2 de janeiro de 2018

Capítulo oito

SHERLOCK OLHOU PARA SEU IRMÃO em choque. Ele não estava acostumado que Mycroft lhe dissesse o que fazer, e não estava acostumado com seu irmão gritando com ele.
— Agora vá! — Mycroft gritou. — Traga Rufus Stone e uma carruagem aqui o quanto antes.
— Tudo bem! Eu vou!
Sherlock saiu da cozinha. A última coisa que ele ouviu foi Mycroft dizendo para Phillimore:
— Agora você terá que amarrar esses homens. Você tem alguma corda resistente?
— Você quer que eu amarre esses homens? — Phillimore perguntou com incredulidade.
— Bem, eu certamente não posso fazer isso — Mycroft disse, afastando-se.
Sherlock os deixou ali, saindo da casa. Ele estava enfurecido com a distribuição autoritária de ordens de Mycroft. Obviamente Mycroft era seu irmão mais velho, e ele estava substituindo o pai deles, mas mesmo assim havia limites. Afinal de contas, os dois haviam crescido juntos!
Mycroft mandara mais cedo a carruagem de volta para casa, então Sherlock caminhou até a praça da cidade e chamou uma carruagem de aluguel, mesmo sem saber ao certo se possuía dinheiro para pagá-la.
— O senhor pode colocar na conta do Chalé Holmes? — ele perguntou ao condutor. O homem assentiu.
Bem, estava tudo certo então. Mycroft pagaria por isso em algum momento.
O caminho até o Chalé Holmes levou quinze minutos. Sherlock pediu ao condutor que esperasse, então foi localizar Rufus Stone e Matty. Sem lhes dizer o porquê, contou que eles deveriam pegar uma carruagem e ir até a casa de James Phillimore. Enquanto eles debatiam sobre a organização da carruagem, Sherlock retornou até onde o condutor o aguardava. Ele sabia que deveria ter dispensado a carruagem de aluguel e voltado com Rufus e Matty, mas ele se rebelou contra as instruções implícitas.
— Leve-me de volta à praça — pediu ao condutor. — Coloque na mesma conta.
Na hora em que chegou à casa de James Phillimore, depois de ter caminhado da praça até lá, Rufus e Matty chegavam com a carruagem.
— Qual a urgência? — Rufus perguntou do assento do condutor.
— Pergunte ao meu irmão — Sherlock respondeu sombriamente.
  Rufus, Matty e Sherlock entraram na casa juntos. Sherlock indicou o caminho até a cozinha, onde os três decoradores ainda estavam desacordados. Eles agora estavam amarrados: as mãos nas costas e os tornozelos presos. Mycroft estava sentado à mesma mesa devorando uma torta, enquanto James Phillimore não estava em nenhum lugar visível.
— Ah, Sr. Stone — Mycroft falou, migalhas na parte da frente de sua camisa. — Por favor, leve estes cavalheiros de volta ao Chalé Holmes. Prenda-os nos estábulos, por favor.
Rufus Stone olhou para os três homens prestando bastante atenção, Sherlock notou, nas suas várias lesões.
— Estes são os homens que invadiram a sua casa? — perguntou.
Mycroft deu de ombros.
— Isso ainda há de ser averiguado, mas tenha certeza de que eles são vilões e merecem ser amarrados.
— Você os drogou — Matty observou.
— Na verdade, o proprietário dessa casa, juntamente com a cozinheira, os drogou. Foi meramente ideia minha. Agora, por favor, podemos colocá-los na carruagem, encobertos, e levá-los de volta ao Chalé Holmes?
O percurso durou talvez meia hora. Os cavalos eram mais lentos do que aqueles que puxavam a carruagem que Sherlock havia alugado, e Mycroft parecia ansioso em não querer levantar suspeitas. Sherlock e Matty foram forçados a se sentar desconfortavelmente no banco do condutor junto a Rufus enquanto este conduzia os cavalos. Mycroft estava sentado encurvado de lado como um corvo negro. Assim que chegaram, Mycroft supervisionou o deslocamento dos três corpos inconscientes até os estábulos.
— Bem — ele falou depois que tudo estava acabado — este foi um final interessante e inesperado para o dia. Creio que o jantar será servido em breve. Eu sugeriria que todos nos limpemos prontamente.
— E os homens lá dentro? — Sherlock perguntou, indicando os estábulos.
— Oh, eles não se juntarão a nós no jantar.
