2 de janeiro de 2018

Capítulo treze

Sherlock olhou para cima em choque. Havia um pequeno buraco na janela, cercado por rachaduras que tomavam todo o vidro.
Em seus assentos, Phillimore e Matty despertaram subitamente.
Algo apareceu do lado de fora da janela. A cabeça de Sherlock girou em choque.
Diversos homens montados em camelos corriam ao longo do trem, paralelos à linha férrea. Eles seguravam rifles em uma mão e as rédeas dos camelos em outra, e vestiam túnicas pretas que ondulavam atrás deles e lenços envolvendo suas cabeças. Seus camelos não galopavam como cavalos: eles tinham um estranho passo, e parte da mente de Sherlock – a parte que não tentava descobrir por que alguém estava atirando neles – notou as pernas direitas dos animais, para frente e para trás, movendo-se em uníssono, assim como as pernas esquerdas. Parecia uma maneira desajeitada, de se mover, mas eles estavam mantendo o compasso do trem.
Olhando ao redor, Sherlock percebeu que os outros passageiros haviam se agachado abaixo do nível das janelas.
Ele olhou de novo. Um dos homens de preto estava apontando seu rifle na direção de Sherlock, tentando chamar a atenção dos outros dois que continuavam olhando para as janelas que passavam como se procurassem algo.
O homem que percebeu que Sherlock olhava diretamente nos olhos dele, apontou o rifle com uma mão para o rosto de Sherlock e puxou o gatilho de novo.
Sherlock abaixou-se quando a bala destruiu toda a janela. Ele tinha certeza de que podia sentir a bala desenhando uma linha quente e ardente através do ar, logo acima de seu couro cabeludo.
Isso foi deliberado, ele pensou descontroladamente. Eles estão procurando por nós!
Ele olhou em volta desesperadamente, tentando descobrir o que fazer, mas além de se abaixar, ele não conseguiu pensar em nada. Não era como se eles pudessem sair do trem. Eles estavam presos. Sherlock desceu do banco e se agachou no espaço vazio do chão.
Os outros dois montadores finalmente notaram as gesticulações de seu companheiro, e diminuíram a velocidade dos camelos para acompanhar a janela de Sherlock. Agora os três apontavam seus rifles para onde Sherlock e seus amigos estavam sentados. Eles apontavam para baixo, tentando enviar suas balas no espaço onde Sherlock, Matty e Phillimore estavam espremidos.
Acima do rugido do ar atravessando a janela, Sherlock ouviu vários crac. Do outro lado do vagão, madeira estilhaçou-se.
Sherlock levantou a cabeça para espiar pela janela. Um dos homens estava ficando para trás, mas os outros dois ainda continuavam a acompanhá-los, tentando fazer pontaria apesar do chacoalhar de seu meio de transporte.
Sherlock olhou para trás. Ele imaginou que o terceiro piloto estava tentando pular das costas de sua montaria para a plataforma por onde Sherlock e os outros embarcaram. O homem estava tentando entrar no trem para matá-los!
Sherlock abaixou-se novamente quando mais balas pulverizaram o vagão, quebrando janelas do outro lado. Sherlock perguntou-se brevemente o que maquinista e engenheiro estavam fazendo, lá na frente. Eles sabiam o que estava acontecendo?
Ao seu lado, Phillimore se levantou. Ele pegou sua bolsa, que estava em uma prateleira perto do teto.
— Abaixe-se! — Sherlock gritou.
Phillimore o ignorou. Ele puxou a bolsa para o banco e a abriu. Uma bala passou por sua cabeça, mas ele a ignorou. De bolsa, ele puxou um revólver com um longo barril. Virando, ele apontou para o cameleiro mais próximo e puxou o gatilho.
Houve uma explosão de fumaça, fogo e barulho, e o homem caiu de seu camelo como se tivesse sido empurrado. Em poucos segundos, ele desapareceu atrás eles.
