro dedo...
— Já entendi — Sherlock disse — mas o que eu quis dizer é que ele só viaja se tiver uma razão séria. Mycroft não faz visitas sociais.
— Ele faz quando é em relação a você. Ele enfrenta várias coisas para se certificar de que você está bem. — Ele fungou, e limpou o nariz em uma manga. — Eu queria ter um irmão.
— Você tem a mim — Sherlock falou. Ele olhou para a pensão. — Sei que tenho que entrar e descobrir o que Mycroft está fazendo aqui, mas a experiência me diz que ele só aparece quando há problemas, ou quando minha vida está prestes a mudar. De qualquer jeito, tende a ser algo ruim.
— Você não pode afastar as notícias ruins colocando as mãos no ouvido e fingindo que não pode escutá-las. — Matty disse, pulando do muro. — Se a vida me ensinou alguma coisa, foi isso. Melhor acabar com isso rapidamente. Como arrancar um curativo do machucado.
— Esse é um bom conselho — Sherlock concordou calmamente.
— Ei, para que servem os irmãos? — Matty deu um soco no braço de Sherlock. — Vá e me conte tudo quando puder.
Sherlock o segurou pela manga:
— O que faz você pensar que vai se safar disso? Se há más notícias, eu quero você lá comigo.
— Por quê? — Matty perguntou.
— Porque é para isso que servem os irmãos também.
Os dois subiram os degraus e atravessaram juntos a porta da pensão da Sra. McCrery.
Sherlock imediatamente ouviu a voz do seu irmão de dentro do primeiro cômodo. Ele ficou em pé na porta, com Matty ao seu lado, e tossiu. A voz de Mycroft se perdeu no meio de uma frase, e a Sra. McCrery apareceu na porta.
— Ah, jovem Sr. Holmes. Seu irmão Mycroft está aqui. Nós estávamos lembrando da época dele em Oxford.
— Eu ouvi as histórias. — Sherlock respondeu.
— Vou preparar outro bule de chá. Eu lhe ofereceria um pedaço de bolo, mas o apetite de seu irmão é tão bom quanto sempre foi, e acabou. Verei se encontro alguns biscoitos para você e o jovem Matthew aqui... sei que esse jovenzinho fica com tanta fome que poderia comer um cavalo!
— Não fale esse tipo de coisa quando Harold está por perto — Matty resmungou — ele leva essas coisas pro lado pessoal.
— Obrigado — Sherlock agradeceu.
Quando a Sra. McCrery saiu, ele entrou na sala.
Mycroft havia se instalado em uma confortável poltrona perto da janela. Sherlock suspeitava que ele poderia precisar usar uma corda e sos serviços do cavalo lá fora para tirá-lo de lá, quando fosse a hora.
— Ah, Sherlock, — Mycroft disse — alegra o meu coração vê-lo de novo. E o jovem Sr. Arnatt, é claro, aí ao seu lado como uma sombra sempre visível.
— Olá, senhor Holmes — Matty cumprimentou alegremente.
A enorme cabeça de Mycroft se moveu para encarar Sherlock novamente:
— Sherlock, preciso lhe contar algo, e não é o tipo de coisa que falamos na presença de pessoas relativamente estranhas.
— Matty é como parte da família agora — Sherlock observou. — Eu o quero aqui.
— Muito bem. Ao invés de enrolar, vou direto ao ponto. Sinto muito em lhe informar que a nossa mãe faleceu.
As palavras pareciam permanecer no ar como o eco de um grande sino. Sherlock tentou respirar, mas de alguma maneira ele não conseguia fazer o ar ir até seus pulmões. Até mesmo a luz na sala pareceu mudar, como se uma nuvem tivesse passado na frente do sol, lançando a casa nas sombras.
— Morreu — ele repetiu. — Nossa mãe está morta?
— De fato. Percebo que isso vem como um choque para você, assim como foi para mim, mas...
