2 de janeiro de 2018

Capítulo nove

SHERLOCK AGARROU OS BRAÇOS de Matty e o empurrou de lado para dentro da porta aberta de um escritório ao lado. Matty começou a dizer algo, mas Sherlock segurou seu maxilar e impediu sua boca de se movimentar.
— Ah, os entregadores de jornal — uma voz falou. — Essa é a edição da tarde?
— Sim, senhor — Sherlock disse automaticamente.
Ele girou sua cabeça. O homem sentado na escrivaninha era tão magro quanto Mycroft era gordo. Sua cartola e seu sobretudo estavam pendurados em um suporte para casacos, e Sherlock podia ver faixas flexíveis de metal em volta da parte superior dos braços, presumivelmente para impedir que os punhos do casaco descessem sobre suas mãos. Ele usava uma viseira verde presa em sua testa por uma faixa que envolvia o pescoço, protegendo seus olhos da luz que entrava pela janela alta.
— Dê-me uma cópia, — ele disse. — Estou aguardando notícias de Constantinopla.
Sherlock entregou uma cópia do jornal e o homem atirou uma moeda para ele.
— Traga a edição noturna assim que sair. Traga-a aqui primeiro, depois você entrega para o restante do edifício. Haverá um meio-xelim para você se me entregar o jornal primeiro.
— Sim, senhor.
Houve uma pausa quando o homem abriu o jornal, então se deu conta de que Sherlock e Matty ainda estavam ali e os encarou, esperando que saíssem. De sua parte, Sherlock estava preocupado que Mycroft ainda estivesse no corredor, talvez conversando com alguém, mas ele não queria levantar suspeitas. Ele empurrou Matty para fora do escritório, certificando-se de que suas costas estivessem voltadas para o escritório de Mycroft.
Na verdade, a figura reconhecível de seu irmão estava caminhando pelo corredor – na direção contrária a deles.
— Procurando pela moça do carrinho de chá — Matty adivinhou.
— Nós temos alguns minutos — Sherlock disse. — Vamos entrar lá e procurar por aquela carta.
Eles se moveram rapidamente pelo corredor e para dentro do escritório de Mycroft. Sherlock estava receoso de que seu irmão pudesse estar dividindo o escritório com alguém, mas, se ele estivesse, então Sherlock supôs que ele e Matty teriam que aplicar o truque do jornal novamente. Na verdade, havia somente uma mesa, e o escritório estava vazio.
Sherlock colocou sua pilha de jornais no chão e olhou ao redor. Tudo estava metodicamente organizado. O couro marrom da superfície da mesa estava quase nu, não fosse por uma pasta verde, um suporte de canetas tinteiro, um tinteiro e uma fotografia em uma moldura. Sherlock não pôde evitar: ele pegou a fotografia, esperando que ela fosse de seus pais ou possivelmente dele e de Emma.
Na realidade, era a fotografia de uma mulher em um vestido branco. Por causa de suas sardas, Sherlock julgou que ela provavelmente fosse ruiva. Seu cabelo era cacheado, e seu sorriso era tão vívido e genuíno que Sherlock se pegou sorrindo também.
— Eu já falei antes... ele é imprevisível — Matty observou. Ele havia deixado seus jornais perto da porta.
Sherlock baixou a fotografia.
— Ele provavelmente nem a conhece — disse com desdém. — Ele a deixa aqui só para que os outros pensem que ele tem uma mulher em sua vida.
Matty o encarou.
— Dê a ele algum crédito. Sei que ele o magoou, mas ele está fazendo tudo isso por alguma razão. Aquele telegrama que você disse que ele recebeu... provavelmente era para lhe passar ordens. Não pense que ele está mentindo sobre tudo...
Sherlock suspirou.
— Você está certo, é claro.
  A superfície da mesa estava limpa, então Sherlock checou as gavetas. Havia canetas tinteiro, réguas e apontadores de lápis na gaveta de cima, envelopes na segunda gaveta, papel em branco e cadernos na terceira, e um revólver na última gaveta. Sherlock olhou para ele, fascinado.
— Imprevisível — Matty murmurou quando viu o que Sherlock olhava.
