2 de janeiro de 2018

Capítulo doze

SHERLOCK NÃO VIU A SRA. LORAN outra vez durante a viagem. Ele conseguiu pegar uma cópia da lista de passageiros do Princesa Helena com o comissário de bordo, mas é claro que ela não estava na lista – pelo menos não sob o nome de “Loran”. Partindo do pressuposto de que ela estava viajando com um nome diferente, ele passou algum tempo identificando cada mulher no navio e riscando seu nome da lista de passageiros. Depois de três dias ele teve que parar – ele poderia descrever cada mulher no navio, e a Sra. Loran não era nenhuma delas. Ele foi até mesmo bisbilhotar aquelas áreas do navio aonde os passageiros não deveriam ir – a casa de máquinas, as despensas e assim por diante – no pressuposto de que ela teria uma base de operações lá embaixo em algum lugar, mas não havia sinal dela.
Deixando o encontro e a Sra. Loran, para trás, Sherlock continuou a trabalhar com o Sr. Reilly. Desta vez a ênfase era na precisão, e ele recebeu um florete curvo, com um guarda mão ao redor do cabo para proteger seus dedos para o caso de o oponente deslizar a lâmina ao longo da sua para cortar sua mão.
Reilly havia desenhado um diagrama alvo em tinta em um lençol que ele parecia ter retirado da lavanderia do Princesa Helena. O alvo tinha o formato de uma pessoa e estava preso a uma parede a uns três metros de distância de onde Sherlock estava de pé. Dentro do círculo havia diversas linhas retas atravessando de um lado ao outro.
— Estes são “cortes” — Reilly anunciou. — Você irá reparar que cada corte tem um número escrito. A intenção é que, com a espada em sua mão direita, você corte o ar como se estivesse tentando cortar o lençol ao longo da linha.
O alvo também tinha linhas pontilhadas desenhadas em tinta, e elas também estavam numeradas. Estas, Reilly disse, eram “guardas”. Elas funcionavam de uma maneira similar aos cortes, exceto que ao invés de tentar cortar estas linhas, Sherlock tinha que segurar sua espada de maneira que bloqueasse o contra o ataque de seu oponente. Havia marcações no diagrama para os cortes lhe dizendo onde começar e onde parar, e para as guardas dizendo onde a ponta da espada e sua mão deveriam estar.
— O motivo pelo qual estamos fazendo isso — Reilly explicou — é porque quero que esses movimentos sejam como uma segunda natureza para você. Não quero que você tenha que pensar sobre eles. Em uma luta de espadas, pensar significa perder. Você precisa ter a capacidade de reagir instintivamente, sem pensar. Da maneira como o corpo humano trabalha, se você treinar exaustivamente um movimento, como um golpe ou uma defesa, então os seus músculos e a sua mente se lembrarão. Você não terá que pensar a respeito disso quando a hora chegar: se alguém se aproximar de você de alguma direção em particular, seu corpo saberá como reagir. Se não treinar exaustivamente os movimentos, sua mente hesitará quando você for confrontado com um ataque, tentando compreender o que fazer para obter o melhor efeito. Essa hesitação lhe custará a vida, se a luta for real. Se não, meramente lhe custará a vitória.
Em suas aulas de espada, o Sr. Reilly agora passava algum tempo com Sherlock analisando a anatomia de uma espada: não somente a lâmina e o punho, mas as diferentes partes da lâmina. Em particular, ele fez Sherlock ficar ciente da diferença entre a metade da lâmina mais próxima da empunhadura, chamada de “forte”, e a metade próxima à ponta, chamada de “fraco”.
— A intenção — Reilly anunciou — é a de que quando você colocar sua lâmina contra a de seu inimigo, deverá colocar o fraco dele contra o seu forte. Esta é a parte mais resistente da lâmina, enquanto a ponta é a mais frágil. Dessa maneira os golpes são absorvidos através de todo seu corpo. O mesmo vale para seu inimigo.
Eles passaram uma hora no processo de tirar a espada da bainha. Não era somente o caso de puxá-la, Sherlock descobriu. Havia uma maneira apropriada de fazer isso evitando estragar ou prender a bainha. Sem nenhuma surpresa, somente erguer a lâmina da bainha imediatamente o colocava em uma posição de guarda: isso o deixava em uma posição apropriada para se defender ou lançar um ataque. Depois disso, Reilly mostrou as diferentes posições a serem adotadas quando estiver enfrentando um inimigo: “guarda acima”, “guarda abaixo”, assim como diversas outras.
