29 de janeiro de 2018

Capítulo 8

Yrene se certificou de chegar na hora certa na manhã seguinte. Ela não enviara uma mensagem avisando, mas estava disposta a apostar que Lorde Westfall e anova capitã estariam esperando às dez. Apesar de que, pelos olhares que ele lançou para ela na noite anterior, ela se perguntava se ele duvidava que ela retornasse.
Que ele pense o que quiser.
Ela debateu se deveria esperar até as onze, já que Hasar e Renia a tinham arrastado para beber – ou melhor, Yrene os tinha observado beber, enquanto bebericava sua própria taça de vinho – e ela não se arrastou para dentro de seu quarto na Torre até perto das duas. Hasar ofereceu-lhe uma suíte no palácio para passar a noite, mas dado o fato de elas terem escapado por pouco de Kashin ter se juntado a elas no silencioso, elegante e movimentado Bairro Rosa, Yrene não estava inclinada a arriscar encontrar com ele novamente.
Honestamente, quando o khagan ordenasse que seus filhos retornassem a seus vários postos, já iriam tarde. Eles se demoraram após a morte de Tumelun – que Hasar ainda se recusava a mencionar. Yrene mal conhecia a princesa mais nova, a menina tendo passado a maior parte de seu tempo com Kashin entre os Darghan nas planícies e nas cidades muradas dispersas ao redor deles. Mas naqueles primeiros dias após o corpo de Tumelun ter sido encontrado, depois de a própria Hafiza ter confirmado que a menina tinha pulado da varanda, Yrene teve o desejo de procurar Kashin. Para oferecer suas condolências, sim, mas também para ver como ele estava.
Yrene o conhecia o suficiente para entender que, apesar da conduta simples e serena que ele apresentava ao mundo, o soldado disciplinado que obedecia às ordens de seu pai e comandava destemidamente seus exércitos terrestres... sob aquele rosto sorridente encontrava-se um mar agitado de pesar. Perguntando-se o que ele poderia ter feito diferente.
As coisas haviam se tornado de fato embaraçosas e terríveis entre Yrene e Kashin, mas... ela ainda se importava. No entanto, ela não havia procurado por ele. Não queria abrir aquela porta que tinha passado meses tentando fechar.
Ela se odiava por isso, pensava no assunto pelo menos uma vez ao dia. Especialmente quando via as bandeiras brancas balançando por toda a cidade, por todo o palácio. No jantar da noite anterior, ela fez o melhor para não se contorcer de vergonha quando o ignorou, sofrendo com seus elogios, o orgulho ainda em suas palavras quando ele falou sobre ela.
Tola, Eretia a chamara mais de uma vez, depois de Yrene ter confessado durante um trabalho particularmente intenso de cura o que havia acontecido nas estepes no inverno passado. Yrene sabia que era verdade, mas... bem, ela tinha outros planos para si. Sonhos que ela não iria, não poderia, adiar ou ceder inteiramente. Então, uma vez que Kashin, e os outros membros da realeza, retornassem a seus postos... seria mais fácil novamente. Melhor.
Ela só desejava que o próprio retorno de Lorde Westfall a seu odioso reino não dependesse tão fortemente de sua assistência.
Reprimindo uma carranca, Yrene endireitou seus ombros e bateu nas portas da suíte, a criada de rosto encantador abrindo-as antes que o som terminasse de ecoar no corredor.
Havia tantos deles no palácio que Yrene aprendera os nomes de apenas alguns, mas ela tinha visto essa antes, havia marcado sua beleza. O suficiente para que Yrene assentisse e entrasse.
Os criados eram generosamente pagos e tratados bem o suficiente para que a concorrência fosse feroz para conseguir um lugar no palácio – especialmente quando os cargos tendiam a permanecer dentro das famílias, e todas as vagas iam para aqueles dentro dessas famílias. O khagan e sua corte tratavam seus criados como pessoas, com direitos e leis para protegê-los.
Ao contrário de Adarlan, onde tantos moravam e morriam em grilhões. Ao contrário dos escravizados em Calaculla e Endovier, sem permissão para ver o sol ou respirar ar fresco, famílias inteiras dilaceradas.
Ela tinha ouvido falar dos massacres nas minas durante esta primavera. Os massacres. Foi o suficiente para que qualquer expressão neutra desaparecesse de seu rosto quando ela alcançou a generosa sala de estar. Ela não sabia quais eram os negócios deles com o khagan, mas ele certamente cuidava de seus convidados.
Lorde Westfall e a jovem capitã estavam sentados exatamente onde estiveram na manhã anterior. Nenhum dos dois parecia feliz.
Na verdade, eles não estavam nem se olhando.
Bem, pelo menos nenhum deles se incomodaria em fingir ser agradável hoje.
