2 de janeiro de 2018

Capítulo quatro

SHERLOCK OLHOU PARA TRÁS novamente para a escada. Ninguém ainda. Ele olhou de volta para a biblioteca, mas sua mão encostou acidentalmente na porta, fazendo com que ela se abrisse ao som das dobradiças. As duas figuras se viraram para olhar para a porta.
Seus rostos, suas cabeças inteiras, que surgiam a partir de golas erguidas, estavam envoltos em fitas. As fitas eram como bandagens, só que pretas, em vez de brancas. Algumas das extremidades das fitas estavam penduradas, soltas, acenando ligeiramente com o movimento brusco de suas cabeças como mechas de cabelo, só que mais grossas. Eles não tinham olhos, apenas buracos escuros onde os olhos deveriam estar, e suas bocas eram apenas riscos pretos sem lábios.
Sherlock deu um passo para trás, chocado, mas depois mãos enluvadas o agarraram por trás, puxando-o ainda mais. Ele lutou para ir para frente, torcendo seu corpo. Atrás dele estava a figura lá de fora, a que ele tinha visto nos arbustos. A porta da frente estava bem aberta. Seu rosto também estava envolvido em fitas pretas, e seus olhos escuros o encaravam impiedosamente. Ele estava prestes a levantar os braços, afastando as mãos da figura, mas ela o empurrou, mandando-o cambaleando de volta contra a porta da biblioteca meio aberta. A porta abriu-se completamente e ele foi para dentro, caindo aos pés dos outros dois intrusos vestidos de preto.
Os três se juntaram ao redor dele, olhando fixamente para baixo, sem fazer barulho. Suas mãos se abaixaram na direção dele como garras. Era como um pesadelo.
Antes que qualquer uma das mãos enluvadas pudesse tocá-lo, uma das figuras foi puxada para trás por alguém. Sherlock vislumbrou o rosto preocupado de Rufus Stone, ainda inchado e vermelho de sono, e então seu amigo e mentor estava lutando com o que quer que fosse que ele tinha afastado de Sherlock. Outra das figuras subitamente ficou rígida e depois caiu. Matty estava de pé atrás dele segurando o taco de críquete do pai de Sherlock, que pegara no corredor. A terceira figura moveu a cabeça para a esquerda e para a direita, tentando descobrir o que estava acontecendo. Sherlock o atacou com os pés, acertando-o debaixo do queixo, assumindo que ele tivesse um queixo sob aquelas ataduras pretas. Ele cambaleou para o corredor, depois correu em direção à porta que estava aberta. Na biblioteca, a sombra com que Rufus Stone lutava repentinamente atacou Rufus, levando-o ao chão. Também correu para a porta da frente.
Sherlock se virou para onde a terceira figura havia caído depois que Matty a atingiu, mas ela desaparecera. Segundos depois ele ouviu madeira e vidro sendo quebrados. Sua cabeça virou em direção à janela que dava para o jardim. A terceira sombra estava parada em frente à janela. Ela havia atirado a cadeira do pai de Sherlock na janela, criando um meio de fuga. Virou a cabeça em direção a Sherlock, fixando o olhar preto nele, depois saltou pelo peitoril como um abutre e correu, seu casaco longo batendo em torno de seu corpo como asas.
No corredor, as outras duas figuras chegaram à porta da frente sem obstáculos e saíram, os casacos girando como uma fumaça densa captada por uma corrente de ar.
— O que diabos foi isso? — Rufus perguntou, levantando-se e segurando sua mandíbula com cautela.
— Eles estavam procurando alguma coisa na escrivaninha... — Sherlock disse sem fôlego — Emma os viu e me acordou. Ela disse que estavam no quarto dela.
Matty ainda segurava o taco de cricket como se esperasse ter que usá-lo novamente a qualquer momento.
— Eles estavam procurando alguma coisa? O quê? E quem eram eles, com seus casacos e aquelas ataduras?
— Eu não sei. Eu honestamente não sei. — Sherlock olhou para a porta da frente, que estava aberta. — Eu vou atrás deles — falou, de repente irritado. — Eles invadiram esta casa e mexeram nas coisas do meu pai como se tivessem todo o direito de fazê-lo, mas não têm! Isso é errado, e quero descobrir o que eles estavam procurando!