— Nossa mãe morreu?
Mycroft suspirou:
— Sim, Sherlock, isso está correto. Leve um tempo, se precisar, para digerir a informação.
Em sua cabeça, parecia que Sherlock experimentava diversos tipos de sentimentos para ver qual deles servia. Surpresa? Luto? Raiva? Aceitação? Ele não tinha certeza de como deveria se sentir naquele momento. Seus dedos formigavam estranhamente, e ele tinha a impressão de estar balançando levemente. Ele não conseguia sentir seus pés. Ele abriu a boca, mas nenhuma palavra saiu. Não havia palavras para sair: sua mente estava vazia.
— Matthew — Mycroft disse rapidamente — Ajude Sherlock a se sentar.
Ele sentiu as mãos de Matty em seus ombros, guiando-o de lado. Um momento depois ele descobriu que estava sentado, embora não se lembrasse de ter feito isso.
— Como? — ele perguntou finalmente — Quando?
— Quanto ao “como”: você sabe que ela estava doente fazia um tempo. Tinha tuberculose, também conhecida como “doença do peito”. É uma doença que ataca os pulmões. Há diversos tratamentos, incluindo repouso e visitas a sanatórios em lugares com ar puro e frio, como nos Alpes, França e Suíça, mas geralmente os resultados desses tratamentos não são positivos. A doença finalmente enfraqueceu seu sistema ao ponto de não ter mais forças para continuar a lutar. Ela se tornou cada vez mais fraca, e então se foi. — Sua voz estava calma, e Sherlock podia ouvir lá no fundo as mesmas emoções que ele agora enfrentava. — Quanto ao “quando”: recebi uma notificação esta manhã de que ela havia morrido durante a noite. Imediatamente peguei uma carruagem até Paddington, um trem para Oxford e outra carruagem até aqui. Eu não queria que houvesse nenhum atraso quando você descobrisse.
— O que acontece agora? — Sherlock perguntou calmamente.
  As várias emoções que ele sentira momentos antes pareciam ter sido drenadas para longe, deixando um panorama emocional que se equiparava a uma praia onde a maré se afastara: despida, desolada, e cheia de velhas memórias que faziam as vezes de tábuas flutuantes e pedras alisadas pelo mar.
— Nós precisamos ir para casa. — Mycroft fez uma pausa — Haverá um funeral, e despesas médicas para resolver.
— Entendo — Sherlock concordou. — Quando nós vamos?
— Imediatamente. — Mycroft apoiou as mãos nos braços da poltrona e fez força. Nada aconteceu além do som da madeira da poltrona rangendo. — Eu sugiro — ele continuou, descansando por um instante antes de tentar novamente — que você vá fazer as malas para a viagem. Presuma que vá ficar fora por uma semana ou algo assim. — Ele empurrou novamente os braços da poltrona, mas seu corpo mesmo assim não se moveu. — E enquanto você estiver fazendo isso — ele disse, descansando novamente — eu apreciaria se você, jovem Sr. Arnatt, pudesse ir lá fora chamar o condutor da minha carruagem. Pode ser que eu precise da ajuda dele.
Ainda em um torpor, Sherlock subiu os vários lances de escada até seu quarto e rapidamente jogou algumas roupas dentro de uma mala, sem checar quais eram ou se eram apropriadas. Matty se juntou a ele depois de alguns minutos e o observou em silêncio. Sherlock também pegou o estojo do seu violino antes de sair do quarto. Ele e Matty desceram as escadas juntos, e Sherlock se pegou imaginando se ele algum dia veria a pensão da Sra. McCrery de novo, ou algum dos estudantes de lá que havia se tornado seu amigo. Talvez, assim como a Escola Deepdene para Meninos e a casa de seu tio Sherrinford, este lugar estivesse destinado a se tornar apenas outra parada temporária em sua jornada através da vida.
