2 de janeiro de 2018

Capítulo dois

A JORNADA PARA A BASE pertencente à família Holmes há gerações levou várias horas. Não era tanto a distância – Arundel, onde Sherlock nascera e fora criado, não ficava tão distante de Oxford se a distância fosse medida em linha reta – mas requeria diversas mudanças de trem e um punhado de espera em pequenas casas de chá enquanto aguardavam o próximo transporte. Matty estava tão alegre como sempre, e conseguia comer uma fatia de bolo em cada casa de chá, mas Mycroft parecia não estar com humor para conversa, e Sherlock sentia o mesmo. Essa não era a reunião familiar que ele havia imaginado.
O clima estava bom, e enquanto no trem, Sherlock olhou pela janela, para a paisagem que passava. Ele ficara fascinado com o número e a variedade de pessoas e lugares que existiam na Inglaterra. Para qualquer lugar que olhasse, havia pessoas cortando e colhendo o produto do cultivo nos campos, ou colhendo maçãs e peras nos pomares, ou conduzindo carroças cheias de feno. Cada estação por que passavam, quer eles parassem ou não, parecia estar lotada com viajantes ou pessoas encontrando os viajantes. Havia homens de negócio com ternos e chapéus, trabalhadores em roupas surradas, velhas senhoras com cestos ou jovens moças com saias longas e casacos curtos, e em todo lugar havia cachorros, grandes e pequenos, correndo ao redor e perseguindo uns aos outros. Toda a vida humana estava lá, e Sherlock se pegou tentando ler as histórias dos diferentes viajantes pelas pequenas marcas em suas mãos ou suas roupas. Um homem com quem eles dividiram o compartimento era um antigo soldado, julgando pelo brilho dos seus sapatos, o cabelo curto e o modo como se sentava rigidamente ereto. Uma senhora que ficou ali por alguns minutos exasperou-se com a janela, e então mudou de compartimento com um audível som de irritação, não era tão abastada quanto suas roupas sugeriam, baseado no fato de que seus sapatos tiveram a sola reposta várias vezes e seu casaco fora reparado por uma costureira razoavelmente competente.
Um vigário iniciou uma conversa com eles por um tempo, mas Sherlock tinha certeza de que ele não era um vigário de jeito nenhum. Certamente seu conhecimento da Bíblia era irregular, pois quando Sherlock o questionou, ficava tentando mudar o assunto para algo mais geral. Sherlock encontrou o olhar de Mycroft, e se divertiu quando viu seu irmão segurando um sorriso. Quando o vigário finalmente saiu do compartimento deles, os dois explodiram em gargalhadas, para surpresa de Matty.
— Devemos chamar a polícia? — Sherlock perguntou, entre risos.
— Incorporar um vigário não é um crime, até onde sei. — Mycroft respondeu, seu corpo pesado balançando com alegria suprimida. — Mas ele pode ser um prisioneiro fugitivo disfarçado, ou um trapaceiro almejando extorquir as ofertas de uma igreja. Ou ele pode ser um indivíduo triste, que tem algum tipo de prazer perverso em se vestir como um clérigo. Não temos como saber, e nenhuma razão para interferir em sua fraude a não ser curiosidade. Deixe para lá, Sherlock. Algumas questões nunca serão respondidas... pelo menos, não enquanto estivermos por perto, de qualquer maneira.
Enquanto eles se aproximavam de seu destino, Sherlock começou a reconhecer alguns aspectos da paisagem. A visão fez com que se sentisse nostálgico. Ele tinha boas memórias de Arundel – da cidade e da grande catedral. Arundel era próxima da cidade de Chichester, então as casas eram grandes e as famílias, abastadas. A família Holmes descendia de uma linhagem local de fidalgos e, embora tivessem pouco ou nenhum poder de influência local, eram muito respeitados e convidados para todos os eventos, bailes, jantares e festas. A infância de Sherlock foi preenchida com longas caminhadas solitárias pelo campo, muitas horas passadas na biblioteca da família, lendo vorazmente os clássicos juntamente com seu irmão – cada qual sentado em sua poltrona, sem falar por horas a fio, mas apreciando o silêncio – ou escondendo coisas como sapos e lagartas na bolsa de seu irmão quando Mycroft ia para a universidade. Suas lembranças de seu pai e sua mãe eram menos claras – eles eram zelosos, mas um pouco distantes, deixando os dois irmãos seguirem suas próprias vidas.
