2 de janeiro de 2018

Capítulo quinze

A mão de Sherlock contorceu-se em surpresa, quase fazendo-o derrubar a lanterna. Ele tentou dizer a si mesmo que era o vento soprando através de uma abertura nas pedras, mas ele estava abaixo do nível chão. De viria o vento? Além do mais, ele não havia sentido nenhuma brisa em seu rosto.
Ele sabia o que Matty teria dito: isso era uma tumba, e tumbas tinham coisas mortas dentro delas.
Cada instinto em seu corpo dizia para ele voltar, mas a lógica disse-lhe para seguir em frente.
Então ele foi em frente.
Outro gemido, desta vez mais alto.
Ele quase se virou para correr. O instinto lhe dizia que o corpo de algum egípcio morto, dissecado pelo calor do deserto e o passar dos séculos e animado por alguma feitiçaria antiga cambaleava em sua direção pelo túnel, lamuriando, mas a lógica lhe disse que Jonathan Phillimore estava deitado em algum lugar à frente, machucado e com dor. Ele rangeu os dentes, engoliu o pânico e continuou andando.
Subitamente o chão do túnel desapareceu. Ele parou, pensando que havia um buraco ou uma estrutura que levasse para baixo, mas na verdade o chão do túnel só descia mais ou menos trinta centímetros, e as paredes de cada lado se alargavam. Havia um cômodo ali. Ele ergueu a lanterna e iluminou o cômodo, tentando fazer com que a luz chegasse ao outro lado.
O cômodo não era maior que o seu quarto no Chalé Holmes, e havia uma abertura na parede no lado oposto levando mais a fundo para dentro da cripta, mas o que atraiu sua atenção foi o homem deitado e amarrado no chão. Ele era europeu, vestia um traje branco amarrotado e manchado. Uma longa tira de tecido havia sido amarrada ao redor de sua cabeça para amordaçá-lo, mas parecia que ele a havia soltado ao esfregar a bochecha contra o chão. Ele parecia uma versão mais jovem de James Phillimore.
Seus olhos estavam semicerrados contra a luz da lanterna.
— Por favor, Deus, não mais — ele choramingou em uma voz entrecortada.
— Jonathan Phillimore? — Sherlock perguntou. — Meu nome é Sherlock Holmes. Estou aqui com seu irmão para resgatá-lo.
Phillimore abriu seus olhos em descrença.
— Isso é algum tipo de truque? — ele perguntou fracamente.
— Não é um truque. Permita-me ajudá-lo.
— Não! — Phillimore choramingou enquanto Sherlock entrava no cômodo e caminhava para mais perto. — Pelo amor de Deus, não me toque!
— Está tudo bem — Sherlock disse tranquilizadoramente, mas quando o lampião iluminou Phillimore mais vividamente, ele viu algo se movendo em suas roupas. Por um momento, ele pensou que fossem os besouros novamente e estava prestes a enxotá-los, mas então viu que essas coisas eram mais parecidas com aranhas, com segmentos volumosos em suas pernas, pinças enormes em suas mandíbulas e um rabo que terminava em um ferrão perverso que se curvava acima da cabeça, pronto para atacar. Ele tinha visto algo parecido com isso antes, em uma caixa de vidro na casa de Ferny Weston, perto de Oxford. Ele não sabia o que era naquela época, mas mais tarde Ferny lhe contou que essas criaturas se chamavam “escorpiões”!
Sherlock retirou sua mão vagarosamente. Havia um escorpião no peito de Phillimore, outro em seu ombro e um terceiro em sua perna. Sherlock suspeitava que houvesse outros escondidos nas dobras de sua roupa. Eles não pareciam assustados com a luz do lampião da mesma maneira que os besouros – não estavam se escondendo. A luz parecia somente irritá-los, fazendo com que flexionassem suas caudas como se estivessem preparando-se para atacar. Ele puxou a lanterna para trás para tentar acalmá-los.
— Eles estão amarrados a mim com fios de algodão — Phillimore disse em sua voz entrecortada.
— Por quê? — Sherlock perguntou.
— Para que eu não me mexa. Para que eu não tente escapar. E para me aterrorizar para que eu fale. Eu fui assegurado de que as suas picadas não são fatais... só incrivelmente dolorosas.
Sherlock podia ver os finos fios agora, amarrados ao redor das bases das caudas dos escorpiões, impedindo-os de se afastar de Phillimore. Eles estavam presos aos botões de sua camisa.
— Isso é horrível — ele disse.
— Quem fez isso?
— George Clarke.
— Ele é o homem sobre o qual você escreveu para seu irmão.
Os olhos de Phillimore se arregalaram.
— Você leu a minha carta? Meu irmão leu a minha carta?
— E ele está aqui. Nós viemos ajudá-lo. — Sherlock colocou o lampião no chão e tirou a espada de seu cinto. — Fique bem parado... vou cortar os fios.
— Não! — Phillimore choramingou — você irá provocá-los!
— Não se eu tiver cuidado.
— Simplesmente mate-os! Você tem uma espada!
