2 de janeiro de 2018

Capítulo sete

— HMMM. — MYCROFT RECLINOU-SE na poltrona e franziu a testa. — Uma suposição interessante, mas uma suposição que no momento não se sustenta com fatos. A coincidência dos números é interessante, sim, mas aqui eles estavam procurando por algo em particular... a carta endereçada ao Sr. Phillimore. O que eles poderiam estar procurando na nossa casa?
Sherlock abriu sua boca para responder, mas a mão de Mycroft bateu no braço da poltrona, o interrompendo.
— Eu sou um tolo de primeira categoria! — Mycroft gritou, surpreendendo James Phillimore. — É claro! A resposta é óbvia!
— É? — Phillimore perguntou.
— A carta não estava aqui, evidentemente — Sherlock disse. — Os três homens procuraram exaustivamente por ela. Portanto ela deveria estar em algum outro lugar. Ocorreria a eles que, tendo você talvez dito alguma coisa, ou talvez por causa da fotografia que tem emoldurada aqui, que você estava prestes a se casar. É possível, eles pensariam, que você tivesse entregado a carta para que sua noiva a guardasse em segurança. Eles descobriram onde Emma vivia e decidiram invadir nossa casa e revistá-la.
— Eles não poderiam fingir ser decoradores — Mycroft observou. — Nós não necessitamos de decoradores e, além do mais, estávamos enlutados. Não era o melhor momento para eles aparecerem na nossa porta oferecendo esse tipo de serviço.
— Eles tiveram que esconder seus rostos — Sherlock observou. — Obviamente, se fossem descobertos em nossa casa, seria o fim do jogo. Emma no mínimo os teria reconhecido, se ela já os tivesse visto aqui, na casa do Sr. Phillimore. — Ele olhou para Phillimore. — Ela já os viu?
— Creio que ela deve ter estado aqui quando eles trabalhavam — Phillimore disse, franzindo o cenho. Seu olhar foi até Mycroft, e então para Sherlock, e ele corou. — Nós estávamos acompanhados, é claro — ele disse. — A tia de Emma... a tia de vocês... esteve aqui conosco o tempo todo.
Mycroft deu de ombros.
— Nós temos assuntos mais importantes para nos preocuparmos agora do que honra e moralidade. Estes homens poderiam ter matado meu irmão na busca pela carta quando ele os descobriu, e acredito piamente que eles estariam prontos para torturá-lo até que você lhes desse a carta. Eles são homens sem princípios, homens perigosos. Algo precisa ser feito.
— A chave — Sherlock falou, — provavelmente é a carta. Precisamos descobrir o que tem dentro dela. Eles queriam a carta porque havia algo nela que eles queriam saber, ou queriam impedir que o Sr. Phillimore a recebesse?
— Egito? — Phillimore disse subitamente, com a expressão sombria. — Você disse que a carta veio do Egito? Creio que me ofereceram um trabalho no Egito. Não deu certo no final das contas, mas não fiquei demasiadamente chateado... quente demais, longe demais. Eu não queria deixar a querida Emma por nenhum período de tempo.
— De fato, — Mycroft disse secamente. — Tenho certeza que ela teria ficado terrivelmente abatida. — Ele abriu as laterais do envelope, abrindo-o, então retirou a carta de dentro dele. Olhou para Phillimore, uma sobrancelha erguida, checando se ele ainda podia ler a carta. Phillimore assentiu. — Querido irmão — ele leu.
— Bom Deus! — Phillimore exclamou — é de Jonathan, meu irmão mais novo! — Ele franziu a testa. — Mas porque motivo ele estaria escrevendo para mim?
— Você e ele estão brigados? — Mycroft perguntou.
— Estamos. Não o vejo há anos. Nós dois treinamos para sermos engenheiros, mas havia muita competição entre nós dois, e nós discutimos.
  Mycroft assentiu.
— Acontece em muitas famílias — ele disse. — Continuarei a ler.

Peço desculpas por escrever subitamente dessa maneira. Sei que esta carta será uma surpresa para você, dada nossa mútua história de competirmos ou ignorarmos um ao outro. Quando crianças, lembro-me que éramos inseparáveis, e aprontávamos todos os tipos de truques e pegadinhas. Lamento o fato de as coisas terem mudado, e que algum tipo de parede invisível tenha crescido entre nós.
