2 de janeiro de 2018

Capítulo três

DEIXANDO A BIBLIOTECA, Sherlock atravessou o corredor em direção às escadas, com a intenção de subir ao andar de cima e verificar se Matty estava bem. Ele estava a meio caminho no chão ladrilhado quando reparou que a porta da frente estava aberta. Ela estivera fechada anteriormente, e ele sabia que os criados não a deixariam assim, então só poderia ter ficado assim porque o Sr. Lydecker não fechara corretamente quando partiu. Sherlock caminhou até a porta para fechá-la, mas, pela abertura, viu uma figura familiar de cabelos escuros se afastando da casa, indo em direção às árvores mais próximas. Era sua irmã, Emma.
Num impulso, Sherlock começou a ir atrás dela. Enquanto caminhava, tentou analisar seus motivos. Obviamente, ele queria dar olá para ela, não a via há quase dois anos, mas também estava intrigado para saber o que elas estava fazendo. A mente de sua irmã sempre pareceu pular de uma coisa a outra como uma borboleta que se move de flor em flor, e Sherlock muitas vezes ficara intrigado com os estranhos saltos que a mente dela fazia.
Quantas vezes ele já caminhara ou correra por entre essas árvores?, Sherlock imaginou. Quantas gerações de pássaros e animais haviam passado? Se suas pegadas pudessem de alguma forma ser pintadas e preservadas para a posteridade, haveria um único pedaço de chão por aí que não fosse colorido?
Eventualmente as árvores ficaram mais esparsas, dando em uma grande clareira, e Emma saiu para o ar livre. O rio estava a frente dela – surgindo das árvores à direita e continuando à esquerda, mas fazendo um grande desvio no meio. Ela sentou-se em um tronco caído, enfiando o vestido cuidadosamente debaixo dela.
Sherlock parou na linha das árvores e observou-a por um tempo. O livro que ele pensou que ela carregava acabou por ser um bloco de papel. Ela manteve o bloco de papel aberto em seu colo enquanto usava um pedaço de carvão, que tirou do bolso, para esboçar algo que Sherlock não conseguia ver.
Ele se perguntou se era algo que ela podia ver, se ela estava apenas esboçando algo de sua imaginação. Abruptamente ele descartou o pensamento. Ele não sabia o que ela estava desenhando, e sem provas, não deixaria seus pensamentos serem guiados por preconceitos.
Tossiu deliberadamente e começou a caminhar para onde Emma estava sentada, sem fazer nenhum esforço para esconder o som de seus pés roçando a grama ou esmagando galhos e pinhas sob os pés. Ela não parecia estar ciente de sua abordagem, focada como estava em seu desenho. Mesmo quando ele chegou ao seu lado, ela não reagiu.
— Olá — ele disse gentilmente.
Ela olhou para ele, sorrindo. Seu rosto estava mais velho do que ele se lembrava, os traços arredondados da infância desapareceram, agora substituídos por bochechas e mandíbula angulares. Ela não era bela por qualquer traço imaginável, mas era impressionante.
— Sherlock! Aí está você! Eu estava te procurando!
Era como se ela o tivesse visto a poucas horas, e não anos atrás.
— Emma — ele cumprimentou e sorriu de volta. — É bom vê-la novamente.
— Por onde você andou?
— Eu fui embora para estudar — ele disse, tentando entender suas expressões, se era novidade para ela ou se ela se lembrava. — Então passei um tempo com tio Sherrinford e tia Anna, depois fui para Oxford. Ah, e eu também fui para a França, América, Rússia, China e Japão.
— A tia Anna está em casa — ela falou, ainda sorrindo.
— Eu sei... eu a vi. — Ele fez uma pausa por um momento. — Mycroft está em casa também.
O sorriso dela aumentou.
— Mycroft! Parece que faz décadas desde que o vi.
Sherlock se perguntou se deveria mencionar Matty, mas decidiu manter essa informação por mais um tempo. Não havia motivo algum para sobrecarregá-la com novas informações. Ele se lembrou, da sua infância, que Emma só conseguia processar alguns fatos novos de cada vez antes de se confundir. Instantaneamente ele perguntou:
— O que você está desenhando?