Ele correu para a porta.
— Sherlock! — Rufus gritou, e uma névoa vermelha de fúria desceu pela visão de Sherlock.
— Matty! — Sherlock gritou. — Verifique como Emma está e conte a Mycroft o que aconteceu. Peça-lhe para verificar as coisas na escrivaninha do meu pai para ver se ele consegue descobrir o que eles queriam. Rufus, você pode proteger a casa e fechar as janelas? Caso contrário, eles podem voltar e encontrar um caminho para entrar de novo.
Matty e Rufus gritaram algo atrás dele, mas Sherlock já estava saindo da porta para o ar frio da noite e não ouviu o que eles falaram. Não havia nenhum sinal das figuras negras no caminho ou no gramado.
Eles provavelmente conseguiram chegar à entrada e sair estrada afora. Estava prestes a correr atrás deles, mas seus olhos examinaram o gramado, percebendo as gotas de orvalho estagnadas nas pontas das lâminas de grama e depois olhou para o cascalho, sem nenhuma pegada. Talvez eles não tivessem ido embora.
Ele desviou o olhar, dirigindo-se para os arbustos ao redor, onde tinha visto a figura mais cedo, observando a casa. Olhou para os lados, para a casa, enquanto corria, vendo a silhueta de sua irmã na janela do quarto no andar de cima. Ele pensou tê-la visto acenar para ele, mas não tinha certeza.
Os pés dele atacaram o gramado, fazendo buracos e espalhando torrões de grama. Ele podia sentir o ar queimando em seus pulmões e assobiando em sua garganta. Ele atravessou uma brecha nos arbustos para uma clareira, correndo por um caminho da qual se lembrava de sua infância e ia para o muro que cercava a propriedade. Havia pegadas à frente dele na trilha: três conjuntos, mais profundos na parte da frente do que no calcanhar, indicando que quem ou o que estivera na casa também estava correndo.
O chão estava lamacento sob seus pés, e Sherlock descobriu-se gastando muita energia arrancando seus sapatos da lama a cada passo. Isso lhe deu uma aparência estranha enquanto corria. Seu único consolo era que o mesmo acontecia com as pessoas que ele perseguia.
Pessoas? Um arrepio repentino correu por sua espinha. As bandagens pretas em volta de seus rostos, as luvas de couro enrugadas e os longos casacos pretos lhes davam uma aparência sobrenatural, como se não fossem humanos, mas sim alguma visita bizarra de outro reino. Ele balançou a cabeça para expulsar o pensamento. Era estúpido; quem quer que fossem, eles tinham que ser humanos, apenas usando coisas que ajudassem a disfarçá-los. Talvez quisessem ser confundidos com entidades sobrenaturais, ou talvez fosse apenas uma coisa acidental, mas eram pessoas. Espíritos não roubariam dos homens.
Galhos batiam em seu rosto enquanto ele corria. Um quase pegou em seus olhos e ele se encolheu. Sherlock ergueu as mãos para se proteger, mas isso o fez correr ainda mais desajeitadamente, e os ramos finos apenas começaram a bater em suas mãos. Por um segundo, sua mente voltou à Escola Deepdene para Meninos, onde a menor desobediência resultaria em cinco golpes da bengala na mão. Ele tinha apanhado várias vezes ao longo dos anos – tinha o hábito de dizer aos professores que eles estavam errados durante as aulas, ou de pular o muro da escola durante as aulas de educação física para visitar a biblioteca local. Ele estava bem fora daquele lugar. Tinha sido como um inferno.
Mas ali era diferente. Seu rosto e as suas mãos estavam sangrando, e a lama pesava em seus sapatos, fazendo-o correr cada vez mais devagar. De repente, teve uma visão das coisas sem rosto que estava perseguindo, conseguindo de alguma maneira atravessar o chão molhado sem tocá-lo, suportados pelas asas pretas que ele havia confundido com casacos.
Mais uma vez, ele teve que forçar o pensamento. Não havia nada de sobrenatural sobre esses ladrões. Realmente, não havia nada.