Tendo revistado as gavetas da mesa, Sherlock olhou ao redor da sala, frustrado. Havia um armário na parede perto da porta, mas estava trancado. Um pesado cofre de metal estava colocado na parede oposta à mesa, mas ele também estava trancado. Matty havia assegurado a Sherlock de que poderia arrombar o cofre, mas Sherlock estava preocupado com o tempo que isso levaria. Presumindo que Mycroft tivesse ido tomar uma xícara de chá e um pão de groselha, ao invés de ir para uma reunião, ele estaria de volta em alguns minutos. Por melhor que Matty pudesse ser, Sherlock tinha certeza de que levaria mais tempo do que isso para arrombar o armário, que dirá o cofre. Frustrado, ele colocou as mãos na mesa e se inclinou para frente, sua cabeça pendendo, tentando decidir qual a melhor coisa a fazer.
— Posso perguntar uma coisa? — Matty disse. Ele estava com as mãos no bolso e olhava para fora da janela.
— O quê? — Sherlock perguntou.
— Aqueles três sujeitos, os que invadiram a sua casa enquanto fingiam ser decoradores da casa do Sr. Phillimore...
— O que tem eles? — Sherlock dedicava apenas uma parte de sua atenção para o que Matty perguntava. O restante estava focado em descobrir onde seu irmão havia colocado a carta. Certamente estava ali, e não no Diogenes Club ou em seu apartamento.
— Onde você acha que eles estão? — Matty perguntou.
— Eu não sei. Por quê?
— Bem, seu irmão os levou embora sob ordens, até onde podemos dizer. Eles devem estar sendo mantidos em algum lugar, e interrogados.
— Eles cometeram um crime — Sherlock falou. — Provavelmente foram presos e estão neste momento sentados em celas na delegacia.
— Vamos esperar que sim. — Matty disse tristemente. — Não é que eu tenha alguma estima por invasores, mas eu detestaria pensar naqueles sujeitos presos em algum lugar secreto onde ninguém pode entrar para vê-los, sem nenhum meio legal para chegar até eles.
— Tenho certeza de que esse não é o caso — Sherlock respondeu tranquilizadoramente, mas ele estava se concentrando na mesa, e na maneira como suas mãos repousavam nela. Havia alguma coisa no papel mata-borrão onde suas mãos estavam apoiadas que o incomodava. O bloco se curvava levemente, como se tivesse algo por baixo, fazendo volume no meio enquanto ele se apoiava nas laterais.
Ele pegou o bloco e o virou de lado. Ali, na mesa à sua frente, estava a carta de Jonathan Phillimore para seu irmão James. Sherlock a pegou e a agitou triunfantemente.
— Achei!
— Brilhante — Matty exclamou. — Vamos sair daqui.
— Não tão depressa. — Sherlock pensou rapidamente. Ele não queria que Mycroft percebesse que a carta havia sumido, não por um tempo pelo menos, mas ele não achava que tinham tempo suficiente para testar a escrita secreta ali.
Por um momento ele pensou em tirar a carta do envelope, colocar no bolso de seu casaco e deixar o envelope para trás, talvez com uma folha de papel em branco dentro dele, mas algo o impediu de fazer isso. Ao invés disso ele abriu a segunda gaveta. Rapidamente vasculhou os envelopes vazios, procurando por algum que fosse do mesmo tamanho que a carta de Jonathan Phillimore. Assim que encontrou um, fechou a gaveta, pegou uma caneta tinteiro com a cor certa de tinta e copiou o endereço de James Phillimore da frente da carta de seu irmão para o envelope em branco, imitando a caligrafia de Jonathan Phillimore o melhor possível. Ele ergueu os dois envelopes na direção de Matty.
— Eles parecem iguais?
— Não sei... Não consigo ler, lembra?
— Não me importa se você sabe ler ou não, quero saber se eles parecem iguais.
  Matty apertou os olhos.
— Suponho que sim.
— Tudo certo então. — Sherlock colocou o envelope falso embaixo da pasta e ajustou o bloco de papel mata-borrão até que estivesse exatamente como ele o havia encontrado. Ele suspeitava que mesmo que estivesse ligeiramente torto ou desalinhado com as beiradas da mesa, Mycroft perceberia que algo estava errado. Sherlock certamente teria suspeitado.
— Hora de ir.
Matty colocou a cabeça pela fresta da porta e olhou nas duas direções do corredor.
