2 de janeiro de 2018

Capítulo seis

UM DOS QUARTOS ESTAVA sem móveis. O carpete também havia sido removido, deixando o piso de madeira descoberto, e as cortinas também haviam sido removidas. Sherlock lembrava-se de ter visto o carpete enrolado no corredor. Três paredes do quarto foram recentemente rebocadas e ainda estavam úmidas, enquanto a quarta parede havia sido coberta com papel de parede floral. A estampa não era do gosto de Sherlock – parecia antiquada, mas assim era James Phillimore. Um balde de gesso, um balde de massa para papel de parede, muitos rolos de papel de parede e algumas ferramentas haviam sido deixados no canto. Sherlock olhou rapidamente ao redor, mas não havia lugar para um homem se esconder – mesmo um homem tão magro quanto o noivo de sua irmã.
No corredor, perto do banheiro, um alçapão dava acesso ao sótão. Ele estava fechado com parafusos. Sherlock estava prestes a deixá-lo para trás, mas então ocorreu a ele que talvez James Phillimore tivesse subido até o sótão, e então alguém – talvez a empregada – tivesse aparafusado o alçapão depois que ele tivesse subido e removido o que quer que ele tenha utilizado para escalar até lá. Isso significaria que existia algum tipo de conspiração para esconder o Sr. Phillimore, mas Sherlock estava começando a ficar sem opções de lugares para onde o homem pudesse ter ido.
Ele buscou um banquinho em um dos quartos e o utilizou para alcançar o alçapão. Retirou o parafuso e empurrou o alçapão para cima. Poeira caiu em seus olhos. O espaço revelado era escuro, mas quando ele colocou a cabeça para dentro e esperou por um momento até que seus olhos se acostumassem com a escuridão, ele começou a ver pequenas partículas de poeira vistas através de rachaduras na alvenaria e pelas telhas. Elas revelavam que o sótão estava completamente vazio. Não havia espaço, nenhuma área na sombra onde James Phillimore pudesse se esconder. Sherlock aparafusou o alçapão novamente, desceu e devolveu o banquinho de volta ao quarto.
Vagarosamente, desceu as escadas para onde Mycroft aguardava impacientemente. A empregada ainda estava de pé perto dele, obviamente sem querer deixar um homem louco e perigoso sozinho.
— Então? — seu irmão perguntou.
— Nada. — Sherlock disse. — Eu procurei em todo lugar.
Mycroft balançou sua cabeça em frustração.
— Ele deve estar em algum lugar! — Ele se voltou para a empregada. — Há um porão nesta casa?
— Não, senhor.
Ele suspirou.
— Sherlock, procure nos cômodos aqui embaixo também. Cheque as chaminés e os aparadores. Deixe a cozinha por último.
Sherlock fez o que lhe foi dito, procurando no cômodo da frente, na sala de estar e na sala de jantar. Cada um era decorado com móveis razoavelmente antigos e com gravuras de edifícios e pontes – obviamente coisas que apelavam para o treinamento em engenharia de James Phillimore. Ele checou cada armário que fosse grande o suficiente para esconder um homem, e a maioria dos que não eram, mas todos estavam vazios com exceção dos habituais escovas, vassouras e enfeites de Natal guardados. Ele também verificou as janelas cuidadosamente, prestando atenção em particular às janelas francesas que levavam até o jardim, mas todas estavam trancadas e o espaço atrás das cortinas estava vazio.
As poças de água, os arbustos e o terreno lá fora aparentavam estar imperturbados tanto nessa direção quanto do lado de fora, e havia poeira suficiente no peitoral das janelas para sugerir primeiramente que o Sr. Phillimore não havia saído por elas e em segundo lugar que a sua empregada estava sendo negligente com suas tarefas.
Ele retornou até seu irmão no corredor. A empregada havia finalmente se retirado.
— Nada. Absolutamente nenhum lugar em que um homem pudesse se esconder, e ainda assim nenhum modo como ele poderia ter saído.
— Há somente uma possibilidade restante — Mycroft anunciou. — Ele deve ter saído pela porta dos fundos, e a cozinheira está mentindo quando diz que não o viu.
— Ou a cozinheira é o Sr. Phillimore disfarçado — Sherlock observou, — e é a empregada quem está mentindo.
Mycroft guiou o caminho até os fundos da casa, se espremendo pela estreita porta da cozinha. A cozinheira – uma mulher grande com antebraços como de um estivador – abria uma massa na mesa da cozinha.