— Você sabe o que eu quero dizer. O que vai acontecer com eles agora?
Mycroft encarou Sherlock.
— Eles serão interrogados — ele falou casualmente. — Você não precisa mais se preocupar com isso.
— Mas eu me preocupo — Sherlock disse. Ele sabia que estava pressionando seu irmão, mas tinha a nítida sensação de que algo estava sendo escondido dele, que ele estava sendo excluído. — Eles invadiram a nossa casa. Me atacaram. Atacaram o Sr. Phillimore, noivo de Emma. Você espera que coloquemos tudo isso de lado e o deixemos lidar com isso?
— Sim — Mycroft disse simplesmente — eu espero que façam isso.
— Isto tem alguma coisa a ver com o telegrama que recebeu, não tem?
O rosto de Mycroft era tão sem expressão quanto o de uma estátua de pedra.
— Você tem uma imaginação ativa, Sherlock. Deveria tentar limitar essa imaginação.
— Seus superiores disseram para você capturar esses homens e mantê-los afastados — Sherlock continuou. — O que acontece agora... você mesmo os interroga, enquanto ninguém estiver por perto?
— Sherlock, eu o estou alertando...
— Isto tem algo a ver com as preocupações de Jonathan Phillimore sobre o canal que estão construindo em Suez? É isso, não é?
— Por favor, desista. — O rosto de Mycroft ainda estava sem expressão, mas Sherlock detectou um sinal de angústia por trás da máscara. — Há coisas sobre as quais não posso falar.
— Eu nunca o vi agir dessa maneira antes, Mycroft. — Sherlock falou calmamente.
— Eu nunca tive que agir dessa maneira antes — Mycroft respondeu. — Meu trabalho e minha vida pessoal raramente se cruzam.
O jantar foi um evento silencioso. Rufus Stone se juntou a Sherlock, Mycroft, Matty, Emma e tia Anna. Dada a presença do restante da família, Sherlock não se sentiu confortável em levantar o assunto do que havia sucedido naquela tarde, e ninguém mais falou sobre isso. Ao invés disso, Sherlock contou para Emma que eles tinham visto seu noivo, e que ele parecia ser um homem bastante agradável. Ela ficou contente, mas muitas coisas pareciam deixar Emma contente.
Após o jantar Sherlock, pegou o braço de Mycroft quando ele estava saindo.
— O que nós vamos fazer a respeito do interrogatório daqueles homens? — ele perguntou. — Eles provavelmente já estão acordados agora. Não que eu me preocupe com o bem-estar deles, mas não podemos deixá-los lá a noite toda.
— O assunto já está sendo resolvido. — Mycroft respondeu, não olhando para Sherlock.
Ele tentou sair, mas Sherlock adicionou:
— Você vai fazer com que Rufus Stone os interrogue, não vai? Você sabe que ele estaria preparado para bater neles, ou feri-los, fazer com que falem, enquanto eu não estaria. Mycroft, isso está errado.
Desta vez seu irmão virou para encarar Sherlock nos olhos.
— Eu não pedi ao Sr. Stone que os interrogasse — ele disse — mas se tivesse pedido, então seria um comportamento totalmente apropriado. Eles invadiram a nossa casa. Mais importante, tentaram matar você, e estavam no quarto de Emma. São coisas inescrupulosas, e não podem ficar por isso mesmo. Farei o que julgar necessário para descobrir o que esses homens queriam.
Sherlock olhou nos olhos de seu irmão. Ele geralmente sabia o que seu irmão estava pensando, mas a sua expressão nessa ocasião estava completamente indecifrável.
— O que havia no telegrama, Mycroft? — ele perguntou calmamente.
Seu irmão o encarou por um longo momento, então se virou e foi embora, na direção da biblioteca do pai deles.
Sherlock queria passar um tempo no conforto da biblioteca ele mesmo, mas teve o pressentimento de que Mycroft não o queria por perto. Além do mais, com os dois na biblioteca, a atmosfera ficaria pesada. Ao invés disso, Sherlock saiu para uma caminhada na escuridão do terreno do Chalé Holmes. Intelectualmente, ele sabia que os homens só haviam entrado na casa para achar a carta de Jonathan Phillimore – que não estava lá – mas parte dele ainda queria patrulhar o terreno para checar se sua família estava segura.
