29 de janeiro de 2018

Capítulo 64

O corpo de Chaol doía, mas era a dor da novidade. De músculos doloridos, não quebrados.
E o ar nos pulmões... não queimava para respirar.
Yrene o ajudou a se sentar, sua cabeça girando.
Ele piscou, encontrando Nesryn e Sartaq diante dele quando os curandeiros começaram a se afastar, seus rostos sombrios.
A trança longa do príncipe tinha sido cortada em favor de cabelos soltos, na altura dos ombros, e Nesryn... era­m couros para montar ruks que ela usava, seus olhos escuros mais brilhantes do que ele já tinha visto – mesmo com a gravidade de sua expressão.
— O que... — Chaol tentou falar.
— Você enviou uma carta para eu voltar — disse Nesryn, o rosto pálido. — Nós voamos o mais rápido possível. Nos disseram que você veio para a Torre mais cedo esta noite. Os guardas estavam logo atrás de nós, até os ultrapassamos. Ficamos um pouco perdidos aqui, mas então... os gatos lideraram o caminho.
Um olhar perplexo sobre o ombro dele, onde meia dúzia de gatos com olhos de berilo estavam sentados nos degraus do túnel. Eles notaram a atenção humana e se espalharam, as caudas erguidas.
— Nós também achamos que curandeiras podiam ser necessárias — Sartaq acrescentou, sorrindo fracamente — e pedimos que algumas nos seguissem. Mas, aparentemente, um grande número quis vir.
Considerando o número de mulheres saindo depois que os gatos desapareceram... Todas elas. Todas elas tinham vindo.
Atrás de Chaol e Yrene, Eretia cuidava de Hafiza. Viva, olhos límpidos, mas... frágil.
Eretia estava sobre a mulher idosa, censurando-a por tal heroísmo. Mas, mesmo assim, os olhos da mulher brilhavam de lágrimas. Talvez mais, enquanto Hafiza roçava um polegar sobre a bochecha de Eretia.
— Ela está... — Sartaq começou, empurrando o queixo em direção a Duva, esparramada no chão.
— Inconsciente — Hafiza murmurou. — Dormirá até que a despertemos.
— Mesmo com um anel valg? — Nesryn perguntou enquanto Sartaq se movia para sua irmã do chão de pedra.
Ela o bloqueou com um braço no peito, ganhando um olhar incrédulo do príncipe. Havia cortes e cicatrizes em ambos, Chaol percebeu. E a maneira como o príncipe se movia... com um manquejar.
Algo havia acontecido...
— Mesmo com o anel, ela dormirá — disse Hafiza.
Yrene olhava para a princesa, a adaga no chão próximo.
Sartaq a viu também. E disse calmamente a Yrene:
— Obrigado, por poupá-la.
Yrene apenas apertou o rosto contra o peito de Chaol. Ele passou uma mão pelo seu cabelo, encontrando-o molhado...
— Você está sangrando...
— Estou bem — disse ela na camisa.
Chaol se afastou, examinando seu rosto. A têmpora sangrendo.
— Isso é tudo menos bem — disse ele, movendo a cabeça para Eretia. — Ela está machucada.
Eretia revirou os olhos.
— É bom não ver nada disto o deixa fora de seu espírito habitual.
Chaol deu à mulher um olhar fixo.
Hafiza olhou por cima do ombro de Eretia e perguntou com ironia a Yrene:
— Você tem certeza de que esse homem teimoso valeu o custo?
Antes que Yrene pudesse responder, Chaol exigiu:
— Que custo?
Um silêncio rastejou sobre eles, e até Yrene olhou para Hafiza enquanto a mulher se desenroscava do cuidado de Eretia. A Alta Curandeira disse calmamente:
— O dano era grande demais. Mesmo com todas nós... A morte o segurou pela mão.
Ele se virou para Yrene, medo crescendo no estômago.
— O que você fez — ele respirou.
Ela não encontrou seu olhar.
— Ela provavelmente fez uma negociação de tolo, é isso — disse Eretia. — Ofereceu pagar o preço sem sequer ser informada sobre o que era. Para salvar seu pescoço. Todas ouvimos.
Eretia estava perto de perdeu seu próprio pescoço, mas Chaol disse com tanta calma quanto podia:
— Pagar o preço a quem?
— Não é um pagamento — corrigiu Hafiza, colocando uma mão no ombro de Eretia para silenciá-la — mas uma restauração de equilíbrio. Para aquela que gostaria de vê-lo intacto. Que falou através de mim quando todas nós reunimos em você.
— Qual foi o custo. — Chaol exigiu novamente. Se ela tivesse desistido de qualquer coisa, ele encontraria uma maneira de recuperar. Ele não se importaria com o que teria que pagar, ele...
