2 de janeiro de 2018

Capítulo dez

DEMOROU ATÉ A TARDE DO DIA seguinte para que os arranjos adequados fossem feitos. Sherlock teria que retornar ao Chalé Holmes para dizer à sua tia e sua irmã que ficaria longe por um tempo. Felizmente, Rufus já teria ido para Londres quando eles chegassem, então não teriam que se preocupar em contar para ele. Sherlock também precisava fazer as malas. James Phillimore – que tinha surpreendido a ambos ao dizer que também viajaria para o Egito e que os acompanharia com agrado – teve que organizar seus projetos no trabalho e deixar numerosas instruções para as suas secretárias, e ainda escrever uma longa carta para Emma Holmes, que ele pedira que os garotos levassem ao Chalé Holmes em nome dele.
Sherlock perguntou-lhe, em certo momento enquanto faziam planos, o porquê de ele ter tanta certeza sobre ir para o Egito.
— Você me falou que meu irmão tinha pedido ajuda — ele disse seriamente — então eu devo ajudar o máximo que puder. — Ele lançou um olhar ao redor e estremeceu. — Além disso, depois das minhas terríveis experiências nesta casa, sinto que preciso de algum descanso. Preciso sair daqui por algum tempo. Sou incapaz de dormir em meu próprio quarto, sabendo que a qualquer momento alguém pode me pegar, amarrar e esconder numa parede novamente.
Havia uma agência de viagens em Arundel que se especializava em jornadas para o exterior. Depois de uma pesquisa, eles recomendaram uma rota direta de Southampton ao Egito. A companhia que organizaria tudo se chamava Companhia Peninsular e Oriental, e seus navios a vapor saíam frequentemente de Southampton e paravam em Gibraltar e Malta antes de continuarem o trajeto até o porto de Alexandria. A jornada completa demoraria mais ou menos uma semana. James Phillimore pagou animadamente o custo de vinte e sete euros da passagem de cada um, em dinheiro. Ele parecia ter acesso a uma grande quantidade de dinheiro que acumulou durante a sua carreira sem nunca ter gastado, e começara a ver essa jornada como algo entre uma aventura e uma expedição para ajudar a reparar a sua família. Sherlock estava começando a gostar do homem – ele poderia ser intrometido, crítico e altamente tenso, mas também era honesto e aberto.
Felizmente também havia um alfaiate em Arundel que tinha sapatos, roupas e chapéus que seriam adequados para um clima quente e ensolarado. Matty pareceu processar tudo em seu próprio tempo. A única coisa que ele tinha a dizer sobre isso era: “Pelo menos dessa vez eu poderei ver o oceano. Da última vez, eu estava amarrado numa cabine na maior parte do tempo.” Mais uma vez, o senhor Phillimore pagara. Sherlock ofereceu acessar os recursos da família Holmes, mas Phillimore disse:
— Não precisa, não precisa. Jonathan é o meu irmão, afinal.
Eles tinham dois dias até o navio deixar Southampton. A jornada de Arundel às docas de Southampton só levaria uma hora de trem, então não havia muito a se fazer depois de tudo estar embalado. Sherlock teve que passar o seu tempo no Chalé Holmes conversando com sua irmã e a tia. Ele tentou se certificar de que elas conseguiriam cuidar de tudo em sua ausência, mas percebeu depois de um tempo que o mordomo, o cozinheiro, as faxineiras e o lacaio tinham feito tudo sozinhos desde que seu pai partira para a Índia. Sua mãe não tinha condições de ter interesse na mais simples função. Os criados cuidavam do local como uma máquina bem lubrificada, uma que não tinha propósito algum além de continuar a funcionar. Era uma casa sem uma família de verdade.
A carta supostamente de Mycroft, mas na verdade escrita por Rufus Stone, esperava no corredor para que Sherlock a lesse. Ele simplesmente a deixou lá. Já sabia do seu conteúdo, então além do interesse intelectual de saber quão bem Rufus imitava a caligrafia de Mycroft, não havia nada ali que o interessasse.
Ele, de qualquer maneira, escreveu uma carta de volta a Mycroft, contando que os prisioneiros tinham escapado – sabendo perfeitamente bem que Mycroft montara a cena para parecer daquele jeito – e que ele estava retornando para Oxford. O que, ele esperava, aquietaria as suspeitas de Mycroft por um tempo, e impediria que ele descobrisse que Sherlock na verdade teria ido para o Egito.