— Eles têm uma couraça resistente, e além do mais, posso errar e acertar você... o que seria ruim. Não, o rumo mais seguro a se tomar é permitir que eles vão embora, e então dar a eles um motivo para sair.
Sherlock se aproximou do escorpião mais próximo. Sem tocá-lo ou puxar o fio, ele segurou o fio formando um laço, então deslizou a lâmina da espada para dentro e cortou-o. O escorpião ficou onde estava, sem saber no momento que estava livre.
— Um já foi. Quantos são no total?
— Cinco, eu acho.
Sherlock fez a mesma coisa com o fio do segundo escorpião.
— Agora foram dois. — Ele moveu o lampião para mais perto, forçando as criaturas a fugirem da luz, perseguindo-os pelo corpo de Phillimore até que eles corressem para o chão e fugissem.
O terceiro escorpião era maior que os dois primeiros. Sherlock podia ver o brilho de múltiplos olhos em sua cabeça áspera. Suas pinças crisparam-se enquanto Sherlock se aproximou.
Ele repetiu o truque com o fio, mas este era mais curto que os outros, e ele teve que colocar seus dedos mais perto do escorpião. Quando estava prestes a cortar o fio, ele viu a cauda do bicho enrijecer.-se Rapidamente ele moveu a lâmina da espada, interceptando o ferrão enquanto ele arqueava para frente sobre a cabeça do escorpião e mergulhava para baixo. O ferrão acertou no metal da lâmina, deixando uma mancha de veneno. Antes que o escorpião pudesse tentar novamente, Sherlock cortou o fio e então, inserindo a lâmina da espada por baixo do corpo do escorpião, arremessou-o para longe.
O quarto escorpião estava escondido embaixo do casaco de Phillimore, sobre sua camisa. Sherlock teve que abrir o casaco para encontrá-lo. O ferrão da criatura teria injetado veneno direto no coração de Phillimore se tivesse atacado, e Sherlock suspeitava – apesar do que George Clarke dissera – que isso teria se provado fatal. Uma vez que Sherlock cortou o fio, a criatura tentou se refugiar na escuridão entre dois botões de sua camisa, mas Sherlock bloqueou seu caminho com a lâmina da espada e ao invés disso a criatura se moveu para seu casaco. Mais uma vez, Sherlock a arremessou para o corredor.
Phillimore não sabia onde o quinto escorpião estava, e Sherlock não conseguia vê-lo. Depois de um tempo ele teve que cortar as cordas dos pulsos e dos tornozelos de Phillimore e ajudá-lo a se sentar vagarosamente. Mesmo assim, Sherlock não conseguia ver o escorpião. Ele moveu o lampião em volta do homem, tentando descobrir onde o bicho estava, mas não havia nada.
Estava quase acreditando que o escorpião havia se libertado sozinho e fugido quando Phillimore disse em uma voz demasiadamente calma:
— Tem alguma coisa se movendo na minha cabeça.
Sherlock olhou mais de perto. O escorpião estava perto da orelha de Phillimore.
— Por favor, tire-o — Phillimore pediu. Sua voz parecia perto de se quebrar.
— Eu não posso — Sherlock admitiu. — Não consigo ver onde o fio está. Acho que de alguma maneira ele enrolou o fio nos seus cabelos.
— Se você não o remover agora, vou esmagar minha cabeça contra a parede para matá-lo.
— Não faça isso — Sherlock colocou sua espada no chão e se aproximou cuidadosamente da cauda do escorpião. A fim de distrair Phillimore, disse: — Você descobriu qual era o plano de George Clarke?
— Sim. Ele pretende incendiar o Canal de Suez.
Sherlock pinçou a ponta cauda do escorpião com o polegar e o indicador, tomando muito cuidado para não deixar o ferrão tocar sua pele. A cauda era rígida, e ao mesmo tempo esponjosa sob a ponta de seus dedos.
— Você avisou Monsieur de Lesseps? — Phillimore sussurrou.
— Nós tentamos — Sherlock admitiu — mas sem ter ideia do verdadeiro plano, nós não conseguimos convencê-lo.
Sherlock tirou o escorpião da cabeça de Phillimore. Suas oito pernas e duas pinças dianteiras se contorceram inutilmente, tentando agarrar em algo, mas ele se afastou facilmente. Sherlock podia ver o fio de algodão agora – mais longo do que os outros, e amarrado a um botão no colarinho de Phillimore. Ele pegou a espada com a mão esquerda, esticou o fio mantendo o escorpião o mais afastado possível de Phillimore, e então o cortou.
— Está feito — ele disse enquanto atirava o escorpião para a escuridão. Ele sentiu, ao invés de escutar, o suspiro sincero de alívio de Phillimore. — Vamos sair daqui — ele falou, levantando-se e esticando a mão para o homem no chão. Phillimore a pegou cuidadosamente. Sua mão estava empoeirada, e Sherlock podia sentir que ela tremia.
— Você tem água? — Phillimore perguntou enquanto se levantava.
Sherlock entregou o cantil que estava pendurado em uma alça ao redor de seu pescoço.