Depois disso, Reilly fez Sherlock combinar os diversos golpes e defesas para que eles não fossem somente elementos distintos separados, mas fossem combinados em um movimento fluido, cobrindo – assim pareceu a Sherlock – todas as possíveis combinações e permutações em séries, como “golpe 1”, “guarda 3”, “golpe 2”, “guarda 5”, “golpe 4” e assim por diante, parecendo uma combinação sem fim.
Às vezes ele erguia o olhar e encontrava Matty observando-o do canto da sala, e outras vezes os dois estavam sozinhos. Matty parecia feliz em fazer suas próprias coisas enquanto estava a bordo do navio, e ficar fora do caminho de Sherlock. Ele certamente não parecia interessado em aprender luta com espadas, e Reilly não parecia interessado em ensiná-lo.
Nos dias que se seguiram eles passaram pelas ilhas de Ibiza, Palma e Maó, e depois pela Sardenha e Sicília antes de ancorarem na pequena ilha de Malta. As outras ilhas estavam sob o controle da França, Espanha e Itália, é claro, enquanto Malta, assim como a última parada deles em Gibraltar, era desafiadoramente parte do Império Britânico.
Enquanto o Princesa Helena reduzia a velocidade para sua aproximação da margem de Valeta, Sherlock foi tomado pelas linhas brancas das janelas, pelas paredes de pedra que reluziam e pelas portas coloridas que se espalhavam por todo o comprimento do cais – azul representando os peixes estocados ali, verde para vegetais, amarelo para trigo e vermelho para vinho – de acordo com um dos tripulantes do navio com quem Sherlock havia conversado.
Quando o Princesa Helena aportou, Sherlock observou a prancha de desembarque para o caso de a Sra. Loran descer, mas ele não a viu. Ele tinha que admitir que ela era uma atriz muito melhor do que ele esperava, se conseguira disfarçar-se de uma maneira que ele não conseguiu reconhecê-la. A outra possibilidade era a de que ela houvesse desembarcado secretamente para outro navio que havia emparelhado com eles sem ninguém perceber, mas isso implicaria que todos, até o capitão, estariam encobrindo tal encontro, e certamente alguns dos passageiros teriam notado e comentado algo a respeito, não? Enfim, estava abundantemente claro que a Câmara Paradol tinha recursos que ele só podia imaginar.
Malta parecia ser repleta de palácios, igrejas e outros edifícios lindos datando de centenas de anos. Sherlock só tinha tempo para visitar um lugar durante o curto período em que ficariam aportados, então ele escolheu a Co-Catedral de São João, em estilo barroco maciço, que ele mal teve tempo de olhar antes de ter que retornar ao navio.
De Malta, o SS Princesa Helena continuou rumo ao leste, passando por Creta, então seguiu seu caminho para o sul e para o porto de Alexandria no Egito – seu destino final. O clima ficara progressivamente mais quente durante os últimos estágios da viagem ao ponto de ser desconfortável ficar no deque durante o meio-dia, quando o sol incidia diretamente acima de suas cabeças no céu azul. Chapéus eram definitivamente necessários para os homens, e sombrinhas para as mulheres, para evitar queimaduras do sol ou insolação, e praticamente todo mundo havia começado a tirar sonecas durante a tarde.
Durante a última etapa da viagem, de Malta a Alexandria, o Sr. Reilly e Sherlock duelaram: as lâminas batiam uma contra a outra em lutas simuladas. Depois de tantos dias em que ele esteve praticando movimentos e posições até eles se tornarem uma segunda natureza, Sherlock agora descobriu que quando o Sr. Reilly dava estocadas, seu corpo respondia instintivamente a esquiva ou a guarda correta. Anteriormente, Sherlock pensara que o pensamento e a lógica poderiam enfrentar qualquer coisa, e que a luta era meramente o processo de conseguir uma resposta mais rápida, e logicamente antecipar os movimentos do seu oponente. Assim, era uma revelação! Seu corpo – e potencialmente qualquer corpo – podia ser treinado para responder sem pensar: uma máquina guiada por puro instinto. Pensar não era o bastante.
O Sr. Reilly também impressionou Sherlock com o fato de que qualquer ataque – golpe ou estocada – deveria aumentar em força e velocidade enquanto era armado, não diminuir. Sherlock descobriu que quando atacava, sua tendência era colocar ênfase no movimento inicial, não na sequência. O Sr. Reilly rapidamente o desenganou dessa noção. Dali em diante, seus treinamentos se tornaram lutas de verdade. Reilly era mais velho que Sherlock, mas era mais habilidoso. Os fatores se equilibravam, deixando-os praticamente empatados. Suas lutas poderiam durar dez, talvez até mesmo vinte minutos, com os dois deslocando-se pela sala de treinamento antes que um deles percebesse uma ligeira vantagem e a aproveitasse, as espadas batendo, enviando impactos repetidamente pelo braço de Sherlock. Ele percebeu que estava perdido, sem saber que horas eram.