O lorde já avaliava Yrene, sem dúvida notando o mesmo vestido azul da visita anterior, os mesmos sapatos.
Yrene tinha quatro vestidos, o roxo que ela usara no jantar da noite passada sendo o melhor. Hasar sempre prometia adquirir roupas mais finas para ela, mas a princesa nunca se lembrava no dia seguinte. Não que Yrene se importasse particularmente. Se ela recebesse as roupas, se sentiria obrigada a visitar o palácio mais do que já visitava, e... Sim, havia algumas noites solitárias quando ela se perguntava em que diabos estava pensando ao afastar Kashin, quando se lembrava de que a maioria das meninas do mundo matariam e brigariam para ter um convite aberto ao palácio, mas ela não ficaria aqui por muito mais tempo. Não havia motivo.
— Bom-dia — disse a nova capitã, Nesryn Faliq.
A mulher parecia mais focada. Decidida. E, no entanto, essa nova tensão entre ela e Lorde Westfall...
Não era de sua conta. Somente se interferisse em seu trabalho.
— Eu conversei com a minha superior. — Uma mentira, embora ela tecnicamente tenha falado com Hafiza.
— E?
Nenhuma palavra do lorde até agora. Sombras borravam a parte de baixo de seus olhos castanhos, sua pele bronzeada mais pálida do que ontem. Se ele estava surpreso que ela tivesse voltado, não revelou nada.
Yrene pegou a parte superior de seu cabelo e o prendeu com um pequeno pente de madeira, deixando a metade inferior solta. Seu penteado preferido para trabalhar.
— E eu gostaria de fazê-lo andar novamente, Lorde Westfall.
Nenhuma emoção cintilou nos olhos do lorde. Nesryn, no entanto, soltou uma respiração trêmula e recostou-se contra as almofadas macias do sofá dourado.
— Quão provável é que você tenha sucesso?
— Eu curei lesões da coluna vertebral antes. Embora fosse de um cavaleiro que teve uma queda feia de seu cavalo... não uma ferida em batalha. Certamente, não um ferimento de magia. Eu farei o meu melhor, mas não dou nenhuma garantia.
 Lorde Westfall não disse nada, nem se mexeu em sua cadeira.
Diga algo, ela exigiu, encontrando seu olhar frio e cansado.
Seus olhos deslizaram para sua garganta, para a cicatriz que ela não deixou Eretia curar quando ela havia oferecido no ano anterior.
— Você trabalhará com ele todos os dias durante horas? — as palavras de Nesryn eram firmes, quase baixas, e ainda assim... A mulher não era uma criatura que se dava bem em uma jaula. Mesmo uma dourada como esta.
— Eu recomendaria — Yrene disse a Nesryn por sobre um ombro — que se você tiver outros deveres ou tarefas para cumprir, capitã, estas horas seriam um bom momento para isso. Eu avisarei se você for necessária.
— E quanto a locomovê-lo por aí?
Os olhos do lorde flamejaram com isso.
E embora Yrene estivesse disposta a deixá-los se resolverem sozinhos, ela notou a indignação fervente do lorde e a aversão às palavras e se pegou dizendo:
— Posso lidar com a maior parte disso, mas acredito que Lorde Westfall é mais do que capaz de se mover sozinho.
Algo parecido com gratidão cautelosa apareceu no rosto dele. Mas ele apenas disse a Nesryn:
— E eu posso fazer minhas próprias malditas perguntas.
Culpa atravessou o rosto de Nesryn, mesmo quando ela se endureceu. Ela assentiu, mordendo o lábio, antes de murmurar para Chaol:
— Recebi alguns convites ontem. — Entendimento acendeu nos olhos dele. — Eu planejo aceitá-los.
Esperta – não falando claramente sobre seus movimentos.
Chaol assentiu solenemente.
— Envie uma mensagem desta vez.
Yrene havia notado sua preocupação no jantar da noite passada quando a capitã não aparecera. Um homem que não estava acostumado a não ter as pessoas que ele gostava longe de sua vista, e agora estava limitado em como poderia procurá-las ele mesmo. Ela guardou a informação para mais tarde.
Nesryn fez suas despedidas, talvez de maneira mais sucinta para o lorde, e então se foi.
Yrene esperou até ouvir a porta fechar.
— Ela é sábia por não falar em voz alta sobre seus planos.
— Por quê?
Suas primeiras palavras para Yrene até agora.
Ela ergueu o queixo na direção das portas abertas da sala de estar.
— As paredes têm ouvidos e bocas. E todos os criados são pagos pelos filhos do Khagan. Ou pelos vizires.
— Pensei que o khagan pagasse todos.
— Ah, ele paga — Yrene disse, indo até a pequena sacola que ela havia deixado perto da porta. — Mas seus filhos e vizires compram a lealdade dos criados através de outros meios. Favores, confortos e status em troca de informações. Eu tomaria cuidado com quem foi designado para você.