  A lua brilhava sobre a casa, iluminando a fachada com luz branca, mas lançando uma sombra escura nos fundos. Enquanto Sherlock caminhava, uma coruja deixou seu poleiro escondido em alguma das árvores e mergulhou na sua direção, passando como um espírito inquieto somente alguns centímetros acima de sua cabeça antes de abrir as asas e ganhar altitude. Ele se virou para observá-la voar, mas a perdeu de vista quando ela entrou na sombra da casa. Finalmente, como ele sabia que faria, ele se virou e caminhou para os estábulos nos fundos da casa.
Ele não sabia ao certo o que faria quando chegasse lá. Parte dele queria fazer algumas perguntas aos homens que estavam amarrados, mesmo sabendo que eles provavelmente não as responderiam, mas a outra só queria ter certeza de que eles ainda estavam lá, e sem ter escapado nem sufocado com suas mordaças e morrido.
Ele tinha o pressentimento de que alguma coisa da qual ele não tinha conhecimento acontecia: algo monolítico e insensível. Ele não gostava disso.
Sherlock chegou à esquina da casa e estava prestes a passar pela trilha lançada pela lua quando ouviu vozes baixas. Ele parou, pressionou o corpo contra a pedra da casa e espiou pela beirada da parede. Os estábulos estavam a cem metros. Na frente, uma carruagem estava parada. Dois homens estavam parados perto dos cavalos, segurando suas cabeças para garantir que eles não relinchassem. Aqueles não eram cavalos da família Holmes, aquela não era uma carruagem da família Holmes e aqueles não eram criados da família Holmes. Alguém havia entrado na propriedade deles silenciosamente e fazia algo clandestinamente.
Enquanto Sherlock observava, outros dois homens carregaram um embrulho que se contorcia dos estábulos e o jogaram para dentro da carruagem. As molas da carruagem balançaram quando os embrulhos acertaram o piso, e Sherlock ouviu um gemido abafado. Era um dos três homens que eles haviam drogado e retirado da casa de James Phillimore mais cedo. Alguém os estava resgatando!
Não, isso não fazia sentido. Se eles estivessem sendo resgatados, as cordas que os prendiam teriam sido cortadas e suas mordaças, removidas. Isto não era um resgate – era uma remoção...
Seu cérebro disparou, tentando descobrir o que fazer. Ele poderia começar a gritar, soar o alarme e mobilizar os criados, ou podia esgueirar-se para dentro de casa e chamar Rufus Stone.
Ele havia acabado de decidir a começar a gritar por ajuda quando um vulto saiu dos estábulos e parou sob a luz da lua, observando enquanto uma segunda pessoa era carregada para a carruagem.
Era Mycroft.
Sherlock se moveu para trás, sentindo seu coração afundar. O que diabos Mycroft queria com esses homens tão tarde da noite, e por que ele não havia contado nada a Sherlock sobre isso?
Outro vulto saiu dos estábulos. Desta vez era Rufus Stone.
— Você está pronto para ir? — Rufus perguntou a Mycroft.
— Acho que sim. A viagem de volta a Londres será desconfortável, temo.
Rufus olhou para a carruagem.
— Com certeza será. Eles estão empilhados como troncos ali dentro.
— Eu não quis dizer desconfortável para eles — Mycroft rebateu — eu quis dizer desconfortável para mim.
— O que vai dizer para Sherlock?
Mycroft suspirou.
— Não direi nada. Precisarei que você escreva um bilhete para Sherlock como se fosse eu, dizendo a ele que fui chamado com urgência de volta a Londres devido a alguma emergência diplomática ou algo assim. Você tem, eu sei, uma habilidade incrível de forjar a caligrafia de outras pessoas, e já viu o suficiente da minha para fazer um trabalho decente. Sugira a ele que volte para Oxford o quanto antes ao invés de ficar aqui no Chalé Holmes. Assim que tiver feito isso, deixe algumas cordas soltas por aqui, e certifique-se de que as pontas estejam cortadas. Ele assumirá que os homens foram resgatados por seus colegas. Quererá procurar por eles, é claro. Você pode permitir que ele faça isso com segurança. Ele não irá encontrá-los, mas isso o manterá ocupado por um tempo e o impedirá de pensar profundamente sobre o que pode ter ocorrido. Ele provavelmente escreverá para mim, ou enviará um telegrama. Eu demorarei a responder. Se a sorte estiver do nosso lado, então outras coisas atrairão sua atenção e ele se esquecerá deste mistério. Uma coisa maravilhosa a respeito de Sherlock é que ele é tão facilmente distraído.