— Tudo limpo. Vejo sujeitos em roupas caras, mas seu irmão não é um deles.
Eles saíram rapidamente. Sherlock acenou enquanto passavam pela porta, dando a impressão de que eles estavam se despedindo de alguém lá dentro. Afinal de contas, ele não queria que parecesse que eles estavam em um escritório vazio.
Cinco passos depois, Sherlock percebeu que eles haviam deixado os jornais para trás.
— Rápido! — ele sibilou. — Precisamos voltar!
Eles agarraram os jornais e saíram da mesma maneira que haviam saído alguns momentos antes. Não que Sherlock pensasse que ainda precisassem dos jornais – é que ele sabia que seu irmão iria querer saber de onde as duas pilhas haviam surgido se as visse, e ele não descansaria até encontrar uma resposta.
Eles foram na direção oposta daquela que Mycroft tomara, e assim que chegaram a uma escada Sherlock, liderou o caminho para baixo. Eles conseguiram se livrar de mais cinco jornais antes de chegar ao hall de entrada de mármore.
Uma vez do lado de fora, no ar frio da tarde, eles caminharam o mais rápido que conseguiram para longe do edifício de Relações Exteriores, deixando os jornais remanescentes aos cuidados de um surpreso homem cego com um realejo e um macaco em uma corda.
— Para onde agora? — Matty perguntou. — E vai ter comida? Meu estômago pensa que a minha garganta foi cortada!
— Precisamos de algum lugar com uma vela — Sherlock falou.
— Uma taverna? — Matty ofereceu.
— Casa de chá — Sherlock rebateu. — Há uma do outro lado da estação Charing Cross. Vamos comprar algo para comer e para beber lá.
A estação Charing Cross ficava a uma curta caminhada, e dentro de dez minutos eles estavam sentados em uma mesa que tinha uma vela convenientemente flamejante no centro. Sherlock esperou até que a garçonete houvesse recolhido seus pedidos de um bule de chá e alguns biscoitos com geleia e creme antes de tirar o envelope da jaqueta.
— Certo. Hora de descobrir o que está realmente acontecendo.
— Só não coloque fogo nela por acidente — Matty recomendou. — Pelo menos não até termos comido nossos biscoitos e tomado nosso chá. Depois disso você pode fazer o que quiser, no que me diz respeito.
Sherlock retirou a única folha de dentro do envelope e a cheirou cuidadosamente. Havia de fato um leve odor de limão nela. Isso deu a ele a confiança de segurar a carta sobre a chama da vela – suficientemente distante para que ela fosse aquecida, mas não pegasse fogo.
— Não vejo nada — Matty disse depois de um tempo.
— Espere mais um pouco.
Ele manteve a carta sobre a chama da vela até que seus dedos estivessem muito quentes para aguentar, mas até onde podia ver, nenhuma escrita extra havia aparecido na folha – nem entre as linhas que já estavam escritas ou nas beiradas.
Ele bufou em frustração. Sherlock não podia estar errado. O processo de pensamento que o havia levado até esse ponto era inquestionável. Tinha que haver uma mensagem secreta, porque os três bandidos estavam atrás da carta, e tinha que ser uma escrita secreta por causa das palavras “invisível”, “vela” e “truque”, e também porque ele não havia identificado nenhum código nas palavras em si. Ele bufou de novo. O que ele estava deixando passar? A carta precisava de algo além do calor para revelar a mensagem secreta que continha? Se precisasse, o que seria? Um spray químico de algum tipo? O único modo de checar isso seria retornar a Arundel e falar com James Phillimore novamente para verificar qual técnica ele e seu irmão haviam utilizado.
Não – tinha que ter algo mais. Algo simples.
Seu olhar se moveu pela mesa enquanto ele pensava, sem olhar para nada em particular, simplesmente flutuando enquanto sua mente se afastava. Ele acabou olhando para o envelope, e o fato de que ele levou vários segundos para chegar à simples e óbvia solução o irritou tanto que ele gritou “Sou um tolo” tão alto que as pessoas nas mesas ao lado se viraram para encarar.
— O que foi? — Matty perguntou.
— A mensagem secreta não está na carta de modo algum — ele exclamou. — Está no envelope!
