20 de janeiro de 2018

Capítulo 9. Bancando o Montecristo

As primeiras luzes da aurora trouxeram o Centurião e dois do seu bando. O desdentado vinha sorrindo e ajoelhou-se, emitindo um bafo fedorento para dentro da casita.
— Crânio... Entonces te llaman Crânio, no es? Bueno, muchacho, no deverias ter aparecido por acá. Eres un gran problema, un grandíssimo problema, muchacho. El Ente te quiere vivo. Vivo e entero. Tienes suerte. Mucha suerte, muchacho...
Um dos bandidos enfiou duas tigelas dentro da jaula. Água e comida. Um outro trazia uma seringa.
— Vamos, piloto. Es Ia hora dei breakfast... Nada como una espetadita a esta hora de la mañana, no?
Bezerra recuou para o canto mais distante da jaula.
— Não! Não quero!
— Oh, oh! Es claro que lo quieres, piloto. Estás acostumbrado ya. No puedes pasar sin tu espetadita, verdad?
— Não!
O homem que tinha trazido a comida deu a volta na jaula e cutucou as costa de Bezerra com uma faca. O piloto saltou para diante e, como o espaço fosse muito restrito, foi chocar-se com a frente da jaula, onde o outro bandido segurou-lhe o braço, puxando-o para fora das grades de bambu. Fez um torniquete com um tubo de borracha apropriado e, em um segundo, a veia de Bezerra estava espetada e o líquido maldito começou a circular por seu corpo. O comando pós-hipnótico fez efeito. Bezerra revirou os olhos, como um agonizante, e sua cabeça tombou de lado. O corpo amoleceu e o bandido teve de retirar apressadamente a agulha de seu braço.
— O que houve?
O Centurião tomou o pulso inerte do piloto. Era um ignorante, especialista apenas em assassinatos, e não conseguiu encontrar a batida fraca do pulso de Bezerra.
— Está muerto. La dose era muy fuerte mismo para ei, que ya se acostumbrara. Bueno! Podemos livrar-nos de este. Levem-no para o hotelzito donde lo
encontraron. Pongan la droga y unas seringas a su lado, como planeamos.
— Mas como vamos andar com um cadáver assim, sem mais nem menos, pela cidade, Centurião?
— Pongan ei hombre num saco, estúpido! Façam creer que están carregando qualquier entrega para ei hotel. El dono es nuestro cumpadre, no se preócupen.
Crânio fez cara de revolta e protestou contra aquela “morte”.
— Assassinos!
— Ah, ah! No reclames, muchacho. Tienes mucha suerte. El Ente no quiere que te toquem.
— O que vão fazer comigo?
— No sê. El Ente es quien Io sabe. Coma e agradeça. No fueran las ordenes dei Ente, ya estaria con mi cuchillo en tus tripas. Nadie me llama asesino e sigue respirando...
— Pero eres lo que eres, Centurião! Un asesino covarde!
— Oh! Hablas castellano! Que culto que eres!
Foi embora com os companheiros. Crânio bebeu toda a água, mas foi impossível provar aquela gororoba tão nojenta. Parecia conter carne podre de jacaré. Sentia-se enjoado. As feridas latejavam e ele começou a sentir frio, batendo os dentes. Dois bandidos voltaram e entraram na casita. Meio espremidos, enfiaram Bezerra dentro do saco e fecharam o pacote com uma corda. Foram embora. Não voltariam antes de comer o quebra-torto.
Pronto. O plano do gênio dos Karas estava dando certo. Bezerra sairia livre dali, e a polícia acabaria por salvar a ele, Crânio. Seria o fim dos Formigas-paradas. O fim do tal Ente. Ele deduzira tudo direitinho. Formigas-paradas. Ente. É assim que se pronuncia “formiga”, em inglês. Ant! Era isso! Mas parecia muito pouco. O ouro deveria estar por perto, mas onde? O Ente era o formigão maior, mas e daí? Quem era o Ente? Sob que disfarce se escondia?
Crânio era prisioneiro de alguém sem nome e sem rosto. O rapaz revolvia o cérebro privilegiado, mas as perguntas mais importantes não tinham resposta.
— Engraçado... Por que o Ente ordenou que não fizessem nada comigo? Será que ele me conhece? Será que o formigão...
De repente, o sangue fugiu-lhe das faces.
— Que estúpido sou eu!! Como não descobri isso antes?
Pulou sobre o piloto, esquecendo-se do comando pós-hipnótico.
— Bezerra! Acorde! Preciso contar a você quem é o Ente! Eu descobri tudo!
Acorde!
O piloto não se moveu.
— Água. Preciso de água!
A febre aumentava-lhe a ansiedade. Procurou a tigela, mas a sede tinha feito com que ele não deixasse nem uma gota!
— Preciso pensar... pensar! Já sei! Eu e o piloto somos mais ou menos do mesmo tamanho. É arriscado, mas pode dar certo. Pelo menos deu certo com o Conde de Montecristo!
Abriu o saco e tirou-o de Bezerra. Despiu a própria jaqueta e vestiu-a no piloto. Rolou o corpo inerte para o canto mais tapado por bambus e deitou-o de bruços, encolhido, como se estivesse dormindo. Enfiou-se no saco e com dificuldade encaixou, pelo lado de dentro, a argola de corda meio mal-e-mal, fechando-se no saco. Pronto.
Agora bastava esperar que aquilo não se transformasse em sua própria mortalha. Não demorou a ouvir os passos dos bandidos, que voltavam depois do quebra-torto.
— Vamos lá. Pegue deste lado. É pesadinho, o desgraçado!
— Veja como dorme este aqui. Com um cadáver do lado e o moleque ainda consegue dormir!
Crânio foi carregado para fora. Sentiu quando o colocaram no fundo de um barco, que se balançava suavemente sobre as águas. Ouviu o ruído do motor sendo ligado. O barco começou a vibrar.
— Ei, você amarrou muito mal este saco!
— Pois amarre melhor, ora!

* * *

A “voadeira” avançava velozmente, na certa por um afluente do Taquari, em direção à vila de São Francisco. Crânio sentia-se sufocar dentro do saco, mas não movia um músculo, embora tivesse sido colocado de mau jeito pelos bandidos.
O som da conversa dos dois bandidos chegava abafado aos ouvidos do rapazinho, até que um alerta desesperado invadiu-lhe claramente os ouvidos.
— Cuidado! Uma árvore caída!
— É uma cilada! Aaaai!
— Hein? O que foi? Aaaaah!
Algo inevitável acontecia fora do saco que aprisionava Crânio. Algo inevitável como a morte. O barco sacudiu-se violentamente e Crânio foi jogado de um lado para o outro. Um corpo pesado caiu sobre ele, e o barco virou. Sentiu o baque na água. Crânio lutou desesperadamente para sair. Inútil. O bandido tinha amarrado fortemente a boca do saco! A água começou a entrar, ocupando todos os espaços.
Enquanto o saco afundava rapidamente, Crânio sentiu o frescor das águas limpas do Pantanal.

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