Sherlock sentiu uma chama de raiva dentro do peito. Seu irmão não estava apenas escondendo coisas dele, mas tencionava mentir ativamente para ele! O que estava acontecendo? Deve ter sido algo no telegrama que Mycroft recebeu de seus superiores que o induzira a tomar essa atitude, mas por quê? O que tinha na aparentemente inocente carta do irmão de James Phillimore que provocara uma reação tão imediata?
— E eu? — Rufus perguntou. — Uma vez que eu tenha escrito a carta e arranjado a cena aqui, o que quer que eu faça?
— Siga-me de volta para Londres. Precisarei de sua assistência para interrogar estes homens depois.
Mycroft acenou para Rufus Stone e começou a subir na carruagem.
— Cuide de Sherlock, — ele disse enquanto desaparecia.
Dois dos homens – aqueles que seguravam as cabeças dos cavalos – subiram no assento do condutor. Um deles pegou as rédeas enquanto os outros dois homens se afastavam, permanecendo nas sombras, mas indo em direção ao portão e para a estrada lá fora. Rufus Stone observava enquanto a carruagem se afastava. Ele não parecia feliz.
A carruagem virou e se dirigiu para o canto da casa onde Sherlock estava parado. Ele correu de volta para a varanda e se escondeu justamente quando a carruagem passou silenciosamente, seguindo para os portões. Em poucos segundos ela desapareceu.
Sherlock sentiu-se traído. Ele sentiu-se... abandonado. Seu próprio irmão estava escondendo coisas dele.
Por alguns minutos, enquanto o silêncio caía novamente pela casa e seus terrenos, ele ficou parado ali. Ele não sabia o que fazer. Em uma situação como aquela ele procuraria ou seu irmão ou Rufus Stone para aconselhá-lo, mas isso não adiantaria agora. Ele estava sozinho.
Não, não estava. Ele tinha Matty.
Ele correu escada acima e pelo corredor até o quarto de Matty. Pela segunda noite consecutiva ele acordava seu amigo com um dedo sobre os lábios para mantê-lo quieto. Na meia hora seguinte ele contou para um Matty incrédulo o que havia acontecido na casa de James Phillimore e mais recentemente nos terrenos do Chalé Holmes.
— Eu sempre falei que seu irmão era imprevisível. — Matty coçou a cabeça. — O que você acha que devemos fazer? O que podemos fazer?
Como sempre, Sherlock estava grato pelo desejo imediato e sincero de seu amigo de querer ajudar, de fazer alguma coisa.
— Eu estive pensando — ele sussurrou — aquela carta é a chave para a coisa toda. Não havia nenhuma informação na carta em si que poderia ter provocado esse tipo de reação nos superiores de Mycroft, e não vi nenhum sinal de um código no que o irmão do Sr. Phillimore escreveu. Eu já vi códigos escondidos em mensagens antes, e geralmente há algo estranho na própria mensagem que a denuncia... algo fora de lugar ou incomum porque as palavras tiveram que ser escolhidas de modo que a cada cinco palavras, por exemplo, forme uma mensagem secreta. Não havia nada na mensagem que me fez pensar que havia algo escondido, entretanto.
— Há outros meios de esconder mensagens? — Matty perguntou.
Sherlock refletiu.
— Suponho que poderia haver algo escondido embaixo do selo, mas teria que ser uma mensagem bem pequena. Ou... — ele bateu na testa. — É claro!
— O quê? — Matty perguntou.
— Tinta invisível. Eu fui tão estúpido! Você pode usar suco de limão, ou várias outras coisas para escrever mensagens no papel. Elas ficam invisíveis quando secam, mas se você segurá-las sobre uma vela, a mensagem aparece.
Um pensamento o atingiu.
— Estava nos encarando o tempo todo... o irmão do Sr. Phillimore na verdade falou: “Eu nunca fui capaz de segurar a vela para iluminar o caminho dos necessitados”. Essa era a mensagem para o Sr. Phillimore segurar uma vela na carta e procurar por tinta invisível. — Sherlock se esforçou para lembrar o conteúdo da mensagem. — Ele também disse: “Quando crianças, lembro-me que éramos inseparáveis, e aprontávamos todos os tipos de truques e pegadinhas”. Aposto que ele e seu irmão costumavam enviar mensagens um para o outro usando tinta invisível quando crianças. O que mais ele escreveu? “Lamento o fato de as coisas terem mudado, e que algum tipo de parede invisível tenha crescido entre nós”. Então ele mencionou “invisível”, “vela” e “truques”. Estava tudo ali!