A empregada estava de pé do outro lado da mesa, e julgando pela cor do rosto da cozinheira, as duas conversavam sobre a invasão de Mycroft na casa. No lado oposto do cômodo estava uma porta que levava, ele presumia, a uma despensa, e então para o jardim.
— Sobre o que se trata tudo isso então? — ela o desafiou. — Entrando na casa de um cavalheiro sem ser anunciado e sem ser convidado. Nós deveríamos chamar a polícia, isso é o que deveríamos fazer!
— Fique à vontade, — Mycroft disse. — Há algo estranho acontecendo aqui, isso é muito óbvio. Agora, você mantém a palavra de que seu senhor não entrou nesta cozinha e deixou a casa pela porta dos fundos?
— Eu mantenho — ela disse, esquadrinhando-o, com o rolo de massa erguido em posição de desafio. — E qualquer homem que diga o contrário é um mentiroso!
Sherlock olhou além dela, para o chão que estava entre ela e a despensa.
— Há farinha no chão — ele observou. — O Sr. Phillimore não poderia ter saído sem deixar pegadas.
— A não ser que esta boa senhora aqui tenha espalhado a farinha depois que ele passou — Mycroft disse.
A cozinheira parecia engolir com raiva. Sherlock passou por ela rapidamente, antes que ela explodisse, e entrou na despensa. As prateleiras estavam estocadas com comida, e havia a porta que levava ao jardim dos fundos, da qual ele lembrava ter visto antes. Ele olhou através do vidro. A porta abria diretamente no terreno, mas ainda não havia marcas indicando que alguém havia caminhado na terra macia, e as gotículas de água da chuva anterior ainda estavam agarradas nas folhas da grama.
— Isso não é bom — ele disse, retornando à cozinha. — Não consigo ver nenhum vestígio de alguém saindo por aqui.
— Então para onde o homem foi? — Mycroft exigiu, batendo com sua bengala nos azulejos do chão da cozinha. — Para onde ele pode ter ido?
Sherlock fechou seus olhos e refletiu por um momento, tentando resolver o quebra-cabeça que havia sido apresentado a eles.
— Você concorda comigo que nenhum dos decoradores que deixou a casa poderia ser o homem que vimos na porta de entrada? — ele perguntou, com os olhos ainda fechados.
— Concordo — seu irmão respondeu. — Eles eram mais baixos, e mais largos nos ombros, e a fisionomia de seus rostos era completamente diferente da fisionomia do Sr. Phillimore.
— Ocorreu a mim — Sherlock falou — que nós não sabemos de fato se o homem com quem falamos era o Sr. Phillimore. A empregada voltou para dentro de casa, e então ele apareceu, mas nós nunca vimos os dois juntos. O mesmo com a cozinheira aqui.
— Se você está sugerindo que alguma dessas senhoras aqui é o Sr. Phillimore em algum tipo de disfarce então eu sugeriria que você repensasse sua teoria. Ambas são muito baixas, e nenhuma delas é magra o bastante. — Ele lançou um olhar crítico para a empregada e a cozinheira. — Suponho que poderia haver algum tipo de preenchimento envolvido, mas a altura do cavalheiro que falou conosco lá fora seria impossível de disfarçar. E ele não estava vestindo algo que faria com que parecesse mais alto. Eu analisei muito bem seus sapatos, assim como faço com todos que conheço. Sapatos podem ser muito instrutivos, penso. — Ele fez uma pausa. — Admito que o homem com quem conversamos pode não ter sido o Sr. Phillimore, como nós não fomos formalmente apresentados, mas seja quem for, está agora desaparecido.
Sherlock olhou para a empregada.
— Você teria alguma fotografia do Sr. Phillimore pela casa? — ele perguntou.
— Creio que há uma na sala de estar, — ela disse em dúvida. Depois de um longo momento ela acrescentou: — Gostaria que eu buscasse para o senhor?
— Se não for muito trabalho.
  A empregada saiu apressada. A cozinheira olhou para Mycroft e Sherlock, fungou, e disse:
— Se não se importam, cavalheiros, retornarei às minhas tarefas. Estas tortas não assarão sozinhas.
— Sairemos do seu caminho — Mycroft disse.
Os dois retornaram ao corredor de entrada justamente quando a empregada saía da sala de estar. Ela segurava uma pequena fotografia em sua mão.
— Este é o senhor Phillimore — ela disse, entregando-a.
Sherlock e Mycroft checaram a fotografia. Ela mostrava o homem com quem eles haviam conversado do lado de fora da casa – o homem alto com costeletas, bigode e olhos azuis insípidos – de pé ao lado de uma mulher sentada. A mulher era a irmã deles, Emma.
