29 de janeiro de 2018

Capítulo 66

Nesryn estava totalmente drenada. Queria dormir por uma semana. Um mês.
Mas, de alguma forma, encontrou-se caminhando pelos corredores, visando o minarete de Kadara. Sozinha.
Sartaq tinha ido ver seu pai, Hasar se juntando a ele. E, embora não tenha sido estranho com Chaol e Yrene... Nesryn deu-lhes a sua privacidade. Ele esteve no limiar da morte, afinal. Ela tinha poucas ilusões sobre o que provavelmente aconteceria naquela suíte.
E que ela teria que encontrar aposentos para si.
Nesryn supôs que teria que encontrar quartos para algumas pessoas esta noite – começando com Borte, que se maravilhou com Antica e o mar, mesmo enquanto eles viajavam tão rápido quanto os ventos podiam carregá-los. E Falkan, que de fato veio com eles, andando como um rato no bolso de Borte, Yeran nada satisfeito sobre isso. Ou assim ele parecera na última vez que o viu no abrigo Eridun, Sartaq pedindo às várias mães postiças e aos capitães para reunir seus rukhin e voar para Antica.
Nesryn chegou à escada que levava ao minarete quando a carta a encontrou. O menino estava ofegante, mas conseguiu dar uma reverência graciosa enquanto lhe entregava uma carta.
Estava datada há duas semanas. Na caligrafia de seu tio.
Os dedos dela tremiam quando quebrou o lacre.
Um minuto depois, ela estava correndo pela escada do minarete.



As pessoas gritaram com admiração e surpresa quando o ruk avermelhado voou sobre os edifícios e casas de Antica.
Nesryn murmurou para o pássaro, orientando-o para o bairro Runni enquanto voavam em uma brisa beijada pelo sal tão rápido quanto suas asas poderiam levá-los.
Ela o reivindicara ao deixar Eridun.
Tinha ido direto aos ninhos, onde ele ainda esperava por um cavaleiro que nunca mais voltaria, e olhou profundamente em seus olhos dourados. Disse-lhe que o nome dela era Nesryn Faliq, e ela era filha de Sayed e Cybele Faliq, e que seria sua cavaleira, se ele a aceitasse.
Ela se perguntou se o ruk, cujo último cavaleiro o chamara de Salkhi, sabia se a queimação em seus olhos não tinha sido do vento rugindo quando ele inclinou a cabeça para ela.
Então ela o montou, Salkhi seguindo o ritmo com Kadara na frente da legião enquanto o rukhin voava para o norte. Voava para Antica.
E agora, quando Salkhi pousou na rua na frente da casa de seu tio, alguns vendedores abandonaram seus carrinhos em terror absoluto, algumas crianças deixaram cair seus brinquedos para admirar, então sorriram – Nesryn deu um tapinha em seu ruk de pescoço largo e desmontou.
Os portões da frente da casa do tio se abriram.
E quando ela viu seu pai parado ali, quando sua irmã passou, os filhos dela gritando...
Nesryn caiu de joelhos e chorou.