— E este Sr. Phillimore não entendeu isso sozinho? — Matty fungou. — Ele precisa se esforçar mais se quiser fazer parte desta família.
— Indo ao ponto, estou surpreso que Mycroft não tenha percebido. Ele deve estar ficando descuidado.
Enquanto falava essas palavras, Sherlock lembrou que Mycroft havia cheirado o envelope. Teria seu faro sensível detectado um traço de suco de limão? Teria ele compreendido pelo puro odor de limões que havia uma mensagem secreta na carta?
Sherlock balançou a cabeça.
— Nós precisamos dar outra olhada na carta. Precisamos procurar por tinta invisível para podermos descobrir qual a mensagem, porque Mycroft não nos contará.
— Vamos agora? — Matty perguntou. — Ou depois do café da manhã?
Eles acabaram esperando pelo café da manhã pela simples razão de que não queriam acordar o Sr. Phillimore antes do nascer do sol para perguntar se eles poderiam dar outra olhada na carta. Havia também o fato de que Matty não queria viajar de estômago vazio.
Emma estava na mesa durante a refeição. Isso fez com que Sherlock e Matty parassem de falar sobre o que iriam fazer, porque Emma certamente perguntaria se poderia acompanhá-los até a casa do Sr. Phillimore. Ao invés disso, eles conversaram sobre coisas inofensivas, explodindo de vontade de falar algo mais importante, mas incapazes de fazer isso.
Rufus Stone não estava presente, felizmente. Dessa maneira, Sherlock não precisaria fingir surpresa com a ausência de Mycroft e tentar parecer acreditar nas mentiras que Rufus contaria para ele.
Tão rapidamente quanto puderam após o café, Sherlock e Matty selaram dois cavalos nos estábulos e partiram para a casa do Sr. Phillimore. Enquanto preparavam os cavalos, Sherlock notou os pedaços de corda cortados que haviam sido deixados espalhados na palha. A visão enviou uma pontada de angústia em seu coração. Ele odiava que mentissem para ele – especialmente a própria família.
Eles chegaram à casa de James Phillimore pouco depois das nove da manhã. Sherlock tocou a campainha, e Marie – a empregada – atendeu. Quando viu Sherlock, ela estremeceu. Obviamente tinha memórias perturbadoras do dia anterior.
— Posso ajudá-lo, senhor?
— O Sr. Phillimore está? — Sherlock perguntou.
— Verei se ele está disponível — ela respondeu, e desapareceu dentro da casa.
Desta vez ela realmente fechou a porta na cara dele. Sherlock se pegou imaginando se ela havia ido para a cozinha, ou para qualquer lugar onde passasse o seu tempo quando não estava atendendo a porta, e deixado ele e Matty plantados no degrau da frente até que desistissem e fossem embora. Ele estava prestes a bater outra vez quando a porta se abriu.
— O mestre os receberá — Marie disse. Estava claro pelo seu tom de voz que ela desaprovava.
Phillimore aguardava na sala de estar.
— Sr. Holmes! — ele exclamou — eu estava esperando que o senhor retornasse e me contasse o que aconteceu com aqueles três bandidos. — Ele olhou para Matty — E o senhor trouxe um amigo junto. Que maravilhoso.
— Este é Matty... Matthew Arnatt — Sherlock apresentou. — Temo que eu não possa contar muita coisa sobre o que descobrimos a respeito daqueles homens, mas eu tinha esperança de que pudéssemos dar outra olhada na carta. Acho que podemos ter deixado algo passar.
Phillimore franziu a testa.
— Seu irmão não te contou?
Sherlock sentiu seu estômago afundar.
— Contou sobre o quê?
— Que o mesmo pensamento lhe ocorreu. Ele veio até aqui ontem tarde da noite. Muito tarde da noite, na verdade. Eu estava me preparando para dormir quando escutei a campainha. Ele estava, devo dizer, muito ríspido comigo. Disse que precisava levar a carta de meu irmão para testá-la. Eu estava relutante em entregá-la, mas ele foi bastante insistente.
— Ele levou a carta? — Sherlock perguntou.
— Levou. — Phillimore franziu a testa. — Ele não lhe contou quando retornou ao Chalé Holmes?
— Não... ele deve ter esquecido. — Sherlock forçou um sorriso. — Peço desculpas por fazê-lo perder seu tempo, Sr. Phillimore.