Rapidamente, mas com cuidado, ele pegou o envelope e o esticou para que ele se parecesse o mais próximo de uma folha de papel quanto possível. Ele o segurou sobre a vela com o endereço para baixo, e aguardou impacientemente.
Desta vez ele sabia que estava certo.
Uma caligrafia marrom vagarosamente apareceu do lado de dentro do envelope. Sherlock virou-o para que pudesse ler as palavras.

James, me perdoe, mas eu preciso desesperadamente de sua ajuda. Você está familiarizado com um homem chamado George Clarke? Ele tem uma posição oficial no projeto de construção, embora eu nunca tenha conseguido descobrir exatamente qual é essa posição, e tenho grandes preocupações de que ele esteja escondendo algo de mim – algo importante. Ele parece ter seu próprio planejamento, além da escavação deste canal. Ele tem homens que se reportam a ele, homens que não estão na folha de pagamento deste projeto, e frequentemente os envia para realizar trabalhos que em nada tem a ver com a escavação do canal. Eu também tenho encontrado-o frequentemente em meu escritório, quando ele esperava que eu estivesse fora inspecionando o terreno, examinando os mapas e vários projetos de engenharia e os comparando com documentos que ele guarda em uma pasta no momento em que me vê. Algo está acontecendo aqui, e eu não gosto disso.
Eu tentei, é claro, fazer com que minhas preocupações fossem transmitidas aos meus superiores, de fato ao próprio Monsieur de Lesseps em Porto Said, mas suspeito fortemente que o Sr. Clarke esteja interceptando minhas cartas. Eu não me atrevo a tentar viajar para encontrar Monsieur de Lesseps para o caso de que alguém aqui decidir providenciar um acidente para mim. Tentei entrar em contato com a Companhia Canal de Suez nos seus escritórios em Paris, mas suspeito que o Sr. Clarke esteja impedindo que aquelas cartas deixem o país. Espero que a aparentemente inocente natureza desta carta o direcione para uma falsa sensação de segurança, e ele a deixe passar. Se esta carta chegar até você, então, por favor, responda a ela com uma mensagem secreta do mesmo modo para que eu saiba que a minha mensagem para você foi entregue. Por favor, permita-me saber o que você descobrir sobre George Clarke, e, por favor, fale com o Governo se puder. Isso me ajudaria enquanto decido o que fazer com a presença dele, e enquanto investigo o que exatamente ele está fazendo nesse projeto. Temo que seja algo terrível.
Seu irmão,
Jonathan

— É isso! — Sherlock exclamou. — Nós descobrimos. Há alguma trama secreta em andamento para assumir, ou comprometer, ou destruir este novo canal no Egito. Jonathan Phillimore achou evidências apontando para isso e tentou alertar seus superiores, mas suas cartas de advertência foram interceptadas.
— Como você sabe que é algum tipo de tomada de poder ou sabotagem? A mensagem não diz isso.
Sherlock assentiu.
— Você está certo, mas pense a respeito. Há somente algumas coisas que você pode fazer em um local de construção internacional. Se você estivesse envolvido em um crime financeiro, desviando fundos do projeto, por exemplo, você faria isso do escritório central, não de onde a própria construção está acontecendo. Não, se George Clarke está fazendo algo ilegal ou secreto no próprio local da construção, então tem que ser algo relacionado à engenharia... e isso quer dizer que ele certamente foi contratado para sabotá-la. Por isso ele tem olhado os projetos de Jonathan Phillimore. Ele está procurando por fraquezas, locais onde poderia fazer algo que destruiria o canal, ou evitar que ele seja finalizado.
— Você tem certeza disso?
— Tenho muita certeza. Então Jonathan escreveu em segredo para seu irmão mais velho, superando quaisquer problemas familiares entre eles, mas quem está por trás da trama no Egito descobriu que ele havia mandando uma carta com conteúdo secreto, e mandou agentes na Inglaterra para rastrearem a carta. — Ele balançou sua cabeça. — Incrível que uma trama tão distante pudesse ser desvendada aqui na Inglaterra, em uma casa de chá.
— Então o que nós fazemos? — Matty perguntou. — Contamos para o seu irmão?
Sherlock suspirou.
— Não. Mycroft já sabe.
— Quer dizer que ele decifrou a escrita invisível como você fez?