Mycroft estava de pé na sala da frente parecendo ligeiramente afobado e desabotoando a parte da frente de seu casaco. A poltrona parecia ter enfrentado uma luta e não ter se saído bem nela. Mycroft balançou a cabeça quando viu a mala de Sherlock.
— Bom. Estamos prontos para ir então.
Sherlock se virou e estendeu uma mão para Matty.
— Nos vemos em breve — ele disse, sentindo sua garganta arranhar. — eu não sei onde, nem quando, mas nos veremos de novo.
Matty encarou a mão de Sherlock como se não soubesse o que fazer com aquilo, mas foi Mycroft quem quebrou o silêncio desconfortável.
— Na verdade — ele se aventurou — eu estava pensando se o jovem Sr. Arnatt estaria livre para nos acompanhar. Penso, Sherlock, que você precisará de um amigo, e meu tempo estará tomado pelos arranjos do funeral e vários assuntos de família. Eu não sei em que estado as finanças da família estão, e preciso me assegurar de que nós já não estejamos desprovidos. Seria bom se você tivesse com quem conversar.
Sherlock olhou para Matty, que estava surpreso.
— Eu? Ir com vocês?
— Se você estiver livre.
— Eu estou sempre livre — Matty respondeu. — Sim, eu vou... se Sherlock quiser que eu vá — ele olhou para Sherlock suplicante.
— Eu quero — Sherlock disse. Ele virou para seu irmão. — Obrigado.
— Amigos são importantes — Mycroft disse calmamente. — Eu entendi isso pelo simples fato de eu mesmo não ter nenhum. Sr. Arnatt, você precisa fazer alguns arranjos para os cuidados com seu cavalo?
— Não... há pessoas ao longo do canal que pegam Harold emprestado quando eu não o estou usando. Eles o alimentam e cuidam dele, e se certificam que ele esteja feliz. Eles provavelmente nem vão se dar conta que eu fui embora. — Seu rosto murchou. — Nem mesmo Harold, o que é uma pena.
— E quanto a roupas?
Matty encarou Mycroft, franzindo a testa.
— Mudas de roupas — Mycroft explicou.
Matty continuou encarando-o.
— Deixe para lá. — Mycroft suspirou. — Podemos arranjar roupas para você quando chegarmos em casa. Pelo menos carregaremos menos malas. — Ele se virou para Sherlock. — E quanto aos seus estudos na Universidade de Oxford, tomei a liberdade de enviar um bilhete a Charles Dodgson desejando-lhe o meu melhor e explicando a situação. Ele será bastante compreensivo, tenho certeza.
Os três caminharam até a carruagem que os esperava, onde o condutor atirou a mala de Sherlock para o teto, juntando-a as que já estavam lá.
— Você fez as malas! — Sherlock exclamou acusadoramente. — Você disse que pegou uma carruagem para a estação de Paddington no momento em que soube da notícia, mas deve ter parado na sua casa para fazer as malas!
— Sua mente geralmente afiada está te decepcionando — Mycroft replicou. — Explicarei, para todos os efeitos. Eu não menti para você... eu mantenho uma série de malas arrumadas com roupas limpas e artigos de higiene em meu escritório, para o caso de eu precisar viajar com pressa.
— Mas você não gosta de viajar — Matty observou.
— Isso é irrelevante. As empresas geralmente não gostam ou esperam que uma de suas instalações vá pegar fogo, mas elas fazem seguro contra incêndio mesmo assim. Eu não gosto de viajar, mas às vezes é necessário fazê-lo e com pressa. Como agora.
Enquanto a carruagem se afastava do meio-fio, Sherlock olhou pela janela. A Sra. McCrery estava parada na porta de sua hospedaria. Ela parecia estar acenando, mas os olhos de Sherlock estavam inesperadamente cheios de lágrimas, e ele não podia ter certeza.