— Evidentemente este relacionamento é importante para o Sr. Phillimore — Mycroft observou — se ele se deu ao trabalho de ter uma fotografia dos dois juntos.
Sherlock notou algo a mais na imagem.
— Emma parece feliz — ele disse calmamente. — Mais do que isso, ela parece contente.
— Parece? — Mycroft respondeu. — Acreditarei na sua palavra a respeito disso.
— Pelo menos sabemos que o homem que conhecemos era James Phillimore — Sherlock observou.
— Esse parece ser o caso, mas a questão permanece... onde está o homem?
— E há outra questão — Sherlock falou. — Por que ele desapareceu tão repentinamente?
Algo incomodava Sherlock no fundo de sua mente. Ele tirou um momento para analisar o que lhe incomodava. Ele tinha visto alguma coisa – algo no andar de cima.
— O carpete enrolado! — ele anunciou.
— Havia um carpete enrolado no andar de cima? — Mycroft assentiu. — Presumo que havia um carpete faltando em um dos quartos?
— Havia!
— Então o Sr. Phillimore deve estar dentro do rolo. — Mycroft anunciou. — Uma vez que o impossível foi eliminado da sua mente, então o que restou deve ser a verdade, por mais improvável que seja.
Os dois correram escada acima até o corredor. Sherlock indicou o carpete enrolado que havia sido deixado ao longo do rodapé.
— Não parece largo o suficiente para acomodar um homem — ele observou.
— Talvez não, mas as aparências enganam. Lembre-se de que o Sr. Phillimore é alto e magro.
— Não tão magro assim. — Sherlock se ajoelhou e segurou o rolo. — Só há um modo de descobrir — ele falou e puxou. O carpete desenrolou ao longo do corredor.
Não havia nada dentro dele, a não ser poeira.
— Bem, isso foi bom, — Mycroft observou enquanto Sherlock enrolava novamente o carpete.
Sherlock permaneceu agachado por um momento, a mãos descansando no carpete.
— Ainda há algo me incomodando — ele disse, devagar. — Algo que vi aqui em cima.
— Eu já observei algumas vezes que distrair a mente com um assunto diferente frequentemente permite que façamos conexões que de outro modo não faríamos — seu irmão observou. — Nós não compreendemos o modo como a mente funciona da mesma maneira que compreendemos o corpo, o que é lamentável. O homem que conseguir explicar como o cérebro funciona seria, em minha opinião, muito famoso. Como está Charles Dodgson, a propósito?
A mudança repentina de assunto pegou Sherlock de surpresa.
— Ele está... tão bem quanto sempre esteve, suponho — ele disse. — Ele ainda fala sobre cobrir gralhas de miçandas, o que dá uma ideia de como ele brinca com as palavras, mas ele tem um ótimo cérebro. — Quando ele disse as palavras, foi como se um raio de repente iluminasse seu cérebro. — É claro! O papel de parede!
— Funcionou — Mycroft disse com satisfação em sua voz. — O que você percebeu?
Ao invés de explicar, Sherlock levantou e correu até o quarto que estava em processo de decoração. Mycroft o seguiu.
— Olhe em volta — Sherlock disse excitado. — O que lhe ocorre?
— Ocorre que o reboco está salpicado, e o papel de parede não está certo — Mycroft observou. Ele franziu a testa. — Também me ocorre, — ele disse vagarosamente, — que os decoradores geralmente deixam com que o reboco seque na parede antes de aplicar o papel de parede, mas aqui parece que eles começaram esse processo antes que a parede estivesse pronta. — Ele falou. — Olhe, o papel de parede já começou a enrolar nas pontas porque a parede está úmida.
Os dois se entreolharam.
— Podemos? — Sherlock perguntou apressadamente.
— Veja por este lado, — Mycroft respondeu. — Ou nós salvaremos um homem de uma bizarra e incomum prisão, e possivelmente salvaremos sua vida no processo, ou arruinaremos sua casa e acabaremos com as chances de nossa irmã de ter um casamento feliz.
— Então... as apostas estão bem altas. — Sherlock olhou para o rosto de seu irmão. A expressão de Mycroft era séria. — Nós temos certeza sobre isso?
— Como eu disse... quando o impossível foi eliminado da sua mente, então o que restou deve ser a verdade, por mais improvável que seja. É aparentemente impossível que James Phillimore tenha deixado esta casa, portanto ele ainda está aqui dentro. Você checou todos os cômodos e o sótão, e não o encontrou. Ele deve, portanto, estar entre os cômodos. É a única opção restante.
Sherlock assentiu. Respirando fundo, ele se inclinou para frente e segurou uma ponta do papel de parede, então o puxou.
