2 de janeiro de 2018

Capítulo cinco

PREZADA SRA. HOLMES,
Permita-me primeiramente me apresentar e me desculpar pela descortesia de minha inesperada carta. Meu nome é Coronel Cyrus Rossmore, e tenho o prazer de ser o comandante oficial de seu marido. Deixe-me assegurá-la imediatamente de que seu marido está com boa saúde. Nenhum acidente recaiu sobre ele, nem nenhuma doença (salvo os usuais problemas de saúde que a Índia guarda para todos nós, e nos surpreende com eles de tempos em tempos).
O Major Holmes é um excelente oficial que ganhou o meu respeito, e o respeito dos homens que ele comanda. Ele tem uma ótima mente analítica, e um físico robusto, razões pelas quais ele foi escolhido para executar uma importante missão. Isso significa que ele estará afastado do quartel por um período de várias semanas, senão meses, e dependendo principalmente de seus próprios recursos. Não posso fingir que a missão em que ele estará não será perigosa, mas tudo aqui na Índia é perigoso em um grau ou outro – mesmo o simples ato de colocar a bota pela manhã pode ser fatal se a pessoa não a checar antes em busca de escorpiões que podem ter entrado durante a noite. Digo isso não para preocupá-la demasiadamente, mas para indicar que os riscos que o seu marido está correndo nesta missão não são mais severos do que os que ele enfrenta no dia a dia.
Eu normalmente não permitiria que membros da família de um oficial saibam de missões confidenciais, mas esta é uma exceção por muitos motivos. Um desses motivos é que desejo alertá-la que o fluxo de cartas do Major Holmes para a senhora e sua família provavelmente será interrompido por um período de tempo. Ele não estará, receio, em uma posição de onde possa escrever, que dirá achar um serviço de correio. Eu não gostaria que a senhora se alarmasse com essa interrupção. Assim que ele retornar a nós, tenho certeza de que escreverá muitas cartas para preencher essa lacuna.
Além do mais, eu gostaria de lhe pedir duas coisas, se possível. A primeira é que não tente descobrir, através de contatos ou influências que a senhora possa ter, qual é a missão para a qual seu marido foi enviado. O próprio ato de fazer perguntas pode desencadear o levantamento de questões desafortunadas, fazendo com que sua missão seja descoberta. A segunda é que, caso alguém comece uma conversa ou escreva para a senhora perguntando pelo seu marido e o que ele está fazendo na Índia, ou em outro lugar, por favor, diga a essas pessoas que, até onde a senhora sabe, ele está a salvo no quartel, enfrentando as mesmas condições que todos nós enfrentamos aqui. Diga a qualquer um que pergunte isso que a situação de seu marido não mudou. Uma vez que sua missão tiver terminado, então, para todos os efeitos, isto será verdade.

Agradeço-lhe sua consideração e continuo,
Seu mais obediente criado,
Cyrus Rossmore (Cel.)

Sherlock dobrou a carta e a colocou de volta no envelope. Ele não disse nada por um minuto ou dois, deixando que as palavras escritas pelo Coronel Rossmore se infiltrassem em seu cérebro e procurando por qualquer significado escondido ou algum indício inconsciente. Era como filtrar água de uma lagoa com uma peneira fina, e de fato havia resíduos deixados para trás que ele inspecionava cuidadosamente.
— Uma missão secreta — ele disse finalmente. — Algo perigoso, presumivelmente secreto. A primeira pergunta é: Por que nosso pai? Por que nenhum dos outros candidatos mais qualificados lá na Índia, ou em outro lugar? Nosso pai não foi, até onde sei, treinado para serviço secreto.
— Uma boa observação, uma que me ocorreu imediatamente. — Mycroft concordou. — Talvez ele tenha um conhecimento especial que faz dele um candidato ideal... uma língua estrangeira, talvez, que tenha aprendido enquanto estava lá.
— A segunda pergunta é: dado o fato de que o Coronel Rossmore suspeita que alguém poderia fazer perguntas sobre os planos do nosso pai, ele portanto suspeita que há pessoas aqui na Inglaterra que poderiam se interessar pela sua missão e tentar impedi-la? Isso sugere que a missão vai além de alguma política tribal ou alguma missão secreta de espionagem de algum dignitário indiano.