Mesmo sendo tão doce quanto a criada que havia deixado Yrene entrar parecia ser, ela sabia que até mesmo as menores cobras podiam conter o veneno mais letal.
— Você sabe a quem...  eles pertencem? — Ele disse a palavra “pertencem” como se tivesse um gosto ruim.
— Não. — Yrene disse simplesmente. Ela revirou a bolsa, retirando frascos duplos de líquido âmbar, um toco de giz branco e algumas toalhas. Ele seguiu cada movimento com os olhos. — Você possui algum escravo em Adarlan? — ela manteve a pergunta leve, desinteressada. Conversa ociosa enquanto se preparava.
— Não. Nunca.
 Ela colocou um diário de couro preto sobre a mesa antes de levantar uma sobrancelha.
— Nenhum?
— Eu acredito em pagar as pessoas por seu trabalho, como fazem aqui. E acredito que o ser humano tem direito intrínseco à liberdade.
— Estou surpresa em ver que seu rei permite que você viva se pensa dessa maneira.
— Eu guardo essas opiniões para mim mesmo.
— Uma atitude sábia. Melhor esconder o que se pensa do que falar por milhares de escravos.
Ele ficou imóvel diante disso.
— Os campos de trabalho e o tráfico de escravos foram fechados. Foi um dos primeiros decretos de meu rei. Eu estava lá com ele quando assinou o documento.
— Novos decretos para uma nova era, suponho? — As palavras eram mais afiadas do que o conjunto de lâminas que ela carregava consigo: para cirurgia, para raspar a carne apodrecida.
Ele manteve o olhar firme.
— Dorian Havilliard não é o pai dele. Foi a ele que servi nestes anos.
— E, no entanto, você era o antigo Capitão da Guarda Real. Estou surpresa que os filhos do khagan não estejam clamando para ouvir os segredos sobre como você trabalhou com os dois tão bem.
Suas mãos apertaram os braços da cadeira.
— Há escolhas em meu passado — ele falou firmemente — das quais eu me arrependo. Mas só posso seguir em frente e tentar consertá-las. Lutar para me certificar de que elas não voltem a acontecer. — Ele ergueu o queixo em direção aos suprimentos que ela havia retirado. — O que eu não posso fazer enquanto estiver nesta cadeira.
— Você certamente poderia fazer tais coisas dessa cadeira — ela disse com dureza. Ele não respondeu. Ótimo. Se ele não queria falar sobre isso... ela certamente também não queria. Yrene ergueu o seu queixo em direção ao sofá dourado longo e macio.
— Deite-se ali. Tire a camisa e fique de barriga para baixo.
— Por que não na cama?
— A capitã Faliq estava aqui ontem. Eu não entraria em seu quarto sem sua presença.
— Ela não é minha... — ele parou. — Não seria um problema.
 — E, no entanto, você viu na noite passada como poderia apresentar um problema para mim.
— Com...
— Sim. — Ela o cortou com um olhar afiado na direção da porta. — O sofá servirá.
Ela vira o olhar que Kashin lançara no jantar. Ela queria deslizar da cadeira e se esconder debaixo da mesa.
— Você não tem interesse em relação a isso? — ele perguntou, indo para o sofá a poucos centímetros de distância, e então desabotoando a jaqueta.
— Não tenho planos de buscar tal vida para mim. — Não quando os riscos eram tão altos.
A sua própria execução, de seu marido e seus filhos se Kashin desafiasse o novo khagan, se ele fizesse uma reivindicação pelo trono. Tornar-se infértil pelas mãos de Hafiza na melhor das hipóteses – uma vez que o novo khagan produzisse herdeiros suficientes para garantir a continuação da linhagem.
Kashin havia afugentado tais preocupações naquela noite nas estepes, recusou-se a entender a parede intransponível que eles sempre apresentariam.
Mas Chaol assentiu, provavelmente bem ciente dos custos do casamento na linhagem se seu cônjuge não fosse o herdeiro escolhido. Como Kashin nunca seria – não com Sartaq, Arghun ou Hasar propensos a serem escolhidos.
Yrene acrescentou antes de Chaol poder indagar mais:
— E não é da sua conta.
Ele a examinou lentamente. Não da maneira como os homens às vezes faziam, que Kashin fazia, mas... como se avaliasse um adversário.
Yrene cruzou os braços, distribuindo seu peso uniformemente entre seus pés, assim como havia sido ensinada e agora instruía outros a fazerem. Uma posição firme e defensiva. Pronta para enfrentar qualquer um.
Até mesmo lordes de Adarlan. Ele pareceu notar essa posição, e sua mandíbula apertou.
— Camisa — ela repetiu.