A lua continuou aparecendo através dos galhos emaranhados das árvores e, em seguida, desaparecendo novamente. Ele estava correndo por um chão que parecia uma colcha de retalhos de luzes e sombras, parecendo um tabuleiro de xadrez maluco.
O lampejo intermitente da luz fazia com que ele se sentisse tonto, e duas vezes ele teve que parar e se afastar do caminho que seguia.
Felizmente ele se deparou com uma clareira antes que as coisas ficassem muito ruins. A lua brilhava sobre o espaço como um holofote iluminando um palco.
No meio da clareira havia uma pedra estranha: uma pequena pirâmide, cerca de duas vezes a altura de Sherlock, feita de pedra cinza e construída por algum Holmes ancestral que viajara ao Egito ou simplesmente lera um livro sobre o lugar – as histórias familiares eram contraditórias.
A erosão e a má construção levaram algumas das pedras a quebrarem, ou caírem de suas posições para a base de pedra em que a pirâmide havia sido construída.
As três criaturas que ele perseguia estavam em frente à pirâmide, esperando por ele. O luar parecia ser absorvido pela escuridão de suas roupas e suas cabeças enfaixadas desapareciam. Seus casacos iam até o chão, escondendo seus corpos. Suas sombras pareciam ser extensões de seus casacos, tornando-os mais altos e mais assustadores.
Eles estavam segurando facas curvas de prata que brilhavam à luz da lua.
Sherlock hesitou. Não era exatamente uma armadilha, mas havia três deles contra um. Logicamente, ele deveria se retirar. As chances estavam contra ele.
Mas eles estavam em sua casa. Eles estavam mexendo nos papéis de seu pai. Ele não podia apenas deixá-los ir.
Dividido entre lógica e raiva, ele ficou parado na beira da clareira, hesitando. Recuar ou avançar? Lutar ou correr?
A pequena voz da razão que ele às vezes podia ouvir no fundo de sua mente escolheu esse momento para dizer algo. Ela apontou, com bastante calma, que, mesmo que ele pudesse lutar com um deles por alguns minutos, poderia arrancar um pedaço de seu casaco, ou ouvir sua voz enquanto eles provocavam. Qualquer pista poderia permitir que ele rastreasse todos eles mais tarde.
Ainda melhor, se ele avançasse com confiança para lutar contra um deles, então os outros poderiam aproveitar a oportunidade para correr. Afinal, eram homens, e não algum tipo de demônio, e ele tinha quase certeza de que poderia lidar com um deles, faca ou sem faca.
Com o coração batendo rápido, ele avançou para a clareira. Uma camada de galhos mortos cobria o chão, galhos afiados caídos das árvores. Ele se curvou e pegou dois deles. Sherlock ergueu-os, eram bons e pesados, não susceptíveis a quebrar se batesse em alguém com eles.
Diante dele, as criaturas sombrias se espalharam, uma foi para a esquerda e a outra, para a direita, movendo-se para os lados e deixando uma no centro para encará-lo. Ele só ficou parado lá, esperando. Quem sabia o que estava passando pela mente deles?
Sherlock continuava caminhando para frente, deliberadamente sem hesitar ou mostrar qualquer sinal de medo. Quando esteve na China, há apenas um ano, encontrou um livro de um filósofo chamado Sun Tzu. O filósofo dizia, sobre a guerra, que a maioria das batalhas era conquistada ou perdida antes de serem combatidas. Sherlock assumira na época que o autor quis dizer que a pessoa com o maior exército ou a maior força sempre venceria, mas quanto mais pensava, mais percebia que tudo era sobre confiança. Entre em uma luta acreditando absolutamente que vai ganhar, e você fará seu inimigo hesitar, e um inimigo que hesita está em desvantagem imediata.
Essa, pelo menos, era a teoria. Sherlock não tinha certeza se Sun Tzu a colocara em prática.
Suprimindo os nervos e qualquer preocupação sobre ser ferido ou morto, Sherlock andou na direção do trio. Ele parou a cerca de dez metros de distância, as mãos em parte levantadas para manter os galhos como proteção. Os buracos no rosto da figura que escondiam seus olhos estavam mais escuros, mas Sherlock ainda podia sentir seus olhares queimando-o.