Como Sartaq a encontrou duas horas depois, Nesryn não sabia. Embora ela supusesse que um ruk sentado na rua de um bairro extravagante de Antica com certeza causaria agitação. E seria fácil de detectar.
Ela chorou e riu e abraçou sua família por minutos incontáveis, bem no meio da rua, Salkhi assistindo.
E quando seu tio e sua tia os chamaram para pelo menos chorar com uma boa xícara de chá, sua família contou-lhe sobre suas aventuras. Os mares selvagens que haviam navegado, os inimigos que seu navio haviam evitado em sua viagem até aqui. Mas eles haviam conseguido – e aqui ficariam quando a guerra explodisse, disse seu pai, ao balançar a cabeça para os tios dela.
Quando finalmente saiu dos portões da casa, seu pai reivindicou a honra de escoltar Nesryn até Salkhi – depois de ter mandado a irmã cuidar de todas aquelas crianças – mas Nesryn parou tão subitamente que seu pai quase se chocou contra suas costas.
Porque ao lado de Salkhi estava Sartaq, um meio sorriso no rosto. E do outro lado de Salkhi... Kadara esperava pacientemente, os dois ruks um par orgulhoso.
Os olhos de seu pai se arregalaram, como se reconhecessem o ruk diante do príncipe.
Então, seu pai se curvou. Profundamente.
Nesryn tinha contado a sua família – com detalhes moderados – o que aconteceu entre os rukhin. Sua irmã e a tia a encararam quando as várias crianças começaram a declarar que elas também seriam cavaleiros ruk.
E depois correram pela casa, gritando e balançando os braços, pulando móveis como animais selvagens.
Ela esperava que Sartaq permanecesse no lugar para ser abordado, mas o príncipe viu seu pai e avançou. Então estendeu a mão e apertou a dele.
— Ouvi dizer que a família da capitã Faliq finalmente chegou em segurança — Sartaq falou como saudação. — Pensei em vir eu mesmo recebê-lo.
Algo inchou em seu peito até o ponto de doer quando Sartaq inclinou a cabeça para o pai.
Sayed Faliq parecia que poderia muito bem morrer, fosse pelo gesto de respeito ou pela mera presença de Kadara mais atrás. Na verdade, várias pequenas cabeças agora apareceram atrás das pernas dele, avaliando o príncipe, então os ruks e depois...
— KADARA!
O filho mais novo dos tios – não mais do que quatro anos – gritou o nome da ruk alto o suficiente para que qualquer um na cidade que não soubesse que o pássaro estava nesta rua agora estivesse bem ciente.
Sartaq riu quando as crianças empurraram o pai de Nesryn, correndo para o pássaro dourado.
Sua irmã estava em seus calcanhares, advertência saltando de seus lábios...
Até que Kadara se abaixou no chão, Salkhi seguindo o exemplo. As crianças pararam, a reverência os maravilhando enquanto estendiam as mãos para os dois ruks e acariciaram-nos gentilmente.
A irmã de Nesryn suspirou com alívio. Então percebeu quem estava diante de Nesryn e seu pai.
Delara ficou vermelha. Espanou o vestido, como se de alguma forma fosse esconder as recentes manchas de comida, cortesia de seu filho mais novo. Então ela voltou lentamente para a casa, fazendo uma reverência enquanto se afastava.
Sartaq riu quando ela desapareceu – mas não antes de Delara dar a Nesryn um olhar afiado que dizia: Oh, vocês estão tão apaixonados que nem sequer vale a pena rir.
Nesryn deu a sua irmã um gesto vulgar atrás de suas costas que seu pai escolheu não ver.
— Peço desculpas se meus netos e sobrinhos tomarem algumas liberdades com seu ruk, príncipe — seu pai disse para Sartaq.
Mas Sartaq sorriu amplamente – um sorriso mais brilhante do que qualquer que ela tivesse visto antes.
— Kadara finge que ser uma nobre montaria, mas ela é mais uma galinha mãe do que qualquer outra coisa.
Kadara soprou suas penas, ganhando gritos de felicidade das crianças.
O pai de Nesryn apertou o ombro dela antes de dizer ao príncipe:
— Acho que vou impedi-los de tentar voar sobre ela.
E então eles estavam sozinhos. Na rua. Do lado de fora da casa do tio. Toda a Antica agora olhando para eles.
Sartaq não pareceu notar. Certamente, não quando perguntou:
— Caminha comigo?
Engolindo, com um olhar para trás onde seu pai agora supervisionava o bando de crianças tentando escalar Salkhi e Kadara, Nesryn assentiu.
Eles dirigiram-se para a ruela silenciosa e limpa atrás da casa do tio, caminhando em silêncio por alguns passos.
Até que Sartaq disse:
