29 de janeiro de 2018

Capítulo 68

Chaol Westfall não desconsiderou nenhum de seus passos. Mesmo os que o enviaram correndo para um balde para expulsar o conteúdo do seu estômago durante os primeiros dias no mar.
Mas uma das vantagens de viajar com uma curandeira era que Yrene aliviava facilmente as dores em seu estômago. E depois de duas semanas no mar, esquivando-se de tempestades ferozes que o capitão só chamava de Provocadora de Naufrágios... seu estômago finalmente se acalmou.
Ele encontrou Yrene na balaustrada da proa, olhando para a terra. Ou onde a terra estaria, se eles ousassem navegar perto o suficiente. Eles estavam mantendo-se longe enquanto contornavam a costa do continente, e de acordo com o encontro que tivera com o capitão momentos antes, eles estavam em algum lugar perto do norte de Eyllwe. Perto da fronteira de Charco Lavrado.
Nenhum sinal de Aelin ou seu exército, mas era de se esperar, considerando quanto tempo eles estiveram atrasados em Antica antes de sair.
Mas Chaol afastou isso de sua mente enquanto deslizava os braços em torno da cintura de Yrene e pressionava um beijo na curva de seu pescoço.
Ela nem ficou rígida ao ser tocada por trás. Como se tivesse aprendido a cadência de seus passos. Como se também não desconsiderasse nenhum deles.
Yrene recostou-se nele, seu corpo descansando com um suspiro ao mesmo tempo em que em que colocava as mãos em cima das dele, que descansavam sobre o estômago dela.
Levou um dia inteiro após a cura de Duva antes de ele conseguir caminhar com a bengala – embora rigidamente e de forma desigual. Como aconteceu naqueles primeiros dias de recuperação: suas costas se esforçaram ao ponto de doer, cada passo exigindo toda a sua atenção. Mas ele apertou os dentes, Yrene murmurando encorajamentos quando ele teve que fazer vários movimentos. Um dia depois, a maior parte da dor nas coxas tinha diminuído, embora ele tivesse mantido a bengala; e um dia depois, ele caminhava com um desconforto mínimo.
Mas mesmo agora, depois destas duas semanas no mar com pouco para Yrene curar além de estômagos nauseados e queimaduras de sol, Chaol manteve a bengala em sua cabine e a cadeira guardada abaixo do deque, para quando forem necessárias.
Ele olhou por cima ombro de Yrene, para os dedos entrelaçados. Para os anéis gêmeos agora em suas mãos.
— Observar o horizonte não nos fará is mais rápido — ele murmurou em seu pescoço.
— Nem provocar sua esposa sobre isso.
Chaol sorriu contra sua pele.
— De que outra maneira devo divertir-me durante as longas horas do que com provocações, lady Westfall?
Yrene bufou, como sempre fazia ao título. Mas Chaol nunca ouvira nada mais belo, além dos votos falados no templo de Silba na Torre há duas semanas e meia. A cerimônia tinha sido pequena, mas Hasar insistiu em um banquete que envergonhou todos os outros que tiveram no palácio.
A princesa podia ser muitas coisas, mas certamente sabia dar uma festa.
E como liderar uma armada.
Os deuses o ajudassem quando Hasar e Aedion se encontrassem.
— Para alguém que odeia ser chamado lorde Westfall — divagou Yrene — você certamente parece que gosta de usar o título em mim.
— Você é adequada para ele — ele disse, beijando novamente o pescoço dela.
— Sim, tão adequada que Eretia não para de zombar de mim com sua reverência.
— Eretia é alguém que eu poderia ter deixado de bom grado em Antica.
Yrene riu, mas beliscou seu pulso, saindo do abraço dele.
— Você ficará feliz por ela quando chegarmos a terra.
— Eu certamente espero que sim.
Yrene beliscou-o novamente, mas Chaol pegou sua mão e plantou um beijo em seus dedos.
Esposa – sua esposa. Ele nunca vira o caminho à frente com tanta clareza como naquela tarde três semanas atrás, quando ele a viu sentada no jardim e só... soube.
Ele sabia o que queria, e então foi até o banco, ajoelhou-se diante dela, e simplesmente pediu.
Você se casará comigo, Yrene? Será minha esposa?
Ela jogou os braços em volta do pescoço dele, derrubando-os na fonte. Onde eles tinham permanecido para o aborrecimento dos peixes, beijando-se até que um criado tivesse tossido com força ao passar.
E olhando para ela agora, o ar do mar fazendo os seus cabelos flutuarem, trazendo as sardas no nariz e bochechas... Chaol sorriu.
O sorriso de resposta de Yrene era mais brilhante do que o sol refletindo no mar à sua volta.