— Vocês invadiram a minha casa — ele falou, e ficou feliz em perceber que sua voz soava firme. — Quero saber o que estavam procurando.
Silêncio. A figura do centro ficou parada, imóvel, mas Sherlock estava ciente de que as duas da ponta se moviam para colocá-lo no centro de um triângulo.
— Era algo que pertencia ao meu pai? — continuou. — Ou vocês estavam procurando dinheiro ou joias, como ladrões comuns?
Nada ainda.
— Vocês sabem quão ridículo estão? — perguntou ele. — De onde tiraram esses trajes, de uma loja de roupas extravagantes? As ataduras apenas fazem parecer que vocês estiveram em um acidente.
Sherlock estivera em brigas antes, e tivera instruções de Amyus Crowe e Rufus Stone. O importante, eles lhe disseram, era encarar os olhos do seu oponente. Não se distraia com sua arma ou com o que ele faz com as mãos, essas poderiam ser apenas uma distração, para enganá-lo. Observe seus olhos e veja neles quando ele estiver prestes a atacar.
Ele entendia bem isso, mas os olhos da figura escura estavam escondidos na sombra dos buracos deixados pelo modo como as ataduras estavam envoltas. Se aquilo realmente tivesse olhos.
Sem aviso, a figura avançou atacando Sherlock com a faca, agachando-se ligeiramente, com a lâmina subindo do nível do joelho esquerdo para a altura da cabeça. Pelo menos, essa tinha sido sua intenção. Sherlock tinha visto uma intrigante dobra no material da manga do casaco, no entanto, e já havia previsto o movimento que poderia fazer. Ele torceu e abaixou o braço direito. O galho se prendeu no antebraço direito da figura. Sua faca voou longe, para o outro lado da clareira. A figura fez um ruído de grunhido sufocado, enquanto segurava reflexivamente o braço direito com o esquerdo e dava um passo para trás com dor.
Com a figura do meio incapacitada momentaneamente, Sherlock girou ao redor. Como esperava, os outros dois se aproximavam dele rapidamente.
Ele deu dois passos na direção daquele à sua direita e atacou de soslaio sua cabeça com o outro galho. A coisa ergueu o braço da faca para se proteger, mas era tarde demais. Em vez disso, transformou o movimento em um cambalear desajeitado para trás, saindo do caminho.
Isso fez com que sobrasse apenas a terceira figura, mas quando Sherlock foi se virou, a sombra já se aproximava dele, a faca erguida em sua direção. Sherlock tentou sair do caminho da lâmina, mas ela rasgou sua jaqueta e roçou suas costelas. Ele podia sentir o sangue, quente e rápido, escorrendo pelo peito. Ao invés de fugir, ele apertou o braço direito da coisa para baixo, para prender a faca. A figura tentou puxar para trás, e Sherlock foi com ele, forçando-o a recuar mais rápido e tropeçar no próprio casaco comprido. A figura caiu para trás. Sherlock tentou tirar a faca dele, levando o braço para que pudesse usar o galho contra a criatura quando abaixasse o braço novamente, mas a lâmina se enroscou em sua camisa e a figura não soltava. Sherlock foi puxado para frente, fora de equilíbrio.
Algo cortou o ar acima de sua cabeça. Ele pôde sentir sua passagem, como uma brisa fria em seu couro cabeludo. Ele se virou, ainda sem equilíbrio, para ver a figura da direita vindo para ele novamente, rápido, com a faca levantada e apontada para seu olho. Sherlock se virou, caindo em direção à figura cuja faca ele já havia evitado. Ele despencou pesadamente sobre a figura, sentindo o sair de seus pulmões. A faca que vinha em sua direção errou apenas alguns centímetros, cortando sua testa. Ele disparou com os dois pés, acertando a figura nos pulmões e no estômago. Ela caiu de lado no chão, se contorcendo.
Aquele debaixo de Sherlock se debatia, e o garoto respondeu com uma cotovelada, acertando seu estômago. Sherlock ouviu um grito de dor. Ele rolou de lado algumas vezes, sentindo os cotovelos rasparem no chão. Quando pensou que estava seguro, se apoiou nos joelhos e depois se levantou. Rapidamente olhou em volta, avaliando a situação.