O trajeto até a estação de Oxford era curto, mas o trem ainda demoraria uma hora para chegar, então Mycroft comprou chá e bolos para eles. Levou alguns minutos para a garçonete trazer os pedidos, mas quando ela trouxe, Matty atacou com gosto. Sherlock, ao contrário, descobriu que estava sem apetite. Quando Matty terminou seu próprio bolo, Sherlock empurrou o seu em direção ao garoto.
— E quanto a sua irmã? — ele perguntou repentinamente — Como ela está lidando com a notícia?
— Seu estado mental é frágil — Mycroft retumbou. Ele tinha comido dois bolos sozinho. — Às vezes ela está ciente do que está acontecendo ao seu redor, e às vezes parece viver em um mundo só dela. Seja lá qual for o mundo que ela visite, tenho o pressentimento de que é mais agradável do que o mundo em que nós vivemos. — Ele pausou por um momento. — Entendo que ela tem um pretendente, um homem que ela conheceu e que parece ter algum tipo de sentimento romântico em relação a ela. Eu pretendo me encontrar com esse homem e estabelecer que tipo de pessoa ele é antes de retornarmos.
— Emma... com um homem? — Sherlock pensou na garota pálida de que se lembrava. Ela sempre pareceu flutuar pela casa como um fantasma, sem falar com ninguém, imersa em seus próprios pensamentos. Mais jovem que Mycroft, mas mais velha que Sherlock, ela havia herdado a fragilidade física de sua mãe e, aparentemente, a fragilidade mental de seu pai.
— Você está pensando sobre os problemas do nosso pai — Mycroft observou — e como nossa irmã parece tê-los herdado.
Sherlock estava espantando. Ele não deveria estar – já tinha visto seu irmão demonstrar suas maravilhosas habilidades dedutivas antes, mas desta vez ele era o alvo.
— Como você sabia disso? — ele perguntou.
— Você estava realmente pensando nisso? — Matty perguntou, intrigado.
— Estava.
  Matty olhou sombriamente para Mycroft.
— Ele leu sua mente então. Sempre suspeitei que ele pudesse fazer isso. Artes das Trevas... é assim que chamam.
— Isso não foi leitura de mente. — Mycroft negou, balançando sua grande cabeça. — Foi puramente observação. Você vê a garçonete no balcão? Ela tem aproximadamente a mesma idade da nossa irmã. Quando Sherlock mencionou o nome de Emma, seu olhar se voltou para a garçonete. Obviamente ele estava pensando em Emma, e a garota era somente uma substituta da imaginação, por assim dizer. Seu olhar então vagou para os pratos e os copos na mesa, sem dúvida observando que a garçonete trouxe nossos pedidos perfeitamente corretos, enquanto Emma ou teria se esquecido dos pedidos, ou servido os bolos errados, ou derramado o chá. O olhar de Sherlock então se virou para mim, e então para seu próprio reflexo na janela desta casa de chá. Deduzi que seus pensamentos tinham semelhantemente se voltado para as diferenças entre Emma e nós dois. Particularmente, notei que ele estava inconscientemente comparando minha mão com a dele... nós dois temos dedos longos, que é um traço que dividimos com nossa mãe. Ela, a propósito, era excelente em tocar piano e em bordado. Sherlock terminou olhando para o guarda da estação lá fora, cujo uniforme o lembraria do uniforme do Exército de nosso pai, e então para cima, onde a igreja cristã nos diz que o paraíso está localizado. Foi uma simples progressão de pensamento para deduzir que ele estava pensando em nossos pais, e como nós havíamos herdado coisas diferentes deles.
— Incrível — Matty exalou.
— Simples — Mycroft disse com desdém. — Até mesmo elementar.
— Nós nunca realmente falamos sobre os problemas do nosso pai — Sherlock disse, olhando para seu irmão. — Você sabe que o tio Sherrinford e a tia Anna me contaram sobre eles?
