25 de janeiro de 2018

Capítulo 8. A fuga de Sobibor

O velho Sol envolvia-se na narrativa, e seus olhos enchiam-se de água, como se estivesse revendo cada momento daquele suplício.
— É claro que para nós, os prisioneiros, não havia nada no campo, Calú. Mas, principalmente, não havia banheiros. Havia latas nos pavilhões trancados e sem janelas. E, uma vez por dia, passava o nosso carroção para recolher o conteúdo das latas. O carroção era uma prancha, com quatro toneis pregados pelo fundo. E a nossa sorte, minha, de Ferenc e de Davi, foi termos conseguido o serviço de arrastar aquele carroção imundo de pavilhão em pavilhão e deixá-lo, no fim de cada dia, à frente de uma das saídas do campo...
Solomon Friedman sorriu, relembrando a ideia desesperada que os fez sobreviver a Kurt Kraut e a Sobibor.
— Aquela foi a nossa oportunidade, Calú. Uma ideia louca, uma invenção nascida do desespero, mas uma esperança! A possibilidade foi imaginada por Ferenc Gábor.
Naquela noite inesquecível, no finzinho do verão na Polônia, eu, Ferenc e Davi Segai não voltaríamos ao nosso pavilhão. Escaparíamos de Sobibor ou morreríamos tentando. Atrasamos só um pouquinho, de modo que a noite já tivesse chegado na hora de largar o carroção perto da saída do campo. Num descuido dos guardas, rapidamente subimos no carroção, enfiamos na cabeça as meias de seda que Davi Segai havia roubado da lavanderia das famílias dos oficiais, metemos um canudo na boca e entramos nos tonéis, mergulhando naquela imundície...
Calú tremia com a descrição. Era inimaginável o que aquele velho tinha passado antes de chegar ao Brasil e tornar-se seu amigo!
— Ah, Calú, nunca vou me esquecer daquela noite! Respirar pelo canudo, enfiado dentro daquilo... O que um homem é capaz de fazer pela vida e pela liberdade! Era impossível resistir à sufocação, ao fedor que nos infeccionava, que nos fazia desejar a morte... Mas era preciso resistir. No campo, a morte era certa, mas seria mais rápida ainda se qualquer um de nós não resistisse e tentasse sair de dentro do tonel. Tínhamos combinado resistir. Se alguém se sentisse sufocado, deveria lembrar-se do juramento, aguentar e morrer ali mesmo, afogado naquela lama de fezes, para dar uma chance aos outros de escapar...
Aquilo não era a narrativa de uma aventura. Era o relato de um martírio.
— Esperamos ali dentro por um tempo que nos pareceu a eternidade. Eu não podia ouvir nada, atolado dentro daquela lama nojenta. Mas pude perceber quando o carroção começou a mover-se. Sabíamos que o jipe ao qual o carroção fora atrelado percorreria uma distância não muito longa, até as margens do rio Bug, que corria ao lado de Sobibor. Os toneis sacudiram quando o jipe parou e o motorista engatou a ré, de modo a empurrar o carroção em direção ao rio, dependurando-o sobre a margem. Esse era o método que eles usavam para livrar-se daquela imundície sem precisar manipular os toneis. Como os tonéis estavam presos ao carroção, todo o seu conteúdo escorreu para a água. E, junto com as fezes dos condenados, nós também fomos despejados no rio Bug, fora de Sobibor!
Nesse ponto, o velho ator parecia um locutor de rádio, anunciando um gol:
— Senti o rio! Aquelas águas frias, de início de setembro, envolvendo meu corpo como uma bênção! Continuei com a meia enfiada na cabeça e tentei respirar pelo canudo, o maior tempo possível. Por um momento, desejei morrer afogado, ali, no frescor da liberdade. Ah, como a liberdade é deliciosa, Calú! Suportei o mais que pude e, por fim, tirei o rosto para fora da água. O ar da noite polonesa entrou-me pelos pulmões, puro, como um milagre!
Solomon aspirava fortemente o ar úmido do teatro, revivendo seu renascimento na Polônia, há décadas.
— Lentamente, nadei por baixo da água, a favor da correnteza, procurando, instintivamente, a direção da margem oposta. Algo bateu em meu corpo. Uma mão procurava a minha. Agarrei a mão que se oferecia e nadamos os dois, de mãos dadas, para a liberdade. Senti o lodo com as mãos. Estava perto da margem. Procurei permanecer imóvel e contei até quinhentos. Depois, cuidadosamente, olhei em volta. Estava quase encostado à margem oposta ao campo. Do outro lado, dava para ver as luzes dos alojamentos dos guardas e as silhuetas dos inúmeros pavilhões de prisioneiros, de mortos-vivos. De todos que não conseguiram escapar. De todos que certamente iriam morrer sufocados, não por suas próprias fezes, mas pelo gás das câmaras que soltavam sua fumaça venenosa dia e noite...
Solomon Friedman sacudiu-se como se o horror fosse água sobre pêlo de cachorro.