Ela virou o bloco de papel para que ele pudesse ver o esboço. Ela desenhara com o carvão uma parte do rio onde havia barragens de madeira e estava desenhando as árvores do outro lado. Ela obviamente herdara as habilidades artísticas dos Vernets, a família francesa com quem os Holmes se casaram poucas gerações atrás, que produziram vários pintores bem conhecidos.
— Que lindo. — ele falou com honestidade. — Você tem um bom olho para a arte. Eu gostaria de ter também.
— Tem castores — ela respondeu.
— Como?
— Castores... no rio. Eles estão construindo uma barragem de galhos para pegar peixes, estão construindo ali. — Ela apontou para onde o rio fazia uma curva. — Acho que quando eles terminarem, o nível da água do rio vai subir e subir pelo chão até onde a curva do rio termina. Depois de um tempo, acho que o rio vai continuar reto, e esta curva se tornará um lago. Eu não sei o que os castores farão quando isso acontecer. Construir outra barragem, talvez. Eu tentei desenhá-los algumas vezes, quando estava aqui, mas eles são bem tímidos. Mas acredito que eles estão se acostumando comigo, no entanto. — Ela parou, olhou para trás de Sherlock e depois para ele novamente. — Eu queria desenhar o rio da maneira como é agora, para me lembrar quando ele mudar.
Sherlock a encarava, maravilhado. Suas palavras indicavam que ela tinha uma boa noção do que estava acontecendo. Talvez ela estivesse melhorando, superando seja lá o que a fazia não ter foco.
— O que mais você desenhou? — ele perguntou.
— Todo tipo de coisa. Asas de borboletas, pássaros, cervos... Ah, e James!
— James? — Sherlock perguntou, mas ela já folheava o bloco de papel, procurando pelo desenho certo.
— James! Meu noivo!
— Mycroft me contou que você estava noiva — Sherlock falou cuidadosamente — Onde você o conheceu?
— Eu tenho permissão para ir a cidade às vezes, com a mamãe. — Ela disse, ainda concentrada em achar o desenho. Quando mencionou sua mãe, Sherlock sentiu uma pontada de tristeza percorrê-lo de repente. Emma sabia o que acontecera? Ou contaram a ela, mas ela se esqueceu, do jeito como já fez algumas vezes?
— Você sabe porque Mycroft e eu estamos aqui? — ele perguntou.
Ela olhou pra ele por um momento.
— Eu acho que sim — ela respondeu. Uma nuvem pareceu passar, fazendo sombra em seu rosto. — Aconteceu alguma coisa com a mamãe, não foi? E ela se foi, e não vai voltar.
— A mamãe morreu — ele disse simplesmente.
— Foi o que eu quis dizer. E o pai saiu, mas ele vai voltar.
— Isso mesmo.
— Ah... Achei! — ela abriu o bloco de papel em um desenho em particular. Mostrava a cabeça e os ombros de um jovem de rosto fino com gravata e chapéu-coco. Ele tinha um bigode grande e extravagante. Sherlock não tinha certeza se seus olhos eram muito próximos ou se o esboço de Emma estava um pouco fora em suas proporções.
— Ele parece bastante... sério.
Emma assentiu.
— Ele é. Ele tem um emprego em... Arundel, Eu acho. — Ela pensou por um momento. — Ele me perguntou alguma coisa, mas eu não consigo me lembrar o que era. — Depois de um momento, ela lembrou: — Ah, claro! Ele quer saber para quem pedir minha mão em casamento caso papai não esteja aqui. Eu disse para ele que deveria pedir para Mycroft.
— Isso mesmo — Sherlock respondeu. — Mycroft está cuidando da família agora.
— Isso é bom. — Emma assentiu seriamente. — Se o pai está longe, e a mãe está... morta... então James tem que cuidar de mim. — Ela olhou para longe, para o lado do rio. — Não acho que eu seja boa em cuidar de mim mesma — ela disse calmamente. — Às vezes eu me esqueço de comer o dia inteiro.
— Mycroft vai querer conhecê-lo. — Sherlock apontou. — E acho que também quero.
— Todo mundo tem que conhecê-lo, já que ele será da família.
— De fato. O que ele faz?
— Faz?
— Como ele ganha dinheiro?