— Não beba tudo — ele advertiu. — Tome em pequenos goles, ou o seu estômago se rebelará e você vomitará.
Phillimore assentiu, e agradecidamente bebeu um pouco de água. Ele fechou seus olhos com alegria.
— Eu sonhei com isto — ele disse.
— Como George Clarke pretende incendiar o Canal de Suez? — Sherlock perguntou, sua mente finalmente absorvendo o que Phillimore dissera.
— Ele tinha seus próprios homens revestindo alguns dos cômodos e corredores mais afastados dessa cripta com metal — Phillimore respondeu, e tomou outro gole de água. — Eles foram convertidos em tanques, e ele os encheu com óleo.
Sherlock se lembrou da mancha escura no chão do túnel que havia notado antes.
— E ele pretende fazer o quê? Levar este óleo de alguma maneira até o canal e então colocar fogo? Parece ser um plano que poderia dar errado de muitas maneiras.
Phillimore balançou sua cabeça.
— Não, ele pensou nisso minuciosamente. Os tanques levaram um ano para serem construídos, e outros seis meses para transportar o óleo até aqui em centenas de barris. É um tipo especial de óleo, que os gregos costumavam usar nas guerras para incendiar os navios inimigos. Fogo grego, era chamado pelos antigos. Uma vez que ele começa, o fogo não pode ser apagado.
— Mas como ele levaria o óleo da cripta até o canal?
— Seus homens montaram canos em segredo das criptas até o canal. Eles estão enterrados sob a areia. Uma das máquinas de escavação a vapor que está nas margens do canal foi construída pelas especificações de Clarke, não de Monsieur de Lesseps. Clarke usará o motor a vapor para bombear o óleo das tumbas para o canal, onde ele se espalharia pela superfície.
Sherlock balançou sua cabeça.
— Mas não todo o caminho até o canal... isso demoraria muito, e não deve haver óleo o suficiente nas criptas, certo? — Ele se lembrou dos espelhos e do telescópio no topo da tumba que ele havia encontrado antes. — É claro! — ele disse, batendo na testa. — Ele tem tanques de óleo similares nas velhas tumbas por todo o caminho até o canal. Seus homens, uma vez que estiverem em posição, sinalizarão uns para os outros e liberar o óleo ao mesmo tempo. Todo o canal será coberto, de Porto Said até Suez!
— E neste momento eles usarão fogos de artifício chineses para colocar fogo no óleo... certamente no momento em que o canal for declarado aberto e o primeiro comboio de navios passar por ele. — Phillimore balançou a cabeça. — Queimará por dias, semanas, até mesmo meses. O dano aos navios seria enorme, mas o dano para a reputação da Companhia Canal de Suez será... infinito. O canal seria um fracasso monumental, catastrófico.
Fez-se silêncio na tumba por algum tempo, enquanto ambos imaginavam a visão se o óleo fosse liberado e incendiado.
— Então temos que impedir — Sherlock disse calmamente.
Phillimore suspirou.
— Eu tentei. Depois que as minhas tentativas de alertar a companhia falharam, eu investiguei as atividades de Clarke sozinho. Arrombei seu escritório e examinei seus recibos e ordens de trabalho, e o segui até aqui, mas ele me descobriu e me fez prisioneiro. Ele queria saber a quantas pessoas eu havia contado, e o que eu sabia, mas eu não diria a ele. — Ele se empertigou, orgulhoso de si mesmo apesar de sua aparência suja e desleixada. — Eu queria que ele acreditasse que outras pessoas lá fora estavam trabalhando para impedi-lo. Ele estava me torturando com os escorpiões para descobrir a verdade. — Ele olhou em volta. — Nós devemos sair — ele disse fracamente. — Alertar as autoridades.
Sherlock balançou a cabeça, percebendo que o gesto era quase invisível na escuridão.
— Não... quero ver os reservatórios de óleo primeiro.
— Você não acredita em mim? — Phillimore parecia afrontado.
— Acredito, mas sempre gosto de ver as evidências por mim mesmo.
Phillimore assentiu resignado. Ao invés de se voltar para a saída, ele conduziu o caminho através do cômodo onde estava aprisionado e atravessou a passagem do outro lado. Sherlock o seguiu com a lanterna.
O túnel se dividiu em dois um pouco depois, e então novamente mais tarde, mas sempre levando para baixo, e Phillimore sempre sabia qual caminho seguir. Sherlock ficou de olho na presença de escorpiões, mas as únicas criaturas que viu afastando-se da luz foram besouros. Ele pensou futilmente, enquanto caminhavam pelo ar escuro e quente, no que os besouros comiam. Um ao outro?
Depois de um tempo, Sherlock percebeu que podia sentir o cheiro de alguma coisa: um odor morno, pesado e penetrante. Ele ficou mais intenso conforme avançavam.