Emma encarou as notícias da viagem planejada ao Egito de Phillimore melhor do que Sherlock esperava. Pareceu-lhe que ela gostava da ideia de ter um noivo. Ele pensou que a irmã poderia passar anos felizes falando do casamento planejado, sem realmente chegar perto dele. Talvez James Phillimore fosse assim também.
Foi tia Anna quem acertou os sentimentos de Sherlock precisamente.
— É melhor viajar esperançosamente do que chegar — ela disse a ele. — Esse é um velho ditado, mas verdadeiro.
— Você tem certeza que ficarão bem enquanto eu estiver fora? — ele perguntou a ela.
— É claro que sim. Emma e eu nos divertimos juntas – tricotando, fazendo jardinagem ou tocando piano. Nós ficaremos bem, Sherlock. Vá e faça o que quiser fazer.
O maior medo de Sherlock era que Mycroft ou Rufus aparecesse na casa novamente e ele tivesse que fingir que não iria para o Egito parar algum tipo de enorme conspiração. Ou isso ou ele teria que tentar se explicar, e ele tinha certeza de que seu irmão faria qualquer coisa para impedi-lo de interferir. Sabendo do desaparecimento dos três assaltantes, preocupava-se que Mycroft resolvesse levar Sherlock ao mesmo lugar. Felizmente, o próprio Mycroft escreveu, explicando que estava preso em Londres por assuntos oficiais e não seria capaz de visitar o Chalé Holmes até o próximo fim de semana – o que demoraria alguns dias. Até lá, Sherlock esperava, ele já estaria a caminho do Egito.
Na tarde antes da jornada, Sherlock se encontrava fora do Chalé Holmes, ponderando e andando sem rumo pelo gramado. Pensamentos rodavam pela sua cabeça. Estariam eles fazendo a coisa certa? Estaria ele colocando a vida do Matty em risco? Teriam eles alguma chance razoável de fazer a diferença? Depois de um tempo, ele se encontrou sentado na base de pedra da pequena pirâmide perto de onde ele encontrara os três ladrões dias antes. Ele descansou a cabeça nas mãos, preocupações cercando sua mente como mariposas ao redor de uma chama. O que ele pensava que estava fazendo?
Depois de um tempo, ele percebeu que dois problemas diferentes se embaralhavam – o desaparecimento de Jonathan Phillimore e a possível ameaça direcionada contra o canal. Ambos estavam ligados, mas ele precisava separá-los, para a sua própria paz mental. Se Matty e ele acompanhassem o senhor Phillimore ao Egito com a intenção de procurar Jonathan e, enquanto estivessem lá, passassem algum tempo tentando ver alguém do alto escalão da Companhia Canal de Suez, era algo que ele poderia aceitar, e seu coração parou de bater tão rápido. Se, depois que achassem Jonathan Phillimore, eles pudessem ajudar a ele a soprar o apito da suspeita de sabotagem... bem, isso era outra coisa. Pensar dessa maneira, ele descobriu, o fez sentir-se muito melhor.
Enquanto andava, uma ideia o acertou: a de que talvez uma das razões para ele estar tão certo em ir direto para o Egito e tentar achar Jonathan era que seu próprio pai estava em algum lugar desconhecido e sem comunicação na Índia, e ele fora informado disso da mesma maneira que James – por uma mensagem vinda do exterior. Talvez sua decisão de ajudar Jonathan fosse, em parte, porque ele não podia sair e procurar o seu próprio pai.
Dentro da casa, ele procurou na biblioteca de seu pai por livros sobre o Egito. Havia poucos – algumas histórias do país e alguns livros escritos por viajantes – e Sherlock os guardou em sua mochila. Ele teria tempo para lê-los durante a viagem, para familiarizar-se com o que estava pela frente.
Ele dormiu bem e, no dia seguinte, uma carruagem carregando James Phillimore apareceu logo após o café da manhã. O criado colocou suas bagagens no topo, e eles partiram – para o desconhecido.
Sherlock já havia ido a Southampton antes. Anos atrás, ele, Amyus Crowe e Virginia viajaram de lá para a América. O processo de entrar no navio destinado à Alexandria foi rápido: meramente um processo de apresentar suas passagens e passaportes para os oficiais nas docas. Suas bagagens foram levadas direto para as cabines, e eles estavam livres para subir a enorme rampa que do grande navio a vapor – o SS Princesa Helena, de acordo com o escrito em sua proa – que os levaria por todo o caminho.