— Por favor, diga ao seu irmão que eu gostaria de ter a carta de volta, — Phillimore disse enquanto os guiava até a porta. — Meu irmão e eu tivemos nossas diferenças ao longo dos anos, mas eu recebo bem sua tentativa de reparar nosso relacionamento. A carta é muito estimada para mim.
— Eu prometo levantar esse assunto com Mycroft na primeira oportunidade — Sherlock concordou.
— E... — Phillimore hesitou. — Por favor, transmita meus mais sinceros sentimentos à minha querida Emma. Diga a ela que eu estive me mantendo afastado em respeito ao seu pesar, mas que espero vê-la novamente em breve.
— Farei isso — Sherlock respondeu. Particularmente, ele não podia deixar de pensar que, dado o perigoso estado mental de Emma, ela poderia muito bem ter se esquecido de Phillimore quando Sherlock retornasse. — Ah, mais uma coisa, — Sherlock chamou quando o Sr. Phillimore começou a fechar a porta.
— Sim?
— Alguns anos atrás, quando você e seu irmão se davam bem, vocês brincavam muito juntos?
Ele sorriu com a lembrança.
— Sim, nós brincávamos.
— E vocês pregavam muitos truques nos seus familiares e nos professores?
— Nós pregávamos, de fato. Eu me lembro que nós criamos nosso próprio idioma, que costumávamos falar quando não queríamos que os adultos soubessem sobre o que conversávamos. Ah, e nós usávamos tinta invisível para escrever bilhetes um para o outro. Isso costumava enfurecer os professores quando eles nos pegavam passando bilhetes, mas não havia nada escrito neles. Era tão divertido.
— Obrigado — Sherlock disse. — O senhor foi de grande ajuda... mais do que imagina.
Quando a porta se fechou atrás deles, Sherlock bateu a mão na perna em frustração.
— Mycroft chegou aqui primeiro! — ele exclamou. — Ele está com a carta!
— Ele certamente levou a mensagem com ele para Londres — Matty observou. — Juntamente com aqueles sujeitos. O que faremos agora?
A resposta era clara na mente de Sherlock. Uma vez tendo iniciado esta jornada, ele deveria continuar.
— Nós iremos a Londres e recuperaremos a carta — ele falou firmemente.
— Isso não será um problema? — Matty perguntou, franzindo a testa. — Quer dizer, nós não sabemos onde ele vai escondê-la.
— Meu irmão Mycroft passa o seu tempo todo em Londres em apenas três lugares — Sherlock falou. — Seu apartamento em Whitehall, no Diogenes Club, também em Whitehall, e seu escritório no prédio do governo.
— Que eu suponho que fique em Whitehall também. — Matty sorriu. — Seu mano não gosta de se deslocar muito, não é?
Sherlock não pôde evitar sorrir também, apesar da gravidade da situação.
— Se ele pudesse dormir e comer no escritório, então ficaria lá o tempo todo. De outro modo, se pudesse dormir e trabalhar no Diogenes Club, então ele faria isso. Finalmente, é claro, ele perderia a utilidade de suas pernas por completo, mas poderia levar um tempo até que ele percebesse. Ou se importasse. — Ele refletiu por um momento. — Duvido que ele correria o risco de deixar a carta em seu apartamento ou no Diogenes. Já houve duas tentativas de recuperar a carta, e o clube e sua casa são vulneráveis. Não, por medida de segurança, e porque a carta diz respeito às Relações Exteriores, ele provavelmente a levará ao seu escritório e a deixará lá. — Ele olhou para Matty. — O que você acha de invadirmos o edifício de Relações Exteriores e roubarmos a carta? — ele perguntou.
Matty deu de ombros.
— Já fiz pior na minha vida. — Ele percebeu o olhar de Sherlock e emendou: — Não vou dizer o que foi.
Um pensamento angustiante atingiu Sherlock.
— Suponho que seja possível que Mycroft coloque a carta em um cofre, ao invés de deixá-la em sua mesa. Isso irá nos causar problemas.
Matty deu de ombros.
— Depende do tipo de cofre — ele falou — qualquer coisa acima de cinco anos eu provavelmente consigo abrir. É só o caso de escutar os cliques enquanto giro o puxador. Eu fiquei bom nisso.
— Você terá que me ensinar como fazer isso — Sherlock disse, encarando Matty com admiração.
— Se eu ensiná-lo — Matty observou — então você não mais precisará de mim.