A figura que tinha começado no meio estava sentada na base de pedra da pirâmide estranha, ainda segurando o braço. Talvez Sherlock tivesse lhe quebrado um osso. Aquele que tinha começado à sua direita estava tentando ficar em pé, tremendo. A faca que estivera portando estava caída no chão. A terceira figura também estava caída no chão, enrolada, mas ainda segurava sua faca.
Sherlock percebeu que tinha abandonado seus galhos na confusão das lutas. Ele examinou o chão, procurando-os, e percebeu que eles estavam muito perto da figura dobrada no chão. Se tentasse alcançá-los, aquela coisa poderia voltar a seus sentidos o suficiente para atacá-lo.
Ele olhou para a figura que tentava se levantar. Estava de pé agora, e parecia que se voltaria contra Sherlock novamente, mesmo sem a lâmina. Desesperadamente, Sherlock olhou em volta para tentar achar outra arma que pudesse usar. Nada! Ele teria que lutar mão a mão dessa vez.
Algo empurrou-o com força por trás. Ele caiu para frente, se virando antes de chegar ao chão. Uma das figuras vestidas de preto estava atrás dele. À medida que suas costas atingiam o chão, o impacto expulsou o ar de seus pulmões. Ele viu o homem pegar uma pedra no chão e se aproximar, pronto para bater com força em sua cabeça. Ele ficou tenso, pronto para tentar derrubar a pedra, mas, em vez disso, ouviu alguém gritar.
— Ei! Pare onde está! — Essa era a voz de Rufus Stone.
— Ou! — Aquela era a voz de Matty, mais aguda, mas mais enfática.
A figura vestida de preto olhou para os lados, depois largou a pedra e correu. Sherlock virou-se para vê-lo correr, e começou a se levantar.
— Você está bem? — Esse era Rufus.
— Eu acho que sim. — Sherlock murmurou.
— O que pensou que estava fazendo, perseguindo-os?
Sherlock deu de ombros. E respondeu:
— Eu não sei. Parecia uma coisa lógica a fazer na hora.
— Você poderia ter morrido!
— Eu poderia. — ele concordou, sentindo a força penetrando nos músculos. — Eu também poderia ser atropelado por uma carruagem e morrer na rua. Não posso viver minha vida evitando todos os riscos.
— Existe evitar riscos — disse Matty ao lado dele — e existe procurar risco.
— Eles se foram? — perguntou Sherlock.
— Eles correram no instante em que nos ouviram. — confirmou Matty. — Estranhos, com esses longos casacos e aquelas coisas em volta da cabeça. Eles eram rápidos demais para que conseguíssemos alcançá-los.
— Eles já devem ter passado pelo muro da propriedade — disse Rufus. — O que precisamos fazer agora é voltar e garantir que os outros estejam bem.
Dentro de alguns minutos ele estava de volta ao Chalé Holmes, sentado em uma cadeira confortável na biblioteca com uma xícara de chá ao lado. Seu irmão estava sentado em uma segunda cadeira, atrás da escrivaninha, vestindo um roupão de seda que o fazia parecer uma tenda de circo. Rufus Stone estava de pé junto à janela, e Matty estava sentado de pernas cruzadas no tapete ao lado dele.
— Você — disse Mycroft — esteve na guerra.
— Pelo menos estou vivo — respondeu Sherlock.
— Deixando de lado o que poderia ter acontecido — grunhiu Mycroft — vamos falar sobre esses intrusos, e o que eles poderiam querer. Nossa irmã nos disse que já tê-los visto rondando a casa anteriormente, mas que é a primeira vez que os vê entrar. O quê, na sua opinião, eles queriam?
Sherlock deu de ombros, sentindo os protestos dos músculos em seu ombro.
— Eu gostaria de saber. Eles estavam procurando na mesa, isso é tudo o que sei.
— Passei horas olhando todos os documentos daqui, e posso afirmar com absoluta certeza que, pelo o que posso ver, não há nada aqui que alguém de fora dessa família possa ter algum interesse. Talvez fossem ladrões oportunistas, procurando algum dinheiro ou título, ou talvez pensassem que havia algo aqui, mas estavam equivocados. Talvez nunca saibamos realmente o que eles queriam. Vou colocar alguns dos lacaios de vigia, me certificarei de que todas as portas estão fechadas e trancadas, e informarei a polícia amanhã. Espero que este seja o fim desse assunto, e que esses bandidos não voltem. — Ele fez uma pausa. — Bem, quando digo o que eu vou fazer, na verdade quero dizer que o Sr. Stone fará tudo isso, Se puder fazer essa gentileza, Sr. Stone.