— Não. — Sherlock balançou sua cabeça tristemente. — Mycroft já sabia. Ou talvez não soubesse, mas seus superiores sabiam. Você lembra o que ele falou quando leu a carta pela primeira vez... ele mencionou que o Governo Britânico é contra a escavação do canal, e que eles estão felizes com a atual situação a respeito de rotas e comércio. — Ele parou para pensar por um momento, e um pensamento horrível lhe ocorreu. — Se o Governo Britânico é realmente contra o projeto, então eles iriam tão longe a ponto de destruí-lo? O Governo Britânico poderia ter contratado esse George Clarke?
Matty franziu o cenho.
— Por que eles o contratariam?
— Eu já passei muito tempo com Mycroft, e estive presente em discussões suficientes que ele teve com outros diplomatas para saber que o Governo Britânico é obcecado em manter-se no topo quando se trata de poder e influência... especialmente quando diz respeito a França, Alemanha e Rússia. Qualquer coisa que pudesse afetar esse equilíbrio, que pudesse dar a outro país mais influência, precisaria ser barrada. Jonathan Phillimore falou que o projeto para construir esse canal ligando Suez a Porto Said está sendo financiado pelos franceses. Isso significa que quando o canal estiver finalizado, e os navios puderem evitar as perigosas viagens ao redor da África, os franceses serão beneficiados. Ou eles cobrarão taxas dos capitães para usar o canal, dessa maneira provendo fundos para o Governo Francês direta ou indiretamente, ou darão preferência aos seus próprios navios no uso do canal. — Ele ergueu suas sobrancelhas quando a totalidade das implicações o arrebatou. — Se os navios franceses puderem trazer cargas da China e da Índia com rapidez, enquanto os navios britânicos tiverem que utilizar a rota mais longa, então a balança do poder econômico se inverteria. A França se tornará a entidade econômica mais poderosa!
— E eles não merecem se tornar? — Matty perguntou. — Quero dizer, eles estão pagando por esse canal. Presumivelmente nós poderíamos ter pagado por ele, se nós quiséssemos. Se mais alguém desembolsou o dinheiro, então que bom para eles.
Sherlock o encarou por um momento.
— Nunca entre para o Serviço Diplomático — ele falou finalmente. — Não acho que eles sobreviveriam à sua honestidade.
— Não tem muita chance de isso acontecer — Matty respondeu.
— Não tem nada a ver com equidade e tudo a ver com obter o máximo de poder e influência com o mínimo de esforço. Se for mais barato e mais fácil destruir um canal francês do que construir um canal britânico, então é isso que eles farão.
Matty balançou sua cabeça tristemente.
— E seu irmão sabe de tudo isso?
— Ele não sabia. — Sherlock pensou por um momento. — Tenho certeza que ele não sabia. Quando ele leu a carta pela primeira vez na casa de James Phillimore, ele não teve nenhuma reação à menção do canal, a não ser um pouco de desdém pela ideia. Foi somente depois de ter enviado um telegrama para seus superiores, presumivelmente mencionando a carta e Jonathan Phillimore de passagem, que um telegrama retornou dando a ele instruções para retirar todas as evidências de lá e levá-las a Londres. Ele sabe agora, tenho certeza, mas não sabia naquele momento.
— E ele não pensa que é errado? — Matty balançou a cabeça. — Isso é desagradável.
— Olhe, não importa se ele pensa que é errado ou não. Ele tem instruções. Ele tem ordens.
— É por isso que eu nunca vou querer me tornar um diplomata. — Matty respondeu. — Eu não gosto de seguir ordens. — Ele fez uma pausa. — E não tenho as qualificações. — Mais uma pausa. — E eu não tenho um bom traje e um chapéu, como eles.
Sherlock olhou para o envelope. A escrita estava se esvaindo conforme o papel esfriava, deixando a superfície em branco mais uma vez.
— O que nós faremos? — Matty perguntou.
— Fazer? — Sherlock o encarou. — O que nós podemos fazer? Isso é uma coisa internacional! Nós não temos nenhum poder ou influência nisso!
Matty franziu a testa.
— Não foi você quem impediu o Exército Americano de bombardear um bando de rebeldes porque achava que matá-los era errado? Não foi você quem impediu a Câmara Paradol de explodir um barco americano na China porque isso teria iniciado algum tipo de guerra? E agora você não está preocupado em alertar as pessoas sobre uma tentativa de destruição de um canal?