— Eu sempre precisarei de você — Sherlock respondeu simplesmente.
Em vez de responder a isso, Matty somente balançou a cabeça em agradecimento, e olhou para outro lado.
— Quando nós vamos para Londres? — ele perguntou.
Sherlock pensou poder ouvir a excitação na voz de Matty.
— Não há razão para esperar. — Sherlock respondeu. — Nós precisamos chegar lá e pegar a carta antes que Mycroft tenha chance de analisá-la e colocá-la em segurança em algum outro lugar. Vamos direto para a estação agora, e pegaremos um trem.
Eles foram para a estação de Arundel com muito tempo de sobra até o próximo trem, e deixaram os cavalos no estábulo mais próximo, deixando dinheiro suficiente com os garotos do estábulo para garantir que os cavalos fossem bem cuidados até que eles retornassem. Eles olharam ao redor cautelosamente para o caso de Rufus Stone estar viajando no mesmo horário que eles, mas não o viram. Meia hora depois eles estavam no trem para Londres. Foi só quando estavam passando pelos subúrbios de Londres que Matty disse subitamente:
— Pera aí... quem está no comando da sua casa agora? Seu irmão foi embora, e agora você também. Quem sobra... a sua irmã?
— Suponho que a tia Anna esteja no comando agora — Sherlock falou, em dúvida.
Na verdade, não lhe havia ocorrido deixar um bilhete para ela contando o que estava acontecendo, ou enviar alguma instrução aos criados para continuarem até ele retornar. Do mesmo modo, provavelmente não ocorreu a Mycroft fazer algo similar quando ele partiu repentinamente. A família Holmes tinha um problema em pensar apropriadamente sobre as coisas, Sherlock tinha que admitir. Ele não tinha certeza se concordaria com Mycroft de que ele era facilmente distraído, mas uma vez que ele estava focado em algo, tinha o hábito de deixar tudo o mais de lado.
— Talvez eu envie um telegrama — ele disse fracamente.
O trem chegou à estação Victoria depois de um tempo. Sherlock e Matty caminharam para o leste.
— Como conseguiremos entrar? — Matty perguntou enquanto passavam pela fachada sombria da prisão Tothill Fields Bridewell.
— Ainda estou pensando sobre isso — Sherlock disse. Na verdade, ele não fazia ideia.
Eles passaram pela Abadia de Westminster e continuaram caminhando. Finalmente chegaram a Whitehall: uma ampla via pública com a Trafalgar Square numa ponta e a Casa do Parlamento na outra. Sherlock estivera ali inúmeras vezes ao longo dos anos, e sabia se localizar. O edifício das Relações Exteriores ficava a dois terços do caminho, à direita: um grande edifício de pedra marrom com um telhado ornamentado e janelas altas. Algumas das pedras haviam sido esculpidas com cumes e cochos para animais, como miniaturas de colinas de pedra.
— E agora? — Matty perguntou quando eles avistaram o prédio. — Pensei em nos apresentar como limpadores de chaminé e dizer que viemos limpar a fuligem delas.
— Isso não funcionará — Sherlock respondeu. — Nós estamos limpos demais, e muito bem alimentados. Ninguém acreditaria que somos limpadores de chaminé. Além disso, geralmente há um adulto com eles para garantir que eles não fujam.
— Tudo bem então... o que você sugere?
— Nós esperamos e observamos — Sherlock disse.
Eles passaram horas em diferentes posições na parte da frente e de trás do edifício de Relações Exteriores, observando enquanto homens de aparência importante em sobretudos, calças listradas e cartolas entravam e saíam por uma porta que era guardada por porteiros em uniformes formais. Todos os homens que iam e vinham tinham bigodes, pestanas ou barbas impressionantes. Depois de um tempo, eles pareceram se misturar na mente cansada de Sherlock, e parecia que eram os mesmos homens que entravam e saíam todas as vezes. Uma ou duas vezes carruagens pararam e diplomatas em mantos exóticos e chapéus estranhos saíram ou entraram no prédio com muita cerimônia e apertos de mãos de outros homens que chegavam para cumprimentá-los.
Duas vezes enquanto eles observavam jornaleiros com pilhas de jornais entrarem no edifício com um aceno do porteiro uniformizado.