— É claro! — disse Rufus.
— E por enquanto, sugiro que voltem para a cama. — Ele fez uma pausa. — Afinal, temos um funeral para ir amanhã.
Sherlock assentiu e dirigiu-se para a escada ao lado de Matty e Rufus, mas, enquanto saía, olhou de relance para Mycroft. Seu irmão ainda estava sentado atrás da mesa, com os cotovelos para cima e a cabeça apoiada nas mãos. Ele olhou brevemente para Sherlock e Sherlock percebeu que o irmão não acreditava necessariamente que este aquele o fim do assunto. De modo nenhum.
A manhã seguinte amanheceu cinza e com o clima fechado, com ocasionais rajadas de chuva fria. Sherlock acordou ao descobrir que as roupas de luto, sóbrias e pretas, haviam sido separadas para ele. Ele as vestiu e sentiu-as arranhar a pele. Desfazendo as ataduras e o curativo, descobriu que a ferida em seu peito tinha parado de sangrar e estava apenas sensível ao toque. Obviamente, parecera mais grave do que realmente era.
Ele desceu as escadas para onde estava servido o café da manhã. Não estava com fome, mas se obrigou a pegar algumas torradas e um pouco de kedgeree. Emma estava lá, comendo uma torrada. Parecia ter esquecido completamente os acontecimentos da noite anterior, e Sherlock decidiu que não queria lembrá-la. Pelo menos não hoje.
Ao som de um gongo sendo tocado, a família e os empregados se reuniram no corredor. Rufus Stone estava lá, de pé com o mordomo e a governanta. Mycroft inspecionou todos eles, verificando em particular se os criados estavam devidamente vestidos, então liderou o caminho para fora da casa e pela trilha que levava à capela da família.
A capela era um antigo edifício de pedra parcialmente coberto de musgo que parecia o irmão menor de uma igreja comum. Era onde a família Holmes encontrava paz por muitas gerações. O próprio Sherlock descobriu que, quanto mais velho ficava, mais difícil se tornava para ele acreditar em uma divindade que de alguma forma necessitava de anjos para levar mensagens para ele e louvá-lo por toda a eternidade, mas tinha que admitir que a própria capela parecia irradiar paz, da mesma maneira como as pedras da igreja de seu pai na Índia aparentemente irradiavam calor.
Um caixão tinha sido colocado sobre cavaletes em frente do altar.
O vigário era um homem que Sherlock reconheceu de sua infância. Ele nunca parecia sorrir, e seu cabelo branco despenteado cercava a cabeça como uma auréola. Ele falou, e a congregação cantou, e então ele falou novamente, mas Sherlock estava lá apenas de corpo. Em espírito, ele voltou no tempo, lembrando-se de ouvir enquanto sua mãe tocava sonatas de Bach no piano, ou observando enquanto bordava uma tapeçaria com um provérbio da Bíblia, ou contando a ela suas teorias sobre por que os cães respondiam a seus nomes quando chamados enquanto que os gatos não faziam isso. Isso era tudo o que ele tinha agora, lembranças.
Ele sentiu como se estivesse chorando, mas as lágrimas não vinham. De alguma forma, enquanto crescia, aquele reservatório de lágrimas parecia ter secado. Ele não tinha certeza de que podia chorar por qualquer coisa que fosse – Virginia Crowe deixando-o por outro, sua mãe morrendo... nada. A paisagem dentro de sua cabeça estava seca e estéril. Parecia observar a vida enquanto passava por ele, ao invés de participar dela.
Eventualmente, a cerimônia chegou ao fim, e a congregação se voltou para luz do sol. O vigário os conduziu por um caminho através das árvores que levaram a outro prédio. Este era menor que a capela, com um telhado menor e sem torres, embora sua porta fosse espessa e impressionante. Era o mausoléu da família, onde os corpos da família Holmes eram colocados para descansar.