— Não é... — Sherlock parou. — É só que... — Ele parou novamente, e respirou fundo. — É Mycroft — ele disse abruptamente. — Não posso ir contra o meu irmão!
— Irmãos, pais, irmãs... se algo é errado, então é errado.
Foi só naquele momento que a garçonete retornou com seus chás e bolinhos. Sherlock estava em silêncio enquanto os dois cortavam seus bolinhos e espalhavam geleia e creme. Ele deu uma mordida, sem quase sentir o gosto.
— Tudo bem — ele suspirou. — O que nós podemos fazer?
— O irmão do Sr. Phillimore estava tentando contar aos seus chefes o que estava acontecendo, mas suas cartas não chegaram. Nós poderíamos escrever para eles.
Sherlock balançou sua cabeça.
— Eles não acreditariam em nós. Não sabem quem somos, e nós não temos nenhuma evidência real a não ser uma mensagem secreta escondida em uma carta.
— Nós poderíamos enviar a mensagem secreta.
Sherlock tentou imaginar um grupo de franceses industriais e financiadores em sobretudos e cartolas intencionalmente colocando um envelope sobre a chama de uma vela.
— Eles jogariam a carta fora. Pensariam se tratar de uma piada... ou pior, alguma tentativa desajeitada de interromper a escavação do canal. Eles provavelmente pensariam que nós a falsificamos.
— Então nós temos que ir até lá.
— Eu suponho que sim — Sherlock disse, ainda pensando sobre as maneiras de mandar um aviso até o Egito. Seu cérebro levou alguns momentos para compreender o que Matty havia dito. — Ir até lá?
— Sim.
— Até o Egito?
— Sim.
— Só nós dois?
Matty assentiu.
— Sim.
— Você está louco?
Ele considerou por um momento.
— Sim. Provavelmente estou. Como eu disse: se algo é errado, então é errado. Se somente eu e você podemos impedir isso, então nós temos que impedir.
Sherlock olhou para ele, sorriu, e balançou a cabeça.
— Você é uma pessoa incrível, Matty. — Ele sentiu um senso de propósito, até mesmo de felicidade, crescendo dentro dele. — Rufus Stone não pode vir conosco, você sabe... ele está trabalhando para Mycroft. Nós estaremos completamente sozinhos.
— E quanto ao Sr. Phillimore? — Matty perguntou. — Se ele tá preocupado com seu irmão então talvez nos ajude. Ele poderia querer vir com a gente. Pelo menos poderia comprar as passagens para nós.
— Esse é um ponto muito importante. — Sherlock deu outra mordida em seu bolinho, e tomou um gole de chá. — Termine de comer... temos uma jornada pela frente.
Eles caminharam de volta até a estação Victoria depois de terem terminado suas refeições, e de alguma maneira, apesar do enorme empreendimento em que estavam prestes a se engajar, o sol parecia mais quente e a brisa, mais fresca do que antes.
Era fim de tarde quando voltaram a Arundel. Eles retiraram seus cavalos do estábulo da estação e cavalgaram até a casa de James Phillimore.
A empregada atendeu prontamente e não pareceu reconhecê-los. Seus olhos estavam lacrimejantes, e ele ficava secando-os com um lenço.
— O mestre... ele não pode vê-los agora, eu receio.
— É muito importante — Sherlock insistiu.
— Mesmo assim... talvez os cavalheiros pudessem retornar amanhã.
— É sobre o irmão dele — Matty falou, dando um passo à frente.
A empregada os encarou estranhamente.
— Então talvez seja melhor que vocês entrem — ela disse.
Ela os conduziu até a sala de visitas e os deixou lá. De outro ponto da casa, Sherlock ouviu vozes. Após um momento, James Phillimore apareceu na porta.
— Sr. Holmes, Sr. Arnatt. Vocês me pegaram em um mau momento.
— Por quê? — Sherlock perguntou.
— Eu recebi um telegrama da França, da companhia para a qual meu irmão trabalhava. Eles, por sua vez, receberam um telegrama do Egito. Aparentemente, meu irmão desapareceu.
Sherlock e Matty trocaram olhares.
— Então há algo sobre o qual precisamos lhe falar — Sherlock disse.

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