— Ah. — Sua mente pareceu repentinamente voltar a um ponto anterior na conversa. — Foi na catedral! — Ela disse brilhantemente. — Eu estava desenhando alguns túmulos, e ele estava lá, olhando para as janelas de vitrais. Ele perguntou se podia ver meus desenhos, e nós conversamos, e ele perguntou para a mamãe se poderia almoçar com a gente!
— Isso foi muito...
— Como mamãe morreu? — ela perguntou de repente, seu rosto sério. — Ela estava doente?
— Sim, estava. Ela estava doente já fazia um tempo.
— Eu achei mesmo que ela estava. Ela passava muito tempo na cama, e mesmo quando não estava na cama, estava sempre cansada. Eu fico pensando se os homens a levaram.
— Homens? — Sherlock perguntou.
— Os homens sem rosto. Eu os vi do lado de fora de casa algumas vezes, de noite. Eles se escondiam atrás dos arbustos, mas eu podia vê-los. Fico pensando se eles vinham por causa dela.
Sherlock sentiu uma estranha sensação através dele. Emma estava vendo coisas. Isso significava que estava piorando, ou ela sempre viu homens sem rosto, e outras coisas, e nunca falou sobre eles?
— Eu já te contei dos castores? — ela perguntou brilhantemente, como se o assunto de homens sem rosto nunca tivesse surgido.
— Sim, contou.
— Eles são muito trabalhadores. É como se eles tivessem um plano, e tivessem que cumpri-lo. Ela... sofreu?
Sherlock sentiu um salto mental na conversa, voltando os assuntos.
— Eu não sei. — Ele respondeu honestamente. — Eu não estava aqui. Mas se a mamãe morreu de tuberculose, não acho que ela tenha sentido tanta dor, até bem no fim. Ela apenas ficou cada vez mais cansada até que apenas... desistiu.
— Ah... — O silêncio se prolongou entre eles, então ela continuou com uma voz mais baixa. — Vai ter um funeral, ou já foi e eu esqueci?
— O funeral é amanhã.
— Eu posso ir?
— É claro que pode.
— Que bom. — Ela olhou pra ele e seus olhares se cruzaram, ele podia ver a personalidade de sua irmã em seus olhos. — Eu estou confusa. Às vezes passam dias ou semanas sem eu perceber.
— Eu sei. — Ele colocou a mão em seu ombro. — Mas você continua sendo minha irmã, e eu a amo. Mycroft te ama também, ele apenas não diz. E a única coisa que nós queremos é que você seja feliz.
— Eu sou feliz. — Ela disse, colocando a mão que estava livre sobre a dele. — Eu sou feliz na maior parte do tempo, e me casar com James vai me fazer mais feliz ainda. Posso te desenhar?
Sherlock sorriu.
— Mesmo? Me desenhar agora?
— A luz daqui é muito boa. — Ela indicou uma árvore do outro lado cujo tronco se divergia ao sair do chão antes de crescer em direção ao céu. — Sente-se no tronco daquela árvore e não se mexa.
Sherlock ficou lá por um tempo, olhando para o rio, como o sol se movia no céu e as sombras aumentavam de tamanho no chão. Emma usava seu carvão de desenhar, trabalhando com a cabeça abaixada e a língua pra fora no canto da boca. Ela parecia tão feliz, tão absorvida em si mesma. Ao vê-la daquele jeito, era inteiramente possível para Sherlock acreditar que ela estava absolutamente bem, e que o resto do mundo é que estava errado.
Eventualmente, ela se recostou e olhou o papel de forma crítica, depois para ele, depois voltou ao papel.
— Acho que é isso — disse ela.
— Posso ver?
— Claro. — Ela ergueu o papel na direção dele. Ele atravessou a distância que o separava dela e pegou a folha, não sabendo o que esperar.
O retrato estava excelente. Ela o retratara de perfil, o cabelo jogado para trás pela brisa e a luz do sol em sua testa e bochechas. Ele parecia estar procurando alguma coisa, olhando ao infinito para o tempo e o espaço. Ele parecia mais velho do que se lembrava da última vez que se vira em um espelho. Era como se ele estivesse olhando para uma versão futura de si mesmo.
— Está maravilhoso.