— Este é um ponto muito pertinente, e fico satisfeito que você o tenha levantado também. Pensei que talvez eu estivesse sendo suscetível demais. Não é, de qualquer maneira, o ponto mais importante.
Sherlock pensou por um momento, trazendo as palavras da carta de novo até o primeiro plano de sua mente.
— Ah sim, o pedido finamente disfarçado do coronel para nossa mãe de que ela não contatasse a ninguém em uma posição de autoridade aqui na Inglaterra... suspeito que ele pudesse estar pensando em você, Mycroft... parece indicar que há pessoas no Governo Britânico, ou no Exército, que estão, ou poderiam estar, interessadas na missão em que nossa pai foi enviado, e que o descobrimento dessa missão poderia comprometer o seu sucesso e talvez até colocar a vida do nosso pai em perigo.
Mycroft assentiu. Sua expressão estava sombria.
— Imaginei se eu estava sendo excessivamente paranoico, mas essa foi a insinuação que tirei da carta também. Mas isso não faz sentido... como uma missão que se origina na Índia pode ter uma repercussão que se estende até aqui?
— O que você fará? — Sherlock perguntou.
— Queimarei esta carta — Mycroft respondeu — e esquecerei que ela algum dia chegou.
Sherlock sorriu para o irmão.
— O que você quer dizer é: você fará algumas perguntas sutis pelos corredores do poder para descobrir se algo muito secreto está acontecendo.
— Sim, é exatamente isso o que farei. Deixe comigo, se eu descobrir algo... — ele hesitou por um momento — bem, para ser honesto, se eu realmente descobrir algo, então precisarei pensar com muito cuidado se conto ou não para você, mas presumo que provavelmente contarei. Enquanto isso, não diga nada a ninguém. — Seu olhar se moveu de Sherlock para Matty, e o garoto recuou diante da ferocidade de seu olhar. — Isso vale para vocês dois. Faço o favor, jovem Matthew, de presumir que aquilo que está seguro com Sherlock também está seguro com você, e vice-versa.
— Pode contar comigo, Sr. Holmes — Matty disse firmemente.
— Eu sei. — Ele gesticulou para Rufus Stone, que estava de pé perto de Emma. — Agora sobre outro assunto. — Enquanto Rufus se juntava aos três, ele olhou para onde Emma olhava pela janela, observando os pássaros no campo. — Diga-me — ele continuou, baixando a voz — você fez algum progresso em determinar os fatos da vida do Sr. James Phillimore?
Sherlock encarou o irmão com espanto.
— Você fez o Rufus vasculhar a vida do noivo de Emma? — ele perguntou.
Mycroft assentiu.
— Você sabe como Emma é delicada. Dada a sua natureza confiante e sua dificuldade em distinguir entre o que é importante e o que é trivial, senti que era melhor se soubéssemos mais sobre o Sr. Phillimore. Enquanto nossa mãe estava viva ela poderia, até certo ponto, ficar de olho em Emma, mas em sua ausência, alguém precisa ter os interesses de Emma como prioridade. — Ele olhou de volta para Rufus. — Então... o que descobriu?
Rufus checou para ter certeza que Emma não podia ouvir.
— James Westley Phillimore é seu nome verdadeiro — ele falou calmamente — e há registros de seu batismo em uma das igrejas locais. Sua família parece ter sido bem respeitada, apesar de terem sido considerados um pouco reservados.
— Terem sido considerados? — Sherlock perguntou.
— Seus pais estão mortos, os dois de uma doença que os levou uns dez anos atrás, e ele tem um irmão mais novo com quem raramente fala. Ele tem poucos amigos, e nenhum hobby que tenha descoberto. Vai à igreja todo domingo e coloca alguns trocados no prato de doações, mas não acho que seu sentimento cristão vá muito além de convenção e hábito.
— E quanto ao emprego? — Mycroft perguntou.
 — Ele é um engenheiro por formação, com especialidade em poços artesianos.
— O que isso quer dizer? — Matty franzia o rosto. — Quer dizer, eu sei o que é um poço porque eu bebia deles com frequência, mas um poço artístico? Isso é novidade para mim.