Para descansar. Mesmo quando o caixão com o corpo de sua mãe foi levado para o mausoléu por quatro homens que Sherlock não reconheceu, paroquianos locais, talvez, ou funcionários do responsável pelo funeral, sua mente refletia sobre essa frase, e outras que as pessoas usavam em funerais e rejeitou-as. Não havia descanso. Não havia paz.
O que quer que estivesse naquele caixão não era mais sua mãe, era apenas o que ela tinha deixado para trás depois do que quer que a tenha feito partir.
E o que seria isso? A alma? A mente? O espírito? Seja como for, partiu, dissolveu-se como um cubo de gelo derretido ao sol. Se Sherlock sabia de alguma coisa, era que a morte era um processo unidirecional. Ele estava certo de que não havia como voltar. E estava tão certo como poderia estar que não havia nada do outro lado. Apesar do que o vigário dissera na capela, a morte era a parada final na história da vida de alguém.
De volta ao Chalé Holmes, pequenos copos de xerez e lanchinhos foram colocados em bandejas de prata em um aparador na sala de jantar. Enquanto os criados voltaram para os fundos da casa para preparar o almoço, Mycroft incentivou Sherlock, Emma e Matty a se servirem. Rufus Stone ia atrás dos criados, mas Mycroft o chamou.
— Seu lugar é conosco agora — disse ele. — Sirva-se de uma taça de xerez. Tenho algo que preciso lhe perguntar, mas, no momento, Sherlock e eu temos algo importante para discutir.
Quando Rufus se moveu para o aparador, Mycroft tirou um envelope do bolso.
— Isto chegou pela manhã. Por favor, me dê suas impressões iniciais.
Sherlock pegou o envelope de Mycroft e o examinou.
— O papel não é britânico, mas o carimbo e o selo são indianos. — observou. — No entanto, a mão que escreveu o endereço é diferente da letra do nosso pai, e está endereçado para a mamãe, não para você.
— É do comandante do nosso pai — disse Mycroft. — Foi enviado no mesmo dia da última carta do pai da Índia, mas obviamente sofreu um pouco mais de atraso para chegar aqui.
Sherlock ponderou por um momento.
— Mesmo que você já tivesse escrito uma carta para o comandante sobre a morte da nossa mãe, como disse que faria, a carta ainda não teria chegado à Índia e, claro, tendo em conta as circunstâncias, qualquer resposta não teria sido endereçada à nossa mãe, a menos que seu autor fosse extremamente descuidado ou muito distraído. O comandante deve ter escrito separadamente da última carta do nosso pai para nos dizer que algo aconteceu. Isso significa... — Sherlock sentiu uma sensação estranha, como se o chão tivesse saído debaixo de seus pés como o convés de um navio. Ele colocou a mão na lareira para se estabilizar. — Papai está morto, não está? — ele disse em voz baixa. — Ele morreu na Índia, pouco depois de nos escrever a última carta e estamos sendo informados disso.
Havia um zumbido em seus ouvidos dificultando entender o que Mycroft dizia em resposta, mas Sherlock achou que ele disse essas palavras:
— Não, Sherlock. Tire esse pensamento da cabeça. Sim, a carta é do comandante do nosso pai, mas não é de modo algum uma carta de condolências É mais uma... carta informativa, contando-nos sobre uma missão em que o pai está envolvido. Nosso pai está bem, Sherlock. Ele está bem.
O chão se estabilizou lentamente, deixando Sherlock nauseado. O zumbido em seus ouvidos recuou. Ele percebeu que a mão de Matty estava em seu braço. Ele sorriu para o amigo com gratidão, e Matty tirou a mão.
— Por favor, leia a carta — disse Mycroft. — Me diga o que acha.
Sherlock tirou a carta do envelope. Por um momento, pensou poder sentir o cheiro muito fraco de algum tempero, algo local da Índia, talvez, que se impregnara no papel. O perfume durou um momento e depois desapareceu.
Ele começou a ler.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Se você não tem conta no Google e quiser comentar, utilize a opção Nome/URL e preencha seu nome/apelido/nick; o URL pode deixar em branco.

Boa leitura, E SEM SPOILER!