— Honestamente?
— Sim, honestamente.
— Então eu vou emoldurar e colocar na parede da casa em que eu e James vamos morar, para eu me lembrar de você quando você não estiver aqui. Eu já tinha desenhos do papai antes de ele ir embora e da mamãe antes... de ela ir embora também.
— Você vai precisar desenhar um retrato do Mycroft também — ele apontou.
— Precisarei de um papel maior — ela disse, séria.
— Está quase na hora do jantar. Vamos voltar?
— Ficarei aqui por mais um tempo. Os castores saem no final da tarde, e eu gosto de vê-los.
— Está bem, mas volte antes do pôr-do-sol.
— Voltarei.
Sherlock caminhou de volta para a casa, extraordinariamente tranquilizado por sua conversa com Emma, mas determinado a conhecer o seu pretendente.
Ele mudou de roupa quando voltou, depois leu por um tempo antes do jantar. Alguém tinha encontrado para Matty uma muda de roupa, e ele tomara um banho. Sherlock não tinha certeza do que fazer com este novo, limpo e arrumado Matty. Ele também reconheceu as roupas, que tinham sido suas quando mais jovem, e menor.
O jantar foi estranho. Sherlock e Mycroft não se sentiam muito à vontade para conversar, dadas as circunstancias, mas Emma parecia fazer Matty conversar durante toda a refeição, que fora servida por vários criados com panos pretos amarrados no braço em sinal de luto. Sherlock se perguntava o que aconteceria com eles agora, com o pai e Mycroft fora da cidade, a mãe morta e a irmã quase se casando. Havia uma grande chance, ele percebeu com uma sacudida repentina no estômago, de que talvez não houvesse ninguém para realmente morar na casa, se Mycroft estivesse trabalhando em Londres e Sherlock estudasse em Oxford. Ele não podia deixar aquilo acontecer, pensou. Seu pai precisava de uma casa para voltar.
— Haverá uma cerimônia na capela da família amanhã de manhã — Mycroft anunciou depois que o café foi servido. — Os criados todos terão um tempo para participarem, é claro. O vigário da igreja local virá para fazer a cerimônia, e depois o caixão de nossa mãe será enterrado na cripta nos terrenos da casa. — Ele olhou para Matt. — Essa é a tradição da família Holmes, várias gerações estão enterradas lá, assim como eu e Sherlock seremos enterrados no nosso tempo.
— Não tão cedo, eu espero. — Sherlock murmurou. Ele olhou ao redor, de repente percebendo algo. — Onde está Rufus?
— Ele escolheu comer com os criados, disse... — Mycroft levantou uma sobrancelha — que a conversa seria mais divertida e a comida seria exatamente a mesma, então ele não tinha realmente escolha.
— James pode ir ao funeral? — Emma perguntou, de repente olhando para os dois irmãos.
— Receio que não. — Mycroft respondeu em voz baixa, mas firme. — A cerimônia é para família e criados, apenas. Contudo, Sherlock e eu faremos uma visita para ele amanhã de tarde. Penso que devemos descobrir... as intenções dele para com você, e se ele está apto para ser seu marido.
Emma ergueu a cabeça como se fosse discutir. Sherlock rapidamente a interrompeu e disse:
— Tenho certeza de que ele é perfeitamente apto, Emma, mas Mycroft e eu temos que conversar com ele, descobrir quais são suas perspectivas. Papai teria feito a mesma coisa.
Emma não pareceu se acalmar. Ela abriu a boca para dizer alguma coisa, mas foi a voz de Matty que Sherlock ouviu.
— Há tantas pessoas desonestas ao redor — ele disse, olhando para Emma. — Às vezes elas podem tirar vantagem de pessoas como você, pessoas que veem o mundo como um lugar bom onde o sol está sempre brilhando, mesmo quando não está. Seus irmãos estão somente cuidando de você, sabe.
— Eu sei. E sou grata... — Ela pausou e depois adicionou: — No entanto, eu ainda assim vou me casar com ele.
Depois do jantar, Mycroft pediu licença para voltar para a biblioteca. Sherlock decidiu ir para a cama. Pareceu um longo dia, mesmo que nada tivesse acontecido, e ele estava cansado. O estranho era que, embora nada realmente tivesse acontecido, ele sentia que sua vida mudara desde que acordou. A situação em que estava agora não era a mesma da de manhã.