O papel de parede desgrudou da parede facilmente. O reboco por baixo estava de fato ainda úmido, como o reboco nas outras três paredes. Um pouco desse reboco ficou no verso do papel de parede, revelando ripas horizontais de madeira que haviam sido fixadas entre vigas de madeira verticais.
— Um decorador decente não coloca papel de parede em reboco úmido — Mycroft disse. — A não ser que ele esteja tentando cobrir algo. Você consegue puxar algumas dessas ripas?
Sherlock pegou o martelo descartado no chão e colocou a parte de trás da cabeça do martelo na abertura entre duas ripas. Ele puxou com força. A ripa se soltou da parede com um rangido. Sherlock rapidamente puxou a próxima ripa.
O sol, brilhando através do vidro da janela do quarto, iluminou o espaço entre as ripas da parede e a parede do próximo quarto.
E o rosto agitado do Sr. James Phillimore.
Ele havia sido amordaçado com um pano sujo que fora amarrado ao redor de sua cabeça. Somente seu rosto estava visível, mas Sherlock presumiu que suas mãos e pernas também tivessem sido amarradas. Seus olhos saltaram e ele estava desesperadamente mexendo seu queixo: a única parte de seu corpo além dos olhos que ele conseguia mover.
— Tire-o daí, — Mycroft disse sombriamente.
Sherlock despedaçou as ripas, lançando-as de lado assim que elas se soltavam. Elas revelaram cada vez mais o poeirento – e coberto por reboco – traje do Sr. Phillimore. Cordas estavam amarradas ao redor de seu peito, braços e pernas.
Enquanto Sherlock removia mais ripas, James Phillimore caiu para frente. Sherlock e Mycroft o apanharam e o tiraram do espaço na parede onde estivera escondido. Eles o deitaram no chão e Sherlock retirou a mordaça de sua boca.
— Aqueles homens não são decoradores de verdade! — ele exclamou.
— Creio que já deduzimos isso por nós mesmos, — Mycroft disse secamente. — Você pode nos contar o que aconteceu?
— Eu vim falar com o Sr. Throop, mas ele me atacou, me deixando inconsciente. Quando acordei, alguns momentos depois, ele e seus homens haviam me amarrado e estavam fixando as ripas na parede. Eu os ouvi rapidamente espalhando reboco nas ripas, e então acho que desmaiei novamente. Eu realmente não entendo... o que está acontecendo? Eu não estava tão descontente com o trabalho deles.
— Primeiro permita-nos levá-lo lá para baixo e colocar um pouco de chá quente e doce para dentro de você — Mycroft disse. — Uma vez que você tenha se recuperado de sua provação, poderemos conversar sobre as razões pelas quais o Sr. Throop, se esse é mesmo o nome dele, poderia ter para aprisioná-lo de uma maneira tão bizarra. Sherlock, por favor, desamarre os braços e as pernas do Sr. Phillimore e ajude-o a descer as escadas.
Alguns minutos depois, o Sr. Phillimore estava afundado em uma poltrona em sua sala de estar, e Sherlock intimara a cozinheira a fazer um bule de chá. Mycroft e Sherlock sentaram um em cada lado do Sr. Phillimore enquanto ele bebia agradecidamente seu chá. Seu casaco e suas calças estavam cobertos de poeira, e havia gotas de reboco em seu cabelo e em seu rosto. Seu cabelo estava espetado selvagemente.
— Agora — Mycroft falou, recostando-se em uma poltrona que era pequena demais para ele. Os braços da poltrona apertavam seu corpo avantajado em volta do seu quadril, empurrando seu estômago para cima como um pão assado derramando para fora da forma. — Conte-nos tudo. Não deixe nada de fora: o menor, mais insignificante dos fatos pode se provar de vital importância.