Com um olhar fulminante, ele ergueu os braços sobre a cabeça e tirou a camisa, colocando-a cuidadosamente sobre o lugar onde dobrara a jaqueta sobre o braço do sofá. Então tirou as botas e as meias com rápidos e brutos movimentos.
— Calças desta vez — ela disse a ele. — Deixe a roupa de baixo.
Suas mãos foram ao cinto, e hesitaram.
Ele não conseguiria remover as calças sem algum grau de ajuda – pelo menos na cadeira.
Ela não deixou um lampejo de piedade aparecer em seu rosto enquanto agitava uma mão em direção ao sofá.
— Continue, e eu vou tirá-la para você.
Ele hesitou novamente. Yrene colocou as mãos nos quadris.
— Enquanto eu gostaria de poder dizer que você é meu único paciente hoje — ela mentiu — eu tenho outros compromissos para manter. O sofá, se você puder.
Ele enrijeceu a mandíbula, mas apoiou uma mão no sofá, outra na borda da cadeira e ergueu-se.
A força no movimento solo era digna de alguma admiração.
Tão facilmente, os músculos dos braços, das costas e do peito o ergueram para cima e em frente. Como se ele tivesse feito isso sua vida inteira.
— Você manteve se exercitando desde... há quanto tempo ocorreu a lesão?
— Aconteceu no solstício de verão. — Sua voz era baixa, rasa enquanto ele erguia suas pernas no sofá, grunhindo com o peso. — E sim. Eu não era ocioso antes disso, e eu não vejo motivo para ser agora.
Este homem era uma rocha. A lesão o havia abalado um pouco, mas não o derrubara. Ela se perguntou se ele sabia disso.
— Bom — ela falou simplesmente. — Exercitar tanto a parte superior do corpo quanto as pernas será uma parte vital da cura.
Ele olhou para suas pernas enquanto aqueles fracos espasmos as balançavam.
— Exercitar minhas pernas?
— Explicarei em um momento — disse ela, fazendo um gesto para ele virar.
Ele obedeceu com outro olhar de reprovação, mas ficou de bruços.
Yrene inspirou algumas vezes para examinar o comprimento dele. Ele era grande o suficiente para tomar toda a extensão do sofá. Mais de um metro e oitenta. Se ele voltasse a ficar de pé, seria bem mais alto do que ela.
Ela se levantou e puxou para baixo as calças dele em puxões leves e superficiais. Sua roupa de baixo escondia o suficiente, embora ela certamente pudesse ver o formato de suas nádegas firmes através do material fino. Mas suas coxas... Ela havia sentido o músculo ainda nelas ontem, mas estudando-as agora...
Elas estavam começando a atrofiar. Já não possuíam a vitalidade saudável do resto de seu corpo, o músculo ondulando debaixo daquela pele bronzeada parecia mais frouxo – fino.
Ela colocou uma mão na parte de trás de uma das coxas, sentindo o músculo sob os pelos ondulados.
Sua magia passou de sua pele para a dele, procurando e limpando através de sangue e osso.
Sim – o desuso estava começando a se apropriar dele.
Yrene retirou sua mão e o encontrou observando-a, com a mão apoiada sobre o travesseiro que ele puxara sob seu queixo.
— Elas estão se deteriorando, não estão?
Ela manteve o rosto em uma máscara de pedra.
— Membros atrofiados podem recuperar sua força total. Mas sim. Devemos nos concentrar em maneiras de mantê-los tão fortes quanto possível, exercitá-los durante todo este processo, de modo que quando você estiver de pé — ela se certificou de que ele tivesse ouvido a ligeira ênfase no quando — terá o máximo de apoio possível nas pernas.
 — Então, não será somente a cura, mas também exercício.
 — Você disse que gosta de se manter ativo. Há muitos exercícios que podemos fazer com uma lesão vertebral que farão com que sangue e força fluam para suas pernas, o que ajudará no processo de cura. Eu irei supervisioná-lo.
Ela evitou a palavra alternativa – ajudá-lo.
Lorde Chaol Westfall não era um homem que desejava ajuda das pessoas. De qualquer um.
Ela deu alguns passos ao longo de seu corpo, para analisar a coluna vertebral. Analisar aquela marca pálida e estranha logo abaixo da sua nuca. Naquela primeira proeminência da coluna vertebral.
Mesmo agora, o poder invisível que rodopiava nas palmas das mãos parecia recuar para dentro ela.
— Que tipo de magia causou isso?
— Isso importa?
Yrene passou a mão sobre a coluna dele, mas não deixou que sua mágica se espalhasse. Ela apertou os dentes.
— Me ajudaria a saber que dano ela poderia ter causado em seus nervos e ossos.
Ele não respondeu. Típica arrogância adarlaniana.
Yrene pressionou:
— Foi fogo...?
— Não foi fogo.