Ele tirou a roupa, se lavou rapidamente na água fresca que as criadas haviam fornecido, e deslizou entre os lençóis da cama. Em poucos minutos, já dormia.
Sherlock sonhava com o pai quando acordou bruscamente. Tudo o que se lembrava enquanto tentava ficar consciente era de uma paisagem de terra nua com um ocasional arbusto seco lutando para sobreviver, e uma névoa de calor que fazia as montanhas distantes tremularem como se fossem algo refletido na água. Ele estava correndo pela sua vida, e quando olhou por cima do ombro, podia ver guerreiros armados com espadas perseguindo-o. Eles usavam turbantes e suas barbas enormes voavam por cima do ombro por causa do vento. A expressão em seus rostos era sempre a mesma: ódio implacável. Ele sabia que não estavam atrás dele, estavam perseguindo seu pai, que estava em algum lugar mais à frente, mas ele tinha que chegar a seu pai e avisá-lo antes dos guerreiros. Se eles encontrassem seu pai primeiro, cortariam Siger Holmes em pedaços.
Em poucos segundos o sonho esmoreceu para a realidade de seu quarto, e ele pensou que a mão em seu ombro fosse um dos guerreiros tentando alcançá-lo, mas quando conseguiu esfregar o sono dos olhos, pôde ver que era Emma, sua irmã, que o tinha acordado.
— O que foi? — ele murmurou. — O que aconteceu?
— Eles estão aqui. — Ela falou simplesmente. — Os homens sem rosto. Eles estão aqui na casa novamente. E acho que desta vez vieram atrás de mim.
— Emma, você está sonhando de novo. Volte a dormir.
Ele se virou de costas e estava prestes a se cobrir novamente com os lençóis quando ela disse:
— Não... Eu não estou sonhando. Eles estão aqui! Vieram atrás de mim! — Ela soou assustada.
Relutantemente, ele tirou os lençóis e saiu da cama.
— Está bem, darei uma olhada se isso a fará se sentir melhor — ele disse. — Mas eu te prometo, não tem nada lá. — Ele rapidamente colocou sua calça, camisa e sapatos. — Certo... onde você pensa que esses homens sem rosto estão?
— Eles estão no meu quarto. — ela sussurrou. — Eu não me mexi porque não queria que eles soubessem que eu estava acordada. Eles eram bem silenciosos, mas eu sentia que eles estavam me observando. Depois de um tempo, eles saíram e desceram as escadas. Eu me levantei para ver se conseguia ver algum vislumbre deles, mas só vi um deles através da janela. Ele estava do lado de fora de casa, olhando para cima. Acho que ele estava olhando para o meu quarto.
— Bem, vamos ver se nos conseguimos vê-lo. — Sherlock disse, indo em direção à própria janela. Ele puxou a cortina e olhou para fora, esperando não ver ninguém. A lua estava atrás da casa, e por um instante o contraste entre a escuridão do quarto e a iluminação brilhante o ofuscou. Quando seus olhos se ajustaram, entretanto, ele pôde enxergar o gramado lá de fora, os cascalhos da garagem e a pilastra do pórtico que protegia a porta da frente. Do outro lado do gramado havia um monte de arbustos onde ele se lembrava de se esconder quando criança enquanto seu pai rosnava como um urso e fingia caçá-lo. A memória trouxe uma onda de nostalgia e tristeza em seu coração.
Ele estava prestes a fechar a cortina e dizer a Emma que ela definitivamente tinha sonhado com esses estranhos homens sem rosto, quando notou uma sombra se movendo pelos arbustos. Alguém estava parado ali.
A luz da lua brilhava diretamente sobre eles, mas Sherlock não conseguia ver seus rostos corretamente. Era como se não tivessem traços propriamente. Sherlock sentiu seus braços arrepiarem. Emma não estava sonhando, afinal!
Enquanto observava, a figura voltou para o abrigo dos arbustos. Tinha que ter sido uma ilusão de ótica. Havia alguém lá, embora não pudesse ser um homem sem rosto, isso seria sem sentido.