Estou escrevendo do Egito porque sei que você se candidatou para o trabalho de engenharia no qual estou atualmente empregado. Espero que possa deixar para trás qualquer sentimento ruim sobre o modo como o tratei e encontre a habilidade de ajudar um homem que se encontra em um dilema. Eu nunca fui capaz de segurar a vela para iluminar o caminho dos necessitados.

— Ah! — Phillimore exclamou. — Eu sabia. Tudo o que eu tinha, ele também tinha que ter, e o que eu desejasse, ele também desejava. É por isso que eu não tenho nenhuma intenção de contar a ele sobre a minha querida Emma!
— Você foi entrevistado para este emprego? — Mycroft perguntou.
— Fui, mas recebi uma carta dizendo que minha experiência não era suficiente para seus propósitos. Isso é provavelmente uma coisa boa... a temperatura e as doenças do Egito não são do meu agrado. Penso que eu estava passando por alguma fase rebelde quando me candidatei. Já superei isso agora.
Mycroft ergueu uma sobrancelha.
— O que era este trabalho? — ele perguntou.
— Era um projeto liderado pelos franceses para escavar um canal entre o mar Mediterrâneo e o mar Vermelho. — Phillimore respondeu. — Eles estavam contratando todo tipo de especialização em engenharia, e pensei que teria uma chance. É, até onde consigo compreender, um projeto muito ambicioso.
— Creio que já ouvi falar alguma coisa a respeito disso — Mycroft falou. — O projeto está quase terminado. O Governo Britânico é contra algo tão imprudente e extremamente ambicioso. Nós estamos muito satisfeitos com a atual situação em termos de expedição e comércio internacional. — Ele continuou a ler.

Você já deve saber, tenho certeza, que o projeto em que estou atualmente envolvido é muito importante. Escavar um canal com 102 milhas de comprimento e 26 pés de profundidade entre o Mediterrâneo e o mar Árabe e enchê-lo com água é, talvez, o trabalho de engenharia mais difícil já tentado. As recompensas, entretanto, são ótimas – se der certo, se nós formos bem sucedidos, então os navios poderão utilizar este canal para chegar até os comércios no lado Ocidental da África, na Índia e na China. O projeto não é puramente de teor econômico, no entanto – a viagem em torno da África é, como você deve saber, perigosa, e muitos marinheiros de diversos países perdem suas vidas todos os anos fazendo isso. Se nós criarmos esse canal, então as vidas de muitos ingleses serão salvas, e essa é a razão pela qual estou tão entusiasmado com este projeto.
Eu não sei com qual frequência (se é que há alguma) você tem acompanhado o progresso deste projeto nos jornais. Sei que a imprensa britânica, refletindo as opiniões do Governo Britânico, não é a favor da mudança no poder econômico que resultará quando o canal estiver pronto, então não reporta sobre o projeto em termos favoráveis. Há, eu acredito, mais ênfase no fato de que os trabalhadores neste projeto são efetivamente trabalhadores escravos (uma situação que não seria tolerada na Inglaterra, é claro, mas que tem sido comum aqui desde a construção das pirâmides) e o fato de que centenas deles inevitavelmente morreram – alguns de lesões causadas durante a escavação e outros de doenças que são endêmicas da área. Estas são tragédias, é claro, mas qualquer projeto de qualquer importância resultará em mortes. Pense em quantos homens morreram durante a construção das ferrovias da Inglaterra. Alguém sinceramente acha que as ferrovias não deveriam ter sido construídas só porque pessoas morreriam e de fato morreram como resultado? E pelo menos aqueles trabalhadores britânicos foram pagos!
De qualquer maneira, o canal, quando estiver terminado, será provavelmente chamado de Canal de Suez (ou, em Árabe, Qanāt al-Sūwais). Isso porque o ponto final ao sul será no Porto Tewfik, na cidade de Suez. O ponto ao norte ficará em um lugar chamado Porto Said. Nenhum desses lugares é um local onde eu gostaria de passar um grande período da minha vida, devo admitir. Este país todo é muito sujo, quente e caótico demais para o meu gosto, mas estou sendo bem pago para fornecer minha experiência em engenharia, então terei que enfrentar estas privações pelo bem da minha futura estabilidade financeira.