No último dia de viagem, quando começaram a se aproximar do Egito e do porto de Alexandria, o Sr. Reilly deu um passo para trás durante seu treinamento regular e baixou a espada. Sentindo que isto era mais do que somente uma estratégia – Reilly o advertira sobre oponentes que baixavam suas armas decepcionados e as erguiam novamente alguns segundos depois – Sherlock baixou sua própria espada, mas a deixou preparada para o caso de precisar dela novamente.
— Devo dizer — Reilly falou, respirando pesadamente — que você tem sido um aluno excelente. Foi um prazer absoluto ensiná-lo durante estas semanas.
Sherlock sorriu.
— Eu aprendi muito nesta viagem — ele respondeu. — Mais do que pensei que aprenderia.
— Você tem diversas características que o tornam um excelente espadachim — Reilly continuou. — Não tem medo, para começar, seus reflexos são admiravelmente rápidos, e você consegue submergir seu intelecto e permitir que seus instintos assumam. — Ele sorriu. — Se algum dia se encontrar em uma situação em que sua vida dependa de suas habilidades com a espada, tenho certeza de que você prevalecerá.
— Presumindo que meu oponente não tenha sido treinado por você, — Sherlock observou.
Reilly baixou mais sua espada e deu um passo a frente com sua mão esquerda estendida.
— Estes últimos dias têm sido muito divertidos. Eu lhe desejo boa sorte, Sr. Holmes, no que desejar fazer com sua vida, mas devo dizer que se escolhesse dar aulas de manejo com espadas, então o mundo o aceitaria de bom grado. Você se lançou nessas aulas como um pato se lança na água. Eu tenho lutado profissionalmente por mais anos do que consigo recordar, e não me lembro de um estudante melhor.
— O senhor me lisonjeia, Maestro. — Sherlock respondeu, utilizando a mais alta honraria que conseguia pensar para mostrar o respeito que começara a ter pelo seu mestre de esgrima. Baixando a própria espada, ele apertou a mão de Reilly firmemente. — Você é um professor excelente. Fico feliz que a sorte tenha me trazido a este navio ao mesmo tempo que o senhor.


Sabendo que o Egito ficava mais perto do Equador do que a Inglaterra, e que o Canal de Suez estava sendo escavado principalmente através do deserto e pedras, Sherlock havia esperado que Alexandria fosse quente, mas seca. Ele estava errado. Era um porto no Mar Mediterrâneo, o que significava que era quente mas também muito úmido. A luz do sol brilhava fortemente, fazendo com que tudo parecesse desbotado, e Sherlock podia sentir seu calor como uma pressão física sobre sua testa e couro cabeludo. Caminhar era como movimentar-se através de nuvens invisíveis de vapor, e havia um forte cheiro no ar de água lodosa e estagnada. James Phillimore tomou um susto imediato.
— Eu posso de fato ver as partículas de sujeira flutuando no ar! — ele exclamou enquanto desciam pela prancha de desembarque do navio. — Este lugar deve ser o primeiro círculo do inferno! — Ele puxou um lenço de seu bolso e o segurou sobre a boca e o nariz.
As docas de Alexandria eram uma estranha mistura de antigos edifícios de pedra que pareciam estar lá desde sempre e poderiam durar o mesmo período de tempo, e barracas e cabanas provisórias que pareciam ter sido construídas no dia anterior e cairiam no seguinte. Os moradores locais ou estavam vestidos com roupas largas e tinham algo como lenços protegendo suas cabeças e pescoços ou vestiam roupas escuras e usavam estranhos chapéus vermelhos sem abas. Os europeus, em contraste, eram facilmente identificados em seus trajes de linho, camisas e gravatas, e chapéus brancos. Uma ou duas vezes, enquanto desembarcavam e caminhavam ao longo do cais, Sherlock avistou homens altos vestidos em roupas escuras, com lenços escuros não somente ao redor de suas cabeças, mas de seus rostos também, deixando somente uma fenda para os olhos. Eles o deixaram apreensivo. Ele sabia que era injustificável, mas o lembravam dos homens que haviam entrado no Chalé Holmes e o atacado.
Havia animais também – muitos deles. Não somente os cães subnutridos e gatos esqueléticos que se poderia esperar encontrar em qualquer porto no mundo, mas burros, cavalos e até mesmo camelos. Sherlock nunca vira um camelo antes, e ficou maravilhado com quão fortes eles pareciam. Matty somente olhou para eles, então para Sherlock e disse:
— Você sabe conhece jogo em que você desenha uma cabeça no papel, dobra para que somente o pescoço fique visível e entrega para outra pessoa? Ela desenha um corpo, então dobra o papel e entrega para outra pessoa desenhar as pernas?