— Já estava muito escuro. Não dava para ver qual dos dois estava a meu lado. Mas, em seguida, senti o outro companheiro. Abracei os dois. Já não importava quem era quem. Eu só pensava, o tempo todo: “Ainda estamos vivos! Ainda estamos vivos!” Ficamos os três ali, dentro da água, abraçados, mudos, esperando que o rio limpasse completamente nossos corpos e os trapos que nos cobriam. Aos poucos, para nós só havia o perfume da noite, das folhas molhadas, da liberdade. Nós nos sentíamos limpos, felizes, tínhamos vontade de gritar, de chorar, de comemorar... Mas era preciso continuar calados.
O velho Sol aproximou-se do rosto de Calú, como se segredasse.
— Saímos silenciosamente do rio. Era o fim do verão na Polônia. Mas as noites de fim de verão por aqueles lados não são como as daqui. Estávamos gelados e havia ainda muito a fazer, antes de nos preocuparmos com o frio, ou com qualquer outra ideia que não fosse fugir, fugir, viver e continuar lutando contra aquela maldição que se abatera sobre o mundo...
Calú pensou que o público brasileiro estava perdendo um dos maiores desempenhos dramáticos de Solomon Friedman.
— O problema, Calú, eram nossos macacões ordinários e em trapos. Aquilo seria a morte se qualquer pessoa nos visse. Arrastamo-nos rapidamente pelo bosque que circundava o campo, procurando instintivamente a direção norte. Foi uma caminhada às cegas, na noite escura como breu. Silenciosa. Desesperada! Em pouco tempo havia luz.
Havia uma casa. Havia um varal com roupas estendidas, acabadas de lavar. Vestimos o que dava para vestir, enterramos os macacões e pusemo-nos a andar, sem descanso, sempre para o norte, seguindo o rio Bug em direção a Brest Litóvsk, cidade russa na fronteira com a Polônia...
O velho lembrou-se de algo que cortou o entusiasmo da fuga bem-sucedida:
— Pobre Davi! Ao fugir, ele embrulhara do melhor modo possível uma série de desenhos que fizera no campo de extermínio. Ele sabia como seria importante salvá-los. Ali estava o retrato da degradação, da injustiça, da barbárie, da loucura! Mas infelizmente a arte do grande Davi Segai estava perdida. O pacote, molhado pelas águas do rio Bug, emporcalhado pelas imundícies do tonel, se tornara imprestável. Que perda, Calú! Que perda!
— Como vocês conseguiram, Sol? Como percorrer toda aquela distância, sem comida, sem nada?
— Comemos o que pudemos roubar ou encontrar no bosque. Dormimos muito pouco, escondidos como bichos. Levamos um tempo interminável, quase sem trocar qualquer palavra, andando para o norte. Guiamo-nos pelo sol e pelas estrelas. Nem sei quantos dias caminhamos até encontrar a fronteira soviética. Mas não havia mais fronteiras. Tudo era alemão. Os soviéticos já avançavam esmagadoramente contra os nazistas, mas isso nós não sabíamos. Rodeamos Brest-Litóvsk e tomamos o rumo leste, na esperança de chegar aonde estavam as tropas soviéticas. Só que não podíamos saber até onde tinham penetrado os exércitos conquistadores. Nosso pânico aumentava sempre que continuávamos e só encontrávamos uniformes verdes com a suástica. Só nazistas, só nazistas... Parecia que o mundo todo já havia caído nas mãos de Hitler...
— Mas vocês estavam fora do alcance do Anjo da morte. Isso era o que importava, não é?
— Nossa fuga provocou um verdadeiro excesso de fúria no nosso carrasco e carcereiro. Kurt Kraut não podia admitir que três prisioneiros escapassem de suas garras, assim, sem mais nem menos. Com um pequeno destacamento, saiu em nosso encalço como um cão farejador. Estávamos escondidos no porão de um armazém de camponeses russos, entre as cidades de Pulmo e Sack, perto dos lagos, dentro do território soviético em poder dos nazistas. E o Anjo da morte nos encontrou...
Solomon Friedman sorriu:
— Não fomos fuzilados imediatamente, como seria de esperar. Kurt Kraut nos manteve amarrados nas traves do porão do armazém e ordenou que seus soldados o deixassem sozinho conosco. Ele tinha certeza de haver, no campo, uma conspiração que nos ajudara a fugir e estava disposto a arrancar confissões de nós três. Ele haveria de nos torturar até que implorássemos pela morte! O canalha estava certo de conseguir confissões fabulosas que haveriam de credenciá-lo a receber a Cruz de Ferro, a maior condecoração nazista, das mãos do próprio Hitler...
— Fim do verão de 44? — relembrou Calú, um excelente aluno de História. — Nesses meses, os soviéticos já contra-atacavam, vindos do leste. Esmagaram a
resistência alemã e avançaram sobre Varsóvia...
— Certo, Calú. É por isso que estou aqui, forte e saudável, falando com você! Justamente naquela noite as tropas soviéticas avançavam sobre aquela região...

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