Pode lhe interessar saber que o canal será de pista única, diferentemente da maioria dos canais britânicos, e com paradas em Ballah e no Grande Lago Amargo. Não haverá comportas; ao invés disso, a água do mar fluirá livremente por ele. No geral, a parte do canal ao norte dos Lagos Amargos fluirá rumo ao norte no inverno e rumo ao sul no verão, enquanto a parte sul dos lagos mudará quando a maré mudar em Suez.
O homem responsável por toda a construção do projeto, e, portanto meu superior, é Ferdinand de Lesseps – um francês, é claro, mas mesmo assim muito cordial e inteligente. Ele está trabalhando com planos desenvolvidos por seu conterrâneo Linant de Bellefonds. Acho irônico que os franceses sejam tão envolvidos com a construção deste canal, dado que o Imperador Napoleão havia previamente contemplado a construção de um canal norte-sul para unir o Mediterrâneo e o Mar Vermelho, mas teve que abandonar o projeto quando uma errônea inspeção preliminar concluiu que o Mar Vermelho era 33 pés mais alto que o Mediterrâneo, e precisaria de diques que eram caro demais e consumiriam muito tempo para serem construídos. O erro aparentemente veio do fato de que as medidas na terra eram feitas principalmente durante períodos de guerra, e em um número de ocasiões e lugares separados, o que resultou em cálculos imprecisos.
Percebo, a propósito, que esta carta chegará até você não somente como um raio saído do nada, mas também talvez como uma comunicação indesejável de um membro da família com quem você frequentemente esteve em desacordo (e isso, temo, é tudo culpa minha). Mesmo assim, tenho esperança que você possa colocar qualquer desentendimento de lado e retribuir a mão da amizade que estou lhe estendendo daqui do Cairo.
Espero ter notícias suas o quanto antes, mas se eu não tiver, fique com meus melhores cumprimentos,
Seu irmão, Jonathan.

Sherlock e Mycroft se encararam.
— Esta carta era aparentemente importante o suficiente para que um ladrão entrasse em nossa casa e que um assaltante entrasse aqui na casa do Sr. Phillimore — Sherlock falou — mas ela não diz realmente nada.
— À primeira vista — Mycroft meditou, — há de fato muito pouco aqui. A carta é meramente uma longa descrição do projeto que o Sr. Jonathan Phillimore tem trabalhado, e no qual seu irmão James aqui falhou em obter um emprego. — Ele olhou para dentro do envelope. — Não há mais nada aqui... nenhum outro pedaço de papel ou algum documento. — Ele cheirou o envelope e franziu a testa, mas não disse nada. — Esta é uma situação difícil, Sherlock, — ele disse, balançando a cabeça. — Muito difícil, de fato. Eu gostaria que tivéssemos mais informações para continuar.
— Aqueles trabalhadores retornarão — Sherlock observou. — Por que nós simplesmente não perguntamos a eles?
Mycroft ergueu uma sobrancelha.
— Por favor, explique-se.
Se os três homens que deixaram esta casa mais cedo forem os três homens que invadiram o Chalé Holmes, então eles teriam me reconhecido de quando me atacaram. Eles tiveram uma boa visão do meu rosto. Eu não os reconheci imediatamente e não soei o alarme, então eles acreditam que os seus disfarces de casacos pretos e rostos cobertos foram suficientes para esconder suas identidades. Eles deixaram o Sr. Phillimore aqui, tencionando retornar mais tarde e questioná-lo sobre a carta. Eles até nos disseram que estavam apenas saindo para almoçar, e que retornariam. Pensaram que ou nós iríamos embora quando o Sr. Phillimore não retornasse, ou procuraríamos por ele na casa e não o encontraríamos, e então iríamos embora de qualquer maneira. Não há nenhum motivo para eles não retornarem. Até onde eles sabem, eles não foram identificados, seu segredo está a salvo e o Sr. Phillimore ainda está aqui, preso dentro de uma parede.
— Você sugere que permaneçamos aqui até que eles retornem, os rendamos e então perguntemos a eles o que há de tão importante com a carta? — Mycroft encarou Sherlock por algum tempo. — Somente nós três... um funcionário público acima do peso, um engenheiro abaixo do peso e um garoto que foi recentemente esfaqueado? Admiro sua confiança, mas não posso apoiar seu plano.
Sherlock refletiu por um momento.
— O mais óbvio a fazer seria ligar para a polícia — ele admitiu.
— Certamente — Sr. Phillimore interrompeu.