— Falei com meu pai.
E ela se perguntou, então, se esse encontro não seria bom. Se o exército que eles trouxeram seria ordenado a voltar aos abrigos. Ou se o príncipe, a vida que ela viu por si mesma naquelas lindas montanhas... se talvez a realidade disso também o tivesse encontrado.
Pois ele era um príncipe. E por tudo que ela amava sua família, por tudo o que a fazia tão orgulhosa, lá não havia uma gota nobre de sangue em sua linhagem. Seu pai apertando a mão de Sartaq era o mais próximo que qualquer Faliq já havia chegado da realeza.
— Oh? — Foi o que Nesryn conseguiu dizer.
— Nós... discutimos coisas.
Seu peito se afundou às palavras cuidadosas.
— Entendo.
Sartaq parou, a ruela zumbindo com as abelhas vibrantes circulando sobre o jasmim que crescia nos muros dos pátios externos. E atrás deles o pátio dos fundos, privado, pertencente à família. Ela queria que poder pular o muro e se esconder. Em vez de ouvir.
Mas Nesryn se forçou a encontrar os olhos do príncipe. Viu-o observando seu rosto.
— Eu disse a ele — Sartaq falou finalmente — que eu planejava liderar o rukhin contra Erawan, com ou sem o seu consentimento.
Pior. Isso estava piorando. Ela desejou que o rosto dele não fosse tão ilegível.
Sartaq respirou fundo.
— Ele me perguntou por quê.
— Espero que você tenha dito que o destino do mundo poderia depender disso.
Sartaq riu.
— Eu disse. Mas também disse a ele que a mulher que eu amo planeja entrar em guerra. E eu pretendo segui-la.
Ela não deixou que as palavras fossem absorvidas. Não se deixou acreditar nelas, até que ele terminasse.
— Ele me respondeu que você é nascida comum. Que um futuro herdeiro do khagan precisa casar com uma princesa, ou uma dama, ou alguém com terras e alianças para oferecer.
Sua garganta se fechou. Ela tentou desligar o som, as palavras. Não queria ouvir o resto.
Mas Sartaq pegou sua mão.
— Eu disse a ele que se isso era o necessário para ser escolhido herdeiro, eu não queria. E saí.
Nesryn prendeu a respiração.
— Você ficou louco?
Sartaq sorriu fracamente.
— Eu certamente espero que não, pelo bem desse império. — Ele a puxou para perto, até que seus corpos estavam quase se tocando. — Porque meu pai me nomeou herdeiro antes que eu pudesse sair da sala.
Nesryn deixou seu corpo. Só pôde respirar.
E quando ela tentou fazer uma reverência, Sartaq agarrou seus ombros firmemente. Parou-a antes que sua cabeça pudesse abaixar.
— Nunca de você — ele disse em voz baixa.
Herdeiro – ele fora feito herdeiro. Para tudo isso. Esta terra que ela amava, essa terra que ela ainda desejava tanto explorar que doía.
Sartaq levantou a mão para cobrir sua bochecha, seus calos raspando a pele dele.
— Nós voamos para a guerra. Muita coisa é incerta à frente. Menos isso. — Ele roçou a boca contra a dela. — Menos o que eu sinto por você. Nenhum exército demoníaco, nenhuma rainha ou rei sombrio, mudará isso.
Nesryn estremeceu, deixando as palavras assentaram.
— Eu... Sartaq, você é herdeiro...
Ele se afastou para estudá-la novamente.
— Vamos à guerra, Nesryn Faliq. E quando acabarmos com Erawan e seus exércitos, quando a escuridão for finalmente banida deste mundo... Então você e eu voltaremos para cá. Juntos. — Ele a beijou novamente – uma carícia de sua boca. — E assim devemos permanecer pelo resto de nossos dias.
Ela ouviu a oferta, a promessa.
O mundo que ele colocou a seus pés.
Ela tremia por isso. Ao que ele deu tão livremente. Não o império e a coroa, mas... a vida. Seu coração.
Nesryn se perguntou se ele sabia que seu coração era dele desde aquele primeiro voo em cima de Kadara.
Sartaq sorriu como se dissesse sim, ele sabia.
Então ela envolveu os braços ao redor de seu pescoço e o beijou.
Foi experimental, suave e cheio de admiração, aquele beijo. Ele tinha gosto de vento, como uma primavera na montanha. Ele tinha gosto de lar.
Nesryn apertou seu rosto entre as mãos enquanto se afastava.
— Para a guerra, Sartaq — ela sussurrou, memorizando cada linha de seu rosto. — E então veremos o que vem depois.
Sartaq deu-lhe um sorriso sabido e arrogante. Como se tivesse decidido completamente o que viria depois e que nada poderia dizer o contrário.
E do pátio a apenas um muro de distância, sua irmã gritou, alto o suficiente para todo o bairro ouvir:
— Eu te disse, pai!