Sherlock se lembrava de seu pai principalmente como um homem grande com um bigode largo e uma risada crescente, mas também lembrava que havia outro lado de seu pai – um homem que se trancava na biblioteca com uma garrafa de conhaque, e não saía até que a garrafa acabasse, ou que não falava com ninguém na casa por dias. Sherlock havia aceitado, como toda criança aceita, que seu pai tinha mudanças de humor, mas foi só mais tarde, conversando com sua tia Anna e seu tio Sherrinford, que ele percebeu que os problemas de seu pai iam mais a fundo.
Sua mãe fora uma presença distante por um tempo – diferentemente de seu pai, cujas mudanças de humor eram abruptas e difíceis, a condição dela se deteriorara lenta e gradualmente até que ela se tornasse pouco mais que um fantasma se movendo pela casa. Havia muita tosse também, depois, e uma visão ocasional de sangue em um lenço de mão. De alguma maneira, Sherlock havia incorporado esses fatos em sua memória sem questioná-los, mas era óbvio para ele agora, relembrando, que seus pais estiveram doentes por um longo tempo, mas de maneiras diferentes.
Eventualmente, o trem começou a desacelerar enquanto se aproximava de Arundel. Sherlock percebeu que seu coração batia mais forte. Fazia tempo desde que ele viera para casa. Ele se perguntou o que teria mudado mais: a cidade, ou ele?
Saindo da estação, que era um pouco mais que duas plataformas e uma guarita de bilhetes no final de uma pequena estrada, Sherlock viu que uma carruagem os aguardava. Por um momento ele esperou ver um dos criados da família guiando-a, e estava desesperadamente tentando se lembrar dos nomes daqueles que ele conseguia pensar, mas ficou chocado ao ver que era Rufus Stone sentado acima dos cavalos.
— Sr. Holmes — ele cumprimentou, abaixando seu chapéu para Mycroft, e então: — Sr. Holmes — para Sherlock, e — Sr. Arnatt — para Matty. Contudo, ele sorria.
Matty sorriu, balançou a cabeça e se moveu para encontrar o cavalo que aguardava pacientemente por uma ordem para se mover.
— Rufus — Sherlock chamou. — O que está fazendo aqui?
— Seu irmão queria ter um rosto familiar para chamar no caso de problemas — Rufus disse.
— Na verdade — Mycroft falou — eu estava preocupado com o que o Sr. Stone poderia aprontar se eu não estivesse por perto para observá-lo. Além disso, eu, e não o governo Britânico, financio suas atividades, e como não havia nada para ele fazer enquanto tiro uma licença do meu trabalho, decidi que ele deveria ganhar seu sustento trabalhando para nós aqui.
— Então aqui estou eu, um violinista treinado, espadachim e ator, reduzido à posição de condutor, carregador de bagagens, guarda-costas, animador e qualquer outra coisa que vocês precisarem que eu seja. — Stone tirou seu chapéu e fez uma grande mesura, mesmo estando sentado no ponto mais alto da carruagem. — Ao seu dispor a qualquer hora do dia ou da noite.
— Você tem um quarto na cidade? — Mycroft perguntou.
— Não houve necessidade... seu telegrama de recomendação chegou ao Chalé Holmes e o mordomo, cujo nome é Mulhall, a propósito, arranjou para mim um quarto em uma construção nos arredores. Acho que era ocupada por cavalos, considerando o cheiro, mas já dormi em lugares piores.
— Excelente. — Mycroft olhou para suas bagagens, que foram deixadas na frente da estação pelo garoto que trabalhava lá. — Bem, essas malas não vão se mover sozinhas.
Rufus sorriu para Sherlock e Matty.
— Dado que não sou um criado em tempo integral da família, talvez vocês dois, rapazes, possam ajudar a colocar as bagagens na parte de trás da carruagem.