Phillimore mirou cuidadosamente no cameleiro restante. O homem tentou apontar seu rifle para Phillimore, mas o cano ficava se movendo de um lado para o outro. Phillimore, estabilizado pelo chão do trem, estava em melhor posição. Ele disparou novamente, errou o homem, mas acertou a orelha direita do camelo. O animal, já assustado pelo barulho e pelo trem, virou de lado, ficando sem controle. Em alguns momentos o camelo e seu montador desapareceram na distância e no brilho do calor.
— Você tem uma arma! — Sherlock exclamou. Ele imediatamente se amaldiçoou por dizer algo tão óbvio, mas foi uma surpresa.
— Pensei que esta viagem poderia ser perigosa, especialmente com base no que aconteceu em Arundel — disse Phillimore. — Então eu trouxe minha arma, e acabou sendo bom.
— Como você conseguiu passar pela alfândega em Alexandria?
Phillimore olhou para ele como se Sherlock tivesse feito uma pergunta estupidamente óbvia.
— Não contei a eles.
A porta no final do vagão abriu-se de supetão. O terceiro homem vestido de preto – o que Sherlock tinha visto escalar a bordo do trem – encheu a abertura de um lado ao outro e do alto até embaixo. Ele portava seu rifle pronto para uso, e seu olhar de falcão percorreu a carruagem, procurando seus alvos.
Phillimore ergueu o revólver e disparou.
A bala atingiu o homem no ombro direito. Ele caiu para trás, para fora do vagão, gritando. O trem escolheu esse momento para balançar, suas rodas dando um solavanco – talvez por alguma falha nos trilhos, e o homem abruptamente rolou de lado e, antes que ele pudesse segurar em qualquer coisa, caiu da plataforma.
Sherlock inclinou-se para fora da janela e viu o borrão preto que era o homem atingir o chão e ficar imediatamente para trás.
— Isso foi... interessante — murmurou Sherlock.
Matty arrastou-se para fora do vão de um banco.
— Está tudo acabado? — perguntou.
— Graças ao Sr. Phillimore aqui — falou Sherlock.
O condutor – um homem de paletó escuro com um chapéu vermelho – entrou apressado no vagão. Ele carregava um rifle de design antigo. Ele olhou ao redor.
— Beduíno – é muito raro eles fazerem um ataque. Estão todos bem? — ele falou primeiro em francês, depois repetiu-o num inglês com forte sotaque, e novamente no que era presumivelmente egípcio.
Passageiros trêmulos surgiram de onde se esconderam e asseguraram-no de que eles estavam, de fato, bem. Seguiu-se uma conversa em que ele presumivelmente perguntou o que aconteceu com os atacantes e todos lhe deram várias histórias contraditórias. Sherlock gesticulou para Phillimore guardar sua arma antes que alguém começasse a fazer perguntas difíceis. E de fato, alguns segundos depois de ele tê-la guardado em sua bolsa, um dos passageiros apontou para Sherlock e Phillimore e disse algo em francês volúvel. Sherlock apenas tentou parecer inocente. Phillimore, ele percebeu, sempre parecia inocente, então estava tudo bem.
O condutor veio pelo corredor para falar com eles, mas só queria ter certeza de que eles não estavam feridos e que a falta de uma janela não os perturbava. Ele sugeriu que o trio se mudasse para assentos diferentes, mas Sherlock estava gostando bastante da brisa e decidiu ficar.
— Por que coisas ruins sempre parecem acontecer conosco? — Matty perguntou, uma vez que o condutor tinha ido. — Ou esses idiotas estavam mirando na gente?
— Eu acho que sim — disse Sherlock, sombrio. — Há, o que, quatro vagões atrás de nós, e eles andaram ao longo do trem até nos encontrarem. Esta é a única janela em que dispararam, pelo o que posso dizer. Ou eles nos escolheram deliberadamente como alvos, ou estamos sentados nos assentos mais azarados do trem.
