2 de janeiro de 2018

Capítulo catorze

Eles encontraram uma cafeteria de estilo francês no centro de Ishmaili, perto da estação. Ela tinha mesas de metal sombreadas por guarda-sois do lado externo, numa calçada larga e empoeirada com palmeiras alinhadas. Eles se sentaram e pediram comida e xícaras de chá, que vieram sem leite, mas com fatias de limão.
A luz do sol refletindo nas folhas de papel do arquivo era quase ofuscante, e Sherlock teve que apertar os olhos para lê-los. O café estava ocupado quase inteiramente pelos europeus, quase certamente associados à Companhia Canal de Suez, mas vários deles fumavam por tubos longos que estavam conectados a grandes garrafas de metal em bancas ornamentadas.
— O que é aquilo? — Matty perguntou, apontando.
— É um narguilé — Sherlock respondeu. Ele sorriu, lembrando-se de Oxford, de volta na Inglaterra. — É um dispositivo para fumar onde a fumaça do tabaco passa pela água para esfriar e mudar o sabor. Lembro-me de que Charles Dodgson escreveu sobre isso em um de seus livros, Alice no país das maravilhas. O personagem da Lagarta fumava um narguilé.
— Eu nunca li romances — comentou Phillimore.
Sherlock e Matty compartilharam um longo olhar de sofrimento. Sherlock voltou a atenção para o arquivo e falou:
— Aparentemente, a polícia local investigou o desaparecimento do seu irmão. Ele estava morando em um quarto no lado europeu da cidade, não na área onde o Sr. de Lesseps vive, mas um pouco menos exclusivo. Ele não foi trabalhar certa manhã. À hora do almoço, seus colegas estavam preocupados e então levantaram a atenção para o sumiço dele. — Ele olhou para James Phillimore, que estava encostado na mesa, ouvindo atentamente. — Ele era, aparentemente, bastante pontual e confiável.
— É claro que sim. Ele era meu irmão.
— A polícia foi chamada. Eles derrubaram sua porta, sob o pressuposto de que ele poderia ter ficado doente ou... tido um ataque cardíaco, ou algo assim.
— Mas ele não estava lá.
Sherlock assentiu.
— Correto. Não havia nenhuma indicação de crime, ou qualquer coisa inapropriada.
— Devemos falar com a polícia? — perguntou Phillimore.
— Eu não acho que isso ajudaria — Sherlock replicou. — Tudo o que eles sabem está aqui, e a última coisa que queremos fazer é causar problemas. Eles contarão à Companhia Canal de Suez imediatamente, e nós seríamos expulsos de Ishmaili.
— Talvez seja o que aconteceu com Jonathan Phillimore. — Matty observou sombriamente. Ele estava comendo um prato cheio com o bolo de carne que eles pediram. — Talvez ele tenha causado problema demais, e acabou fugindo da cidade por causa da companhia.
Sherlock balançou a cabeça.
— Se isso foi tudo o que aconteceu, então ele teria encontrado uma maneira de entrar em contato com seu irmão. E não acho que Monsieur de Lesseps tenha deixado de falar nada pra nós. Ele parecia reagir genuinamente. — Ele folheou os papéis no arquivo. A última folha, no final, chamou sua atenção. — Ah, isso é interessante.
— O quê? — Phillmore perguntou.
— Bem, há uma declaração final anexada ao arquivo. Aparentemente, um condutor de carruagem local apareceu na delegacia alguns dias depois afirmando que ele pegou um cliente em certo lugar, mas o homem desapareceu sem pagar sua tarifa. Ele pediu que o condutor aguardasse, para que pudesse fazer a jornada de regresso, mas ele nunca mais voltou. Quando o condutor foi procurá-lo, ele tinha desaparecido. Ele queria fazer uma queixa e receber sua tarifa.
— E esse cliente era meu irmão?
— O condutor não deixou um nome, mas pela descrição que ele deu, parece ser, então uma cópia do relatório foi anexada ao arquivo.