Depois que as malas estavam presas com tiras de couro, os três se espremeram para dentro da carruagem e ela partiu, chacoalhando pelas estradas estreitas a uma velocidade que Sherlock considerava rápida, mas Mycroft obviamente pensava ser perigosa, julgando pelo modo como se segurava na borda da janela. Matty se inclinou pela janela, seu cabelo esvoaçando na brisa.
— Isso não é uma perseguição! — Mycroft gritou para Rufus em um dado momento, porém não levou à mínima desaceleração do veículo. Uma ou duas vezes Sherlock pensou ter ouvido Rufus gargalhar de cima de sua perigosa posição.
Olhando pela janela da carruagem, Sherlock descobriu que ele reconhecia partes da paisagem do campo por onde passavam. Uma vez ele havia caído do telhado daquele celeiro, e sido salvo por uma pilha de feno afortunadamente colocada ali. Uma vez ele havia se apaixonado – com doze anos – pela filha do fazendeiro que era dono daquela fazenda. E ele já estivera de pé naquela colina dando uma volta completa, absorvendo cada detalhe da paisagem abaixo dele.
Os dias da infância. Ele se sentia tão velho agora, em comparação. Onde havia ido parar aquela inocência e senso de infinitas possibilidades?
Uma parede rústica de pedra apareceu à direita deles, e Sherlock sabia que eles estavam se aproximando do Chalé Holmes. Esse era o limite da propriedade. A carruagem continuou ao longo do muro por um tempo, que então se tornou um portão ornamentado. Fitas pretas haviam sido amarradas nos portões de entrada, e Sherlock sentiu um tremor de tristeza. Era aqui que tudo havia começado.
Não importava o quanto ele houvesse tentado afastar o processo do luto, de entender que sua mãe havia morrido, era aqui que ele teria que achar uma maneira de lidar com esse fato.
A carruagem se moveu pelo caminho de cascalho que levava até a casa de três andares que Sherlock se lembrava de sua infância, e que sonhava em retornar em todas as férias da escola até que ele havia sido removido do sistema escolar por seu irmão e colocado em um caminho diferente. Alguém deve tê-los visto pela janela, porque a porta da frente se abriu enquanto eles diminuíam o ritmo e diversos homens saíram para pegar suas bagagens. Um homem, de cabelo branco e vestido com uma casaca preta e um colete de veludo preto, abriu a porta do lado de Mycroft.
— Senhor — ele disse, inclinando sua cabeça. — E senhor — para Sherlock. E então, após uma hesitação momentânea, um último — E senhor — para Matty, enquanto ele descia atrás deles. — Eu lhes dou as boas-vindas de volta ao Chalé Holmes. Eu só desejava que fosse sob melhores circunstâncias.
— Obrigado, Mulhall — Mycroft resmungou. Ele se virou para Sherlock. — Mulhall tem cuidado das coisas aqui desde sua última visita. Ele tem a completa confiança de nossa mãe e, por um curto período antes de ter ido para a Índia, de nosso pai.
— Então ele tem minha confiança também. — Sherlock falou, acenando em direção ao homem. — Obrigado por estar aqui neste momento difícil.
Com alguns poucos gestos Mulhall reuniu os lacaios e fez com que levassem as bagagens para dentro.
— Seus quartos estão prontos — ele falou. — Há um pequeno chá da tarde preparado para vocês. O jantar será às oito.
— E os... preparativos? — Mycroft perguntou.
— O funeral está programado para amanhã. Dadas as circunstâncias, o médico da família se deu por satisfeito em assinar o atestado de óbito, e o legista local não viu necessidade de se envolver. O velório será na capela da família, é claro, e a... a falecida será enterrada na cripta da família, nos terrenos da casa. Haverá uma recepção na casa depois.
— E a tia Anna... ela já chegou?
— Hoje cedo, senhor. Oh, e o Sr. Lydecker, o procurador, está aqui. Acredito que ele queira falar sobre arranjos familiares na ausência do seu pai.
— Muito bem. Obrigado, Mulhall.
O corredor era menor do que Sherlock se lembrava – ou o próprio Sherlock estava maior. Ele se lembrava do cheiro, uma mistura de polidor de madeira com aroma de cera de abelha e flores. Estranho, ele pensou, como o cheiro podia trazer de volta uma lembrança mais claramente do que a visão ou o som.