— Muito bem. — Phillimore ergueu uma mão até sua testa. — Vocês dois haviam chegado do lado de fora da casa. Eu saí para falar com vocês. Nós combinamos de ir até a cidade para um chá da tarde. Eu retornei para o interior da casa para pegar meu guarda-chuva, porque a minha opinião era de que poderia chover. Enquanto eu pegava o guarda-chuva, o decorador, Sr. Throop, desceu as escadas. Eu avisei que estava de saída. Ele franziu a testa, eu me lembro muito bem, e perguntou onde eu estava indo. Eu lhe disse que não era da sua conta aonde eu ia. Ele insistiu em saber, e estava sendo muito rude também. Eu estava prestes a lhe dizer que não lhe dizia respeito, e que ele estava contratado para decorar a minha casa com o máximo de profissionalismo e o mínimo de bagunça possível e não para ficar fazendo perguntas impertinentes, mas para facilitar a minha saída da casa rapidamente decidi responder à pergunta. Dado que os assuntos do coração, e a minha aproximação com a sua família não diziam respeito a ele, eu meramente lhe disse que eu tinha uma reunião de negócios. A notícia pareceu perturbá-lo. Com a arrogância típica da classe média ele me perguntou que tipo de reunião de negócios eu tinha, com quem eu iria me encontrar e o que eu discutiria nessa reunião. Àquela altura eu disse que os meus assuntos não eram assuntos dele, e que eu ficaria grato se ele retornasse aos seus afazeres imediatamente. Nesse ponto ele terminou de descer os degraus, caminhou até mim e me deu um soco no queixo. — Phillimore ergueu uma mão até seu queixo e bateu nele gentilmente. — Eu nunca havia sido... — ele disse, ofendido — nunca levei um soco antes. Nem na escola, nem no meu treinamento ou em algum dos projetos de engenharia nos quais trabalhei. Nunca.
— O que aconteceu depois que ele bateu em você? — Mycroft perguntou.
— O que aconteceu foi que eu desmaiei por alguns minutos. Acordei e me encontrei amarrado no quarto de hóspedes lá em cima. Eu estava deitado no chão, e eles estavam parados sobre mim, olhando para baixo.
— Quem exatamente estava lá? — Mycroft perguntou, inclinando-se para frente.
— Todos eles! Cada decorador que contratei para remodelar minha casa estava naquele quarto, e eles pareciam furiosos.
— Então toda a equipe estava envolvida nisso — Mycroft disse, olhando para Sherlock.
— Parece óbvio, mas valia a pena checar. — Ele se virou para Phillimore. — E depois, o que aconteceu?
— O Sr. Throop ficava me fazendo perguntas: “Onde está a carta?” “O que você fez com a carta?” “A carta já chegou?” Tentei dizer que eu não sabia nada a respeito de carta alguma, e que nenhuma postagem havia chegado há vários dias, mas ele não parecia acreditar em mim. “Nós esperamos por dias para ela aparecer”, ele falou, “Mas ela não apareceu”. Ele falava de uma maneira comum. Bem classe baixa. “Há algum escritório para o qual a carta poderia ter ido?”, ele perguntou, mas eu lhe disse que não havia. Meu escritório é aqui, em casa. Ele teve o atrevimento de me revistar, acredite. Vasculhando com suas mãos imundas pelos meus bolsos, mas não encontrou o que estava procurando, então eles me jogaram em um buraco na minha própria parede! Eu tentei protestar, mas os grosseiros me amordaçaram também! Tudo o que eu podia fazer era emitir alguns sons como um animal enquanto eles me tratavam com aspereza e selavam o buraco com ripas e gesso. — Ele fechou seus olhos e encostou as costas da mão contra as pálpebras. — Eu temi por minha vida, Sr. Holmes. Não me importo de lhe contar que pensei que estava prestes a encontrar o Criador. Eu podia ouvir o reboco sendo aplicado nas ripas, selando-me lá dentro. Eu podia sentir o cheiro. — Ele retirou sua mão, abrindo os olhos e encarou Mycroft com uma expressão ofendida em seu rosto. — Devo dizer que o revestimento que eles estavam fazendo era de muita má qualidade. Eles colocavam o reboco de qualquer maneira. Eu os contratei especificamente porque eles me asseguraram que tratavam decoração como uma arte e não um negócio, mas não tive essa impressão pela maneira como eles estavam trabalhando hoje mais cedo.
— Se serve de consolo — Sherlock disse levemente — eles provavelmente estavam mais preocupados em escondê-lo do que fazer um bom trabalho.
— Sim — Mycroft concordou — e a questão sobre o porquê eles queriam esconder o Sr. Phillimore aqui é algo para o qual iremos retornaremos, mas por enquanto... o que aconteceu depois?
Phillimore refletiu por um momento.
— Estava escuro. As ripas e o reboco bloquearam toda a luz. Eu tentei me soltar, mas as cordas foram amarradas muito apertadas. Eu estava tendo dificuldade em respirar também. Minha boca estava obstruída, então eu estava respirando pelo nariz, mas os meus dutos nasais estão frequentemente inflamados e inchados devido a varias alergias, e muitas vezes não tenho outra opção senão respirar pela boca. — Ele olhou para Mycroft se desculpando. — Eu realmente ronco muito. Às vezes acordo por causa do meu ronco. Você acha que Emma se importará, quando nós estivermos casados?