— O problema é — Sherlock continuou — que a polícia certamente não veria nada a ser investigado. Eles poderiam, com sorte, acreditar que o Sr. Phillimore foi vítima de alguma travessura, mas tudo o que fariam seria ter uma conversa dura com os decoradores. Os decoradores ou afirmariam que nada aconteceu, ou aproveitariam a primeira oportunidade para fugir. De qualquer maneira, nós seríamos deixados aqui sem saber o que estava acontecendo.
Mycroft assentiu com sua enorme cabeça.
— Bem observado, Sherlock, mas eu não vejo alternativa. Posso perguntar aos meus superiores nas Relações Exteriores sobre o que pode estar acontecendo no Egito, mas duvido que eles se interessassem.
Sherlock ficou em silêncio por algum tempo. Ele estava fazendo o que Amyus Crowe havia lhe ensinado: fazendo um inventário de todos os recursos que ele tinha à mão – não somente os mais óbvios, mas coisas que poderiam estar facilmente disponíveis para ele, se ele tão somente soubesse que elas estavam lá.
Momentos depois, todo um plano se materializou em sua mente, completamente formado. Era arriscado, possivelmente até ilegal, mas era a única maneira de descobrir o que estava acontecendo.
— Presumo — ele falou — que nossa mãe estava... sendo medicada em seus dias finais.
— Ela estava tomando morfina para controlar a dor — Mycroft disse calmamente. — O médico da nossa família prescreveu para ela.
— E a morfina ainda está no quarto dela?
— Está. — Mycroft fechou seus olhos. Seu rosto se contorceu como se um espasmo de dor tivesse passado por sua cabeça. — Percebo o que está propondo. Corrija-me se eu estiver enganado. Nós enviamos alguém até a casa para buscar a morfina. Enquanto isso, nós... eu, você e o Sr. Phillimore... nos escondemos em algum lugar da casa. Quando os três decoradores do mal retornarem, a empregada lhes prepara uma xícara de chá. Sem o conhecimento deles, a bebida estará adulterada com morfina. Eles desmaiam, então nós saímos de nosso esconderijo e os amarramos. Quando eles acordarem, nós os interrogamos sobre o que está acontecendo. — Ele suspirou. — Há diversos obstáculos, Sherlock. Primeiro, eles podem retornar antes que a morfina chegue do Chalé Holmes, e então o que faríamos? Segundo, nenhum de nós está em posição de julgar a dosagem correta da morfina. Nós poderemos administrar uma quantia grande demais e matá-los. Terceiro, tendo acabado de retornar do almoço, eu sugeriria que nós não podemos garantir que todos eles aceitariam uma xícara de chá.
— Oh — Sherlock ficou cabisbaixo. Ele ficou tão animado com seu plano que falhou em observar as falhas óbvias.
— Talvez eu possa fazer uma sugestão — Sr. Phillimore interrompeu.
Sherlock e Mycroft se viraram para olhar para ele.
— Eu tenho uma poção soporífica lá em cima no meu quarto. — Ele deu de ombros, e pareceu ligeiramente envergonhado. — Eu durmo muito mal até mesmo nos meus melhores dias, e as poções que o meu farmacêutico prescreve para mim me colocam para dormir rapidamente. Estou bastante familiarizado com a dose necessária. E depois, há um pouco de cidra em um jarro na despensa. Se fosse oferecida a cidra ao invés de chás para os bandidos, suspeito que eles agarrariam a oportunidade.
Mycroft sorriu.
— Sr. Phillimore, eu o subestimei. Você aprimorou o plano de Sherlock ao ponto de torná-lo viável. Entretanto, eu apontaria que o senhor deverá, é claro, explicar à sua empregada o que está acontecendo, e pode ser que ela não queira estar envolvida com algo que beira a lei.
Phillimore balançou sua cabeça.
— Eu sugeriria que nós colocássemos sonífero suficiente para três homens grandes na jarra, e meramente sugerir à cozinheira que ela deve servir a cidra aos decoradores no momento que eles retornarem. Ela pode dizer que eu não estou aqui, e que a cidra precisa ser utilizada antes do fim do dia, ou algo assim. Creio que eles aceitarão. — Ele bufou. — Eles parecem ser o tipo de homens que não deixariam passar a chance de tomar uma bebida.