Ele olhou ao redor. A sala de visitas ficava ao seu lado esquerdo, e a sala de jantar, ao direito. A porta para a biblioteca estava bem em frente, com as escadas subindo de cada lado dela, e então virando em um ângulo de noventa graus para formar uma sacada acima da porta da biblioteca. Cada painel na parede era ocupado pela cabeça de um animal empalhado: veados, javalis, texugos e ocasionalmente um peixe inteiro. Havia ainda a cabeça de um tigre que o pai de Sherlock jurava ter matado perto de Brighton, mas que Sherlock sabia que ele devia ter comprado em uma loja de velharias porque havia gostado dela.
Matty parou, olhando para a pele listrada de uma zebra que servia de tapete no centro do corredor.
— Nunca vi um cavalo como esse antes — ele disse. — É pintado?
— Não é um cavalo — Sherlock respondeu — é uma zebra. E não, não é pintado. Elas são assim mesmo.
— Nunca ouvi falar de uma “zebra” — Matty observou. — O que elas são então?
— É um animal que vive na África.
— Mas como ela é?
Sherlock hesitou.
— Parece um cavalo — ele admitiu. — Um cavalo com listras.
— Bem, nesse caso vou chamá-la de cavalo listrado até ver uma dessas “zebras” pessoalmente — ele sorriu. — Você deve aprovar isso — ele falou — estou seguindo as evidências ao invés de acreditar na palavra de alguém.
— Ele te pegou nessa, Sherlock — Mycroft disse enquanto cruzava o corredor em direção à biblioteca.
— Por que as zebras são listradas? — Matty perguntou.
— Eu li em algum lugar — Sherlock respondeu — que as listras disfarçam as zebras quando elas estão em uma vegetação espessa... o sol brilhando por entre as árvores produz listras claras e escuras, e as listras das zebras permitem que elas se misturem à vegetação e não sejam vistas por leões e outros predadores. Mas isso não pode ser verdade, contudo, porque todos dizem que as zebras vivem nas planícies e não entre as árvores.
— Bem observado — Mycroft disse. Ele estava parado junto à porta da biblioteca. — Deve haver alguma outra explicação. Veja se consegue descobrir qual é. — Ele fez uma pausa. — Sherlock, por favor, junte-se a mim assim que tiver se refrescado.
Sherlock seguiu os criados com suas malas escada acima, até o quarto que ele lembrava ocupar quando era mais jovem. Ficou satisfeito em ver que seus livros ainda estavam ali, alinhados no peitoril da janela – as lendas gregas, as histórias romanas, juntamente com as peças de Shakespeare, Marlowe, Jonson e Webster. Havia uma camada de poeira neles que ele conseguia ver da porta, e suas folhas, viradas para a janela, estavam descoloridas pelo sol.
Um lavatório de mãos estava em um pedestal perto da cama. Do lado dele, em uma cômoda, estava um grande jarro.
— Há água fresca no jarro, senhor — um dos criados disse, parado na porta. — Gostaria que nós desfizéssemos as suas malas, senhor?
— Não, obrigado. Eu mesmo farei isso.
— Muito bem, senhor. — Ele se virou e saiu.
Sherlock rapidamente abriu sua mala e retirou uma camisa limpa. Tirando a camisa suja, ele jogou água em seu rosto, pescoço e peito, e se secou com uma toalha. Ele se vestiu novamente com a camisa limpa, então caminhou até a porta.
Ele se virou para olhar o quarto novamente. Não sabia ao certo como se sentia. Ele não sabia como deveria se sentir. Ele nunca havia perdido um de seus pais antes. Não havia perdido?, uma voz perguntou em sua mente. Amyus Crowe se tornara como um pai para ele no curto período em que haviam passado juntos. Crowe lhe ensinara coisas da maneira como um pai deve ensinar, e lhe dera as ferramentas mentais de que ele precisava para começar a ter responsabilidade sobre sua própria vida, segurando sua mão quando necessário e deixando-o ir quando era a melhor coisa a se fazer. Crowe tinha sido, de muitas maneiras, um pai mais presente do que seu verdadeiro pai.