Duas horas depois, com todos os passageiros à bordo, o apito do navio soou, a rampa foi removida, e o Princesa Helena estava se afastando lentamente da doca. O mar era azul, manchado de luzes e sombras graças às nuvens acima. Gradualmente eles ganharam velocidade, e depois de um tempo, enquanto passavam pela Ilha de Wight, o maquinário do navio se encheu de vapor e as pás de cada lado do navio começaram a rodar, agitando a água. Eles estavam a caminho.
Ao ver a Ilha de Wight desaparecendo na distância até que estava perdida na neblina, Sherlock se encontrou com as emoções misturadas. Por um lado, ele amava viajar e ver novos lugares. Por outro, Sherlock se lembrava o quanto sua vida, e ele, mudara entre deixar a Inglaterra em sua última jornada para a China e voltar. O quanto ele mudaria desta vez?
Será que Mycroft perceberia sua existência quando voltasse?
Pelo resto daquele primeiro dia, Sherlock ficou no deque, sentado lendo os livros sobre o Egito que havia achado na biblioteca de seu pai e também conversando com outros viajantes que já tinham ido ao país para extrair impressões e conhecimento. O senhor Phillimore descobriu ser alérgico ao sol, então passava muito tempo dentro de sua cabine, onde, clamara, escrevia para Emma todos os dias, contando a ela o que acontecia. Como Matty apontara, nada estava acontecendo com ele, nem em sua cabine, então sobre o que ele escrevia? O próprio Matty tinha se juntado a um grupo de outros garotos da mesma idade e estava ocupado em ensinar-lhes técnicas de bater carteira e das artes do roubo no geral, que ele havia aprendido em sua vida. E, em troca, eles ensinavam Matty a segurar a faca e o garfo apropriadamente ao comer, como falar sem atrair atenção por causa de seu sotaque e a diferença entre as maneiras como alguém se dirige a uma duquesa ou condessa.
Sherlock lembrava muito bem do jeito como a vida a bordo de um navio poderia se tornar pura chatice, se não se fosse cuidadoso. Ele tinha os livros do pai sobre o Egito para ler, claro, mas havia um limite de leitura para alguém ler todos os dias sem ir à loucura ou querer atirar o livro ao mar. Ele poderia passear no deque, observar o horizonte para ter algum sinal de outro navio, ou de terra, mas tinha visto gente demais em sua última viagem andando de um lado para o outro obsessivamente, como leões em uma jaula. Alguns passageiros passavam grande parte de seu tempo no restaurante ou no bar, mas isso não excitava Sherlock nem remotamente. Em sua concepção, comer e beber eram somente maneiras de prover combustível ao corpo. Alguém poderia escolher quão bom esse combustível seria, obviamente – do mesmo modo que certos tipos de carvão queimavam melhor e produziam menos fumaça, alguns tipos de comida eram melhores que outras – mas não havia muito motivo para sobrecarregar alguém com comida do mesmo jeito que se juntava carvão para uma lareira. E então havia os jogos – o deque superior do navio havia sido pintado de verde e poderia ser usado como um pátio de críquete, enquanto vários salões estavam abertos para jogos de cartas como bridge e bacará. Críquete não atraía Sherlock em nada – quando uma pessoa lançava a bola por um arco com sucesso uma vez, qual era o desafio em fazê-lo de novo? Ele achava jogos com cartas atraentes, dado o fato de que envolviam lógica e memória para levar vantagem sobre a mão que lhe fora atribuída por sorte. Ele também havia aprendido meses antes algumas maneiras de manipular e marcar cartas com Ambrose Albano no Castelo Cloon Ard em Galway, então tinha certeza de que faria um lucro excelente se decidisse jogar por tempo suficiente. O problema era que os salões de carteado estavam tão cheios de fumaça de cigarro que toda vez que abriam uma das portas, era impossível ver algo além da parede branca de fumaça, e ele odiava cigarros.
Apesar de suas dúvidas sobre comportamento obsessivo, passou sozinho boa parte do segundo dia no mar, encarando o profundo azul do oceano Atlântico, esperando ver uma baleia, golfinho, ou qualquer coisa, e tentando não pensar em Virginia Crowe. Depois de poucas horas, ele desistiu e decidiu retornar à cabine para pesquisar mais um pouco sobre o Egito. Saindo de onde estava, ele fez seu caminho até o corredor que o levaria para seu compartimento. O corredor estava bloqueado com cordas, - algum reparo mínimo que tinha que ser feito, presumiu – então ele usou um corredor que nunca tinha usado antes.