— Tio Sherrinford me escreveu contando que a conversa havia ocorrido. Decidi que, se você quisesse falar a respeito, então falaria, e que não havia necessidade para eu levantar o assunto. — Ele olhou para Matty. — Também sei que o Sr. Arnatt estava presente durante a conversa, e confio nele para que mantenha qualquer informação que escutou para si mesmo.
Matty confirmou com a cabeça.
— Nosso pai é um homem complicado — Mycroft observou. — Você foi, talvez, protegido de suas mudanças de humor, mas eu as vivenciei em primeira mão. Havia momentos em que ele ficava em seu escritório por dias, só encarando o vazio, e outros momentos em que ele subitamente decidia, às três da manhã, repintar toda a casa. O tempo que ele ficou no... — ele hesitou brevemente — sanatório o acalmou, mas ele sempre será excêntrico. Felizmente ele escolheu uma das quatro carreiras onde excentricidade é tolerada e recompensada se for combinada com competência: O Exército Britânico. As outras, claro, são a Igreja, o teatro e a vida acadêmica.
— Interessante que o tio Sherrinford tenha escolhido escrever sermões para vigários ao redor do país — Sherlock observou. — Ele não se junto à Igreja realmente, mas fez algo perto disso. Suspeito que sua mente fosse mais próxima da do nosso pai do que ele gostaria de admitir.
— Interessante também que você toque violino e esteja mostrado um forte interesse pela vida teatral — Mycroft devolveu sem perder o tom. — Eu sou a exceção, é claro. Não sou professor.
— Mas Charles Dodgson me disse que achava que você tinha as qualidades necessárias para ser um ótimo acadêmico, e ficou ao mesmo tempo triste e surpreso por você ter se juntado ao Serviço Civil. — Sherlock respondeu.
— Me ocorreu — Matty falou subitamente — que eu não sei onde sua família mora.
— Sussex — Mycroft respondeu. — Em uma pequena cidade chamada Arundel. A família Holmes tem uma grande casa a alguns quilômetros da cidade. — Ele conferiu seu relógio. — A viagem levará em torno de três horas, e nós teremos que trocar de trem várias vezes. Oh, e isso me lembra... — Ele bateu em seu bolso, então deslizou a mão para dentro e puxou um envelope. — Isto chegou há alguns dias. É do nosso pai, na Índia. achei que você poderia querer ler.
Mycroft colocou o envelope na mesa entre eles. Sherlock encarou a escrita familiar, os estranhos selos indianos que adornavam o envelope e os vários carimbos que haviam sido coletados durante o trajeto. Um pensamento terrível lhe ocorreu.
— O nosso pai não sabe — ele sussurrou.
— Eu escrevi uma resposta à sua carta — Mycroft disse, igualmente calmo — em que conto a terrível notícia. — Ele pausou. — Também escrevi separadamente e secretamente para seu oficial, avisando-o da perda familiar e pedindo a ele que fique de olho no nosso pai, para termos certeza de que... de que ele lide com a notícia. Eu não tenho nenhuma fé de que seu estado mental seja estável, dada a sua localização tão distante de casa, e as privações do Exército Britânico na Índia.

Meus queridos filhos,
É uma das responsabilidades de um pai passar para seus rebentos a sabedoria que aprendeu durante seu tempo na Terra. Lamentavelmente, dado que estou atualmente milhares de milhas longe de vocês, e estou propenso a permanecer nesta localização geográfica por algum tempo ainda, estou impossibilitado de fazer isso. Passei muito do meu tempo vago aqui torturando meus miolos por pequenas joias de filosofia que pudessem ser prestativas, mas não consegui achar nada que vocês não poderiam (e provavelmente já o fizeram) encontrar em Platão, Sócrates ou nas páginas da revista Punch. Tudo o que posso fazer é lhes dar um gostinho do ambiente, das pessoas e dos eventos aqui na Índia – tão diferentes da querida Inglaterra, a terra que todos amamos e com a qual sonho todas as noites.