— Eu concordo — Mycroft disse — embora suspeite que o senhor precisará encontrar alguma explicação para sua cozinheira e sua empregada em relação ao que tem acontecido nesta casa hoje. Com você desaparecido, Sherlock e eu vasculhando a casa e depois o senhor reaparecendo coberto de reboco, acho que elas podem estar à beira de pedir demissão.
— Oh, eu penso que não — Phillimore disse, franzindo a testa. — Elas estão acostumadas com minhas excentricidades. — Ele olhou para Sherlock. — Pelo menos, outras pessoas me disseram que sou excêntrico. Eu mesmo não vejo isso.
— Acredite em mim — Sherlock disse. — O senhor é excêntrico.
— Emma acha isso cativante, — Phillimore disse, sorrindo timidamente.
— Ela vem de uma família igualmente excêntrica — Sherlock observou.
— Nesse meio tempo — Mycroft continuou, interrompendo — eu enviarei um telegrama aos meus superiores, visto que pode haver uma dimensão internacional para tudo isto. Eles podem querer me advertir, ou fazer seus próprios interrogatórios. — Ele checou seu relógio. — Nós devemos agir rapidamente, para que estejamos preparados quando eles reaparecerem.
Os próximos minutos foram tomados com o Sr. Phillimore correndo escada acima e pegando as poções soporíficas, então correndo até a despensa onde ministraria a droga na cidra e diria à cozinheira para servi-la aos decoradores quando eles chegassem. Enquanto isso, Sherlock observava pela janela, pronto para emitir um alerta se os homens retornassem, e Mycroft escreveu um rápido telegrama em um pedaço de papel. Quando o Sr. Phillimore retornou à sala, ele chamou a empregada e disse a ela que levasse o telegrama direto à agência dos correios e p despachasse, e depois tirasse a tarde de folga para que ela ficasse longe da casa.
Dez minutos depois que ela saiu, Sherlock avistou um movimento na rua. Três homens caminhavam em direção a casa.
— Acho que eles estão aqui — ele falou.
— Então devemos ir lá para cima — Mycroft disse. — Sr. Phillimore, tem certeza de que a cozinheira dará conta do trabalho?
— Ela entende o que deve ser feito — Phillimore disse. Ele ergueu uma sobrancelha. — Creio que ela se afeiçoou ao Sr. Throop. Dar a ele uma taça de cidra não será um problema para ela, presumo.
— O senhor contou a ela o que colocou na cidra? — Mycroft perguntou.
— Certamente que não! Achei que fosse melhor ela não saber de nada. Falei para ela que abrisse a porta quando escutasse o batente e que informasse aos homens que eu tinha saído por um tempo. Eles suporão que ela simplesmente não havia me visto, quando de fato eu ainda estava encarcerado na parede de meu próprio quarto de hóspedes. — Ele hesitou. — Eu também lhe falei — acrescentou — para deixar os homens entrarem e ir para a cidade comprar alguns vegetais, carne e peixe. Ela estava relutante em deixar os homens sozinhos, então eu lhe disse que a empregada Marie retornaria em breve, e que não havia motivo para preocupação. — Ele retirou seus óculos e começou a limpá-los. — Ela é uma boa mulher, e eu não gostaria que ela se assustasse quando todos os homens caírem no sono ao mesmo tempo.
— Bem pensado. — Mycroft guiou o caminho até o corredor e escada acima.
Sherlock teve que resistir a tentação de empurrar seu irmão, que tinha dificuldade em subir cada degrau, e tinha que usar o corrimão para içar seu corpo para cima. O Sr. Phillimore ficava olhando por cima de seu ombro nervosamente, esperando que os decoradores passassem pela porta a qualquer instante, mas Sherlock sabia que eles ainda levariam alguns minutos para cobrir a distância de onde ele os havia visto até a casa.
Eles chegaram ao corredor no topo da escada e se dirigiram a um dos cômodos que não estava sendo decorado quando ouviram o batente da porta.
— Ocorre-me — Mycroft disse calmamente — que o nosso plano não dará em nada se for o carteiro ao invés dos decoradores.
— Desde que a cozinheira não decida dar a ele uma taça de cidra — Sherlock murmurou. — E ocorre a mim que os homens podem vir direto aqui em cima checar se o Sr. Phillimore ainda está onde o deixaram. Se eles fizerem isso, verão que ele foi resgatado.
Mycroft balançou sua cabeça.