— Artesiano, não artístico. — Mycroft explicou. — Nomeado assim por causa da província de Artois, na França, onde muitos desses poços haviam sido escavados. O princípio básico é simples: se há uma grande depressão ou um declive no chão, cobrindo diversas milhas, então é provável que exista água fluindo através das pedras pela orla do declive que é consideravelmente mais alta que o meio do declive. Isso quer dizer que, se um poço é escavado até as pedras que conduzem a água no centro da depressão, então a pressão de toda água que está mais alta fará com que ela suba até a superfície naturalmente, ao invés de ter que ser bombeada ou trazida para cima com um balde. Localizar o melhor lugar para esses poços, e escavá-los, requer conhecimento e experiência.
— Então — Sherlock falou — ele é um homem com perspectivas. Isso tem que ser bom.
— Talvez. Eu tenho conhecimento, no entanto, de um número de homens de boa posição e com excelentes perspectivas em Londres em quem eu não confiaria para cuidar de um cachorro, que dirá de uma garota vulnerável. — Ele bufou. — Quaisquer fatos que nós descubramos não responderão à pergunta chave. Não podemos definir seu caráter de longe, não importa quantas evidências e quantos fatos nós tenhamos à nossa disposição. Precisamos falar com o homem, descobrir como ele é. — Ele se virou para Rufus Stone. — Faça com que o mordomo prepare a carruagem. Vamos fazer uma visita.
Levou meia hora para que a carruagem ficasse pronta e para que Sherlock e Mycroft saíssem da sala de visitas sem despertar a suspeita de Emma. Enquanto a carruagem ia em direção à estrada fazendo barulho, a expressão de Mycroft era pensativa.
— Qual o problema? — Sherlock perguntou.
— Eu me encontro em um dilema curioso. De um lado, quero que Emma seja feliz, e eu já havia quase desistido de ter esperança de que ela teria algum tipo de vida normal. De outro, quero me assegurar que ele não está tirando vantagem dela, que ela não seja infeliz ao lado de um homem que só a vê como uma pessoa fácil de ser controlada.
— Mas há mais alguma coisa, não há?
— Sempre há — Mycroft confirmou. — A vida nunca é simples. Eu tenho a tendência de pensar nos problemas nos termos dos diferentes níveis ou ordens em que eles se apresentam e pertencem. As duas coisas que já mencionei são o que penso ser da primeira ordem. Há uma segunda ordem, mais baixa e talvez menos importante, mas ainda assim merecedora de consideração. Neste nível eu depositaria meu alívio pessoal de que, se Emma se casar com este homem, então eu não seria mais responsável por ela... essa tarefa seria transferida para ele. É uma emoção bastante básica, eu sei, mas não posso manter uma vida e um escritório em Londres se tiver sempre que garantir que Emma esteja bem. Contra isso, também desta segunda ordem, eu colocaria minha preocupação de que o Sr. James Phillimore esteja usando o casamento com uma garota doente e facilmente manipulada para ter acesso à fortuna da família Holmes... que não é grande, mas é tentadora, especialmente para um homem com salário de engenheiro.
— É uma situação complicada — Sherlock concordou. Ele franziu a testa quando um pensamento lhe ocorreu. — Eu me pergunto se Amyus Crowe alguma vez considerou se eu era um par apropriado para Virginia.
— Penso — Mycroft disse cuidadosamente — que se Virginia tivesse decidido que você era um par adequado, então nada que o pai dela dissesse ou fizesse afetaria essa decisão. — Ele olhou para Sherlock com simpatia. — Você teve notícias de algum dos dois?
— Nada. — Sherlock disse. Ele sentiu um vazio dolorido em seu coração... um remanescente do que havia sido uma dor aguda sempre que ele pensava em Virginia Crowe. — Acho que é o melhor. Eu não consigo me ver estabelecido com uma garota. Há algo a meu respeito, Mycroft... eu penso demais sobre as coisas.
— Assim como Cassius de Shakespeare. — Mycroft disse, assentindo. — Nos meus momentos mais sombrios eu me pergunto se a linhagem dos Holmes se extinguirá nesta geração. Se Emma encontrar a felicidade com este homem, e se eles tiverem filhos, então pelo menos a família continuará, embora o nome dos Holmes se perca.
A conversa morreu ali, e o restante da viagem foi concluída em silêncio.