— Sim. Por quê?
Ele apontou para o camelo mais próximo, que os encarava com um olhar que parecia ser de desprezo.
— É esse o resultado quando o jogo se torna realidade — ele disse.
Uma vez que o Princesa Helena foi ancorado, a tripulação começou a descer as bagagens até o cais enquanto os passageiros desembarcavam e formavam uma fila em um enorme saguão de teto alto para apresentar seus passaportes e sua papelada para um grupo de funcionários públicos uniformizados e francamente entediados. De lá, Sherlock, Matty e James Phillimore, que passava a maior parte de seu tempo secando sua nuca com um lenço, seguiram seu caminho de carruagem para o hotel que o agente de viagens de Arundel havia reservado para eles.
— Qual o nosso primeiro passo? — Matty perguntou quando eles estavam parados no lobby de mármore do hotel.
O espaço era mantido fresco por ter janelas pequenas e por lençóis largos de tecido de bambu que pendiam do teto e eram puxados para frente e para trás por cordas que levavam a pequenos buracos nas paredes. Do lado de fora, no calor do dia, garotos nativos puxavam as pontas dessas cordas por horas a fio em troca de poucas moedas.
Sherlock relembrou sua discussão com a Sra. Loran a bordo do Princesa Helena.
— Nós precisamos ir até uma cidade chamada Ishmaili — ele falou. — É lá que Monsieur de Lesseps está vivendo enquanto supervisiona a construção do canal.
— Como você sabe disso? — Matty perguntou.
— Eu... consegui essa informação em algum lugar — Sherlock disse, sem olhar para Matty.
Sherlock perguntou ao funcionário da recepção do hotel sobre qual a melhor maneira de chegar a Ishmaili. Descobriu que havia uma linha de trem entre a cidade e Alexandria, e havia vários trens por dia. Sherlock tomou uma rápida decisão e, depois de fazerem um rápido almoço ao estilo europeu no restaurante do hotel, ele guiou os outros dois para fora novamente, onde eles conseguiram uma carruagem para a estação de Alexandria.
Comprar as passagens foi um processo exaustivo, envolvendo uma grande quantidade de acenos de mão e o pagamento do que pareceu a Sherlock uma quantia exorbitante de dinheiro, mas finalmente eles estavam aguardando na plataforma. Os outros passageiros eram uma grande mistura, desde pessoas em trajes de linho e chapéus, carregando malas de viagem ou bolsas pretas de couro, até nativos carregando cestas de vime com galinhas cacarejando. Dentro de meia hora, um grande trem a vapor de estilo antiquado se arrastou pelos trilhos e soltou um assovio como se fosse um animal de trabalho.
Eles tinham passagens de primeira classe, o que significava que o vagão deles tinha pelo menos assentos de madeira, e eles não os compartilhariam com os nativos ou suas galinhas. Os homens sentados em volta deles – e eram exclusivamente homens – pareciam ser pessoas que trabalhavam no canal ou, Sherlock suspeitou, jornalistas querendo escrever histórias sobre a construção.
A viagem estava programada para demorar duas horas, e o trem os levou através de uma paisagem de terra seca, arbustos atrofiados e um horizonte que oscilava incertamente no calor. O vagão era ventilado somente por alguma mera brisa que conseguia encontrar seu caminho pelas janelas abertas, e como o ar lá fora era aquecido pelo sol, tudo o que a brisa fazia era substituir ar quente estagnado por ar quente em movimento. Apesar do fato de eles terem passagens de primeira classe – ou talvez por causa disso – havia um constante movimento de egípcios nativos passando com carrinhos de lanches quentes e frios, frutas e bebidas.
— Não bebam a água, e não comam nenhuma comida que não tenha sido cozida, exceto frutas — Phillimore os alertou. — Eu li sobre isso. A água daqui é infestada de doenças. Fervê-la mata as partículas da doença, e a casca das frutas impede que essas mesmas partículas entrem.
Foi exatamente com uma hora de viagem que o ataque começou. Phillimore e Matty dormiam. Sherlock olhaca pela janela para a paisagem imutável, comparando-a com o interior da Inglaterra onde sempre haveria coisas novas para se ver.
A janela perto de sua cabeça subitamente quebrou. Estilhaços de vidro choveram sobre ele.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Se você não tem conta no Google e quiser comentar, utilize a opção Nome/URL e preencha seu nome/apelido/nick; o URL pode deixar em branco.

Boa leitura, E SEM SPOILER!