Tinha percorrido metade do caminho quando sons vindos de uma porta aberta atraíram sua atenção. Ele podia ouvir pés roçando o deque de madeira, e sons de esforço físico. Quase pareceu como se uma luta estivesse acontecendo, mas ele não ouvia expressões de dor.
Sherlock moveu-se em silêncio para a porta aberta e olhou pela soleira.
Um homem estava lá dentro, vestido em uma camisa branca, aberta no pescoço, calças brancas e sapatos de pano com solado de corda. Estava na meia-idade, era meio atarracado, com cabelo cor de sal com pimenta cortado curto. Ele estava de pé em uma esteira de algodão acolchoada que ocupava praticamente o lugar todo.
E segurava um sabre, com o qual cortava o ar.
Sherlock olhou mais para dentro do local. Não havia mais ninguém lá.
Ao que parecia, o homem lutava com ele mesmo.
Sherlock estava quase indo embora, deixando o espadachim em seu exercício solitário, quando o homem fez um golpe final no ar, deixou o sabre erguido por alguns instantes e então se endireitou. Ele olhou para a porta sem surpresa alguma, como se já tivesse registrado que Sherlock estava lá.
— Bom dia — ele cumprimentou. Sua voz tinha um leve traço de um sotaque da região de Hampshire.
— Bom dia — Sherlock respondeu.
— Sem dúvida você está se perguntando o que estou fazendo — o homem falou. Seus olhos eram de um verde pálido, e afiados como os de um gato.
— O senhor parece estar praticando movimentos de luta de espada na ausência de um oponente — observou Sherlock. — Presumo que esteja em uma jornada e deseje manter suas habilidades, mas não tenha com quem praticar.
— De fato. O capitão me ofereceu gentilmente o uso deste local para os meus exercícios. K. James Marius Reilly ao seu serviço, aposentado do Corpo de Serviço, mas recentemente virei Mestre de Esgrima dos Oficiais Cadetes Navais de Sua Majestade em Portsmouth. — ele quase fez continência, mas se conteve.
— Sherlock Holmes — Sherlock respondeu.
Reilly o olhou sagazmente:
— Alguma vez esgrimiu, senhor Holmes?
Sherlock se lembrou da sua luta desesperada com o Barão Maupertuis em seu castelo na França, anos atrás. A falta de jeito de Sherlock com a lâmina o teria matado se não fossem os problemas de Maupertuis em manusear a sua arma.
— Uma vez ou outra. — ele respondeu. — Nunca fui treinado, na verdade.
— Você se importaria em ter algum treinamento aqui? Sem pagamento. Estou cansado de lutar contra a minha própria sombra, e eu apreciaria um parceiro decente, mesmo que eu tenha que treiná-lo. Você irá até o fim, para Alexandria?
— Sim — Sherlock respondeu, intrigado. — O senhor já ensinou antes?
Reilly acenou.
— No exército. Eu uso o Sistema Ângelo, mas com referências que datam do Tratado dos Braços do século XV de Diego de Valera. Você aprenderá em pouco tempo.
— Não estou devidamente vestido... — Sherlock protestou.
— Desde que tenha algo razoavelmente folgado, estará tudo bem — ele ergueu uma sobrancelha — O que diz? Não só passará o tempo nos entretendo, como também lhe proverá habilidades que podem vir a ser valiosas algum dia.
— O senhor tem alguma espada de sobra?
— Estou indo ao Egito para virar Maestro di Scherma. A criação do Canal de Suez tornará Alexandria e Port Said lugares muito cosmopolitas. Quero ser um dos primeiros a construir uma escola de luta lá. Eu farei fortuna! — ele sorriu conscientemente — Me desculpe, estou desesperadamente tentando me convencer de que fiz o movimento certo ao me mudar para outro país para ensinar algo que eles podem não querer saber. Mas sim, tenho numerosas espadas comigo, com a justificativa de que eu não tinha certeza da qualidade das armas que encontraria em Alexandria e seus arredores.
— Acredito que o senhor descobrirá que eles vêm fazendo espadas há mais tempo que nós — observou Sherlock. Ele se encontrou rindo do inocente entusiasmo de Reilly. — Tudo bem, eu aceitarei sua gentil proposta. Por favor, ensine-me a lutar com espadas.