— Aonde ele foi levado? — Matty perguntou.
— Ou o condutor não disse, ou não foi escrito no relatório. Para ser sincero, alguém só fez a conexão depois que o homem havia saído, e por isso a cópia foi anexada mais tarde. Ninguém se incomodou em ir atrás dele. Bem, foi vários dias após o desaparecimento que o condutor fez sua queixa.
— Eu acho... — observou Matty — que precisamos conversar com esse condutor. Ele deixou um nome?
— Abdul Aziz. Há um endereço aqui. — Sherlock olhou ao redor. — Embora eu não tenha certeza de que este lugar tenha muitas sinalizações na rua, pelo menos não nos quarteirões dos nativos.
Eles chamaram uma carruagem de aluguel local que passava. Consciente da possibilidade de ironia cósmica, Sherlock se certificou de ter verificado o nome do condutor. Não era “Abdul Aziz”, e tampouco o condutor conhecia alguém com esse nome.
O endereço acabou por ser uma espécie de garagem coletiva em que as carruagens egípcias operavam, em vez de uma casa. Era uma construção longa e baixa com a frente aberta e telhado de ferro ondulado que parecia absorver a luz solar e irradiá-lo de forma multiplicada. Muitos condutores operavam do lado de fora, ou simplesmente sentavam-se ao redor, bebendo pequenas xícaras de café preto ou fumando narguilé como os que estavam no café francês. Tal fumo parecia ser onipresente em torno da cidade, talvez no país. Seus burros estavam cercados dentro da construção, aparentemente compartilhando o espaço com os condutores.
Sherlock assumiu que em uma cidade que era pelo menos metade europeia, pelo menos um dos condutores falaria francês. Eles estavam com sorte, encontraram alguém que falava inglês.
— Meu nome é Mohammed Al-Sharif — ele anunciou com orgulho. — Aprendi inglês muito bem há muitos anos, quando estava no exército egípcio.
— Você lutou contra os britânicos? — perguntou Phillimore.
Ele sacudiu a cabeça, sorrindo.
— Nós lutamos contra os otomanos e contra os britânicos — ele respondeu — mas nós tomamos prisioneiros. Aprendi com eles.
Al-Sharif levou-os para Abdul Aziz, um homem velho com uma pele morena coriácea e apenas alguns dentes sobrando na sua boca. Ele parecia feliz em conversar.
— Você se lembra de uma queixa que prestou à polícia sobre um homem que não pagou por uma viagem? — perguntou Sherlock, através de Al-Sharif.
Aziz falou longamente, gesticulando e cuspindo uma vez no chão. Al-Sharif se virou para Sherlock depois de um tempo.
— Sim, ele lembra. Disse que o homem se parecia com ele. — Ele apontou para Phillimore. — Ele diz que se esse homem é o irmão do homem que não pagou sua tarifa, então a dívida vai para ele. Esse é o jeito do mundo.
— Nós pagaremos a tarifa se ele puder nos dizer onde pegou o homem, e onde ele desapareceu.
Uma discussão se seguiu entre os dois homens por um tempo.
— Ele tentou aumentar o preço — disse Al-Sharif, depois de um tempo. — Eu o forcei a cobrar o valor original. — Ele sorriu, revelando quase todos os buracos entre seus dentes como Aziz. — Vocês me pagam metade da tarifa por traduzir, sim?
— Sim. — Sherlock respondeu rapidamente, ciente de que Phillimore estava prestes a protestar.
— Ele disse ter levado o homem para as tumbas do lado de fora de Ishmaili, perto de onde o canal está sendo escavado.
— Tumbas? — Matty perguntou cautelosamente.
— O lugar que usávamos para enterrar os mortos, vários anos atrás. Como as pirâmides, mas menor. Se você for um faraó, terá uma pirâmide. Se for um homem rico, terá uma tumba. E se for um homem pobre... — ele deu de ombros, indicando-se modestamente. — Você é colocado em um buraco na areia e deixado ali.