— Eu não sei e não me importo — Mycroft disse com um tom de impaciência suprimida pelo rumo que a conversa de Phillimore estava tomando. — Por favor, continue com sua história!
— Pensei que fosse sufocar! Eu realmente pensei! Eu estava me concentrando em conseguir o máximo de ar pelo nariz quanto possível, mas o estresse faz com que as minhas narinas se fechem, e...
— A história! — Mycroft falou com rispidez.
  A cabeça de Phillimore foi jogada para trás como se ele tivesse recebido um tapa.
— Muito bem — ele disse, ofendido. — Você não precisa ser desagradável a respeito disso. Eu tive uma experiência muito desconfortável. — Ele respirou fundo. — De qualquer maneira, eu estava tentando respirar pelo nariz, como falei, mas indistintamente ouvi o som da massa sendo espalhada na parede, e então o papel de parede sendo aplicado. Eu podia até mesmo ouvir o som da faca que eles utilizaram para cortar o papel onde ele ultrapassou o rodapé inferior da parede e a moldura na parte de cima. — Ele balançou a cabeça. — Como o Sr. Throop pode afirmar ser um decorador bem conceituado quando ele aplica o papel de parede em reboco úmido eu realmente não sei. Se eu o vir novamente, direi palavras duras para ele.
— Sem dúvidas — Mycroft comentou.
— Eu não sei quanto tempo fiquei lá, no escuro — Phillimore continuou. — Parte de mim esperava que fosse uma brincadeira, algum tipo de piada que estavam fazendo comigo. Talvez alguns colegas engenheiros tivessem decidido me pregar essa peça, e haviam pagado esses homens para ajudar. Contudo, outra parte de mim era da opinião de que eu estava sendo deixado lá para morrer, e essa parte estava definitivamente ficando mais forte conforme o tempo passava. E então, justo quando eu pensei que estava fadado a ficar encarcerado em minha própria parede pela eternidade, vocês chegaram.
Mycroft recostou-se na poltrona, tanto quanto lhe era possível, e olhou para Sherlock.
— O que lhe ocorre a respeito dessa situação? — ele perguntou.
Sherlock refletiu por um momento.
— Há diversas coisas, — ele disse. — Ignorando esta misteriosa carta por um momento, já que não temos ideia do pode ser ou por que o Sr. Throop e seus homens a querem, creio que há cinco perguntas para as quais eu gostaria de obter uma resposta. Primeiro, e mais importante, por que eles agiram agora? Eles estiveram trabalhando aqui por muitos dias sem questionar o Sr. Phillimore. O que os impeliu a fazer isso?
— E qual é a sua resposta? — Mycroft perguntou.
— Fomos nós, não fomos? — Sherlock disse, compreendendo. — Deve ter sido. Nós somos a única coisa diferente!
— De fato. — Mycroft olhou para Phillimore. — Ou, mais precisamente, foi o fato de que o Sr. Phillimore contou ao Sr. Throop que ele tinha uma reunião de negócios. O Sr. Throop presumiu que esta reunião tinha algo a ver com esta importante carta, que o Sr. Phillimore discutiria conosco algo que tinha a ver com esta carta, e então ele decidiu agir. — Ele fez uma pausa. — Qual é a próxima coisa que lhe ocorre?
— O fato de que a gangue quis manter o Sr. Phillimore vivo, ao invés de matá-lo.
Mycroft assentiu.
— Muito bom. E qual é a sua resposta?
Sherlock já havia pensado sobre isso, e tinha sua resposta pronta.
— Foi porque eles ainda não tinham terminado com ele.
— Correto. Eles queriam poder voltar e questionar o Sr. Phillimore mais tarde, assim que nós fôssemos embora. Eles obviamente queriam esta carta, e estavam dispostos a tomar medidas extremas para isso. Talvez pensassem que o Sr. Phillimore mentia para eles, mas sabiam que nós esperávamos do lado de fora, então o colocaram em um lugar seguro enquanto saíam por um tempo e esperavam que fôssemos embora. Próxima?
— Por que eles fingiram ser decoradores em primeiro lugar?
— Muito bem. Esta é óbvia, no entanto.
Surpreendentemente, foi Phillimore quem respondeu. Ele estava assistindo à interação entre Sherlock e Mycroft como um gato assistindo uma partida de tênis de mesa.
— Presumo — ele falou — que eles queriam ter acesso livre e fácil à minha casa para que pudessem procurar pela carta se ela tivesse sido entregue, ou interceptá-la quando de fato chegasse.