— Eles não têm motivo para pensar que ele possa ter sido encontrado, e quererão mantê-lo dentro da parede por um tempo para amansá-lo, deixá-lo mais propício ao interrogatório. Além do mais, não acho que eles recusariam a chance de alguns refrescos antes de retornar ao trabalho. Interrogar é um trabalho que dá sede.
Da segurança do quarto onde estavam, eles escutaram a porta sendo aberta, e várias vozes – uma feminina e as outras masculinas. Eles escutaram atentamente por qualquer sinal de alguém subindo as escadas, mas ao invés disso as vozes se distanciaram conforme os homens seguiam a cozinheira pelo corredor até a cozinha, e à cidra.
— Por quanto tempo devemos esperar? — Sherlock perguntou.
— Nós devemos ser capazes de escutar a conversa ir se arrastando conforme eles vão caindo no sono, e então cessar quando eles efetivamente dormirem — Mycroft respondeu. — É aí que nós devemos agir.
Eles ouviram os passos da cozinheira retornando ao corredor, e então o som da porta de entrada abrindo e fechando. Sherlock sentiu um arrepio de ansiedade enquanto percebia que eles três estavam agora sozinhos na casa com três perigosos bandidos, e dentre eles, só confiaria nele mesmo em uma briga.
— Com qual rapidez essas poções agem quando você as toma? — Mycroft perguntou a James Phillimore.
— Geralmente em vinte minutos já estou dormindo — ele respondeu em um sussurro. — Mesmo que eu esteja lendo, eu durmo. Frequentemente acordo de manhã com meus óculos ainda no nariz e um livro em meu colo.
— Então, bem rapidamente — Mycroft disse. Ele olhou para seu relógio. — Vamos esperar meia hora, para termos certeza.
Enquanto os três sentavam ali em silêncio, esperando que os criminosos no andar de baixo dormissem, Sherlock se lembrou das várias ocasiões quando era ele quem estava sendo drogado, ao invés de outra pessoa. Alguns anos atrás os agentes de uma organização internacional criminosa se que autodenominavam Câmara Paradol o haviam derrubado com láudano e o transportado através do canal inglês até a França. Mais ou menos um ano depois disso eles fizeram o mesmo com um spray de algum tipo de droga – provavelmente morfina – diretamente em seu rosto para que ele o cheirasse. Ele se lembrava das duas ocasiões o quão leve seus sonhos tinham sido, e como não tinha nem se dado conta de que estava drogado. Acordar na França da primeira vez e em um asilo de lunáticos na segunda havia sido um choque, entretanto, mas da maneira como a droga o havia feito se sentir ele podia entender como algumas pessoas podiam ficar viciadas nisso.
Mycroft checou seu relógio novamente, e disse:
— Já se passou meia hora, e eu não ouço nenhuma conversa no andar de baixo. Vamos descer e checar seus trabalhadores, Sr. Phillimore.
Os três desceram as escadas juntos e se moveram silenciosamente pelo corredor até a cozinha. Três homens – os mesmos três que Sherlock havia visto saindo da casa do Sr. Phillimore antes – estavam sentados na mesa da cozinha. Um deles havia desabado para frente com a cabeça sobra os braços, enquanto os outros dois estavam reclinados contra o encosto da cadeira. Todos roncavam. Um jarro vazio e três copos estavam sobre a mesa.
Sherlock os encarou. Se ele estava certo, então estes três homens haviam tentado assaltar a casa de sua família, e o haviam atacado quando ele tentou segui-los. Eles tentaram matá-lo, e agora aqui estavam, completamente à mercê dele.
Ele tentou ver neles alguma característica reconhecível, algo que confirmasse que esses eram os mesmos homens. Um deles tinha um curativo em volta do braço, ele notou. Este deve ter sido o homem cujo braço ele atacou com um galho de árvore. Outro tinha um hematoma roxo na parte da frente do pescoço, dando a aparência de que ele não havia se barbeado. No fim das contas, ele não saberia a não ser que eles confessassem. A evidência só podia levar uma pessoa até certo ponto – ela era indicativa, mas raramente definitiva.
— Misericórdia!
Os três se viraram. Parada na porta estava Marie – a empregada do Sr. Phillimore. Ela estava segurava diversas sacolas de compras, e encarava os três homens dormindo ao redor da mesa em choque.