Ele trouxe aquele maldito sofá dourado junto, almofadas rasgadas e tudo. Isso lhe rendeu um sortimento de comentários de Hasar quando foi levado para o depósito de carga, mas ele não se importou. Se eles sobrevivessem a esta guerra, ele construiria uma casa para Yrene em torno da maldita coisa. Junto com um estábulo para Farasha, atualmente aterrorizando os pobres soldados encarregados de cuidar de sua baia a bordo do navio.
Um presente de casamento de Hasar, juntamente com o próprio cavalo Muniqi de Yrene.
Ele quase disse à princesa que ela poderia ficar o cavalo de Hellas, mas havia algo a ser dito sobre a perspectiva de levar os soldados ao pé de Morath em cima de um cavalo chamado Borboleta.
Ainda encostada nele, Yrene envolveu uma mão ao redor do medalhão que ela nunca tirava, salvo para tomar banho.
Ele se perguntou se poderia modificá-lo para refletir suas novas iniciais.
Não mais Yrene Towers, agora Yrene Westfall.
Ela sorriu para o medalhão, a prata quase branca no sol do meio-dia.
— Suponho que não eu preciso mais dele.
— Por quê?
— Porque não estou sozinha — disse ela, passando os dedos pelo metal. — E porque encontrei minha coragem.
Ele beijou sua bochecha, mas não disse nada quando ela abriu o medalhão e cuidadosamente removeu o papel amarelado. O vento tentou arrancá-lo de seus dedos, mas Yrene manteve-o apertado, desdobrando o fino bilhete.
Ela observou o texto que lera mil vezes.
— Eu me pergunto se ela voltará para esta guerra. Quem quer que ela seja. Ela falou do império como... — Yrene sacudiu a cabeça, mais para si mesma, e o dobrou novamente. — Talvez ela volte para casa para lutar, para onde quer que tenha embarcado. — Ela lhe ofereceu o papel a ele e voltou a encarar o mar à frente.
Chaol pegou o bilhete de Yrene, o papel de macio como veludo das inúmeras vezes que ela leu e dobrou e manteve no bolso, segurando-o durante todos esses anos.
Ele desdobrou o bilhete e leu as palavras que já sabia que estavam dentro:
Para onde precisar ir – e mais um pouco. O mundo precisa de mais curandeiros.
As ondas se acalmaram. O próprio navio pareceu parar.
Chaol olhou para Yrene, sorrindo serenamente para o mar, depois para o bilhete.
Para a caligrafia que conhecia tão bem quanto a dele.
Yrene ficou imóvel com as lágrimas que ele não conseguiu impedir que escorressem pelo rosto.
— O que está errado?
Ela teria dezesseis, quase dezessete anos então. E se ela esteve em Innish...
Estaria a caminho do Deserto Vermelho, para treinar com os Assassinos Silenciosos. Os ferimentos que Yrene descreveu... O espancamento que Arobynn Hamel lhe aplicou, uma punição por libertar os escravos de Rolfe e destruir a Baía da Caveira.
— Chaol?
Para onde precisar ir – e mais um pouco. O mundo precisa de mais curandeiros.
Ali, na caligrafia dela...
Chaol ergueu os olhos, piscando as lágrimas enquanto olhava o rosto de sua esposa. Todos os lindos traços, aqueles olhos dourados.
Um presente.
Um presente de uma rainha que tinha visto outra mulher no inferno e pensou em estender a mão. Sem nenhum pensamento de conseguir algo em troca. Um momento de bondade, um puxão em um fio...
E mesmo Aelin não podia saber disso ao salvar uma garçonete daqueles mercenários, ensinando-a a se defender, dar-lhe ouro e esse bilhete...
Mesmo Aelin não poderia ter sabido, sonhado ou adivinhado como esse momento de bondade seria respondido.
Não apenas por uma curandeira abençoada pela própria Silba, capaz de limpar os valg do corpo humano.
Mas por trezentas curandeiros que tinham vindo junto.
As trezentas curandeiras da Torre, agora espalhadas pelos mil navios do khagan.
Um favor, Yrene pediu ao homem em troca de salvar sua filha mais querida.
Qualquer coisa, o khagan havia prometido.
Yrene se ajoelhou diante do khagan. Salve meu povo.
Isso foi tudo o que ela pediu. Tudo o que ela implorou.
Salve meu povo.
Então o khagan respondeu.
Com mil navios da armada de Hasar, e os dele. Cheio de soldados de Kashin e a cavalaria Darghan.
E acima deles, atravessando o horizonte muito atrás do navio com a bandeira que Chaol e Yrene agora navegavam... Acima deles voavam mil rukhins liderados por Sartaq e Nesryn, de todos abrigos e ninhos.