Uma lesão causada por magia. Tinha que ter acontecido... No solstício de verão, ele havia dito. Os rumores do dia alegaram que a magia havia retornado ao continente do norte. Que foi libertada por Aelin Galathynius.
— Você estava lutando contra os detentores de magia que retornaram naquele dia?
— Eu não estava. — Palavras bruscas e afiadas.
E ela olhou em seus olhos – seu olhar duro. Realmente olhou.
Tudo o que aconteceu, foi horrível. O suficiente para deixar tais sombras e reticências.
Ela já havia curado pessoas que suportaram horrores. Quem não conseguiam responder às perguntas que ela fazia. E ele poderia ter servido àquele açougueiro, mas... Yrene tentou não deixar transparecer quando percebeu o que estava por vir, o que Hafiza provavelmente havia adivinhado antes de incumbi-la dele: os curandeiros muitas vezes não apenas reparavam feridas, mas também o trauma que os acompanhava. Não através da magia, mas... conversando. Caminhando ao lado do paciente enquanto eles percorriam esses caminhos difíceis, escuros.
E para fazer isso com ele... Yrene deixou o pensamento de lado. Mais tarde. Ela pensaria nisso mais tarde.
Fechando os olhos, Yrene liberou sua magia em um fio suave para sondar, e colocou uma palma naquela estrela salpicada no topo da coluna vertebral.
O frio a acertou, farpas disparando através de seu sangue e ossos.
Yrene recuou como se tivesse sofrido um golpe físico.
Frio e escuridão e raiva e agonia...
Ela apertou o queixo, lutando contra esse eco nos ossos, enviando a sonda fina do poder um pouco mais fundo.
A dor deveria ter sido insuportável quando o atingiu.
Yrene lutou contra o frio – o frio, a ausência e a imprecisão oleosa e errada daquilo.
Nenhuma magia deste mundo, alguma parte dela sussurrou. Nada que fosse natural ou bom. Nada que ela conhecesse, nada com que ela houvesse lidado.
Sua magia gritou para retirar essa sonda, afastar-se...
— Yrene. — As palavras dele pareciam estar longe enquanto o vento, a escuridão e o vazio daquilo rugiam ao redor dela...
E então aquele eco do nada... pareceu despertar.
O frio encheu-a, queimou ao longo de seus membros, rastejando mais, cercando.
Yrene lançou sua magia em uma chama cega, a luz pura como a espuma do mar.
A escuridão recuou, uma aranha escorregando em um canto sombrio. Apenas o suficiente – apenas o suficiente para que ela retirasse sua mão, se retirasse para trás e encontrasse Chaol boquiaberto para ela.
Suas mãos tremiam enquanto olhava para elas. Enquanto olhava aquela mancha pálida na pele bronzeada dele. Aquela presença... Ela enrolou sua magia profundamente dentro de si mesma, desejando aquecer seus próprios ossos e sangue, para se estabilizar. Mesmo enquanto se recuperava, também algo parecido com uma mão interna e invisível acariciava seu poder, acalmando-o.
— Diga-me o que é isso. — Porque ela não vira, sentira, nem aprendera nada como aquilo.
— Está dentro de mim? — era medo – medo genuíno em seus olhos.
Oh, ele sabia. Sabia que tipo de poder havia feito essa ferida, o que poderia estar se escondendo dentro dela. Sabia o suficiente para ter medo. Se um poder como esse existia em Adarlan...
Yrene engoliu em seco.
— Eu acho... acho que é somente... somente o eco de algo maior. Como uma tatuagem ou uma marca. Não é algo vivo, e mesmo assim... — ela flexionou os dedos. Se uma mera sondagem da escuridão com sua magia desencadeara uma resposta dessas, então uma investida completa... — Diga-me o que é isso. Se eu vou lidar com... com isso, preciso saber. Tudo o que você puder me dizer.
— Eu não posso.
Yrene abriu a boca. Mas o lorde dirigiu o olhar para a porta aberta. Seu aviso para ele ecoou silenciosamente.
— Então, devemos tentar contorná-lo — ela declarou. — Sente-se. Eu quero inspecionar seu pescoço.
Ele obedeceu, e ela o observou enquanto seu abdômen fortemente musculoso o erguia gentilmente, então ele cuidadosamente colocou os pés e as pernas no chão. Bom. Que ele não tivesse apenas essa mobilidade, mas a paciência estável e a calma para trabalhar com o corpo... bom.
Yrene manteve esse pensamento para si mesma enquanto caminhava, com os joelhos ainda bambos, para a mesa onde ela deixara os frascos de fluidos âmbar – óleos de massagem prensados a partir de alecrim e lavanda que cresciam logo além das muralhas de Antica, e eucaliptos do extremo sul.