— Ah, Marie, — o Sr. Phillimore disse. — Isso é... ah...
— De fácil explicação — Mycroft interrompeu suavemente. — Os decoradores do Sr. Phillimore têm trabalhado arduamente por algum tempo, como você sabe. Infelizmente, a cola de papel de parede que eles misturaram antes contém um produto químico que se destina a prevenir que mofos e fungos cresçam, mas também provou ter um efeito soporífico no corpo humano. Eles caíram no sono. Sugiro que saia da cozinha, minha garota, e nos deixe lidar com eles.
Ela olhou para ele como se ele estivesse falando em chinês.
— Você não deveria chamar um médico? — ela perguntou. — Quero dizer...
— Nós chamaremos — Phillimore disse. — Sugiro que realize suas tarefas, Marie. Creio que o andar de cima precise de limpeza.
— Sim, senhor — ela disse, e então, olhando para Mycroft: — Oh, senhor, eu retornei à agência dos correios para ver se havia alguma resposta ao seu telegrama, e havia. Deve ter sido respondido com muita urgência. Eu o trouxe.
Ela entregou um envelope marrom lacrado para Mycroft e então saiu, olhando em dúvida por cima de seu ombro.
— Cola de papel de parede? — Sherlock disse para Mycroft, sorrindo.
— Foi a primeira coisa que veio à minha mente — ele disse. Ele estava usando sua faca dobrável para abrir o envelope enquanto falava. Ele retirou um pedaço de papel e o leu. Sua expressão ficou nublada, uma careta delineando sua expressão geralmente indecifrável.
— Más notícias? — Sherlock perguntou.
— Uma mudança de planos — Mycroft disse pensativamente. Ele leu o telegrama novamente, então o rasgou em pequenos pedaços e colocou esses pedaços dentro do bolso do seu casaco como se fosse a coisa mais normal do mundo. Ele ergueu os olhos para dar de encontro com Sherlock observando-o com um ar de questionamento. — Se eu amassar o telegrama e jogá-lo fora, alguém pode recuperá-lo e lê-lo — ele explicou. — Se eu o rasgar e então jogá-lo fora então alguém poderia reconstruí-lo com os pedaços. Se eu ficar com os pedaços e jogá-los fora gradualmente, ao longo do dia, então é muito mais difícil que alguém descubra o que estava escrito nele.
— O que é tão importante? — Sherlock perguntou, intrigado.
Mycroft olhou para ele por algum tempo.
— Eu não envio, nem recebo, telegramas triviais — ele disse enigmaticamente.
— As pessoas realmente coletam pedaços de um telegrama rasgado e o montam de novo para poderem ler o que está escrito? — ele perguntou. — Isso parece algo tirado de um livro!
Mycroft se endireitou.
— Eu tenho — ele disse mal-humorado — ganhado uma significante vantagem diplomática coletando pedaços de mensagens rasgadas e então as montando novamente ao seu estado original. — Ele fez uma pausa. — Bem, — ele acrescentou, — quando digo “eu”, quero dizer que meus agentes fazem isso. Vasculhar lixeiras está abaixo da minha dignidade. — Ele se voltou para Phillimore. — Decidi — ele falou, abruptamente mudando de assunto, — que nós deveríamos levar estes homens até nossa casa. Presumo que o senhor não tenha um grande apego com eles, e que preferiria vê-los partir?
— De fato — Phillimore disse — com a condição de que terei que encontrar uma nova equipe de decoradores para reparar os danos causados por esses homens. — Ele fez uma pausa, franzindo a testa. — Espero que o senhor me conte os resultados do interrogatório — ele acrescentou. — Eu detestaria ser deixado no escuro.
— Contarei o que puder — Mycroft disse misteriosamente. Ele mudou seu olhar para Sherlock. — Preciso que você entregue uma mensagem para Rufus Stone. Traga-o aqui com uma carruagem. Traga o jovem Matty... creio que precisaremos de toda ajuda que precisarmos.
Sherlock estava confuso.
— Você não está intencionando levar estes homens de volta ao Chalé Holmes, está? — perguntou.
Mycroft assentiu.
— Eles podem ser melhor controlados lá — ele disse, decidido.
— Mas... — Sherlock começou.
— Não. — Mycroft bateu com sua mão na mesa da cozinha. — Não haverá discussão, Sherlock, — ele disse com raiva. — Estes homens retornarão conosco!

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