Talvez fosse por isso que ele estivesse se sentindo em conflito. Essa casa deveria ser o lar da sua família, mas Mycroft era o único membro da família com quem ele tinha uma conexão real agora. Se o seu pai algum dia voltasse da Índia, então Sherlock não tinha muita certeza sobre o que eles conversariam.
Suspirando, ele deu a volta e caminhou ao longo da sacada em direção às escadas. Ele passou por um dos quartos de hóspedes e notou pela porta aberta que Matty estava parado no centro do quarto, parecendo perplexo.
— Qual o problema? — ele perguntou.
Matty balançou a cabeça.
— Eu não fico com frequência em um lugar tão grande, ou tão confortável. A não ser quando a gente tava na América, antes de pegarmos o navio de volta para casa. Não acho que vou me sentir bem aqui.
— Coloque o colchão no chão — Sherlock aconselhou. — Será mais duro e você conseguirá dormir dessa maneira. Ou isso, ou pegue um cobertor e durma nos estábulos com os cavalos, se você se sentir melhor.
— Tudo bem — Matty sorriu. — Boas ideias, as duas.
Sherlock foi em frente, descendo as escadas. Ele assumiu que Mycroft e o procurador da família estariam na biblioteca, mas antes que pudesse seguir nessa direção, uma figura pequena apareceu dos lados da cozinha.
— Sherlock, querido? É você?
Era a tia de Sherlock, Anna: pequena, com movimentos que se assemelhavam ao de um passarinho.
— Tia Anna?
Ela sorriu: um pequeno sorriso trêmulo de saudação.
— Sherlock! Que bom vê-lo! — Ela se assustou, e franziu a testa. — Oh, eu não quis dizer isso exatamente, dadas as circunstâncias. O que eu quis dizer era que sob outras circunstâncias seria adorável te ver, mas que eu sinto muito que tivemos que nos encontrar de novo nestas circunstâncias, envolvendo o falecimento de sua querida mãe. — Seu rosto clareou, então ela o franziu novamente. — Exceto que, se as circunstâncias não fossem essas, então eu não estaria aqui de modo algum, e nós não estaríamos nos encontrando. — Uma pausa se seguiu, na qual Sherlock abriu a boca para falar alguma coisa, mas ela continuou: — É claro, as relações dentro da nossa família melhoraram muito depois... depois do pequeno problema que tivemos com a Sra. Eglantine... e quem dirá se a sua querida mãe, se ainda estivesse viva, não teria me convidado para visitá-la de todo modo, após a morte do meu próprio marido, o querido Sherrinford... que, afinal de contas, era cunhado dela? — Ela olhou para cima, para Sherlock, com os olhos arregalados e subitamente em pânico. — Você certamente ouviu que seu tio faleceu, não ouviu? Presumo que seu irmão o tenha informado. Eu teria escrito, mas...
Ele pegou suas pequenas e frágeis mãos com sua mão esquerda e ergueu a direita até o rosto dela, colocando um dedo contra seus lábios para que ela se calasse por um momento.
— Tia Anna, estou muito feliz em vê-la novamente, apesar das trágicas circunstâncias, e sim, Mycroft me contou sobre a morte do tio Sherrinford. Por favor, aceite minhas condolências. A senhora ainda está morando na Mansão Holmes?
Ela assentiu.
— A casa é muito grande para mim, é claro, mas eu não consigo me fazer sair de lá. Há tantas memórias lá. Eu me lembro que o querido Sherrinford falava...
— Sinto não ter estado no funeral — Sherlock interrompeu, sabendo que ela poderia continuar falando sem parar. — Ele e a senhora foram muito bons para mim em uma época que eu realmente não sabia o que estava fazendo ou o que eu queria ser.
— Você parece tão mais velho agora — ela falou, tocando gentilmente sua bochecha. — A China te mudou. Você se tornou alguém muito mais forte. Você tem a mesma força que o seu irmão, mas também tem a gentileza de sua mãe. — Ela hesitou. — Só espero que você não tenha herdado a infeliz... disposição do cérebro do seu pai.
— Eu creio que o tempo dirá — ele respondeu simplesmente.