— O que ele estava procurando nessas tumbas? — Phillimore perguntou. Ele olhou para Sherlock. — Ele nunca mostrou interesse em tumbas ou cemitérios quando éramos crianças.
Al-Sharif perguntou a Aziz em egípcio. Aziz deu de ombros. Al-Sharif virou-se para Phillimore e repetiu o encolher de ombros.
— Qual a distância até as tumbas? — Sherlock perguntou.
O tradutor olhou para o céu e deu de ombros novamente.
— Nós saímos depois do pôr-do-sol — disse ele — quando é mais frio. Chegamos ao nascer do sol. Seis horas.
— Certo, mas qual a distância?
— A distância eu não sei. O tempo que dura o caminho, sim.
— O senhor pode nos levar para essa tumba agora? — Phillimore perguntou urgentemente.
— À noite. É melhor para os burros e mais fácil para vocês.
Sherlock olhou para Phillimore e Matty para verificar se eles concordavam e assentiu com relutância. O tradutor revelou novamente seu sorriso com buracos.
— Vocês pagam antecipadamente. Para o caso de desaparecerem como o último homem.
Al-Sharif escolheu alguns burros e providenciou garrafas de água, cocos, frutas e pacotes de alimentos cozidos envoltos em folhas de palmeira para serem fornecidos de alguém que conhecia nas proximidades. Ele assegurou-lhes de que não havia estradas para as tumbas, e que os burros eram o único meio pratico de viajar.
A última coisa que Al-Sharif fez foi buscar em algum armazém, em algum lugar, um longo pacote embrulhado em pano. Ele colocou-o no chão e cuidadosamente o desembrulhou, revelando quatro espadas com lâminas curvas. Eram velhas, mas ainda afiadas. Obviamente foram bem-cuidadas.
— Usadas por vocês britânicos contra os otomanos — disse ele. — Eu as mantive por muitos anos. Vocês podem levar agora, para se protegerem.
— Proteger contra o quê? — Matty perguntou, olhando ao redor nervosamente.
Al-Sharif deu de ombros.
— Animais. Bandidos. Quem sabe?
— Não esses otomanos, então? — perguntou Matty.
Al-Sharif olhou para Matty, franzindo a testa.
— Não… não hoje, eu acredito.
Sherlock estendeu a mão e pegou uma espada. Ele estava familiarizado com uma espada em suas mãos após tantos dias de prática com o Sr. Reilly no Princesa Helena. Ele a colocou em seu cinto, onde bateu contra sua perna. Matty fez o mesmo, assim como James Phillimore, após alguns segundos de pensamento.
Quando o sol se pôs no horizonte, lançando longas sombras, eles se prepararam para sair. A lua já estava no céu, iluminando tudo com uma luz prata fantasmagórica. Os burros estavam amarrados com cordas longas, e com Al-Sharif na liderança, Sherlock, Matty e Phillimore montaram cautelosamente e começaram a se mover. O último burro carregava vários pacotes, com comida e outras coisas.
— Eu poderia andar mais rápido... — Matty falou de trás de Sherlock.
— Sim, mas por quanto tempo? — Sherlock respondeu.
À medida que a escuridão caía, os burros os levavam pela parte nativa de Ishmaili e para o que poderia ter sido descrito por um romântico como deserto ou por um homem prático como uma paisagem constante de areia, pedras e arbustos. Não havia nada além da escuridão em torno deles, e uma profusão de estrelas de horizonte a horizonte. Também estava ficando significativamente mais frio, na ausência de luz solar direta, e Sherlock se viu tremendo. Eles pareciam se mover paralelamente ao canal: de vez em quando, através de lacunas nas pequenas colinas de pedras e pilhas de areia que caracterizavam a paisagem. Ele podia ver, à esquerda, a linha de vegetação – escura à luz da lua – que marcava as margens do canal. Por um tempo, a trilha que seguiam – se fosse realmente uma trilha e não uma viagem atravessando o país inteiro – os levou por uma pequena elevação de areia, e Sherlock pôde ver o canal em toda a sua extensão. Era basicamente uma linha reta tomando toda a paisagem, escavada da areia e da rocha por massivas máquinas a vapor de dragagem e escavação que haviam sido deixadas ao longo do canal a cada milha ou mais. Na escuridão e ao luar, pareciam esculturas bizarras.