O túnel à frente deles gradualmente se ampliou em outro cômodo – muito mais largo e mais profundo do que aquele em que Phillimore havia sido amarrado. Aquele era um átrio. Este era uma câmara. Escadas desciam até a câmara vindo pelo corredor, mas o chão abaixo não era visível. A câmara estava cheia, até o nível do último degrau, com um líquido escuro que absorvia a luz do lampião. Tubos de ferro desciam de buracos no teto de pedra e desapareciam na escuridão. Sherlock se ajoelhou e tocou a superfície do líquido. Era pegajoso e deixava um resíduo escuro nas pontas de seus dedos. Seu odor era forte, como de pinheiros.
— Fogo grego — Phillimore disse. — A arma inventada pelo Império Bizantino e utilizada com sucesso por séculos, perdida por centenas de anos, e de alguma maneira redescoberta por George Clarke.
— Ah — uma voz falou atrás deles — eu não posso assumir toda a responsabilidade. Aparentemente, a receita secreta estava escrita em papiros guardados nos arquivos do Museu Britânico.
Sherlock e Phillimore se viraram. Ali, atrás deles, estava um homem pequeno, com uma massa de cabelos negros que ficava em pé como um pincel. Sua expressão era calma, quase serena, mas ele segurava um revólver que estava apontado languidamente na direção deles.
— Os papiros só foram traduzidos três anos atrás por um estudante de Oxford — ele continuou. — Quando se deram conta do que se tratavam, o Governo Britânico declarou a coisa toda segredo de estado, e os esconderam novamente. — Ele sorriu para Sherlock. — Acredito que não fomos apresentados. Meu nome é Clarke. George Clarke. — Ele assentiu para Phillimore. — Jonathan e eu já nos conhecemos, é claro.
Sherlock olhou para Phillimore. O homem parecia hipnotizado por Clarke, aterrorizado com sua presença.
— Então o Governo Britânico está por trás de tudo isso? — Sherlock perguntou.
Clarke deu de ombros.
— Algumas partes dele estão. Não todo. O Governo Britânico é uma burocracia vasta e lenta. Há partes dele que operam inteiramente independentes de outras. Eu trabalho para uma dessas partes.
Sherlock se endireitou, imaginando se conseguiria puxar a espada de seu cinto e investir contra Clarke antes que ele pudesse puxar o gatilho. Ele tinha certeza de que não conseguiria. Apesar do modo casual como o homem segurava a arma, Sherlock imaginava que ele poderia se recompor rapidamente.
— E você estava somente seguindo ordens? — ele perguntou. — Ateará fogo em uma das grandes maravilhas do mundo, o maior projeto de engenharia desde as Pirâmides, e não tem nenhum arrependimento, nem preocupações?
— Você está tentando apelar para o meu lado bom — Clarke comentou, balançando a cabeça. — Compreensível. Eu faria o mesmo nas suas circunstâncias. O que você não entende é que eu não tenho um lado bom. Estou sendo tão bem pago... em uma conta bancária secreta e não-rastreável... que removi esse lado cirurgicamente.
Sherlock ergueu uma sobrancelha.
— Sério?
Clarke deu de ombros.
— Você está certo, eu estou brincando. Na verdade, nunca tive um lado bom. Eu trapaceei na escola, na universidade, e agora no meu trabalho. É o que eu faço.
— Pessoas morrerão — Sherlock observou. Ele procurava por alguma vantagem no rosto de Clarke, algo que poderia ser utilizado, mas não conseguia ver nada.
— Provavelmente. O momento mais efetivo para bombear o óleo para o canal e incendiá-lo seria quando a fila inaugural de navios estiver passando. Isso garantirá a manchete dos jornais. Mais importante, atrairá a atenção dos investidores. Eles venderão suas participações em pânico, a Companhia Canal de Suez entrará em colapso, e o Governo Britânico comprará tais participações discretamente. Eventualmente, eles controlarão o canal... quer eles o reinaugurem em dez anos, quer o mantenham fechado. Os franceses não terão voz nesse assunto, e o Império Britânico ainda controlará metade do mundo.
— E você se aposentará feliz... aonde? — Sherlock perguntou. Ele olhou de lado para Phillimore, para checar se ele estava bem. Os olhos do homem estavam arregalados, e sua face, pálida. Ou ele desmaiaria ou pularia em Clarke. Qualquer um dos dois, Sherlock pensou, seria ruim. — Nos mares do Sul? No Caribe?
— Oh, não. Já estou saturado de altas temperaturas. Eu estava pensando em tentar a sorte na Antártida. Há diversos projetos de engenharia lá em que eu poderia trabalhar. — Ele fez um pequeno gesto com a arma. — Vocês dois, é claro, se aposentarão aqui, receio. Jamais deixarão esta tumba.
— E quanto a descobrir para quem Jonathan Phillimore contou a respeito de seus planos? — Sherlock perguntou rapidamente, ciente de que a arma de Clarke poderia disparar a qualquer momento.
Clarke gargalhou.
— Creio que já estabelecemos que ninguém sabe de nada na Companhia Canal de Suez, e que qualquer um no Governo Britânico que tem alguma ideia desse assunto ficará muito, muito quieto.