A carruagem parou do lado de fora de uma casa com construção moderna no subúrbio de Arundel. A catedral era visível acima das árvores, lembrando a Sherlock do modo como o Castelo de Edimburgo parecia flutuar sobre a cidade quando ele a havia visitado alguns anos atrás. Mycroft examinou a fachada da casa rapidamente.
— Hummm, não vejo evidência de ocupação feminina ou visitas. Pelo menos isso é alguma coisa. O que vejo é evidência de uma renda estável e uma falta de imaginação do proprietário, junto com uma mente que tem prazer nas pequenas coisas como uma coleção de selos e ornitologia. Ele é um homem solitário, mas não é genioso. Isso é tranquilizador.
— E ele tem decoradores. — Sherlock observou, apontando para uma caixa meio escondida do lado da casa. Um aviso na lateral dizia: Geo. Throop – Pintor e rebocador.
— Isso — Mycroft falou — era tão óbvio que eu nem pensei ser digno de mencionar.
Ele deu um passo à frente e tocou a campainha. Uma empregada roliça abriu a porta. Um odor de tinta fresca surgiu detrás dela.
— Pois não? — ela perguntou.
— Seu patrão está em casa?
— Quem devo dizer que o está procurando?
Mycroft entregou um cartão de visita.
— Por favor diga ao Sr. Phillimore que Mycroft e Sherlock Holmes desejam falar com ele.
Ela desapareceu na escuridão do corredor, deixando a porta parcialmente aberta. Lá dentro, Sherlock podia ouvir os móveis sendo arrastados.
— Você acha que ele está redecorando em antecipação ao casamento com Emma? — perguntou.
— Se isso for verdade, então ele está sendo um pouco prematuro, — Mycroft resmungou.
A porta se abriu, mas ao invés da empregada os convidando para entrar, como Sherlock havia antecipado, um homem magro com um traje fora de moda os encarava. Ele tinha pestanas que eram quase tão exuberantes quanto seu bigode. Seus olhos eram de um azul muito pálido, e aguados, e ele segurava um chapéu coco nas mãos. Havia poeira nele, e Sherlock notou que a fita ao redor dele estava desgastada.
— Sr. Mycroft Holmes e Sr. Sherlock Holmes — ele falou em uma voz muito alta. — Vocês devem ser os irmãos dos quais Emma me contou tanto. É um prazer, senhores, um absoluto prazer. — Ele estendeu uma mão fina na direção de Mycroft.
— Igualmente. — Mycroft disse, balançando a mão.
— Tenho considerado fazer uma visita ao Chalé Holmes — Phillimore continuou, estendendo e balançando a mão de Sherlock. — Mas devido à sua recente tragédia... pela qual ofereço minhas sinceras condolências... achei melhor adiar meus planos.
— Que consideração de sua parte. — Sherlock disse. A mão de Phillimore era fria e úmida, e mal apertou a de Sherlock – era como segurar um peixe, Sherlock pensou. Se o homem era um engenheiro, então ele era um engenheiro teórico, não um que colocava a mão na massa.
Phillimore se virou e indicou o corredor escuro atrás dele.
— Como devem ter notado, estou com decoradores no momento. Eles estão fazendo a mais terrível bagunça. Eu os convidaria a entrar, mas francamente estou envergonhado do estado em que este lugar está. Se me permitem fazer uma sugestão, talvez pudéssemos fazer uma pequena caminhada pela cidade e achar algum lugar para nos sentar e tomar uma xícara de chá.
— Uma excelente sugestão. — Mycroft respondeu. — Especialmente se tiver bolo também.
— Eu conheço um lugar. — Phillimore sorriu e olhou para o céu. — Pressinto que depois pode chover mais... vou só pegar um guarda-chuva, e dar algumas instruções de última hora parta o estimado Sr. Throop, e então estarei a sua disposição. — Ele sorriu, assentiu, e entrou de volta no corredor escuro.
Mycroft olhou para Sherlock.
— Não detectei nenhuma dissimulação. — Ele disse calmamente. — O homem me parece bem estável e honesto, talvez até um pouco entediante.
— Talvez seja isso o que Emma precisa — Sherlock observou — um homem que é tão entediante quanto ela é interessante. Em suma, isso quer dizer que eles formariam um casal estável.
— Não tenho certeza de que é assim que o casamento funciona — Mycroft disse. — Mas novamente, não tenho experiência no assunto.