— Você me contaria mais sobre a China? É um país do qual ouvi falar bastante, mas eu estaria interessada em saber mais. Eu ouvi dizer que eles têm as mais requintadas xícaras e porcelanas.
— Eu adoraria me sentar com a senhora e com uma xícara de chá e lhe contar tudo o que aconteceu comigo, mas isso terá que esperar. Meu irmão deseja me ver na biblioteca.
— Então você deve ir, é claro. Eu o verei mais tarde. Tenho muito com que me ocupar aqui. Todos os arranjos para o velório é claro... a comida, as bebidas, e as flores! Os criados daqui são muito bons, mas eles precisam de uma mão firme, e fico feliz em ajudar. Me mantém ocupada, e me impede de pensar sobre...
Ela se distanciou, ainda falando. Sherlock a observou ir, sorrindo. Fazia quase um ano desde que a vira, mas tia Anna ainda era exatamente do jeito que ele se lembrava.
Ele sentiu um momento de pesar enquanto se lembrava de seu tio Sherrinford – um homem alto com uma grande barba branca que costumava citar as Escrituras o tempo todo. Ele havia sido um bom homem, um estudioso, e Sherlock estava triste porque nunca teve a oportunidade de conversar propriamente com ele.
Ele se virou e caminhou em direção à biblioteca, onde seu irmão o aguardava.
A biblioteca de seu pai não era nada como o extenso arquivo de história, teologia, geografia e outros assuntos de difícil compreensão que estavam alinhados ao longo das paredes da biblioteca de tio Sherrinford. Os gostos de Siger Holmes giravam mais em torno de volumes em couro de publicações como Punch, juntamente com histórias de campanhas militares, biografias de várias figuras militares famosas e diários, livros de viagem e de registro a respeito da família Holmes e da propriedade datando de muitas gerações. Por um momento, Sherlock sentiu um puxão nauseante de nostalgia por aqueles dias simples quando seu pai ficava sentado na mesa, lendo alguma história militar, enquanto Sherlock ficava deitado no chão com um livro à sua frente, aleatoriamente selecionado das prateleiras. Ele tinha lido sobre muitas coisas diferentes ali, memorizado tantos fatos por acidente, tudo isso aos pés de seu pai.
Sherlock inspirou profundamente e voltou sua atenção para o presente. Mycroft Holmes estava sentado na grande mesa de carvalho da qual Sherlock se lembrava que seu pai sentava com bastante frequência durante seus anos formativos.
Outro homem estava de pé de um dos lados, olhando para a propriedade dos Holmes pelas janelas francesas. Ele era corpulento, com uma tez rosada e uma camada de cabelos brancos na parte de trás da cabeça. Ele se virou quando Sherlock entrou, e andou até o garoto com sua mão estendida.
— Você deve ser o jovem Sherlock — ele disse. — O mordomo disse que você estava aqui.
Ele lançou um rápido olhar para as roupas e as mãos do homem. Ele estava se saindo razoavelmente bem, em termos financeiros, mas estava frustrado com a lei e era, em sua vida particular, um artista razoavelmente bom com aquarela, principalmente de paisagens. Era solteiro, mas estava em um relacionamento secreto com a sua secretária por muitos anos – uma situação com a qual ele estava feliz, mas que ela desejava que se tornasse mais formal. Ele também tinha um cachorro – um setter irlandês, Sherlock pensou.
Todo o processo de observação durou somente um segundo. Sherlock ergueu o olhar e viu que seu irmão o observava, sorrindo. Mycroft sabia exatamente quais pensamentos haviam passado por sua cabeça, e sem dúvida seu irmão também teria notado algumas coisas que Sherlock deixou passar.
— Um cocker spaniel, não um setter irlandês — Mycroft disse. Antes que o procurador pudesse dizer alguma coisa, ele complementou: — Sherlock, obrigado por se juntar a nós. O Sr. Lydecker e eu discutíamos assuntos relativos à família e a esta casa. Lamentavelmente, a propriedade caiu em um estado de ruína nos últimos anos, desde que nosso pai partiu para a Índia. Nossa mãe não tinha condições de se manter a frente disso, mas escondeu a real situação de mim, e instruiu os criados a fazerem o mesmo. Há muito trabalho que precisa ser feito, e muito pouco dinheiro para fazê-lo. — Ele estremeceu. — O ordenado do nosso pai, do Exército, está sendo pago diretamente a ele na Índia, e parece que ele está gastando-o todo. Não há nenhum retorno, então a propriedade está forçada a se manter por seus próprios recursos, como um corpo que não está recebendo nenhuma comida e tem que digerir suas próprias reservas de gordura. Não é uma situação que pode se estender para sempre.
