15 de janeiro de 2018

Capítulo 9. Decifrando a mensagem

O instinto alerta de Miguel acordou-o com o primeiro ruído vindo do telhado. O líder dos Karas rolou para a escuridão do forro e esperou.
Um sujeito estranho, de óculos e gordas bochechas apareceu sob as telhas de vidro, iluminado pelo luar:
— Miguel, sou eu — anunciou-se Calú, tirando aqueles óculos exagerados e os dois chumaços de algodão que lhe aumentavam o  volume das bochechas. — A polícia esteve lá em casa. Tinha o tal detetive gordo que você falou e um outro, mais simpático. Procuravam por mim e por você. Tive de enganá-los, fingindo-me de criado da minha própria casa. Ah, ah! Os dois trouxas caíram direitinho! Logo que deu, escapei e vim pra cá.
Certamente a polícia tinha estado na casa de Miguel, falando com a mãe do rapazinho, depois do falso telefonema. Por isso tinham corrido tão depressa para a casa de Calú.
Agora eram dois Karas “queimados” junto à polícia. Miguel e Calú não podiam mais circular livremente.

* * *

De manhãzinha, quando Magrí chegou aos vestiários, uma faxineira gorda resmungava, muito zangada.
— O que foi, dona Rosa?
— Essa garotada grã-fina não tem o menor respeito pelo trabalho dos pobres, isso é o que é!
— Mas o que aconteceu?
— Imagine que porcaria: borraram as paredes do banheiro! Que nojeira! Tudo cheio de riscos e pingos de porcaria. Depois a pobre aqui é que tem de limpar!
A mulher pegou o seu balde e foi embora, resmungando sempre.

* * *

Magrí ainda estava rindo quando fechou o alçapão do esconderijo secreto.
— Qual é a graça, Magrí?
— Fizeram uma porca duma sujeira nas paredes do banheiro!
Dona Rosa estava louca de raiva! Disse que uma porção de pinguinhos e riscos feitos com...
Crânio deu um pulo:
— Pinguinhos e riscos? Você disse pinguinhos e riscos?
— Dona Rosa é que disse.
— E aposto que ela já limpou tudo, não é? — lamentou-se Crânio.
— Por que alguém faria pingos e riscos nas paredes do banheiro? Pingos e riscos, ou traços e pontos. Podia ser um código. Morse, talvez.
Todos se calaram. A única pessoa que poderia deixar algum código no banheiro do Elite só poderia ser...
— Chumbinho, é claro! Vai ver ele deixou uma mensagem para os Karas, antes de ser sequestrado! — concluiu Miguel.
— Só temos um jeito de saber — decidiu Crânio. — Magrí, vê se encontra a dona Rosa. Traga-a para o vestiário. Quero falar com ela no quartinho das vassouras.
Calú riu com deboche:
— Ora, que besteira! Você acha que dona Rosa conhece o código Morse? Você acha que ela vai se lembrar? Ora, deixe de bobagem Crânio admitia tudo, menos que gozassem da sua genialidade:
— Pode estar certo de que ela se lembra. Pelo menos no inconsciente dela a mensagem está fotografada.
— E como é que você vai “revelar” essa fotografia?
— Hipnose, meu caro! Ou você já esqueceu esta minha especialidade?

* * *

Dona Rosa conhecia muito bem o Crânio e simpatizava com o jeito educado do rapazinho. Por isso achou divertido o modo como ele falava:
— Esse seu trabalho deve dar uma canseira danada, não é, dona Rosa?
— E sim, meu filho. É uma trabalheira!
— E, de vez em quando, a senhora sente vontade de sentar e esquecer de tudo por uns minutos, não é?
— É...
— Então descanse, dona Rosa. Sente-se nesta cadeira. Suas pálpebras estão pesadas e a senhora está calma, tranquila...
— Estou calma, tranquila...
— Seus olhos estão se fechando, lentamente... muito lentamente... a senhora está com sono, muito sono... Agora a senhora já está adormecida. Está dormindo e está tranquila...
O corpo gordo da faxineira estava largado na cadeira. Mole como um saco de batatas.
— A senhora só ouve a minha voz. Somente a minha voz. Vamos voltar no tempo para esta manhã. A senhora está entrando no vestiário...
— No vestiário... que porcaria! —murmurou dona Rosa em seu transe hipnótico.
— Isso. Vamos falar da porcaria. A senhora está vendo a porcaria?
— Estou vendo. Esses meninos não têm consideração com os pobres...
— Conte para mim, dona Rosa. Como são esses riscos e esses pingos.
— Em cima tem um risco, um pingo, outro risco.
— É Morse, mesmo. O que ela disse é um K! — conferiu Magrí.
— E depois, dona Rosa?
— Tem um risco, outro pingo, outro pingo, outro pingo...
— B! — traduziu Calú.
— Embaixo tem um risco, um pingo, um risco, um pingo...
— de Chumbinho! — concluiu Miguel.
— Tem mais, dona Rosa?
— Mais nada... sujeira... porcaria... meninos porcos... Crânio aproximou-se da faxineira:
— Dona Rosa, eu vou contar até três. Quando eu terminar de contar, a senhora acordará e terá esquecido tudo o que aconteceu agora. Um, dois, três! Acorde, dona Rosa!
Os olhos da gorda senhora abriram-se de repente e ela se levantou apressada:
— Nossa! Tenho muito trabalho ainda. Com licença, meninos, mas eu tenho de...
E foi-se embora, sem se lembrar de nadinha daquela estranha sessão de hipnose.

* * *

— K-B-C: Karas-Bino-Chumbinho — decifrou Miguel. — E isso!
Chumbinho tentou nos avisar que ele e Bino caíram na armadilha dos bandidos!
— Calú! — comandou Crânio. — Verifique se Bino veio à escola hoje!

* * *

Era isso. Por mais que procurassem, não foi possível encontrar o Bino também.
Miguel sentiu-se duplamente culpado. Ao mandar Chumbinho “investigar” o pobre do Bino, ele tinha envolvido também o próprio Bino na história. Pobre Bino! Pobre Chumbinho! E agora?

2 comentários:

  1. Pobre Bino,Acho que não..
    aff to comecando a desconfiar de duas pessoas..hehehe

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Boa leitura, E SEM SPOILER!