O resto do dia e o dia seguinte inteiro passaram em um giro. Sherlock esperava poder pelo menos segurar a espada rapidamente, mas depois de ter colocado a vestimenta adequada, Reilly o colocou para fazer uma série de exercícios desenvolvidos para expandir seu peito, elevar sua cabeça, colocar seus ombros para trás e fortalecer sua coluna. Por horas seguidas, com intervalos para água, ele se encontrou fazendo vários exercícios repetidos: erguendo as mãos para frente, as pontas dos dedos se tocando, e então as levantando acima da cabeça em um movimento circular; colocando suas mãos para frente e abrindo os braços num arco até elas se encontrarem atrás das costas; inclinando-se para tocar os pés enquanto mantinha a coluna perfeitamente reta. Ele não se importava: podia ver a necessidade de ter seus músculos esticados e suas juntas mais flexíveis. Depois desses exercícios iniciais, ele foi encorajado a passar tempo mantendo as mãos atrás das costas, com a mão esquerda segurando o braço direito acima do cotovelo e girando seu corpo para a esquerda e para a direita, até não conseguir mais torcer-se. Também havia exercícios de equilíbrio: manter todo o peso sobre o pé esquerdo ou direito, ficando esticado o máximo possível. Em cada estágio, enquanto fazia as posições, Reilly chegava perto e segurava seus ombros, ou braços, ou pulsos, tentando forçá-lo ainda mais para que seus músculos alongassem e fazendo-os protestar ainda mais.
Eventualmente eles mudaram para exercícios de correção de pés. Reilly concentrava nas vantagens de variar a velocidade de mover-se para trás e para a frente, constantemente se certificando de que o torso de Sherlock estivesse meio de lado, o que permitia a Sherlock expor apenas um terço de seu alvo corporal. Sherlock colocou a parte da frente do pé para frente, mas o calcanhar em ângulo reto. Ele sentiu a pressão na coxa enquanto ajeitava seu peso para manter o equilíbrio. Isso se provou estranho no começo, especialmente enquanto tentava manter a espada imaginária em uma posição de en garde, preparada para bloquear qualquer ataque potencial.
Matty às vezes vinha assisti-los, mas frequentemente saía poucos minutos depois dizendo estar entediado. Ele parecia gostar de ser o centro da atenção das crianças com quem andava.
Entre as sessões de treinamento, Sherlock comia bastante na cozinha do Princesa Helena, e de noite dormia como um pedaço sólido de madeira: sem se mover e completamente alheio à passagem de tempo.
Uns poucos dias depois de deixar Southampton, Sherlock se juntou a James Phillimore e Matty no almoço – num dos raros momentos em que Phillimore saíra de sua cabine.
— Eu não quero me intrometer — ele falou — mas eu poderia dar uma olhada na mensagem que recebeu sobre o seu irmão? Tudo aconteceu tão rápido nos últimos dias que eu me esqueci, porém tenho algumas perguntas.
Phillimore acenou e pegou algo no bolso interno de seu paletó. Ele tirou um envelope de lá e o entregou para o outro lado da mesa. Dentro do envelope estava um pedaço de papel. Pedaços de fita branca com letras datilografadas estavam coladas em linhas paralelas através do papel. A mensagem dizia:

SENTIMOS INFORMAR QUE SEU IRMÃO DESAPARECEU DA POSIÇÃO NO EGITO PONTO SE EM CONTATO POR FAVOR PEDIR PARA RETORNAR IMEDIATAMENTE PONTO COMPANHIA CANAL DE SUEZ

— Hmmm — Sherlock se inclinou para trás em sua cadeira e olhou ao redor da cozinha. Estava meio cheia: garçons de blusas brancas moviam-se ao redor das mesas entregando pratos cheios e levando embora pratos vazios.
— O que foi? — Matty perguntou. — Você parece ter chupado um limão.
— Eu estava pensando... — Sherlock olhou de volta para Phillimore — Como quem quer que tenha mandado esse telegrama sabia que você e Jonathan Phillimore eram irmãos? Como eles sabiam até para onde enviar o telegrama?
— Presumo — ele falou lentamente. — Que meu irmão tenha me listado como seu parente mais próximo, mesmo que não tenhamos nos falado por anos. Nossos pais estão mortos, e ele nunca se casou. Não tem mais ninguém – o fato de ele ter me contatado recentemente em sua hora de necessidade foi... acidental.
Sherlock acenou.
— Isso faz sentido. Espero que seja verdade.
O SS Princesa Helena atracou em Gibraltar na manhã de um dia quente e ensolarado. O senhor Reilly disse a Sherlock que poderia gastar um tempo para ver o porto, então Sherlock e Matty desembarcaram para olhar ao redor, impressionados pelo Rochedo de Gibraltar e todo o resto. Vendo a pequena cidade e os recursos limitados, Sherlock se perguntou se o lugar estava preparado para o que aconteceria quando o Canal de Suez abrisse – se abrisse. Ele suspeitava que Gibraltar de repente se encontraria em uma importante posição estratégica e que provavelmente não estaria pronta para isso.