Enquanto esperavam James Phillimore reaparecer, Sherlock deixou seu olhar vagar pela superfície da casa, tentando ver se conseguia replicar as observações que Mycroft tinha feito. Ele conseguiu pensar em todas menos em uma. Ele se virou quando ouviu Mycroft expirando audivelmente. Seu irmão estava consultando o relógio que estava pendurado por uma corrente na saliência de seu colete.
— Quanto tempo leva para pegar um guarda-chuva e dar instruções a um trabalhador? — ele resmungou.
Sherlock vagou pelo canto da casa e olhou ao longo de seu comprimento. Ele conseguia ver um jardim nos fundos, rodeado por altas cercas-vivas. Era, considerando todas as coisas, uma boa casa. Emma seria, feliz aqui ele pensou.
Olhando de volta para Mycroft, ele viu que seu irmão ficava cada vez mais irritado. Não querendo ser o foco de uma explosão de raiva, começou a caminhar pela lateral da casa, passando por janelas fechadas e com cortinas. No final ele olhou para o jardim. O gramado se expandia do pátio de pedra abaixo das janelas francesas e da porta dos fundos que estava fechada, até as altas cercas-vivas. Onde o pátio terminava, canteiros de flores se espalhavam por todo o fundo da casa. Ele notou que a chuva havia deixado um agrupamento de poças por todo o pátio.
Ele retornou para a frente da casa. Os ombros de Mycroft estavam encurvados, e ele parecia murmurar consigo mesmo. Sherlock passou por seu irmão, olhando para dentro do corredor escuro. Ele não conseguia ver nenhum movimento. Pensou ter ouvido seu irmão falar “Quinze minutos, isso é o cúmulo da má educação!” quando chegou ao outro canto da casa ele olhou para sua extensão. Não parecia diferente do lado que ele já tinha visto. Entediado, ele andou pelo comprimento deste lado também, passou por mais janelas e cortinas fechadas, tendo uma visão do outro lado do jardim.
Ele não conseguia ouvir nada da frente da casa, então vagueou pelos fundos dela. Os canteiros de flores, notou, eram plantados com uma mistura de rosas, rododendros e hortênsias – arbustos que haviam crescido livremente, sem serem podados. Ele presumiu que era uma medida contra ladrões – seria difícil para qualquer um forçar sua entrada através dos caules e espinhos para chegar até a janela.
O pátio estava coberto com água da chuva que não havia escoado ou evaporado. Sem querer molhar seus sapatos, Sherlock desviou das lajes, caminhando pela grama úmida, sentindo a terra lamacenta afundar sob seus pés até que chegou ao lado da casa onde havia estado dez minutos antes. Ele caminhou vagarosamente até a frente da casa, vendo seus passos delineados na grama amassada e nos pingos de água perolados.
Na frente da casa ele olhou de lado para seu irmão novamente. As mãos de Mycroft estavam enroladas em punhos, e ele murmurava consigo mesmo.
— Por que nós não batemos de novo? — Sherlock falou. — Ele obviamente está preso em uma discussão com os decoradores.
— É mais certo que tenha ficado assustado com o pensamento de conversar com os irmãos de sua noiva e tenha corrido pela porta dos fundos, para nunca mais ser encontrado.
Sherlock balançou sua cabeça.
— Há uma janela francesa e a porta da cozinha nos fundos, mas ambas estão fechadas. Baseado nas poças de água pelo pátio, as portas não foram abertas, nem ninguém andou pela laje. E caso você tenha pensado que ele pulou a janela, elas estão todas fechadas e as únicas pegadas na terra macia são minhas.
— Então onde está o homem? — Mycroft gritou.
A porta da frente se abriu. Mycroft se virou para olhá-la, a boca aberta para dizer algo grosseiro, mas o homem parado lá não era James Phillimore. Era um homem menor vestido com roupas de trabalhador e uma boina. Ele olhou para Mycroft e para Sherlock.
— Os senhores viram o proprietário? — ele perguntou.
— Nós o vimos antes — Mycroft respondeu, franzindo a testa. — Se você é George Throop, então ele entrou para falar com você.
— Não falou — o homem disse. — Não o vi. De qualquer maneira, nós estamos encerrando por esta tarde. Temos que esperar o reboco secar antes de podermos fazer qualquer outra coisa.