13 comentários:

  1. E do pátio a apenas um muro de distância, sua irmã gritou, alto o suficiente para todo o bairro ouvir:
    — Eu te disse, pai!

    Usauhsahuhusa, quando o casal que você shippava se realiza...

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  2. Hahaha. Meu shippe 😍 mas gente quantos casais tops de linha. Erawan e sua tropa tão fu.....

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  3. AWWWWWW finalmente!! Shippava demais eles. Mais que Chaol e Yrene. Tantos shipps maravilhosos. Por favor Sarah, deixe todos vivos

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  4. Uma coisa que me deixa impressionada é a forma como a Sarah constrói os primeiros shippe e desfaz eles como se não fosse nada e ao mesmo tempo ela oferece um melhor.. Simplesmente amo.

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  5. "— Kadara finge ser uma nobre montaria, mas ela é mais uma galinha mãe do que qualquer outra coisa."

    Morri por um momento ksksksks
    AAAAAAAAAAAAAAA MEU SHIPP, TE TODO MUNDO ENCONTRANDO A TAMPA DA SUA PANELA E EU SABIA QUE O SARTAQ SERIA O ESCOLHIDO PARA SER O PRÓXIMO KHAGAN *-* pelo amor de Deus Sarah, não mate os personagens que eu tanto amo no último livro. Estou ansiosa e morrendo de medo de ler o último livro

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  6. Meu Deus do Céu, é todo mundo da alta realeza ou poderozérrimo por aqui D=
    Aelin=É Princesa quase Rainha
    Rowan=Era Príncipe casou com a Aelin virou Consorte/Rei
    Dorian=É Príncipe e será rei assim que o Perringtonfor morto
    Manon=Última Rainha Crochan
    Chaol=Lorde de Anielle
    Yrene=Quase foi nomeada Alta Sacerdotisa
    Nesryn=Será esposa(ou algo assim) do futuro Kaghan
    Sartaq=É herdeiro do Kaghan
    Lisandra=Virou Lady das terras esquecidas em Terrassen
    Aedion= por enquanto é só o Aedion, mas a gente ama ele mesmo assim <3

    Acho que não falta mais ninguém né shaushaushusha

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    1. Aedion é príncipe de pq ele é o próximo na linha de sucessão ao trono, por enquanto.

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  7. "E então eles estavam sozinhos. Na rua. Do lado de fora da casa do tio. Toda a Antica agora olhando para eles.
    Sartaq não pareceu notar. Certamente, não quando perguntou:
    — Caminha comigo?"
    Caralho.
    Eu li casa comigo
    Pqp Sarah não faz isso com o meu coração

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  8. Own... tô apaixonada pelo Sartak!! Ele abriria mão da coroa por ela... que lindos... acho ele o mais doce de todos os personagens masculinos... Nesyrin merece!

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  9. E do pátio a apenas um muro de distância, sua irmã gritou, alto o suficiente para todo o bairro ouvir:
    — Eu te disse, pai!

    😂

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  10. -Nós voamos para a guerra. Muita coisa é incerta à frente. Menos isso. — Ele roçou a boca contra a dela. — Menos o que eu sinto por você. Nenhum exército demoníaco, nenhuma rainha ou rei sombrio, mudará isso.

    Que lindo...chorei!!!

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  11. Nossa coisa mais lindaaaa!!! Não aguento essas declarações, desistindo de coroa... esse capítulo foi felicidade do início ao fim, só espero que tia sarah não estrague tudo no último livro matando meus personagens queridos, seria pedir muito?

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Boa leitura, E SEM SPOILER!