Eu me lembro que já escrevi, em cartas anteriores, sobre a paisagem deste estranho país – as planícies, as colinas, os rios e as cidades. Eu me lembro também de escrever sobre o clima, que é ou muito quente ou muito quente e úmido. Eu também lhes dei, acredito, um gostinho das várias pessoas que chamam este lugar de casa. O que posso não ter feito é tentar explicar como é minha vida aqui no dia a dia. Vocês podem ter a impressão de que, estando no Exército Britânico, luto o tempo todo. Vocês podem até se preocupar comigo. Posso assegurar-lhes que passo consideravelmente mais tempo polindo minhas abotoaduras, meu cinto e minhas botas do que em combate, e que estou mais em risco de pegar alguma doença ou ser picado por uma cobra do que ser atingido por uma bala ou lâmina.
Eu deveria, suponho, dizer algumas palavras sobre a rigorosa hierarquia desta sociedade, me referindo à sociedade dos ingleses vivendo aqui na Índia, não à sociedade dos próprios indianos (embora pareça que extraímos algumas de suas ideias). Os maiores dos maiores aqui são chamados de brâmanes – uma palavra, a propósito, emprestada dos indianos, que têm tido um sistema muito bem estabelecido de castas por milhares de anos.
Assim como suas castas, membros de nossos diferentes níveis ficam com seus semelhantes – ninguém nunca socializa com aqueles que não são seus iguais. Se você tentar, então será reportado e disciplinado, e, se insistir, poderá ser enviado para casa em desgraça. Os brâmanes são os membros do Serviço Civil Indiano – os que efetivamente governam e conduzem esse país. Abaixo deles estão os semibrâmanes – membros dos diversos outros departamentos do Governo como o Serviço Florestal e o Serviço Policial. Abaixo deles estão as forças militares, e é aí que me encaixo. Abaixo dos militares estão os empresários – aqueles que trabalham no comércio – e abaixo estão os comerciantes – os trabalhadores de lojas e semelhantes. Descendo na ordem social, você encontra os trabalhadores servis, e absolutamente na base da ordem estão os ingleses cujas famílias decidiram, por qualquer razão, se instalar aqui na Índia e construir uma vida.

  Não era, Sherlock pensou, muito distante dos vários níveis estratificados da sociedade britânica. Mesmo na sua antiga escola – Escola Deepdene para Meninos – havia uma diferença bem definida entre aqueles garotos que vinham da aristocracia e aqueles cujos pais estavam no Exército, aqueles que tinham pais no comércio e aqueles que trabalhavam com algum ofício.

Dado que cada extrato da sociedade britânica aqui na Índia socializa exclusivamente com seus semelhantes, eu não falo com os brâmanes, os semibrâmanes ou os mercantis a não ser a negócios. Passo boa parte do tempo aqui no aquartelamento, que é como chamamos a base militar onde meu regimento está localizado. Aqui a vida é dirigida pelas muitas marchas, e se torna não somente muito previsível, mas também bastante entediante. Por exemplo, um mês atrás um dos soldados estava carregando um prato de comida do refeitório para sua barraca quando um falcão mergulhou do céu, arrebatou a carne do seu prato e saiu voando com ela para longe. Ainda estamos falando sobre isso, mesmo agora. Estamos tão entediados assim.
O ponto alto das nossas vidas aqui no aquartelamento são os jantares formais. A comida certamente não é digna de se escrever aqui, razão pela qual nunca a mencionei antes. Por causa do calor extremo e a prevalência de doenças, qualquer animal que é morto deve ser consumido imediatamente ou a carne estragará. A carne é sempre dura – frango duro, carneiro duro e às vezes (embora enraiveça os nativos) carne de vaca dura – os nativos que seguem a religião hindu idolatram vacas, e ficam muito ofendidos se as comemos. A carne geralmente é “apimentada”, o que quer dizer que ela é cozida com fortes especiarias, e isso ajuda a torná-la digerível.