— Então alguém sabe que estamos aqui — Matty apontou.
Sherlock assentiu.
— Seria difícil não saberem. A viagem foi longa, nossos nomes estavam na lista de passageiros, e não tínhamos como não chamar atenção em Alexandria. — Ele deu de ombros. — Nós teremos que ficar alertas.
 Duas horas depois, eles chegaram em Ishmaili. Ao contrário de Alexandria, que era, obviamente, uma cidade muito antiga, anterior ao planejamento do Canal de Suez. Nenhum edifício em Ishmaili parecia ter mais que dez anos, embora o sol e o vento tivessem agido sobre eles. Ishmaili parecia ter sido construída puramente como uma base a partir da qual o canal poderia ser construído.
À medida que o trem passava pela cidade e desacelerou quando se aproximava da estação, Sherlock observou que havia duas partes muito diferentes da cidade, separadas pelo trilho do trem. De um lado, as casas pareciam nativas: edifícios de um andar, cor de terra, que eram pouco mais do que cabanas ou barracas, presumivelmente ocupadas por egípcios nativos que trabalhavam como construtores. Do outro, os edifícios eram de vários andares, feitos de tijolos caiados de branco, com telhados de telhas sólidas em uma variedade de cores. Era o tipo de casa que não teria parecido fora de lugar em Malta, ou Gibraltar, onde seu navio parou no caminho para Alexandria: moradias de estilo europeu. Ali era obviamente onde os gerentes e os engenheiros viviam – com mais conforto.
À distância, no lado trabalhador do trilho, Sherlock viu vegetação verde correndo em linha reta, até onde ele podia ver. Era, ele suspeitava, o canal, e a vegetação crescia por causa da água encharcando o solo. Havia também o que pareciam ser grandes trens à vapor alinhados ao longo das margens do canal: enormes máquinas de ferro com guindastes e vigas saindo em todas as direções, como as pernas de insetos gigantes.
Uma casa maior do que as outras, com uma leve elevação em relação ao chão e cercada de palmeiras, provavelmente era onde Ferdinand de Lesseps morava, Sherlock imaginou.
O trem parou e eles desembarcaram, com as desculpas sinceras e contritas do condutor soando em seus ouvidos.
— Hotel? — Matty perguntou, e então, esperançosamente: — Comida?
— Não — disse Sherlock. — Nós vamos direto ver Monsieur de Lesseps. — Ao ver a expressão de Matty, ele acrescentou: — Mas se virmos alguma barraquinha de comida no caminho, podemos pegar alguma coisa.
Ishmaili era, obviamente, um destino popular, e havia agitada atividade em torno da estação enquanto burros, carrinhos e até mesmo camelos eram usados ​​para transportar pessoas aos seus destinos. Estava mais frio do que em Alexandria, e o ar estava mais fresco.
Sherlock estava preparado para procurar alguém para traduzir para eles, ou ter que falar através de gestos que eles queriam visitar o chefão da companhia do canal, mas o condutor da primeira carruagem que encontraram falava francês – um idioma que Sherlock sabia o bastante para se virar. Ele levou-os em uma viagem de vinte minutos pela seção europeia da cidade, embora Sherlock estivesse certo de que poderia ter sido realizada em dez.
Pararam de fora da grande construção em uma pequena colina que Sherlock vira do trem. Sherlock tentou pagar usando o dinheiro egípcio que ele conseguira no Princesa Helena, mas o condutor sacudiu a cabeça com pesar.
— Apenas dinheiro da companhia — disse ele. — Nada mais pode ser usado nesta cidade.
— Dinheiro da companhia? — perguntou Sherlock.
Phillimore assentiu.
— É comum em grandes projetos de construção como este — explicou. — A companhia imprime seu próprio dinheiro e paga os trabalhadores com ele. O dinheiro da companhia só é utilizável nas lojas e na cidade da companhia, o que significa que os trabalhadores têm que ficar no lugar e a companhia consegue seu dinheiro de volta.