— Você tem alguma ideia de para onde o Sr. Phillimore foi? — Mycroft perguntou.
O Sr. Throop deu de ombros.
— Não faço ideia. — Ele chamou por cima de seu ombro: — Senhorita Winstanley, há dois cavalheiros aqui na porta esperando pelo Sr. Phillimore. — Ele se voltou para Sherlock e Mycroft. — É o melhor que posso fazer. Nós só temos uma hora para o almoço, e este Sr. Phillimore é bastante preocupado quanto à pontualidade. Muito preocupado, ele é.
Ele saiu pela porta e passou por Mycroft. Atrás dele, outros dois trabalhadores emergiram. Seus rostos estavam cobertos de poeira e suas roupas, com tinta. Sherlock prestou atenção em suas alturas e seus rostos enquanto passavam, para o caso de o Sr. Phillimore estar tentando esgueirar-se deles por alguma razão bizarra, mas todos eram mais volumosos do que ele, com rostos duros e barba. Eles olharam para ele com desconfiança, perguntando-se porque o menino os examinava tão de perto. Um deles segurava o braço, como se o tivesse machucado. Talvez alguma coisa tivesse caído nele enquanto decoravam o espaço ou deslocavam os móveis.
Mycroft olhou para Sherlock como se fosse explodir de indignação. Ele estava prestes a fazer isso quando a empregada chegou à porta novamente.
— O patrão não saiu por essa porta? — ela perguntou.
— Nós não o vemos desde que ele entrou para pegar um guarda-chuva — Mycroft disse — e isso foi há vinte minutos. Talvez você pudesse ver onde ele está e lembrá-lo de que ele tem visitantes aguardando-o.
A empregada sorriu de maneira incerta.
— Eu certamente verei o que o deteve — ela disse. — Por favor, aguardem aqui.
— Como se tivéssemos outra opção. — Mycroft murmurou.
— Talvez ele tenha um grande número de guarda-chuvas e não consegue escolher qual trazer consigo. — Sherlock disse alegremente. Mycroft apenas olhou sombriamente para ele, e se virou.
A empregada retornou cinco minutos depois. Ela parecia nervosa.
— Não consigo encontrar o patrão. Ele não está em lugar algum. Vocês têm certeza que ele não saiu por aqui?
— Se ele saiu, então possui o fabuloso guarda-chuva da invisibilidade. — Mycroft disse. A empregada olhou para ele, intrigada. — Você checou em cada cômodo? — Mycroft continuou.
— Chequei sim, senhor.
— Há algum outro modo de sair da casa?
— Há a porta dos fundos — a empregada disse, franzindo a testa — mas ele teria que passar pela cozinha, e a cozinheira está assando tortas a manhã toda. Ela disse que não o viu. Oh, e há também as janelas francesas da sala de estar que levam até o jardim, mas elas estão trancadas.
— Ele poderia ter pulado a janela? — Mycroft perguntou.
Ela olhou para Mycroft com estranheza.
— Por que ele faria isso?
— Nós nos preocuparemos com o “porquê” depois. Ele poderia ter pulado?
— Suponho que sim, mas não creio que ele poderia ter fechado e trancado a janela depois disso, e é assim que todas elas estão. Não há razão para se ter uma janela aberta com esse tempo. — Ela hesitou. — Eu achei isso. — Ela falou, segurando um lenço. Sherlock podia ver um traço de sangue nele, fresco e vermelho. — Talvez o mestre tenha tido um acidente.
— Talvez sim, mas onde ele está? — Mycroft apertou os lábios. — Sherlock, espere aqui. Devo fazer uma inspeção na casa e procurar por evidências de que o Sr. Phillimore saiu com pressa e de uma maneira que evitasse passar por nós.
— Lembre-se das poças de água no pátio. — Sherlock disse, lembrando-se de sua própria inspeção alguns minutos atrás. — Elas teriam sido alteradas se as janelas francesas tivessem abertas e alguém cruzasse o pátio, mas elas parecem intocadas. O pátio é muito largo para pulá-lo também. — Ele pensou por um momento, tentando relembrar o que ele tinha visto. — Todas as janelas dão para o canteiro de flores com arbustos, e não há sinal de que os arbustos tenham sido movidos. E, também, alguém pulando uma janela teria deixado marcas na grama úmida, mas não havia marcas. O mesmo seria verdade se alguém tivesse usado uma escada para chegar à janela do gramado.