— Muito bom, Sr. Phillimore. Isso nos diz que eles sabiam que uma importante carta estava para ser entregue, e eles se inseriram aqui no momento certo. — Ele olhou para Sherlock. — Isso nos permite fazer uma dedução significativa, a propósito.
Sherlock pensou furiosamente.
— Eles não poderiam garantir que o Sr. Phillimore iria contratá-los imediatamente — disse lentamente. — Isso significa que eles tinham algum tempo de sobra. Então a carta não foi enviada de nenhum lugar na Inglaterra, do contrário, ela chegaria rapidamente. Ela foi enviada do exterior, significando que eles teriam tempo para estar no lugar certo para interceptá-la.
— Muito bem.
Sherlock olhou para onde Phillimore estava afundado no sofá.
— Como você contratou esses homens? — ele perguntou.
— Uma pergunta pertinente — seu irmão murmurou.
  Phillimore franziu a testa.
— Eles apareceram na minha porta. Disseram que estavam na vizinhança e que outro trabalho havia sido cancelado subitamente. Me ofereceram um desconto caso eu tivesse algum trabalho que precisasse ser feito na casa. Disseram que poderiam fazer qualquer coisa: fachada exterior, limpeza de calha, limpeza de chaminé, decoração de interiores, jardinagem... Eu estava pensando em redecorar a casa para... — Ele fez uma pausa, e olhou para Mycroft desculpando-se. — Para quando minha querida Emma fosse se mudar para cá como minha esposa, se você nos desse a sua benção para nossa união. Eles apareceram no momento certo, então eu os empreguei na hora.
Mycroft olhou para Sherlock, mas não abriu a boca; Sherlock, sabendo qual seria a pergunta, disse:
— Eles se aproveitaram da boa índole do Sr. Phillimore, e de sua atração por um bom desconto. Todos têm algo em suas casas que gostariam de consertar ou melhorar. Eles sabiam que se oferecessem um preço baixo, o Sr. Phillimore concordaria em contratá-los.
Mycroft assentiu.
— Há certas regras na vida que deveriam ser seguidas — ele disse. — Nunca pegar a primeira carruagem que aparecer é uma dessas regras, nunca contratar um trabalhador que aparece sem ser chamado na sua porta é outra. — Ele deu de ombros. — Não importa. Isso nos deixa com a pergunta mais importante de todas. — Ele se virou para Phillimore, e o homem recuou diante da intensidade de seu olhar. — O que é que você faz, ou quem você conhece, que faz com que seja tão importante que esses homens queiram interceptar uma carta que eles sabiam ter sido enviada para você? Você não é um diplomata, não tem nenhuma posição no Governo, e não é rico. Por que é tão interessante para esses homens, ou, para ser mais preciso, por que é tão importante para seja lá quem for que os contratou?
— Eu não faço ideia — Phillimore disse. — Talvez a carta possa nos dizer.
O silêncio que se seguiu se esticou até Sherlock pensar que algo fosse arrebentar.
— Você está com a carta? — Mycroft perguntou. Seu tom de voz era calmo, mas Sherlock podia ver que ele estava se controlando. Seu irmão não era um homem particularmente calmo nos melhores dias, e este não era um bom dia.
— Estou. — Phillimore respondeu.
— Você tinha a carta todo esse tempo em que o Sr. Throop e seus capangas estavam lhe questionando, e durante todo o tempo em que eles o estavam colocando em uma parede na sua própria casa?
— Sim.
— Por que — Mycroft disse com uma incrível calma — não entregou a carta para eles e se salvou de toda essa encrenca?
— Eu não cederia às exigências deles — Phillimore disse, afrontado. — Quero dizer, que tipo de mundo seria se cada valentão que aparecesse pudesse pegar o que quisesse com ameaças de violência física?
— Uma boa pergunta — Mycroft respondeu. Ele olhou para Sherlock, e Sherlock podia ver que ele estava relutantemente ajustando sua opinião a respeito do noivo de sua irmã. Talvez ele não fosse tão fraco quanto parecia. — Onde está a carta, Sr. Phillimore?
— Na minha cartola, é claro.
  Mycroft o encarou.
— É claro — ele repetiu. — Na sua cartola. — Ele fez uma pausa, e Sherlock percebeu que ele procurava pelas palavras certas para continuar. — Por que a carta está na sua cartola, Sr. Phillimore?
— Porque eu costumava ter uma pasta para documentos — o homem simplesmente respondeu.
  Mycroft continuou encarando-o, sem piscar.
— É claro que você tinha.
  Sherlock decidiu ajudar seu irmão.