A conversa de Emma sobre homens sem rosto deixara sua imaginação trabalhar, e ele tinha que suprimi-la. Não existia isso de homens sem rosto. Tinha que ser um truque da luz.
Ele saiu da janela e fechou a cortina. Não tinha certeza se fora visto ou não. Seus pensamentos estavam a mil. Porque havia alguém lá fora, vigiando a casa? Alguém realmente esteve no quarto de Emma, ou ela imaginou aquilo, mas na verdade viu as pessoas nos arbustos e combinou as duas coisas em uma só narrativa? Ele não tinha certeza, mas tinha que descobrir, e rápido.
— Você fica aqui — ele falou em voz baixa. — E tranque a porta depois que eu sair. Preciso investigar isso. Volto logo.
— Tome cuidado — ela recomendou, e deu um pequeno sorriso tremulo. — Você é meu irmão mais novo, não quero que nada ruim aconteça com você.
Ele saiu pela porta e a fechou atrás dele. Segundos depois ele ouviu o clic da fechadura sendo trancada.
A varanda com vista para o salão de baixo ficava à direita e os outros quartos, à esquerda, o primeiro sendo de Mycroft. Ele podia ouvir seu irmão roncando, um som profundo e sonoro como o ronronar de um enorme gato selvagem. Por um momento, ele se perguntou se deveria acordar seu irmão, mas só por um momento. Seu irmão não era nem silencioso e nem rápido para se movimentar. Se havia alguma chance de intrusos na propriedade Holmes, então era melhor Mycroft ficar fora disso até que estivesse tudo resolvido.
E quanto a Matty? O garoto era o melhor amigo de Sherlock, e era inteligente e surpreendentemente forte. Seu quarto ficava do outro lado do de Mycroft. O Rufus Stone era o seguinte. Ele era talvez uma escolha melhor do que Matty, como agente de Mycroft Holmes, foi treinado para esse tipo de coisa e Sherlock já o tinha visto lutar antes. O quarto da tia Anna estava do outro lado do corredor, e Sherlock torcia para que ela dormisse enquanto ele resolvia isso, seja lá o que “isso” fosse.
Ao invés de acordar qualquer um deles, Sherlock se moveu para a direção oposta, para a varanda. Ele ficou lá por um tempo, olhando para baixo, para a entrada. A luz da lua entrava através da janela no pórtico, e os azulejos do chão da entrada pareciam brilhar. Uma folha estava caída no chão, e Sherlock percebeu que a porta da frente estava aberta, ou fora aberta, e a folha foi soprada para dentro. Alguém esteve na casa.
Ele podia ouvir sons que pareciam vir do andar de baixo. Seu irmão estava profundamente adormecido, a julgar pelo ronco, e ele não achava que seria Rufus ou Matty vagando lá embaixo. Os criados deveriam estar dormindo também, eles trabalhavam por longas horas, então agarrariam o momento que tivessem para descansar com gratidão. Ele imaginou que pudesse ser a tia Anna, mas havia a folha no chão para ser considerada. A porta da frente fora aberta. Isso significava que havia uma boa chance de que quem quer que estivesse no andar debaixo, seria um intruso. Ou intrusos.
Ladrões, presumivelmente. Não haveria outra razão para invadirem a casa. A não ser que tivesse relação com algo secreto e perigoso em que Mycroft estivesse trabalhando para o Ministério de Relações Exteriores... Mas Sherlock não achava que era esse o caso. A essa hora da manhã, qualquer assassino que estivesse atrás de Mycroft teria ido direito para seu quarto no andar de cima, em vez de ficar no andar de baixo e fazendo barulhos que poderiam perturbar a casa. Não, eles estavam procurando por algo, provavelmente no escritório do pai de Sherlock. Dinheiro, talvez, ou joias.
Mas os intrusos estiveram no quarto de Emma, se o que ela disse fosse verdade. Eles estavam se movendo e a acordaram. Ele franziu a testa, pensando. Se eles estavam procurando joias ou dinheiro, então por que escolher o quarto dela? Ou ela tinha sonhado com esses homens sem rosto ao mesmo tempo em que alguém invadia a casa? Sherlock balançou a cabeça. Isso teria sido uma coincidência muito improvável.