Phillimore se contraiu. Sherlock segurou seu ombro, tentando mantê-lo no lugar. Ele não queria que o homem fosse morto desnecessariamente. Logo que pensou nisso, deu-se conta de que não fazia ideia de como impedir que ambos morressem desnecessariamente. Isso requereria um plano, e ele não tinha muito tempo. Segundos, na verdade.
Algo se moveu no casaco de Phillimore, emergindo das dobras da mordaça que ainda estava amarrada frouxamente em volta de seu pescoço, caindo por cima de seu ombro.
Era um dos escorpiões – o maior deles. Sherlock não conseguira atirá-lo longe, no final das contas. O escorpião havia encontrado uma dobra conveniente e ficado por ali.
Quando o bicho saiu para a luz, Sherlock passou um dedo por baixo dele e o atirou em Clarke.
O escorpião voou pelo ar em um arco baixo até o rosto de Clarke. Sherlock teve uma confusa impressão dos pares de pernas dobrando-se e sua cauda se preparando para atacar. Clarke viu algo e ergueu a mão livre até o rosto, mas tarde demais. O escorpião atacou, e atacou.
Clarke gritou. Ele derrubou a arma e levou as duas mãos ao rosto, as costas arqueadas. O escorpião caiu no chão e fugiu, mas o estrago já estava feito. Havia sangue na bochecha de Clarke.
Clarke cambaleava agora em agonia, arranhando seus olhos. Sherlock se abaixou e pegou a arma do chão, mas não era necessária. Clarke passou correndo por Phillimore, ainda gritando. Phillimore se colocou de lado para deixá-lo passar.
E Clarke caiu dentro do óleo.
Ele errou a fundação onde o túnel terminava em um degrau, e tombou para frente. Água teria espirrado, mas o óleo pareceu aceitá-lo, fechando-se ao redor de seu corpo como se nada tivesse acontecido. Sherlock e Clarke olharam com horror por talvez um minuto, mas seu corpo não flutuou de volta para a superfície. Uma bolha solitária eventualmente se ergueu das profundezas e estourou muito vagarosamente. E foi isso. Esse foi o fim de George Clarke – engenheiro e sabotador.
Sherlock se virou para Phillimore.
— Nós precisamos destruir isto — ele falou.
— Pode haver outros.  outros. Ele não estava trabalhando sozinho.
Sherlock pensou rapidamente.
— A melhor coisa a fazer seria atear fogo no óleo, queimá-lo todo. O problema é que, se usarmos a lanterna para fazer isso, nós nunca chegaremos até a superfície. Há espelhos lá em cima, e um telescópio. Se conseguirmos arranjar espelhos para refletirem a luz do sol até os túneis, poderemos utilizar as lentes do telescópio para focar a luz sobre o óleo, aquecê-lo e fazer com que pegue fogo.
Phillimore pegou a pedaço mordaça que ainda estava em volta de seu pescoço.
— Ou — ele sugeriu — nós podemos usar isto embebido em óleo.
Sherlock o fitou por um longo momento.
— Ou nós podemos fazer isso — concordou.
Eles demoraram pouco mais de um minuto para rasgar a mordaça em tiras, amarrá-las em uma longa corda e mergulhá-la dentro do óleo viscoso, escuro, então estender a corda por uma trilha pelo corredor de terra.
A trilha levava até o ponto onde o corredor se dividia. Phillimore olhou para Sherlock. Sherlock olhou para Phillimore.
— O lampião? — Phillimore pediu.
Sherlock assentiu. Ele se ajoelhou, pegou a ponta da corda, ergueu a proteção de vidro do lampião e tocou a corda na chama.
Ela pegou fogo num clarão de chama azul e começou a se deslocar vagarosamente pela corda em direção à piscina de óleo na câmara.
— Hora de partir, presumo — Phillimore disse.
Eles correram de volta pelos túneis, passaram pelos entroncamentos, pelo átrio onde Phillimore estivera aprisionado, por esquinas, e avistaram a ofuscante luz do dia que brilhava pela porta de entrada da cripta. A respiração de Sherlock rasgava sua garganta enquanto eles corriam. A recente cicatriz em suas costelas queimava de dor. Os braços e pernas finos de Phillimore se agitavam loucamente enquanto ele corria ao lado de Sherlock. Eles chegaram à luz do dia ao mesmo tempo, lançando-se para fora da tumba, caindo na areia. E atrás deles, a cripta balançou.
Uma rajada de vento quente os seguiu porta afora, dissipando-se no ar fresco lá de fora.
Em algum lugar mais à frente, do outro lado da colina em que estava a cripta, pedras eram arremessadas no ar, seguidas por uma fina camada de fumaça.
Sherlock se levantou, e ergueu Phillimore. Então todo o monte estremeceu e pareceu se erguer no ar. Quando caiu, Sherlock poderia jurar ter visto rachaduras se abrirem momentaneamente na terra, revelando fogo quente e vermelho embaixo deles, e então o monte voltou ao lugar, selando as aberturas novamente. Poeira percorria a trilha da tumba – o único sinal de que algo havia acontecido lá embaixo.