— Eu lhes disse, cavalheiros — a empregada falou — todas as janelas estão fechadas e trancadas, incluindo as francesas.
— Não é que eu não acredite em você, Sherlock — Mycroft disse — mas evidência é mais bem checada em primeira mão.
Ele se afastou, desaparecendo pelo canto da casa. Sherlock ficou ali, encarando o lado de fora da casa e tentando entender o que estava acontecendo. A empregada ficou parada na porta, obviamente sem saber o que fazer.
Mycroft retornou da direção oposta alguns minutos mais tarde.
— Você está, é claro, correto. Haveria indícios nas poças de água, na grama ou nos canteiros de flores se alguém tivesse saído da casa por algum caminho que não fosse por esta porta, mas eu não vejo tais indícios. Além do mais, notei chuva na borda das janelas que teriam escorrido se elas tivessem sido abertas. — Ele balançou sua cabeça. — Isto realmente é um mistério. Só posso assumir que o Sr. Phillimore ainda está dentro da casa, mas escondido em um armário ou debaixo da cama.
— Se ele não quer nos ver tanto assim — Sherlock falou — então talvez devêssemos deixá-lo com seus afazeres.
Mycroft ergueu uma sobrancelha.
— Se ele não quer nos ver tanto assim, então talvez nós devêssemos determinar qual é a razão. — Ele assentiu decididamente. — Nós devemos revistar a casa — ele anunciou para a empregada. Indicando o lenço que ela ainda segurava, ele acrescentou: — Algum mal parece ter recaído sobre seu mestre, e nós precisamos determinar o que foi, e ver se ele precisa de ajuda.
— Oh, não acho que o mestre aprovaria pessoas esquadrinhando sua casa sem permissão. — Ela disse, erguendo uma mão até a boca.
— Então ele pode sair de seu esconderijo e nos dizer isso ele mesmo. — Mycroft devolveu. Ele teria passado por ela, mas sua silhueta volumosa encheu a soleira da porta, e a empregada recuou diante dele como um bote recua diante de um navio. Sherlock seguiu seu irmão para dentro da casa.
O corredor era pequeno e acarpetado, com um suporte para casaco, um porta guarda-chuva e uma mesa. O chapéu coco poeirento do Sr. Phillimore estava na mesa, onde ele provavelmente o colocou quando entrou na casa novamente. Havia escadas à esquerda que levavam para cima, e havia várias portas que levavam a vários cômodos. O odor de tinta e reboco era mais forte ali dentro do que lá fora.
— Você procura lá em cima primeiro — Mycroft disse. — Eu devo ficar aqui para que ele não se esgueire por nós. Cheque todos os guarda-roupas e os armários. Cheque embaixo das camas. Procure por algum alçapão que leve ao sótão.
Não sem alguma apreensão, Sherlock subiu as escadas. Ele se sentiu nervoso ao vasculhar a casa de outro homem sem sua permissão, mas algo estava obviamente errado.
Havia somente um andar lá em cima. Não havia nada no corredor a não ser um carpete enrolado e alguns móveis, que obviamente foram removidos de algum dos três quartos para permitir que os decoradores o acessassem. Sherlock rápida e minuciosamente examinou os três quartos e o banheiro.
Dois dos quartos tinham lençóis jogados por cima das camas, das cadeiras e das cômodas. Cada quarto era limpo e arrumado, livre de poeira e de qualquer habitação humana. Com alguma relutância, Sherlock abriu os vários guarda-roupas e armários que encontrou, mas não havia nada neles a não ser roupas de um corte fora de moda. O Sr. Phillimore não estava escondido atrás das cortinas também. O espaço embaixo das camas estava vazio, tirando alguns travesseiros e uma comadre. Ele também olhou embaixo dos lençóis que protegiam da poeira, para o caso do Sr. Phillimore estar sentado bem quieto embaixo de algum deles, mas é claro que ele não estava. Sherlock também checou todas as janelas, mas elas estavam fechadas e trancadas. Olhando para o jardim lá embaixo, ele ainda não via indício de que alguém havia deixado a casa por ali.
Com as mãos nos quadris, ele olhou em volta, frustrado. Onde James Phillimore poderia ter ido?

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