Fosse qual fosse a verdade, ele só descobriria interrompendo os intrusos e questionando-os, e não poderia fazer isso sozinho. Ele precisava de ajuda.
Ele se moveu silenciosamente pelo corredor, passando pelo quarto de Mycroft e indo para o de Matty. Ele abriu a porta tão silenciosamente quanto podia, mas o ligeiro guincho das dobradiças já havia despertado seu amigo. Matty estava se virando, os olhos arregalados e a boca aberta para perguntar o que estava acontecendo. Sherlock rapidamente se moveu pelo quarto e colocou um dedo contra os lábios de Matty. Ele balançou a cabeça. Matty assentiu, entendendo que algo estava acontecendo e ele tinha que ficar quieto.
Sherlock apontou para a janela e ergueu um dedo, depois apontou para o chão e ergueu o dedo novamente, depois outro dedo e franziu a testa. Matty concordou com a cabeça: havia uma pessoa lá fora e uma ou duas pessoas no andar de baixo. Ele não pareceu muito surpreso. Ele jogou os cobertores para o lado. Por baixo deles, estava vestido.
Ele obviamente viu a expressão de Sherlock e sorriu. O menino estava acostumado a dormir em uma barcaça, ou ao ar livre, sozinho, e vivia o tipo de vida onde poderia ter que fugir a qualquer momento, perseguido por um dono de barraca, cuja comida ele tinha roubado, ou alguns bandidos que pensavam que poderia ser engraçado pegá-lo e jogá-lo em um canal. Sherlock deveria ter imaginado que ele não usaria pijamas.
Isso provavelmente também explicava por que Matty não mostrou nenhuma surpresa ao ser despertado no meio da noite e ouvir que havia intrusos por aí. Para ele, era algo que acontecia.
Sherlock apontou para o próprio peito, em seguida, para o andar de baixo. Matty assentiu com a cabeça. Sherlock então apontou para Matty, depois para a parede separando o quarto de Matty e de Rufus Stone e, em seguida, no andar de baixo. Matty concordou com a cabeça novamente. Ele entendeu: Sherlock desceia as escadas e Matty ia acordar Rufus e se juntar a ele.
Ambos se dirigiram para a porta e se separaram, Sherlock movendo-se na direção da escada, e Matty deslizando pela parede do corredor em direção ao quarto de Rufus. Quando Sherlock chegou ao primeiro degrau da escada, se virou e viu que Matty havia desaparecido e a porta de Rufus estava parcialmente aberta. Não havia nenhum barulho vindo de dentro do quarto de Rufus.
Ele deslizou pela escada silenciosamente, as costas contra a parede. No meio do caminho, podia ver a porta da biblioteca através da grade da escada. Estava entreaberta, e Sherlock podia ouvir sons suaves de movimento lá dentro.
Ele olhou para a porta da frente. Também estava entreaberta, dando aos intrusos um meio de fuga se fossem descobertos ou dando ao observador uma maneira de adverti-los se ele visse alguma coisa. Ele? Sherlock lembrou-se do rosto sem características da pessoa que viu lá fora, e estremeceu momentaneamente.
Ele se moveu pelo corredor em direção à biblioteca, evitando os azulejos que sabia que poderiam se deslocar sob seu pé e fazer barulho. Ele olhou de volta para a escada, mas ainda não havia nenhum sinal de Rufus e Matty.
Ele chegou à porta da biblioteca e enfiou a cabeça pela fresta da porta, apenas o suficiente para que pudesse ver o interior. A biblioteca estava iluminada por uma lanterna de óleo na mesa. Por causa da luz, Sherlock podia ver duas figuras. Estavam de costas para a porta, curvados sobre a mesa, aparentemente examinando papéis que espalhados ali. Sherlock não se lembrava dos papéis, parecia que eles haviam tirado das gavetas da mesa.
Eles estavam vestidos com casacos pretos que desciam até o tapete, escondendo os pés. Eles calçavam luvas de couro preto em mãos que pareciam ter as pontas dos dedos afiadas, como garras. Suas cabeças estavam mergulhadas para frente, olhando para a mesa. Olhando por trás, parecia até que eles não tinham cabeça sobre os ombros.

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