— A situação se estende mais para uns do que para outros — Sherlock murmurou, olhando para o expansivo estômago de seu irmão, que estava pressionado contra a beirada da mesa.
— Mesmo aqueles entre nós que têm a precaução de dispor de reservas substanciais não podem viver para sempre delas. — Mycroft destacou. — O problema é que, com o nosso pai na Índia, é difícil fazer qualquer coisa oficialmente. Quaisquer documentos para assinar teriam que ser enviados a ele, o que significaria um atraso significativo e o risco de que eles se perdessem pelo caminho.
— A solução — o Sr. Lydecker falou — é o seu irmão ter a procuração temporariamente, até quando seu pai retornar.
Sherlock deu de ombros.
— Você tem a minha aprovação, se precisa dela. Faça o que tem que ser feito. Eu confio em você para tomar as decisões corretas.
— Obrigado — Mycroft disse simplesmente. Ele se virou para o Sr. Lydecker. — Por favor, prepare os documentos necessários para a assinatura.
O Sr. Lydecker assentiu. Ele se virou para sair, então se voltou novamente. Seu olhar foi de Mycroft para Sherlock, e então de volta.
— Há, é claro, o difícil assunto da sua irmã para considerar — ele disse cautelosamente. — Eu entendo que ela está... sendo cortejada. Se ela se casar, então seu marido terá indiscutível direito legal sobre a porção da propriedade que é delegada a ela. Os senhores deveriam se certificar de que ele é um homem decente, honrado, e não o tipo de pessoa que tiraria vantagem de uma situação lucrativa. Perdoe-me por dizer isso, mas sua irmã não é exatamente o tipo de conquista que um homem com um emprego e boas perspectivas normalmente consideraria. Ela é atraente, admito, mas sua personalidade é...
— Algumas vezes presente e outras não — Mycroft interrompeu. — O senhor levantou um assunto difícil, Sr. Lydecker, mas o levantou com tato e no momento certo, quando ainda não é tarde demais para se fazer algo a respeito dessa situação. — Ele pensou por um momento depois olhou para Sherlock. — Eu receberia bem as suas opiniões sobre essa situação, Sherlock.
— Minhas? — Sherlock estava espantado. — O que eu poderia lhe dizer a respeito das futuras perspectivas de relacionamentos amorosos, ou a competência de pretendentes?
— Primeiramente, confio na sua boa mente, e segundo, você já teve um laço afetivo com uma mulher, o que é mais do que eu já tenha feito. — Frente à óbvia expressão de desorientação de Sherlock, ele acrescentou: — Esqueceu-se de Virginia Crowe tão cedo? Você era certamente bastante atraído por ela, e ela por você. E então teve Niamh Quintillan, em Galway. Penso ter detectado uma atração mútua ali também. Francamente, e isso me deixa triste, você tem uma taxa de sucesso com o sexo oposto melhor do que eu.
Sherlock podia sentir-se enrubescendo.
— Eu não colocaria aquilo dessa maneira...
— Claro que não, mas os fatos permanecem. Sugiro que falemos com Emma nós mesmos, e então conversemos com este homem, James Phillimore, com quem ela aparentemente assumiu compromisso. Precisamos descobrir que tipo de homem ele é. Na ausência de nosso pai, preciso determinar as intenções do Sr. Phillimore com relação à nossa irmã.
— Isso será... interessante. — Sherlock murmurou.
O Sr. Lydecker assentiu.
— Então está feito. Eu retornarei amanhã com os documentos para serem assinados. — Ele apertou a mão de Mycroft, então a de Sherlock, e saiu.
— Bem-vindo ao mundo das decisões adultas — Mycroft falou.

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