— Eu acho — ele disse gentilmente, — que o Sr. Phillimore está tentando nos dizer que ele costumava ter uma pasta, mas a perdeu. Ele provavelmente já perdeu várias pastas. No intuito de não perder coisas importantes como cartas, papéis e canetas, ele agora as guarda em sua cartola. Um homem pode perder uma pasta, mas não perde uma cartola com frequência. — Ele sorriu. — Notei que o senhor possui a sua cartola há muitos anos, Sr. Phillimore. É um objeto muito bem cuidado.
— Muito bem — Phillimore disse, sorrindo para Sherlock. — Vejo que você tem um cérebro como o meu. Sim, eu realmente esqueço pastas no trem, ou em carruagens, ou em casas de chá e restaurantes. Muito descuidado, eu sei. Algumas vezes eu as recupero, mas outras vezes elas se perdem, levadas por outra pessoa. Em desespero, decidi que costuraria uma série de pequenos bolsos na parte de dentro da minha cartola, onde eu poderia guardar todas as coisas importantes que carrego por aí em segurança.
— Muito... louvável — Mycroft disse. — Sherlock, com a permissão do Sr. Phillimore, você poderia buscar sua cartola no corredor de entrada, onde lembro de tê-la avistado quando entramos, e trazê-la aqui? — Ele olhou para Phillimore, que assentiu em concordância.
A cartola ainda estava sobre a mesa no corredor. Sherlock a ergueu. Resistindo à tentação de virá-la e ver o que havia na parte de dentro, ele retornou à sala de estar e a entregou ao Sr. Phillimore, que vasculhou dentro dela.
— A conta do açougue — ele murmurou, olhando para algo dentro da cartola — um bilhete para mim mesmo lembrando-me de pagar a conta do açougue... ah, sim, a carta!
Ele a tirou da cartola e a balançou.
— Eu sabia que estaria aqui!
— Se me permite? — Mycroft ergueu sua grande mão, e Phillimore entregou a carta para ele.
— Não parece ter sido aberta — Mycroft observou.
— Eu ainda não a abri. — Phillimore deu de ombros. — Tenho momentos em particular quando sinto vontade de abrir cartas e outros momentos em que eu não sinto. Estive esperando até que sentisse vontade.
— Posso? — Mycroft perguntou, segurando a carta. — Ou você prefere abri-la e ler por você mesmo? Já tendo derrubado uma de suas paredes, não sinto que deveria presumir mais nada da sua boa natureza.
Phillimore acenou com a mão.
— Oh, abra essa carta abençoada. Eu não tenho segredos, certamente não com o irmão de minha noiva. Não haverá nada de natureza pessoal dentro dela.
Mycroft encarou o envelope por meio minuto, virando-o em suas mãos, erguendo-o na luz e até mesmo cheirando-o. Phillimore observou, fascinado. Eventualmente Mycroft pegou uma faca dobrável de seu bolso. Ele notou Sherlock olhando para ele surpreso enquanto ele desdobrava a faca, e disse:
— Pode zombar, jovenzinho, mas eu levo minha segurança pessoal muito a sério.
Ao invés de inserir a faca através da brecha na lateral do envelope e então deslizá-la na parte superior como Sherlock havia esperado, ele cuidadosamente abriu o lacre de cera que a mantinha fechada. Sherlock notou que ele nem rompeu a cera. Mycroft olhou para Phillimore.
— As pessoas não prestam a devida atenção a envelopes — ele disse calmamente. — O papel do qual é feito, a maneira como foi endereçado, o modo como foi lacrado, o selo, o carimbo postal... cada uma dessas coisas pode contar uma história. Por exemplo, eu posso lhe dizer que essa carta foi postada do Egito. Foi postada há aproximadamente duas semanas, que seria o tempo que um navio levaria para fazer a viagem do Cairo até Londres, e então para a carta chegar até Arundel. Quem escreveu foi um homem profissional, de boa educação e treinado, mas ele está momentaneamente residindo em um ambiente árduo e não está se alimentando adequadamente. Ele está perturbado com algo que aconteceu, e procura sua ajuda. — Ele olhou novamente para o envelope e franziu a testa. — Ele próprio postou esta carta ao invés de enviar um empregado para fazer o trabalho.
Um pensamento ocorreu a Sherlock. Ele franziu a testa, inclinando-se para frente enquanto o pensamento se espalhava em sua mente. Uma carta – uma carta que era importante o suficiente para que três homens se passassem por decoradores, revistassem uma casa e aprisionassem o proprietário da casa em sua procura?
— Mycroft — ele disse vagarosamente — é possível que eles sejam os mesmos três homens que nós encontramos na biblioteca de nosso pai, os homens que estavam revistando a nossa casa?

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