— O óleo continuará queimando no subterrâneo — Sherlock falou, levantando-se novamente. — Se o que você disse sobre o fogo grego estiver correto, então ninguém será capaz de apagá-lo. — Enquanto falava, ele se pegou pensando no que Matty e James Phillimore, na tumba em que estavam, pensariam da explosão. Ele esperava que nenhum pedregulho os tivesse deixado presos lá dentro.
— Há outras bombas, e outros reservatórios de óleo — Phillimore falou, passando uma mão por seu cabelo. — Eles também terão que ser destruídos, do contrário, seriam utilizados para incendiar o canal.
Sherlock olhou para ele.
— Então você e seu irmão farão isso — ele falou. — Desde que saiba que está fazendo a coisa certa, e fazendo do mundo um lugar melhor.
Foi nesse momento que um som veio da direção do canal: um barulho alto, de máquina, como um trem a vapor preparando-se para deixar a estação.
— O que é isso? — Sherlock perguntou.
Phillimore franziu o cenho.
— É uma das máquinas de dragagem. Mas este trecho do canal está pronto há semanas. Por que alguém a ligaria agora?
— Porque é a máquina que George Clarke providenciou — Sherlock disse sombriamente — a que está conectada ao reservatório de óleo na cripta. Alguém está tentando bombear o óleo antes que ele queime! — ele empurrou Phillimore para longe. — Vá e ache seu irmão, ele está em algum lugar das outras tumbas. Ache meu amigo Matty também. Conte a eles o que está acontecendo.
— O que você fará?
— Eu vou parar aquela máquina!
Sherlock correu em direção à distante linha verdejante do canal, deixando Phillimore e as tumbas para trás. Ele não sabia o que o aguardava, mas sabia que não podia deixar as coisas da maneira como estavam. Depois de tudo pelo o que havia passado, deixar alguém bombear aquele óleo para o canal seria errado.
Quando chegou ao canal, e até à máquina de dragagem mais próxima, ele estava exausto. Tanto havia acontecido que sua energia de reserva estava gasta. Não havia sobrado nada.
A máquina de metal se assomava sobre ele: uma série de tanques de metal e unidades aparafusadas com grandes rebites e pintada de um vermelho enferrujado. Vigas e estranhos braços de metal saíam do corpo principal, se erguendo no ar. Canos – como os que ele havia visto no subterrâneo, na cripta – emergiam da areia e se conectavam exatamente abaixo da máquina.
Ele andou para frente, abrangendo com o olhar o Canal de Suez.
Ele ia do horizonte à esquerda até a sua direita – um grande sulco na terra que poderia ter sido feito por um corte de espada infligido pelos deuses, preenchido com água azul brilhante. Arbustos verdes e juncos revestiam suas margens. Sherlock vira canais na Inglaterra – Matty havia passado grande parte da sua vida viajando neles – mas este era diferente. Este era tão largo que ele não poderia atirar uma pedra na outra margem, e tão profundo que baleias poderiam nadar nele. O Canal de Suez era um inigualável feito da engenharia humana.
Abaixo dele, na margem arenosa e pedregosa, havia diversas aberturas redondas onde os canos que vinham da cripta acabavam. Nenhum óleo estava sendo bombeado ainda, mas era somente uma questão de minutos.
Quem, ele pensou desesperadamente, havia começado a bombear? Um dos homens de George Clarke? Algum conspirador anônimo?
Ou...?
— Sherlock — uma voz falou. — Eu sinto muito que as coisas tenham corrido assim.
Ele se virou. Havia muitas “últimas pessoas no mundo” que poderiam estar ali, paradas no sol quente do Egito, encarando-o. Amyus Crowe... Virginia Crowe... seu irmão Mycroft...
No final, era Rufus Stone.
Ele estava parado com a máquina de dragagem atrás dele, segurando uma espada levemente curva. A brisa soprou seu cabelo escuro para longe do rosto. Sua boca estava aberta em – não um sorriso, mas uma careta. O sol brilhava em seu dente dourado solitário. Sua expressão era... pesarosa. Até mesmo triste.
— Seguindo ordens? — Sherlock perguntou, puxando a espada de seu cinto, aquela que Mohammed Al-Sharif havia lhe dado.
— Eu tenho um trabalho a fazer — Rufus falou. — É um dos problemas de ser adulto... nós não temos escolha. Há sempre alguém nos dizendo o que fazer.
— No seu caso, é o meu irmão.
— E no caso dele — Rufus observou — ele tem seus superiores. E eles têm os superiores deles. E os seus superiores têm seus próprios superiores. E assim continua.
— Onde isso termina? — Sherlock perguntou, tomando posição de guarda. — No Primeiro Ministro? Na Rainha?
Rufus adotou uma posição similar.
— Eu não sei. Está acima do meu nível de pagamento. — Ele parou, suspirando. — Eu não quero estar aqui, Sherlock, mas me disseram o que deve ser feito. Você deve ser impedido de destruir o óleo. Se isso se provar impossível, o óleo precisa ser bombeado imediatamente para o canal e incendiado.
— Mycroft o mandou para me matar? Não acredito que ele faria isso.