Os jantais formais militares consistem em sete ou oito pratos, e nós, é claro, nos vestimos de acordo com a ocasião – camisa engomada com punhos e colarinho rígidos, colete branco e casaca. Estas convenções são preservadas mesmo nas patrulhas fora do aquartelamento, e vi pessoas chegarem para o jantar lá fora, no ermo, em camelos, mas ainda assim usando o traje a rigor. No aquartelamento a regra rigorosa é que ninguém tem permissão para deixar a mesa até que o coronel no comando do regimento o faça, o que quer dizer na prática que, se várias garrafas de vinho foram bebidas no bar antes da hora, então haverá um número crescente de homens desconfortáveis ao longo da mesa conforme o jantar se estende!
É domingo aqui, enquanto escrevo esta carta, embora o sol que brilha sobre nós tão pesadamente ainda vá nascer aí na Inglaterra, e no momento em que ele estiver brilhando sobre vocês, estará escuro aqui. Eu fui à igreja esta manhã, como todos nós vamos aos domingos. A igreja é exatamente igual aí da Inglaterra e, às vezes, enquanto estamos reunidos lá cantando hinos ou orando, é possível imaginar que não estamos na Índia de maneira alguma, mas de volta em casa, em Aldershot talvez. Pelo menos, seria possível imaginar se não fosse pelo calor irradiando das pedras, os insetos zumbindo em volta das nossas cabeças e o fato de que os bancos tem encaixes para podermos descansar nossas armas. Sim, nós levamos nossas armas conosco para a igreja. Imagino o que Jesus, com seus sentimentos contra agiotas dentro dos templos, teria feito nessa situação.
Eu mencionei antes o clima, que é ou muito quente ou muito quente e úmido. Nós sonhamos com o frio, e com a neve. O calor excessivo daqui leva a muitos problemas, dois dos quais são as doenças e os insetos. Com relação às doenças, eu poderia escrever um livro sobre elas agora, mas é suficiente falar como um exemplo de que existe algo chamado “brotoeja”, que soa bastante civilizado, mas na realidade quer dizer que sua pele fica coberta tão grossamente com pústulas que coçam que você não consegue passar uma agulha entre elas. Vi um homem começar o jantar se coçando levemente e terminá-lo rasgando com suas unhas a pele do queixo e do pescoço com tanta força que derramava sangue. Quanto aos insetos, eles agem em ciclos. Em uma semana há insetos fedorentos por toda parte – na sua cama, na sopa, nos potes de tinta. Eles são inofensivos a não ser que você os esmague, que é quando eles soltam o mais terrível odor. Na próxima semana os insetos fedorentos vão embora e no seu lugar aparecem mariposas que, se você despercebidamente as afasta quando elas pousam em sua mão, deixam para trás um tipo de secreção química que queima.
Chamam este lugar de “terra da morte súbita”, mas há momentos em que penso se a morte não seria preferível a viver em constante desconforto, dor, tédio e tormento.
Vou parar de escrever agora, ou direi coisas que eu talvez devesse guardar para mim mesmo. Por favor, escrevam de volta para mim – são as suas cartas, junto com as da sua mãe e da sua irmã, que me mantém são.

Atenciosamente,
Seu amado pai,
Siger Holmes.

Sherlock terminou a carta e a dobrou com muito cuidado. Ele a entregou de volta a Mycroft sem dizer nada. Nenhum dos dois precisava dizer. Estava claro pelas suas palavras que o estado mental do pai deles deteriorava-se lá na Índia. Descobrir que sua esposa, a mãe deles, havia falecido em sua ausência – por mais doloroso que fosse para Sherlock, o que isso faria com seu pai?

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Comentários de volta!
Passamos algumas horas sem essa opção, mas estamos à ativa novamente :)

Boa leitura! E SEM SPOILER!