— Olhe aquilo — Sherlock falou na segunda vez que aconteceu. — Os garotos que entregam jornal têm passe livre para entrar no edifício. As pessoas que trabalham lá devem ler os jornais por causa de reportagens estrangeiras que não passaram ainda pelos canais diplomáticos. Os garotos provavelmente vagam pelos corredores, vendendo os jornais para quem quiser. Isso nos dá um modo de entrar. Só precisamos arrumar uma pilha da próxima edição do jornal e passar por eles como se tivéssemos todo o direito de estarmos ali. Acho que há três ou quatro edições por dia de alguns dos jornais.
— Então nós vamos roubá-los? — Matty perguntou.
— Nós vamos comprá-los. — Sherlock respondeu. — Comprar a pilha toda do próximo garoto que passar.
— Ou nós podemos simplesmente roubá-los — Matty murmurou.
Meia hora depois, um garoto usando boné de pano passou por eles carregando uma pilha de jornais. Sherlock ia se aproximar dele, mas Matty o segurou.
— Olhe, só me dê uns dois xelins — ele falou discretamente. — Acho que ele e eu falamos a mesma língua. Ele certamente parece mais comigo do com você.
Matty alcançou o garoto e andou ao seu lado por alguns minutos, conversando. De repente o garoto parou. Matty estendeu uma moeda para ele, e o garoto entregou a pilha de jornais. Ele saiu correndo, e Sherlock foi se juntar a Matty.
— Tão fácil quanto cair de um cavalo — Matty comentou.
Sherlock abriu um sorriso.
— Dê-me metade dos jornais, então ande ao meu lado até as portas do edifício de Relações Exteriores. Tente parecer como se tivesse todo o direito de estar ali. Na verdade, aja como se você não quisesse estar ali.
— Ei, eu já me esgueirei para dentro de outros lugares antes — Matty respondeu, soando levemente ofendido.
Juntos, eles andaram em direção ao impressionante edifício. Sherlock estava esperando ter que falar algo, ou explicar porque eles não eram os jornaleiros habituais, mas o porteiro de plantão somente acenou quando eles passaram. Talvez os rostos dos garotos que entregavam os jornais vivessem mudando, ou talvez ele não olhasse mais para eles depois de tantos anos trabalhando ali. Fosse qual fosse a razão, Sherlock e Matty passaram direto por ele.
Dentro do edifício, eles se encontraram em um hall de entrada cujo piso era coberto de mármore branco e preto. À frente deles, uma enorme escada de pedra branca se erguia como uma cascata de água congelada. Seus corrimões eram largos o suficiente para que Matty deslizasse neles em uma bandeja de chá. O ar era frio, e os ecos de passos distantes se misturavam com o barulho das máquinas de escrever.
— Para onde agora? — Matty sussurrou.
— Continue andando — Sherlock disse. — Mycroft me falou o número de seu escritório uma vez, caso eu precisasse enviar um telegrama urgente enquanto ele estivesse no trabalho. Eu ainda me lembro. Tudo o que precisamos fazer é continuar andando pelos corredores até encontrarmos.
— Parece um plano — Matty disse.
Eles se dirigiram pelo primeiro corredor que encontraram, Sherlock checando os números dos escritórios conforme passavam. Várias vezes os homens nos escritórios os viam e os chamavam, querendo comprar um jornal deles. Na verdade, eles estavam sendo tão bem-sucedidos em vender os jornais que Sherlock se preocupou que eles poderiam acabar antes que chegassem ao escritório de Mycroft, e assim não teriam motivo para ficar vagando pelos corredores. Por essa razão, ele fez questão de se certificar que ele e Matty caminhassem rápido, e não ficassem se demorando nas portas.
O sistema de numeração, se é que existia um, não era intuitivamente óbvio, então Sherlock e Matty tiveram que continuar procurando pelo número certo ao invés de decifrar aonde ele ficava. Eles descobriram eventualmente que o escritório de Mycroft não ficava no térreo. Ao invés de voltarem ao hall de entrada e para as escadas de mármore branco, Sherlock achou uma porta no fim do corredor que levava a uma escada de metal em espiral. Eles subiram para o próximo andar e começaram tudo de novo.
Depois de dez minutos no primeiro andar do edifício, Sherlock viu o número certo ao lado de uma porta semiaberta. Ele estava prestes a colocar seus jornais no chão e ir em direção à porta, pronto para escutar se havia alguém do lado de dentro, quando ela se abriu e a larga silhueta do corpo de seu irmão apareceu.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Comentários de volta!
Passamos algumas horas sem essa opção, mas estamos à ativa novamente :)

Boa leitura! E SEM SPOILER!