15 de janeiro de 2018

Capítulo 7. Chumbinho valente

— Vamos lá, Chumbinho! É uma boa. Experimente! Você vai ver que legal!
Chumbinho nem podia acreditar. Ele havia descoberto o oferecedor de drogas! Estavam num canto do pátio, e o pátio estava cheio de estudantes.
Incrível! Era possível oferecer a droga no meio da multidão, sem qualquer risco. Até parecia que, fazendo o contato daquela maneira, o oferecedor estaria mais seguro do que se atraísse a vítima para um cantinho deserto: duas pessoas cochichando num canto chamam muito mais a atenção do que misturadas no meio de todo mundo... Agora era preciso pensar depressa. Não havia nenhum dos Karas à vista. Miguel provavelmente estava na biblioteca, estudando matemática. Crânio poderia estar jogando xadrez ou às voltas com os computadores do colégio. Calú estaria no anfiteatro, ensaiando, e Magrí certamente estaria no ginásio de esportes, treinando alguma das dezenas de modalidades esportivas em que era especialista.
Parado ali, em frente ao oferecedor, com aquele comprimido da droga na mão, Chumbinho fingia estar interessadíssimo na experiência, mas não sabia o que fazer. O menino tinha visto o Bronca sob o efeito da droga. Será que agora ele saberia imitar aquele comportamento idiota, sem que o oferecedor desconfiasse? Ah, se ele fosse um ator como Calú, a coisa seria bem mais fácil... O que aconteceria depois? Ele seria sequestrado como o Bronca e os outros. Chumbinho não tinha dúvidas. Por isso precisava encontrar uma forma de deixar um aviso para os Karas.
— Experimente, vamos!
— Tá certo — concordou Chumbinho. — Só que aqui vai dar na vista. É melhor lá no banheiro.
O menino correu para os banheiros do vestiário. Talvez tivesse tempo de deixar algum sinal lá no esconderijo secreto. Só que o oferecedor veio junto, na certa para se certificar de que o garoto ia fazer a coisa direitinho. E, naturalmente, para preparar o sequestro.
Chumbinho entrou em um dos reservados e ia trancar-se quando o oferecedor entreabriu a porta:
— Como é, já engoliu?
— Já vai...
O espaço do reservado era muito pequeno, e o oferecedor não podia ficar ali dentro, junto com Chumbinho. O menino encostou novamente a porta e falou:
— Fique de olho pra ver se aparece alguém.
— Tá legal. Ande logo!
Chumbinho jogou a droga no cesto de papéis. Até aí tudo bem.
Mas, como deixar o sinal para os Karas? Ele precisava de alguma coisa para escrever e precisava também de um código que não desse na vista. O quê? Como?
— Anda logo, Chumbinho! — era a voz do oferecedor, fora da porta.
A ideia nojenta veio-lhe à cabeça, mas era a única e ele não podia perder mais um segundo. Felizmente a privada do reservado tinha sido usada por algum porcalhão que não puxara a descarga. Tentando sufocar o nojo, Chumbinho enfiou a mão dentro do vaso. Sem perda de tempo, com a ponta do dedo suja com aquela “tinta” e sentindo o estômago contorcer-se em enjoos, desenhou nos azulejos a mensagem para os Karas.
Quando o oferecedor, cansado de esperar, empurrou a porta do pequeno reservado, encontrou Chumbinho apoiado na parede:
— Desculpe, me deu uma tonteira.
— É normal, não se assuste.
Chumbinho cambaleou até uma pia e deixou a água correr farta pela mão direita. Ele nem podia ajudar com a outra mão por causa do exagerado curativo da espetadinha da “iniciação”. Às suas costas, a voz do oferecedor veio dura, agressiva:
— Feche a torneira. Olhe pra mim.
Chumbinho obedeceu. Olhou para o oferecedor com o melhor ar de idiota de que era capaz. Será que estava fazendo a coisa direito? O outro não iria desconfiar?
— Preste atenção, Chumbinho. Você quer me obedecer?
— Sim, quero.
— Muito bem. A droga já fez efeito. Agora você vai fazer tudo o que eu mandar. Você quer ser um bom menino?
— Quero.
Pela cabeça do Chumbinho passava a imagem do Bronca, que ele tinha de imitar. Pelo jeito do Bronca, a droga fazia recordar todas as ordens e proibições que o drogado já tinha recebido na vida, e o sujeito se transformava totalmente num imbecil. A saída, então, era representar o imbecil.
— Você é um bom menino, Chumbinho. Agora, eu quero que você aja com naturalidade.
— Sim.
— Saia do colégio andando normalmente. Vá até à praça em frente e suba dois quarteirões à esquerda. Pare na esquina e aguarde novas ordens. Não se desvie por razão alguma. Todo o resto é proibido.
— Sim.
— Agora vá, Chumbinho.
O menino tinha representado direitinho. O oferecedor não desconfiava de nada. Na certa, porém, o vigiaria de longe até que ele chegasse à tal esquina. Diabo! Se conseguisse uma folga, Chumbinho até que poderia dar uma corrida até à biblioteca, à sala de jogos, ao ginásio ou ao anfiteatro do colégio para avisar um dos Karas. Mas ele não podia arriscar. Qualquer desvio do itinerário indicado pelo oferecedor ia dar na vista. Sua única esperança era que um dos Karas visse a sua imunda mensagem no banheiro.
Ele seria o segundo estudante a desaparecer do Colégio Elite. Quem seria o terceiro? Mas... era óbvio! E Chumbinho sorriu por dentro ao descobrir quem seria o terceiro a sumir do mapa...

* * *

Chumbinho saiu do colégio e caminhou lentamente pela praça.
Nenhum transeunte prestava atenção nele. Qual seria o próximo passo da quadrilha?
Uma perua toda fechada parou à sua frente. Um homem enorme saltou e olhou firme, dentro dos olhos do garoto. Não parecia gente, parecia um animal de terno. Um animal feroz e enlouquecido.
Chumbinho fez uma cara de idiota bem caprichada. Ele queria ser o mais convincente possível. O homem abriu a porta traseira da perua:
— Venha cá, menino.
— Sim, senhor.
— Entre aí e fique quietinho.
A porta fechou-se atrás de Chumbinho e o menino sentiu a perua arrancar. No escuro total, não podia saber para onde estava indo.

3 comentários:

  1. Chumbinho é muito corajoso! Tô adorando ele!

    Flavia

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  2. CHUMBINHO miudo corajoso!

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Comentários de volta!
Passamos algumas horas sem essa opção, mas estamos à ativa novamente :)

Boa leitura! E SEM SPOILER!