Cada máquina era diferente das demais. Todas compartilhavam características em comum, é claro: uma grande câmara de pressão para o vapor; outra câmara para o forno a carvão; longas vigas de metal com correias ao longo do comprimento e vários baldes interligados, que presumivelmente retiravam a areia do deserto um após o outro em um ciclo sem fim; braços articulados com pistões e enormes cunhas simples em suas extremidades para escavações específicas. Estranhamente, no entanto, cada máquina era diferente da outra – as cunhas e baldes eram projetados de forma diferente, ou as correias estavam dispostas de forma diferente, ou a coisa toda possuía um formato diferente. Era como se cada maquinário tivesse sido projetado e fabricado em um lugar diferente, mas para fazer o mesmo trabalho. Estavam até pintados de cores diferentes.
Sherlock também ficou espantado ao ver que o canal já continha água, que refletia à luz da lua. De alguma forma, ele assumira que a cerimônia de abertura do canal envolveria algum tipo de destruição cerimonial de uma grande barragem em cada extremidade do canal – Porto Said, no Mediterrâneo, e Suez, no Mar Vermelho – e que as águas correriam por ele, irrigando e enchendo-o através do deserto, até se encontrarem no meio em alguma enorme explosão de água, mas esse não era o caso. À medida que cada seção do canal era concluída, parecia que a água fora introduzida ali. A cerimônia de abertura provavelmente seria uma fileira de navios franceses que se dirigiam de Porto Said até Suez para provar que o canal era navegável. Uma espécie de anticlímax, pensou Sherlock. Pelo menos talvez tivesse fogos de artifício.
Eles passaram por outros viajantes em sua jornada. Alguns montavam em burros, como eles, e outros, em camelos. Alguns eram obviamente europeus, outros, egípcios. Parecia que era política dos viajantes se cumprimentarem quando se cruzavam, mas sem dizer nada para não quebrar o silêncio do deserto.
Na maioria das vezes eles passavam sobre a areia, mas às vezes se encontravam em trechos de pedra. Quando Sherlock olhou para o lado, na direção do canal, descobriu que ele fluía por um trecho que tinha sido esculpido na rocha. Isso, ele pensou, deve ter sido um incrível feito da engenharia.
Ele deve ter adormecido em algum momento, enquanto ainda estava sentado em seu burro. O movimento regular e lento certamente causava um efeito calmante. De vez em quando ele despertava, mas parecia que a paisagem à sua volta não havia mudado. Era como estar preso em um pesadelo recorrente, e ele se perguntou brevemente se Al-Sharif os estava conduzindo em círculos, dizendo-lhes que levaria seis horas para chegar às tumbas embora na verdade demorasse apenas uma. Ele tinha que verificar a posição da lua e das estrelas para se convencer de que estavam viajando em linha reta.
Ele olhou ao redor, fascinado. No Princesa Helena, sempre havia algo bloqueando as paisagens ao redor – uma cabana, um mastro, um anteparo. Aqui ele podia literalmente ver todo o horizonte, e todo o céu acima. Era uma visão de humildade. Sherlock sentiu como se eles fossem insetos em um enorme lençol amarrotado, incerto se algum dia chegaria ao outro lado.