— Isso não é justo — disse Matty. — É como escravidão, só que você é pago por isso.
— É assim que funciona — disse Phillimore. — Grandes projetos como este não seriam concluídos a tempo e orçamento de outra forma.
Matty mergulhou a mão no bolso e tirou um punhado de papel. Olhou para a ele, assentiu e então entregou um deles ao motorista. Ele, por sua vez, inspecionou-o com cuidado e depois enfiou-o dentro do manto. Com um aceno para eles, foi embora.
— Onde você conseguiu isso? — perguntou Sherlock.
— Não pergunte — respondeu Matty. Ao olhar sombrio de Sherlock, ele acrescentou: — Digamos que um dos sujeitos lá da estação se surpreenderá quando tentar pagar por algo.
Matty começou a dirigir-se para a casa, mas Sherlock segurou seu ombro.
— Espere um pouco.
— Por quê?
— Porque ainda não são quatro horas.
Matty franziu a testa.
— Nós não temos horário marcado, temos? Não importa que horas aparecermos.
Sherlock verificou o relógio.
— Nós sabemos que não temos hora marcada, mas eles não. Se chegarmos às quatro em ponto, parecerá que talvez tenhamos um compromisso, mas eles esqueceram, ou talvez não o tenham anotado. Se chegarmos às treze para quatro, então somos apenas um incômodo indesejável e inesperado.
Permaneceram por mais dez minutos na sombra de uma grande árvore. Ninguém parecia prestar-lhes atenção – os europeus eram obviamente uma visão comum na área.
A casa era cercada por uma cerca metálica baixa, mas tinha pouca segurança. Sherlock, Phillimore e Matty seguiram pelo caminho pavimentado até a porta da frente. Sherlock tocou o sino, e no fundo da casa algo tocou sonoramente.
— Seque sua testa em um minuto ou algo assim — pediu Sherlock a Phillimore.
— Na verdade — respondeu Phillimore — a brisa e a sombra aqui são muito refrescantes.
— Apenas faça isso, por favor.
A porta se abriu, revelando um lacaio em plena libré – casaco, calça estreita e colete. Ele olhou para eles criticamente.
— Oui?
— Nós temos um compromisso — Sherlock falou em confidência.
O lacaio ergueu uma sobrancelha.
— Eu penso que não — ele respondeu em um inglês com muito sotaque.
— O escritório do Monsieur de Lesseps em Alexandria arranjou tudo — Sherlock fingiu estar entediado. — Eles foram muito firmes quanto ao tempo. Disseram que deveria ser hoje, e que deveria ser aqui em Ishmaili porque é onde Monsieur de Lesseps está trabalhando. Nós fizemos uma longa viagem para chegar aqui.
Sem fazer qualquer demanda que pudesse ser rejeitada, Sherlock deixou a cargo do lacaio tomar a decisão, mas deu um passo para trás e encarou o homem em expectativa. O lacaio franziu a testa, mordeu o lábio e olhou por sobre o ombro.
Phillimore tirou o lenço do bolso e o passou sobre a sobrancelha teatralmente.
Depois de um momento, como Sherlock sabia que ele faria, o lacaio cedeu.
— Por favor, entrem. Eu consultarei o secretário do Monsieur de Lesseps.
Ele os liderou através de uma entrada escura e fresca e repleta de vasos de planta, então por um corredor contendo fotografias da construção do canal até uma sala no fim que era obviamente preparada para pessoas à espera. Havia jornais e revistas europeias ao redor – todas datando de antes da partida deles da Inglaterra.
— Como faremos para passar pelo secretário? — Matty sussurrou.
— Nós não passaremos – o contornaremos — Sherlock respondeu. Ele esperou até que o som dos passos do lacaio se esvaísse, então gesticulou para Matty e Phillimore seguirem-no de volta ao corredor. Eles se posicionaram atrás do vaso de uma grande palmeira e esperaram.