Ela escolheu o eucalipto, o cheiro fresco e sufocante enrolando-se em torno dela enquanto retirava a rolha do frasco e ocupava um lugar ao lado dele no sofá. Calmante, esse cheiro. Para ambos.
Sentados juntos naquele sofá, ele de fato era maior do que ela – a massa musculosa dele o suficiente para fazê-la entender por que ele tinha sido tão experiente em sua posição. Estar empoleirada ao lado dele era diferente, de alguma forma, do que ficar acima dele, tocando-o. Sentada ao lado de um lorde de Adarlan...
Yrene não deixou o pensamento se acomodar quando colocou uma pequena quantidade de óleo na palma da mão e esfregou as mãos para aquecê-lo. Ele inalou profundamente, como se estivesse tomando o aroma em seus pulmões, e Yrene não se incomodou em falar enquanto pousava as mãos sobre a nuca dele.
Movimentos amplos e largos ao redor e ao longo de seu pescoço musculoso. Sobre seus ombros.
Ele soltou um gemido profundo enquanto ela passava por um nó entre o pescoço e o ombro, o som reverberando nas palmas de suas mãos, e então se enrijeceu.
— Desculpe.
Ela ignorou as desculpas, cravando os polegares na área. Outro ruído ressoou para fora dele. Talvez tivesse sido crueldade sua não comentar o leve embaraço dele, ao invés de ignorá-lo. Mas Yrene simplesmente se inclinou, deslizando as palmas das mãos pelas suas costas, dando uma volta enorme naquela marca horrível.
Ela controlou sua magia com força, não deixando seu poder resvalar contra aquilo de novo.
— Conte-me o que você sabe — ela murmurou em sua orelha, sua bochecha perto o suficiente para raspar na barba curta que cobria sua mandíbula. — Agora.
Ele esperou um momento, ouvindo se havia alguém por perto. E enquanto as mãos de Yrene deslizavam por seu pescoço, massageando músculos que estavam cheios de nós o suficiente para fazê-la se encolher, Lorde Westfall começou a sussurrar.




Para o crédito de Yrene Towers, suas mãos não falharam nenhuma vez enquanto Chaol murmurava em seu ouvido sobre horrores que nem mesmo um deus da escuridão poderia conjurar.
Portões de Wyrd, pedras de Wyrd e cães de caça de Wyrd. Os valg, Erawan e seus príncipes e os colares. Mesmo para ele, não soava mais do que uma historinha para dormir, algo que sua mãe poderia ter contado durante aquelas longas noites de inverno em Anielle, os ventos selvagens uivando ao redor da muralha.
Ele não contou a ela sobre as chaves. Do rei que havia sido escravizado por duas décadas. Da própria escravidão de Dorian. Ele não contou a ela quem o havia atacado, ou a verdadeira identidade de Perrington. Somente o poder que os valg exerciam, a ameaça que representavam. Que eles ficaram ao lado de Perrington.
— Então esse... o agente desses... demônios. Foi esse o poder que o atingiu aqui — refletiuu Yrene em um sussurro próximo, com a mão pairando sobre o ponto da coluna vertebral. Ela não se atrevia a tocá-lo, tendo evitado essa área completamente enquanto o massageava, como se temesse entrar em contato com aquele eco escuro novamente. Ela agora, de fato, moveu a mão para seu ombro esquerdo e retomou sua massagem gloriosa. Ele mal conseguiu segurar seu gemido pela tensão que ela aliviava de suas costas e ombros doloridos, dos braços, do pescoço e da parte baixa de sua cabeça.
Ele não sabia o quanto seus músculos estavam rígidos, o quão duro ele tinha trabalhado em seu treinamento.
— Sim — ele disse finalmente, sua voz ainda baixa. — Aquilo queria me matar, mas... Eu fui poupado.
— Pelo quê? — O medo havia desaparecido há muito tempo de sua voz; nenhum tremor permanecia em suas mãos. Um pouco de calor o substituíra.
Chaol inclinou a cabeça, deixando-a trabalhar com um músculo tão resistente que o fez trincar os dentes.
— Um talismã que me protegeu contra tal maldade – e um golpe de sorte. — De misericórdia, de um rei que tentou desferir aquele golpe final. Não apenas como uma gentileza para ele, mas para Dorian.
As mãos milagrosas de Yrene se acalmaram. Ela se afastou, procurando o rosto dele.
— Aelin Galathynius destruiu o castelo de vidro. Foi por isso que ela fez isso – por isso tomou Forte da Fenda também. Para afastá-los?
E onde você estava?, era a sua exigência não dita.
— Sim. — E ele se encontrou acrescentando em seu ouvido, suas palavras um pouco mais do que um sussurro: — Ela, Nesryn, e eu trabalhamos juntos. Com muitos outros.