Mas eles chegaram. Eventualmente, seu caminho divergiu ligeiramente da linha do canal, e Sherlock percebeu que estavam indo para uma pequena colina, cuja parte superior parecia ser grosseira e quebrada, como dentes negros irregulares mostrados em silhueta contra o céu noturno, bloqueando as estrelas. Havia outras colinas próximas, cada uma com seu próprio conjunto de rochas quebradas no topo. Por um tempo, quando se aproximaram da colina mais próxima, ele pensou que o topo quebrado era apenas uma característica da geografia local, mas quando se aproximaram, percebeu que aquele era um conjunto de construções de pedra bastante antigo e que haviam sido escavados na terra.
O céu à leste começou a assumir um tom rosado quando o amanhecer se aproximou. Al-Sharif parou seu burro.
— As tumbas — ele disse, indicando as construções em frente. — Existem muitas tumbas. Eu ficarei aqui e esperarei. — Ele olhou para onde a linha do canal ainda estava visível, uma parte sempre presente da paisagem. — Haverá capim para os burros comerem lá. Vou descansar.
— Você não vai nos acompanhar nas tumbas? — perguntou Phillimore.
— Eu sou dono de burros. Não um guia turístico.
— Mas... vai estar escuro lá!
Al-Sharif foi até o último burro e tirou um pacote de seu lombo. Voltando, ele apareceu com várias lanternas a óleo e uma garrafa de vidro cheia de óleo.
— Você deseja comprar isso? — ele perguntou, sorrindo.
Dez minutos depois, os três estavam indo para as tumbas, carregando as lanternas acesas.
— Nós devemos nos separar — disse Sherlock. — Parece ter várias tumbas diferentes, e precisamos cobrir o máximo de terreno o mais rápido possível. Lembrem-se, o irmão do senhor Phillimore investigava alguma coisa, mas não sabemos o quê. Ele pode ter tido um acidente, ou alguém pode ter feito algo. De qualquer forma, tenham cuidado. — Ele olhou em volta das sombras escuras que indicavam as aberturas. — Matty, você vai para aquela, o Sr. Phillimore para aquela outra e eu pegarei a que fica mais próxima do canal.
Sherlock atravessou a areia e as pedras em direção à abertura escura que escolheu. A tumba era mais como uma pequena colina que tinha uma porta e algumas divisórias escavadas do que uma tumba de verdade. Antes de entrar, ele decidiu verificar o alto, para o caso de Jonathan Phillimore ter subido lá para ter uma visão melhor, caído e quebrado uma perna ou algo assim.
O sol estava acima do horizonte agora, soprando uma neblina azul à frente, e Sherlock sentiu o deserto começar a aquecer. Ele teve que usar as mãos para ajudar a puxar-se para cima do montículo de areia e pedra, e estava um pouco ofegante quando chegou ao topo. Olhando em volta, ele podia ver o canal e as máquinas de escavação a menos de uma milha de distância. Também podia ver vários outras tumbas mais próximas, e Al-Sharif com seus burros um pouco mais longe, mas não conseguiu distinguir Matty ou James Phillimore.
Mais perto, havia algumas coisas empilhadas em cima da tumba, coberta com uma lona. Ele puxou a cobertura para dar uma olhada. Na pilha, estavam o que pareciam ser vários espelhos circulares em estacas. As estacas tinham suportes com dobradiças embutidas para que pudessem ser posicionados de forma vertical e girassem para que os espelhos pudessem ser virados, mas também inclinados para cima e para baixo. Os espelhos em si eram do tamanho de seu tórax.
Ele olhou para os espelhos e para o horizonte. Dispositivos de sinalização? Isso fazia sentido, mas quem estaria sinalizando e o que estariam dizendo? Na verdade, quem os deixou lá, em primeiro lugar?
Ainda havia muitas perguntas sem respostas sobre toda a história.
Ao lado dos espelhos havia um telescópio de latão em um saco de pano. Ele assumiu que seria usado para visualizar seja lá quem fosse que receberia os sinais.