Depois de alguns minutos o lacaio voltou com uma aparência atormentada, acompanhado de um homem prematuramente calvo de terno escuro – presumivelmente o secretário de de Lesseps. Eles foram direto para a sala de espera. Rapidamente, Sherlock liderou o caminho para o lugar de onde os dois homens emergiram.
— Como você sabe que o Monsieur de Lesseps está ali? — Phillimore quis saber. — Seu escritório poderia ficar atrás da sala de espera, na outra direção.
— Não exatamente. De Lesseps é um homem importante. Seu escritório ficará no fim do corredor, não no meio. E também estaria do outro lado da casa, porque é onde fica a melhor vista do canal, e ele gostaria de vê-lo todos os dias. Ah, e seu secretário ficaria perto dele, não longe.
Sherlock entrou direto pela porta no fim do corredor. Ela levava, ele suspeitava, ao escritório do secretário – pequeno e atravancado de arquivos. Havia uma porta do outro lado, revestida de couro verde. Sherlock bateu duas vezes, abriu a porta e entrou. Phillimore e Matty o seguiram.
A sala era grande e arejada, com janelas francesas dando para um gramado surpreendentemente luxuoso, considerando o sol forte. Como Sherlock previra, o banco verdejante do canal e as máquinas de construção que o acompanhavam eram claramente visíveis. Uma enorme escrivaninha de carvalho coberta por papéis e mapas enrolados dominava a sala. Atrás dela estava um homem vultuoso em seus sessenta anos de barba cheia e grisalha e pouco cabelo. Ele vestia terno e colete pretos. Ele olhou para cima com calma enquanto Sherlock fechava a porta silenciosamente.
— Monsieur de Lesseps, meu nome é Sherlock Holmes. Estes são meus amigos, James Phillimore e Matthew Arnatt. Temos algo sério sobre o qual precisamos alertá-lo.
De Lesseps assentiu lentamente. Ele se recostou na cadeira, revelando uma barriga expansiva forçando as costuras de uma camisa de algodão.
— Phillimore — disse ele. — Eu conheço esse nome.
— Meu irmão Jonathan é um engenheiro de seu canal — disse Phillimore, dando um passo à frente. — Ele desapareceu, e eu vim procurá-lo.
De Lesseps esticou o braço e colocou a mão sobre um papel.
— Estou com o relatório aqui — ele falou. — Ele era um bom homem. Difícil de substituir.
Sherlock estava prestes a mencionar a possibilidade de sabotagem contra o canal quando a porta se abriu e o secretário entrou correndo, os olhos arregalados.
— Monsieur! — exclamou: — Mon dieu! Est-ce que tout va bien?
Matty deu um passo para trás em aparente surpresa, trombando na mesa. Ele se apoiou nela, as mãos sobre a superfície de couro da mesa, como se tentasse ficar o mais longe possível do secretário.
De Lesseps ergueu uma mão calmante.
— Em inglês, por favor, François, para os nossos hóspedes. — Ele olhou para Sherlock e sorriu. — Presumo que não tenham marcado um compromisso. François aqui é bastante cuidadoso quanto ao meu horário, e ele sempre sabe quem está visitando e por quê.
— Peço desculpas — disse Sherlock. — Mas é importante.
— Assim você o disse. Agora, permita-me ver se posso adivinhar sobre o que deseja me dizer com tanta urgência. Há uma trama para sabotar o meu canal, e esse engenheiro que desapareceu – Sr. Phillimore – a descobriu.
Sherlock estremeceu.
— O senhor recebeu um comunicado de Alexandria.