De quem ele não tinha ouvido mais falar, não tinha ideia de onde estavam. Lá fora lutando, pelejando para salvar suas terras, seu futuro, enquanto ele estava aqui. Incapaz até mesmo de conseguir uma audiência privada com um príncipe, muito menos com o khagan.
Yrene refletiu.
— Esses são os horrores se aliando a Perrington — ela falou suavemente. — O que os exércitos enfrentarão.
O medo voltou a assombrar seu rosto, mas ele ofereceu a verdade que podia:
— Sim.
— E você...  lutará contra eles?
Ele deu um sorriso amargo.
— Se você e eu pudermos resolver isso. — Se você puder fazer o impossível.
Mas ela não respondeu. Yrene apenas recuou no sofá, avaliando-o, cautelosa e distante. Por um momento, ele pensou que ela fosse dizer algo, perguntar-lhe alguma coisa, mas ela apenas balançou a cabeça.
— Eu tenho muito para investigar. Antes de me atrever a ir mais longe. — Ela gesticulou para suas costas, e ele percebeu que ainda estava sentado com suas roupas de baixo.
Ele engoliu o desejo de buscar suas roupas.
— Existe um risco... para você?
Se houvesse...
— Eu não sei. Eu... Eu realmente nunca havia encontrado nada assim antes. Gostaria de analisar melhor, antes de começar a tratá-lo e compor um regime de exercícios. Preciso fazer algumas pesquisas na biblioteca da Torre esta noite.
— É claro. — Se essa maldita lesão machucasse a ambos no processo, ele se recusaria. Ele não sabia o que diabos faria, mas se recusaria a deixá-la tocá-lo. E pelo risco, o esforço...
— Você nunca mencionou seu preço. Por sua ajuda.
Tinha que ser exorbitante. Se eles haviam enviado o melhor deles, se ela tivesse tanta habilidade...
As sobrancelhas de Yrene franziram.
— Se está tão inclinado a pagar, qualquer doação pode ser feita para ajudar na manutenção da Torre e de seus funcionários, mas não há preço, nenhuma expectativa.
— Por quê?
Sua mão deslizou para o bolso enquanto ela se levantava.
— Este dom me foi dado por Silba. Não é correto cobrar pelo que me foi concedido gratuitamente.
Silba – a Deusa da Cura.
Ele havia conhecido outra jovem que foi abençoada por deuses. Não era de se admirar que ambas possuíssem um fogo tão incansável nos olhos.
Yrene pegou o frasco daquele óleo agradável e cheiroso e começou a arrumar a bolsa.
— Por que decidiu voltar para me ajudar?
Yrene fez uma pausa, seu corpo magro ficando rígido. Então ela se virou para ele.
Um vento entrou no cômodo, vindo do jardim, soprando os fios do seu cabelo, ainda meio preso, sobre o peito e ombros.
— Pensei que você e a capitã Faliq usariam minha recusa contra mim um dia.
— Nós não planejamos viver aqui para sempre. — Não importa o que mais ela tivesse sugerido. 
Yrene deu de ombros.
— Nem eu.
Ela empacotou o resto das coisas e dirigiu-se para a porta.
Ele a deteve com sua próxima pergunta.
— Você pretende retornar? — Para Charco Lavrado? Para o inferno?
Yrene olhou para a porta, para os criados ouvindo, esperando, no vestíbulo além.
— Sim.
Ela não queria apenas voltar para Charco Lavrado, mas também para ajudar na guerra. Pois, nesta guerra, os curandeiros seriam necessários. Desesperadamente. Não era de se admirar que ela tivesse empalidecido com os horrores que ele havia sussurrado em seu ouvido. Não só pelo o que eles enfrentariam, mas também o que poderia matá-la.
E, embora seu rosto permanecesse abatido, ao notar as sobrancelhas levantadas dele, ela acrescentou:
— É a coisa certa a fazer. Com tudo o que me fui concedido – toda a bondade colocada em meu caminho.
Ele debatia sobre se deveria alertá-la para ficar, permanecer aqui, segura e protegida. Mas notou a cautela em seus olhos enquanto aguardava sua resposta. Outros, ele percebeu, provavelmente já a advertiram sobre ir embora. Talvez tivessem feito com que ela duvidasse de si mesma, apenas um pouco.
Então, ao invés disso, Chaol falou:
— A capitã Faliq e eu não somos do tipo de pessoas que guardariam rancor contra você – que tentaríamos puni-la por isso.
— Você serviu um homem que fez tais coisas. — E provavelmente agiu em seu nome.
— Você acreditaria em mim se eu lhe dissesse que ele deixava seu trabalho sujo para outros além do meu comando, e muitas vezes eu não era informado?
Sua expressão lhe dizia o suficiente. Ela pegou a maçaneta da porta.