Relutantemente, ele deixou os espelhos e o telescópio onde estavam e desceu pelo lado da tumba em que ele lembrava que ficava a entrada. A luz do sol nascente só penetrava alguns metros ali, ele ergueu a lanterna enquanto entrava.
O ar lá dentro era quente. A pedra obviamente absorvia o calor do sol durante o dia como uma esponja absorve a água. Cheirava a velho e empoeirado, e um pouco rançoso também. O corredor – na verdade mais semelhante a um túnel, ele pensou – inclinava-se gradualmente para baixo enquanto ele andava. A luz da lanterna mostrou-lhe paredes e teto feitos de pedra velha e chão de terra batida. Algumas das pedras desbastadas tinham imagens desbotadas: figuras, animais e sinais estranhos. A sua frente, havia escuridão onde a luz não penetrava, e atrás, a forma diminuta da entrada na tumba.
De repente, a luz atingiu uma parede bem à frente, feita da mesma pedra. A escuridão estava agora à sua direita: dobrando-se num corredor. Ele seguiu a escuridão, e agora a luz da entrada desapareceu e ele estava em uma bolha de luz de cerca de três metros de diâmetro que se movimentava com ele.
Ele caminhou por cerca de um minuto, e outra parede apareceu à sua frente. Tinha a estranha impressão de que a escuridão cobria a parede se movia assim que a luz a atingia, mas quando olhou para ela, não viu nada além das pedras e as lacunas entre elas.
A escuridão estava à esquerda desta vez. Ele se virou e continuou andando no mesmo ritmo. O túnel ainda se inclinava para baixo, e ele imaginou que naquele momento já estivesse abaixo do nível do solo.
Uma mancha escura no chão atraiu sua atenção. Ele parou para examiná-la melhor. Algo parecia ter sido derramado ali. Seu coração parou por um instante quando ele pensou que poderia ser sangue, mas quando se inclinou para verificar, não tinha a mesma aparência. Não era vermelho, mas preto, e brilhava na luz. Ele se abaixou e estendeu a mão para tocá-lo, e descobriu que era pegajoso. Quando levantou a mão e esfregou o polegar e os outros dedos, eles deslizaram facilmente. Era óleo, mas o que aquele óleo fazia no chão do corredor de uma tumba?
Outra peça do quebra-cabeça para adicionar ao resto.
Ele se endireitou, mas de repente algo se moveu pela parede à sua direita. Ele se afastou instintivamente antes de perceber que era um besouro preto do tamanho de seu polegar, fugindo da iluminação súbita. Outro besouro apareceu à sua esquerda enquanto avançava, também fugindo. Sherlock teve a súbita e horrível sensação de que havia um exército inteiro de besouros se movendo a sua frente, além dos limites da luz. Ele tentou escutar o som deles se movendo, mas sua respiração e seus passos ecoavam altos demais. Ele parou e prendeu a respiração, mas sua imaginação começou a dizer-lhe que havia também um exército de besouros atrás dele, logo fora do alcance da lanterna. Ele sentiu como se estivesse cercado. Uma súbita onda de pânico surgiu dentro dele. O que aconteceria se a lanterna de repente se apagasse? Ele estaria em completa escuridão, cercado por besouros, e ouvindo o som de suas pernas escovando a pedra, quando se aproximavam cada vez mais dele.
O túnel parecia ficar mais quente: ele podia sentir gotas de suor em sua testa e escorrendo pelas suas costas. Seus dedos estavam úmidos no metal da alça da lanterna.
Isso era estúpido. Ele respirou fundo e devagar. Ele estava em um corredor de pedra no subsolo e havia alguns insetos por ali. Sempre havia insetos no subterrâneo, é onde eles gostam de viver. Não havia nada de estranho nisso, nada incomum, e os insetos estavam mais assustados com a presença dele do que ele estava com os insetos.
Ele expirou, e sentiu seu coração desacelerar e o terror desaparecer.
Algo na escuridão à frente dele gemeu.

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