Matty foi particularmente atraído pelos vendedores de rua e barracas que pareciam habitar todas as ruas principais. Ele também foi tomado pelos pequenos macacos que roubavam comida e até dinheiro, quando podiam.
— Posso levar um comigo? — ele perguntou enquanto o Princesa Helena alertava aos passageiros que estava prestes a partir.
— Não. — Sherlock respondeu. — Vamos logo, temos que voltar.
— Mas eu poderia esconder um em meu bolso. Ninguém notaria!
— O que ele comeria? — Sherlock perguntou.
— O que eu comer.
— E onde ele dormiria?
— Onde eu dormisse.
Sherlock suspirou. Matty obviamente falava sério em relação a esse assunto.
— Bem, e como seu cavalo se sentiria com um macaco ao redor o tempo todo?
A expressão de Matty desmontou.
— Eu não pensei nisso. Alfred é muito ciumento. Não gosta de gatos, nem cachorros. Não acho que ele gostaria de macacos — ele acenou resignadamente — Você está certo, nunca funcionaria.
Eles voltaram ao SS Princesa Helena bem na hora da partida e deram o próximo passo de sua jornada. Alguns passageiros tinham deixado o navio em Gibraltar e outros subiram a bordo, o que significava que a atmosfera mudara comparada aos outros dias. O clima estava diferente, também, depois de terem passado pelas Colunas de Hércules e entrado no notavelmente tranquilo Mediterrâneo – mais quente e úmido – e isso afetou no jeito das pessoas agirem. Botões do colarinho foram, gravatas sumiram. O bar do navio, que até o momento tinha um ar perfeitamente sério, de repente pareceu estar celebrando uma festa a cada noite.
Nesse tempo, Sherlock já tinha visto as profissões, os hobbies e os interesses de todos a bordo baseado somente em suas roupas e mãos. Era um truque que Amyus Crowe lhe ensinara e que seu irmão, Mycroft, demonstrava possuir uma boa base. Sherlock chegou ao estágio em que nem percebia mais o que estava fazendo, na maior parte do tempo. Ele checava suas intuições ao engajar uma conversa com as pessoas vez ou outra, perguntando o que faziam na Inglaterra, mas uma vez que ele estabelecera que estava certo, não se importara de checar novamente.
Ao contentar-se em notar que Sherlock dominara a técnica do movimento dos pés, Reilly permitiu que seu pupilo passasse para o trabalho com a espada. Assim, pelos quatro dias seguintes Sherlock se encontrava cortando o ar do mesmo modo como Reilly fazia quando Sherlock o conheceu. Reilly gritava o número de certo corte e Sherlock postava seu corpo para se aproximar de seu oponente invisível com movimentos rápidos. Era de se esperar que ele executasse os movimentos com precisão. Logo, ele variava as posições de guarda por segundos intermináveis, seguindo as instruções de Reilly: mantendo os pés plantados no chão e os músculos relaxados, permitindo à espada absorver a força de um ataque.
Todo o processo o fascinava. Ele desejava ter sabido de tudo isso quando lutara com o Barão Maupertuis na França. Também podia ver a necessidade dos exercícios de alongamento: sem eles, seu corpo teria se rebelado contra as estranhas posições que era forçado a adotar.
Assim como os sete “cortes” e as sete “guardas”, Reilly introduziu Sherlock em três outros movimentos importantes: O thrust, o parry e o riposte. O thrust era empurrar a espada adiante enquanto o pé direito dava um passo para frente e o pé esquerdo permanecia no lugar para dar uma base sólida. O parry era uma ação de bloqueio feita com a espada, designado a parar o ataque de um oponente. Esse movimento era frequentemente seguido por um imediato contra-ataque, ao qual Reilly chamou de resposta.
Depois de alguns dias, Sherlock sentiu que seus músculos tinham realmente alongado. Estranhamente, ele se sentia mais alto, com um alcance maior. Seu corpo estava mudando, evoluindo, graças aos exercícios. Ele também começou a sonhar com os exercícios. Toda noite o seu cérebro o colocava no mesmo arranjo de movimentos que Reilly o colocava durante o dia.
E então, depois de três dias de viagem, no meio de um calmo mar azul, a Câmara Paradol fez a sua jogada.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!