— Eu sabia — ele falou calmamente — que ele havia feito e fazia coisas indescritíveis. Sabia que forças haviam tentado lutar contra ele quando eu era menino, e que ele os tinha esmagado. Eu... para me tornar capitão, tive que me render a certos... privilégios. Vantagens. Fiz isso de bom grado, porque meu foco era proteger o futuro. Proteger Dorian. Mesmo quando meninos, eu sabia que ele não era o filho de seu pai. Sabia que um futuro melhor viria com ele, se eu pudesse me certificar de que Dorian vivesse o suficiente. Se ele não somente vivesse, mas também sobrevivesse - emocionalmente. Se ele tivesse um aliado, um verdadeiro amigo, naquela corte de víboras. Nenhum de nós era velho o bastante, forte o bastante para desafiar seu pai. Vimos o que aconteceu com aqueles que sussurravam sobre rebelião. Eu sabia que se eu, se ele colocasse um pé fora de linha, seu pai o mataria, herdeiro ou não. Então eu almejei a estabilidade, a segurança do status quo.
O rosto de Yrene não havia se alterado, nem suavizado ou endurecido.
— O que aconteceu?
Ele finalmente pegou sua camisa. Com curiosidade, pensou que havia deixado uma parte de si mesmo nua enquanto estava sentado aqui.
— Nós conhecemos alguém. Que nos colocou em um caminho contra o qual lutei até que custou muito a mim e a outros. Demais. Então você pode me olhar com ressentimento, Yrene Towers, e eu não a culparei por isso. Mas acredite em mim quando digo que não há ninguém em Erilea que me enoje mais do que eu mesmo.
— Por causa do caminho no qual se encontrou forçado a seguir?
Ele vestiu sua camisa e pegou suas calças.
— Por lutar contra esse caminho em primeiro lugar... pelos erros que cometi ao fazer isso.
— E em qual caminho você anda agora? Como a Mão de Adarlan vê o seu futuro?
Ninguém havia lhe perguntado. Nem mesmo Dorian.
— Eu ainda estou aprendendo... ainda... decidindo — ele admitiu. — Mas começa varrendo Perrington e os valg da nossa terra natal.
Ela pegou a palavra – nossa. Ela mastigou o lábio, como se a saboreasse em sua boca.
— O que aconteceu no solstício de verão, exatamente?
Ele tinha sido vago. Não falara sobre o ataque, os dias e os meses que levaram àquele dia, às consequências.
Aquela sala brilhou em sua mente – uma cabeça rolando sobre o mármore, Dorian gritando. Misturando-se com outro momento, de Dorian ao lado de seu pai, o rosto frio como a morte e mais cruel do que qualquer outro no reino de Hella.
— Eu contei o que aconteceu — ele respondeu simplesmente.
Yrene o estudou, brincando com a alça de sua pesada bolsa de couro.
— Enfrentar as consequências emocionais da sua lesão será parte deste processo.
— Eu não preciso enfrentar nada. Eu sei o que aconteceu antes, durante e depois.
Yrene ficou perfeitamente imóvel, aqueles olhos muito antigos completamente imperturbáveis.
— Veremos.
O desafio pairou no ar entre eles, o medo se agrupando em seu estômago, as palavras talhadas na boca de Chaol enquanto ela girava nos calcanhares e saía.

8 comentários:

  1. Não acredito que vou admitir isso: estou começando a gostar, mas só por causa da Yrene. Eu tô amando essa mulher e já consigo visualizar ela é o Chaol se pegando 😂

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  2. Amo o Chaol e tenho certeza que ele vai se curar fisica e emocionalnente... não vejo a hora dele se agarrar com Yrene.

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  3. Eu tava lendo de boa quando uma ideia me surgiu: se ela for embora dai com Chaol e Nesryn então provavelmente ela vai ir ate terrasen se encontrar com Aelin já que ninguém provavelmente vai saber o paradeiro de Dorian e Ardalan vai ta destruida, e quando a Yrene estiver de frente pra Aelin vai perceber quem é ela porem Aelin não vai reconhece-la porque ela na verdade é a Lysandra sendo assim o plano vai ser revelado e vão ter que falar a verdade sobre oque aconteceu com a Aelin sendo revelado apenas para a Yrene ou para todos os aliados (é claro que isso tudo que eu escrevi tem varios furos e possibilidades de acontecer tudo diferente)

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  4. A Sarah gosta de colocar uma pegação de vez em quando. Eu quero ver quem vai ser o primeiro. Nesryn ou Chaol. Tô apostando na Nesryn se pegando com o Sartaq primeiro.
    E não é que eu tô gostando da história. Tava comprar um ranço do Chaol, que me dava um desânimo pra ler. Mas tá ficando bom. Tá reconhecendo os erros dele. Tô gostando!

    Flavia

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Boa leitura, E SEM SPOILER!