— Sim – um telegrama. Nós temos algumas comodidades aqui. Fui avisado de sua visita. — Ele se inclinou para frente e pegou um papel de sua mesa. — Também recebi um telegrama da Inglaterra – do seu Ministério das Relações Exteriores, aparentemente. Verifiquei com o seu cônsul aqui, e ele me assegura que é genuíno. — Ele tirou um par de óculos do bolso e os colocou. — Se um homem e dois garotos aparecerem com histórias sobre uma trama para sabotar o canal, ignore — ele leu. — São fantasistas. Alguém foi enviado para trazê-los em casa com segurança. — Olhando para cima, ele disse: — O telegrama estava em inglês, é claro. Vocês ingleses assumem que todos no mundo falam o seu idioma.
— Quem enviou o telegrama? — perguntou Sherlock, embora a pontada em seu coração lhe dissesse que ele já sabia a resposta.
— Está assinado por um homem chamado “Mycroft Holmes”. Nunca ouvi falar dele — de Lesseps franziu a testa. — Você disse que seu nome é Sherlock Holmes. Este homem é um parente?
— Meu irmão — Sherlock respondeu devagar. Então Mycroft sabia que ele não estava em Oxford.
— E ele trabalha para o Ministério de Relações Exteriores? — de Lesseps assentiu. — Você tem parentes interessantes. Interessante também que ele quis me avisar para não acreditar em você. — Ele suspirou. — As constantes tentativas de vocês, ingleses, para impedir a construção do canal ou influenciar nossos investidores para retirar seu dinheiro costumavam ser divertidas, agora são patéticas. Você, obviamente, quer suscitar preocupações de que o canal não é seguro para os navios para que nossos negócios falhem. É — suspirou — cansativo. Por favor, saiam. A abertura do Canal de Suez ocorrerá em poucas semanas, e tenho uma cerimônia inteira para preparar. Haverá realeza e dignitários de todos os cantos do globo. Eu não tenho tempo para as suas... fantasias.
— Mas...
— Tout de suite, s’il vous plaît, antes que eu chame as autoridades — ele balançou a cabeça com tristeza. — E, por favor, não pensem que podem enganá-los como, aparentemente, enganaram meu secretário, ou fazer com que eles acreditem em sua história absurda. A polícia nesta cidade é recrutada pela Companhia do Canal de Suez e paga por ela. Eles farão o que eu mandar.
Sherlock levantou as mãos em um gesto de desculpas e conciliação.
— Nós iremos — disse ele — mas, por favor, verifique o canal em busca de sabotagem.
— Como se sabota um corpo de água? — perguntou de Lesseps. Ele afastou a tentativa de Sherlock de dizer algo. — Não. Por favor, apenas vão. Deixem-me.
Os três foram empurrados para fora da casa e escoltados até a cerca.
— Não passem deste ponto. Se o fizerem serão presos, e nunca mais verão a luz do dia.
Ele girou o calcanhar e se afastou.
— Você conseguiu? — Sherlock perguntou.
Matty assentiu com a cabeça.
— Conseguiu o quê? — Phillimore perguntou, confuso.
— O relatório do desaparecimento do seu irmão — Sherlock respondeu. — Estava na escrivaninha em frente ao Monsieur de Lesseps. Eu estava com esperanças de que Matty tivesse a oportunidade de removê-lo quando o secretário entrasse tempestuosamente, e ele conseguiu.
Phillimore encarou Matty com horror.
— Mas isso é roubo! — ele exclamou.
Matty franziu a testa para ele, então olhou de volta para Sherlock.
— Ele sabe que atirou contra alguns ladrões com uma arma contrabandeada pela alfândega?
— Essa — disse Phillimore com rigidez — foi uma questão de autodefesa.
— E esta — disse Sherlock, dando um tapinha na camisa de Matty e conseguindo um som de papel dali debaixo — é uma questão de tentar salvar a vida do seu irmão, se ele ainda estiver vivo. — Ele olhou em volta. — Agora vamos encontrar um café, um restaurante ou algo assim, sentar e dar uma olhada nesses papéis.

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