— Mycroft me mandou para impedi-lo de alertar a Companhia Canal de Suez sobre a sabotagem. Ele enviou um telegrama para eles alertando-os sobre você, dizendo que você tinha muitas fantasias. Me disse que, se você continuasse a procurar pela sabotagem, se a encontrasse e tentasse impedi-la, então eu teria que impedi-lo. Ele não me disse como, e não me deu nenhum limite. Ele confia em mim para encontrar uma maneira de pará-lo sem ter que te matar, mas, francamente, isso depende de você. Se tentar passar por mim, então terei que lutar com você. Se nós lutarmos, eu vencerei. Se eu vencê-lo, há uma chance de que eu o mate acidentalmente. A melhor maneira de evitar isso é não tentar passar por mim. Deixe para lá, Sherlock. Deixe que as coisas ocorram como devem ser.
— Está errado, Rufus.
— É a vida, Sherlock.
Sherlock instintivamente sentiu seu corpo baixar seu centro de equilíbrio em antecipação e preparação, a ponta de sua espada apontando na direção de seu amigo.
— Amyus Crowe me alertou para ter cuidado com você — ele disse. Em algum lugar dentro dele, ele sabia que havia um incômodo cerne de descrença, mas na superfície ele estava calmo. Ele tinha que estar. — Amyus me disse que Rufus Stone nem é seu verdadeiro nome. É um lugar em Hampshire.
— Eu achei num mapa — Rufus respondeu, também inclinando-se para frente e apontando sua espada. — Eu o estou alertando, Sherlock... não me obrigue a fazer isso. Se nós lutarmos, não posso garantir que conseguirei pará-lo sem matá-lo. Lâminas afiadas são coisas perigosas e imprevisíveis.
— Você me ensinou a tocar o violino. Você era meu amigo.
— Eu lhe ensinei o violino, mas não lhe ensinei luta com espadas. Havia uma razão para isso. — Seus olhos pareceram se turvar por m momento. — E sim, eu era seu amigo.
Sherlock olhou para as bombas, depois para as distantes colinas sob as quais o óleo estava sendo bombeado. Ele olhou de volta para Rufus Stone, cujo rosto estava tenso e infeliz.
Ele não tinha escolha.
Sherlock correu para frente, sua espada descendo até o braço de Rufus, esperando desarmá-lo apenas com um pequeno ferimento. Rufus imediatamente mudou sua posição e desviou.
Relembrando das lições que lhe ensinara a bordo do Princesa Helena, Sherlock continuou cortando com sua espada na direção de Rufus, tentando forçar seu amigo a se afastar, ou fazer com que ele derrubasse sua própria espada. Juntos, eles se movimentaram para frente e para trás pela areia: golpeando e desviando, estocando e defendendo. Gradualmente a luta se inverteu até que Rufus estivesse atacando ao invés de defender-se. Ele havia obviamente entendido que Sherlock não desistiria.
Toda a atenção de Sherlock estava focada nos próximos segundos. Ele não podia gastar nenhum pensamento com o futuro, nenhuma consideração sobre o que aconteceria. Ele tinha que se restringir a bloquear a espada de Rufus Stone a cada vez que ela vinha em sua direção.
Ele não conseguia contra-atacar. Ele tentou, mas simplesmente não conseguia. Rufus era seu amigo. Rufus havia salvado sua vida mais vezes do que ele conseguia contar. Mas isso não impedia Rufus. Com seu rosto severo, ele pressionava Sherlock para trás, cada vez mais para perto do canal. Sua lâmina parecia surgir do nada – em cima, embaixo, esquerda, direita, ela forçava Sherlock continuamente a se defender. Toda a sua energia estava sendo gasta nisso. Logicamente, não havia saída. Se ele não estava preparado para atacar, então Rufus eventualmente o venceria. E ele não estava preparado para atacar. Ele não conseguiria machucar seu amigo.
A cada vez que suas lâminas colidiam, o impacto reverberava pelo braço de Sherlock, enfraquecendo-o, enviando pontos de dor para seu ombro e seu peito.
Golpear e desviar. Estocar e defender.
As lições que Maestro Reilly lhe havia ensinado, os exercícios pelos quais haviam passado, hora após hora no navio – era nisso que ele se apoiava. Os mecanismos da luta, o instinto de proteger seu corpo com as diferentes posições de guarda. Mas seu coração não estava naquilo. Ele não queria vencer. Não contra Rufus Stone.
O problema era que, se ele não conseguia vencer, então ele iria perder. Essa era a inexorável lógica da luta.
A espada de Rufus tremeluzia como a língua de uma cobra: sempre onde ele menos esperava. O instinto fazia com que sua espada o defendesse no local correto para interceptar a lâmina de Rufus a cada vez, mas onde os movimentos de Rufus eram suaves e fluídos, os de Sherlock se tornavam desajeitados e brutos. Ele sabia que iria perder. Era só uma questão de tempo. E em todo o tempo em que estavam lutando, ele podia ouvir o chug-chug-chug da bomba, bombeando o óleo viscoso das profundezas da cripta. Não importava que o óleo estivesse em chamas – isso era apenas na superfície. O óleo por baixo da superfície ainda era viável – por enquanto. Mesmo que um pouco do óleo em chamas fosse bombeado pelos canos, não faria diferença. Era isso o que os superiores de Rufus queriam, afinal de contas – óleo em chamas, flutuando na superfície do Canal de Suez.