Um exército para desafiar Morath, com mais por vir, ainda se reunindo em Antica sob o comando de Kashin. Duas semanas, Chaol dera ao khagan e Kashin, mas com as tempestades de outono, ele não queria arriscar esperar por mais tempo. Então, esse exército inicial... Apenas metade. Apenas metade, e ainda a extensão que navegava e voava atrás dele...
Chaol dobrou o bilhete ao longo de suas linhas bem lidas e colocou-o cuidadosamente dentro do medalhão de Yrene.
— Guarde-o um pouco mais — ele disse suavemente. — Acho que há alguém que vai querer ver isso.
Os olhos de Yrene se encheram de surpresa e curiosidade, mas ela não perguntou nada quando Chaol deslizou os braços ao redor dela mais uma vez e abraçou-a com força.
Cada passo, todos eles, o trouxeram até aqui.
Desde a fortaleza nas montanhas nevadas onde um homem com um rosto tão duro quanto a rocha que os rodeava e o jogou no frio; para aquela mina de sal em Endovier, onde uma assassina com olhos como fogueiras tinha sorrido para ele, inteira apesar de um ano no inferno.
Uma assassina que encontrou sua esposa, ou elas se encontraram, duas mulheres abençoadas por deusas vagando pelas sombras do mundo. E que agora detinham o destino do mundo.
Cada passo. Cada curva na escuridão. Cada momento de desespero, raiva e dor.
Isso o levou até exatamente onde precisava estar.
Onde queria estar.
Um momento de bondade. De uma jovem mulher que acabava com vidas para uma jovem que as salvava.
Aquele fragmento de escuridão dentro dele encolheu ainda mais. Retrocedeu e fraturou em nada além de poeira que foi varrida pelo vento do mar. Passou pelos mil navios navegando orgulhosos e inflexíveis atrás dele. Passou pelas curandeiras dispersas entre soldados e cavalos liderados por Hafiza, que vieram quando Yrene também pediu que salvassem seu povo. Passou pelos ruks subindo pelas nuvens, procurando qualquer ameaça à frente.
Yrene o observava cautelosamente. Ele a beijou uma – duas vezes.
Ele não se arrependia. Ele não olhava para trás.
Não com Yrene em seus braços, ao seu lado. Não com o bilhete que ela carregava, aquela pequena prova... aquela pequena prova de que ele estava exatamente onde deveria estar. Que ele sempre esteve indo para lá. Aqui.
— Será que ouvirei uma explicação para essa reação dramática — Yrene falou finalmente, estalando a língua — ou você só vai me beijar pelo resto do dia?
Chaol retumbou uma risada.
— É uma longa história. — Ele escorregou um braço em torno da cintura dela e olhou para o horizonte. — E você pode querer se sentar primeiro.
— Esse é o meu tipo favorito de história — disse ela, piscando.
Chaol riu novamente, sentindo o som em todas as partes de seu corpo, deixando que soasse claro e brilhante como um sino. Um último e alegre ressoar antes da tempestade da guerra começar.
— Vamos — disse ele a Yrene, acenando com a cabeça para os soldados trabalhando ao lado dos homens de Hasar para manter os navios navegando rapidamente para o norte – para a batalha e o derramamento de sangue. — Eu vou te contar durante o almoço.
Yrene se ergueu na ponta dos pés para beijá-lo antes de seguirem para a sua cabine espaçosa.
— Essa história, é melhor valer a pena — ela falou com um sorriso irônico.
Chaol sorriu de volta para sua esposa, a luz a quem ele seguiu inconscientemente durante toda a sua vida, mesmo quando não conseguiu vê-la.
— Sim — ele respondeu baixinho para Yrene. — Ela vale.

4 comentários:

  1. Finalmente descobriram que era da Aelin! Uhuuuul!

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  2. Ahhh... Que maravilhoso eu amei tudo. Sabia que a Sarah não ia me decepcionar. Mas gente vcs já repararam que a Sarah ama um casamento às escondidas? Bom não vou falar nada pra não dar spoiler de outros livros dela. Não vejo a hora da Irene se encontrar com a sua salvadora. Na verdade não vejo a hora de todos eles se encontrarem.
    E parte de mim quer logo o último livro porque tem tanta coisa foda pra rolar, mas a outra parte não quer porque é o último livro. "É hora de dar tchau." "É hora de dar tchau." E eu não estou pronta para dar tchau.

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  3. Não vejo a hora de ler o próximo livro

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Comentários de volta!
Passamos algumas horas sem essa opção, mas estamos à ativa novamente :)

Boa leitura! E SEM SPOILER!