A força implacável de seu oponente, combinada com o esforço de desviar e absorver a repetição de estocadas, fizeram com que Sherlock recuasse. Por fim, o pé de Sherlock ficou preso em um tufo de junco próximo à margem do canal. Ele caiu de costas, sua cabeça efetivamente saindo da vegetação e ficando pendurada sobre a superfície das águas cintilantes. Sua mão soltou a espada e ela caiu, dando voltas até bater na água e afundar.
Rufus estava parado acima dele, sua lâmina apontada para a garganta de Sherlock.
— Cada parte de mim deseja que as coisas não fossem dessa maneira, — ele falou. Suas bochechas estavam molhadas com lágrimas. — Mas elas têm que ser. Todos fazem o que deve ser feito.
— Nós fazemos o que escolhemos fazer — Sherlock disse. Sua mão estava ao seu lado, e por alguma razão ele percebeu que ela procurava por algo em seu bolso. Ele sentiu seus dedos se fecharem em torno de algo: um pedaço de tecido. Ele puxou e o ergueu: um lenço vermelho do qual ele havia se esquecido, dado a ele pela Sra. Loran no Princesa Helena.
Ele o ergueu. O tecido brilhou como uma chama na luz do sol da manhã.
— Vire-se — uma voz disse. Ele a reconheceu. Ela pertencia ao Maestro Reilly: o homem que o havia ensinado a lutar com espadas no Princesa Helena. O homem que, ele agora entendeu com profundo desespero, era um agente da Sra. Loran, da Câmara Paradol, colocado no navio para prepará-lo para o que inevitavelmente aconteceria.
Rufus Stone olhou por cima de seu ombro. Sherlock não conseguia ver Reilly de onde estava, deitado e virado para cima, mas ele viu que Rufus estava se afastando.
Houve bastante barulho de metal colidindo contra metal. Sherlock apenas continuou ali deitado, encarando o céu. Virginia Crowe o havia traído, seu irmão o havia traído, e então Rufus o havia traído. Amigos significavam traição. Melhor seria, ele pensou com cansaço, não ter amigos. Se ele saísse dessa, ele prometeu a si mesmo que ficaria sozinho para sempre.
Metal colidindo, mais alto e mais suave conforme eles se moviam para perto e para longe. Sons de respiração ofegante. Dois espadachins experientes. E então silêncio.
Depois de um longo, longo tempo, Sherlock decidiu que precisava se levantar. Depois de um tempo ainda maior, ele decidiu fazer algo a esse respeito. Ele eventualmente rolou de lado, cada músculo de seu corpo protestando. Usou suas mãos e seus pés para se erguer. Depois de um tempo ele estava de pé.
A luz do sol refletia na superfície do canal. Não havia óleo ali, e o barulho da bomba havia parado.
Ele se virou.
K. James Marius Reilly – seu outrora tutor de espada – estava parado com sua espada apontada para o chão. Na ponta de sua espada, Rufus Stone, deitado no chão. A espada havia penetrado cerca de dois centímetros no peito de Rufus, diretamente acima de seu coração.
— Você precisa de mais lições — Reilly falou calmamente para Sherlock. — Suas defesas foram aceitáveis, mas faltou-lhe convicção para atacar.
— Há uma razão para isso. — Sherlock respondeu. Ele começou a caminhar para longe de Reilly.
— Você gostaria que eu o matasse? — Reilly perguntou.
Sherlock pensou por um momento.
— Não — ele disse. — É sempre melhor saber quem são nossos inimigos. Deixe-o. Deixe-o viver.
Ele caminhou em direção à enorme máquina vermelho escura de dragagem. Ela estava parada agora, sem bombear. Havia três pessoas paradas em sua base. Enquanto se aproximava, ele viu que eram os dois irmãos Phillimore – muito similares em altura, mas um mais magro e empoeirado do que o outro – e Matty.
— Nós paramos a máquina. — Jonathan Phillimore falou.
— Bom — disse Sherlock. Ele percebeu que estava intelectualmente satisfeito de que a ameaça ao Canal de Suez tivesse sido interrompida, mas emocionalmente, ele estava morto. Não havia nada aqui. Ele não se importava.
— E agora? — Matty perguntou. Ele encarava Sherlock com preocupação. — Para onde nós vamos? De volta para a Inglaterra?
— Não — Sherlock disse, surpreendendo a si mesmo. — Não há nada para mim lá.
— Então para onde? — o rosto de Matty estava estampado com uma máscara de preocupação e perplexidade. — Para onde nós vamos agora?
— A Índia não é tão longe daqui — Sherlock falou calmamente. — Pensei que nós poderíamos ir até lá e encontrar meu pai.

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