— Para manter sua vida amarrada neste mundo, tivemos que ligá-la a outra. Com a dela. Duas vidas — Hafiza esclareceu — agora compartilhando uma trama. Mas mesmo com isso... — Ela gesticulou para as pernas, o pé a qual ele deslizou no chão. — O demônio quebrou muitas, muitas partes de você. Muitas. E, para salvar a maioria delas houve um custo, também.
Yrene ficou quieta.
— O que você quer dizer?
Hafiza voltou a olhar entre eles.
— Ainda há algum dano na coluna vertebral – impactando as partes mais baixas das pernas. Isso nem nós conseguimos reparar.
Chaol olhou entre Hafiza e as pernas, atualmente em movimento. Ele chegou tão longe para colocar algum peso sobre eles. Elas aguentaram.
— Com o vínculo de vida entre vocês — Hafiza prosseguiu — com o poder de Yrene fluindo para você... Isso atuará como um suporte. Estabilizando a área, permitindo que você use suas pernas sempre que a magia de Yrene estiver no máximo.
Ele se preparou para o mas. Hafiza sorriu duramente.
— Mas quando o poder de Yrene estiver esgotado, ou ela estiver cansada, sua lesão recuperará o controle, e sua capacidade de andar novamente será prejudicada. Exigirá que você use uma bengala, pelo menos – em dias difíceis, talvez muitos dias, a cadeira. Mas a lesão em sua espinha permanecerá.
As palavras se estabeleceram nele. Flutuaram e se instalaram.
Yrene estava completamente em silêncio. Tão parada que ele se virou para ela.
— Não posso apenas curá-lo novamente? — ela inclinou-se para ele, como se prestes a fazer exatamente isso.
Hafiza balançou a cabeça.
— É parte da balança – o custo. Não tente a compaixão da força que lhe concedeu.
Mas Chaol tocou a mão de Yrene.
— Não é nenhum fardo, Yrene, — ele disse suavemente. — Receber isso. Não é uma carga.
No entanto, a agonia encheu o rosto dela.
— Mas eu...
— Usar a cadeira não é uma punição. Não é uma prisão — disse ele. — Nunca foi. E eu sou tão homem naquela cadeira, ou com essa bengala, ou enquanto estou de pé. — Ele afastou a lágrima que escorregou na bochecha dela.
— Eu queria curá-lo — ela sussurrou.
— Você curou — ele disse, sorrindo. — Yrene, em todos os sentidos que realmente importam... Você curou.
Chaol secou as outras lágrimas que caíram, dando um beijo na bochecha quente.
— Há outra peça nesse vínculo de vida, nessa barganha — acrescentou Hafiza gentilmente. Eles se voltaram para ela. — Quando for a hora, se a morte for gentil ou cruel... Ela reivindicará vocês dois.
Os olhos dourados de Yrene ainda estavam revestidos de prata. Mas não havia medo em seu rosto, sem arrependimento – nenhum.
— Juntos — disse Chaol calmamente, e entrelaçou suas mãos.
A força dela seria a força dele. E quando Yrene se fosse, ele iria também. Mas se ele fosse antes dela...
Medo enrolou-se em seu intestino.
— O verdadeiro preço de tudo isso — disse Hafiza, lendo o pânico — não é o temor pela sua própria vida, mas o que a perda de sua vida fará com o outro.
— Sugiro que você não vá à guerra — grunhiu Eretia.
Mas Yrene sacudiu a cabeça, os ombros se endireitaram quando declarou:
— Devemos ir à guerra. — Apontando para Duva, ela olhou para Sartaq. Como se ela não tivesse apenas oferecido sua própria vida para salvá-lo... — Isso é o que Erawan fará. Com todos vocês. Se não formos.
— Eu sei — disse Sartaq calmamente. O príncipe virou-se para Nesryn e, enquanto segurava seu olhar... Chaol viu. O vislumbre entre eles. Um vínculo, novo e puro. Mas estava lá, bem junto com os cortes e feridas que ambos tinham. — Eu sei — disse Sartaq novamente, seus dedos roçando os de Nesryn.
Nesryn encontrou os olhos de Chaol. Ela sorriu suavemente para ele, olhando para onde Yrene agora perguntava a Hafiza se ela poderia se levantar.
Ele nunca vira Nesryn aparecer tão... resolvida. Tão silenciosamente feliz.
Chaol engoliu em seco. Me desculpe, ele disse em silêncio.
Nesryn balançou a cabeça quando Sartaq pegou sua irmã em seus braços com um grunhido, o príncipe equilibrando o peso dela na perna boa. Acho que me saí bem.
Chaol sorriu. Então fico feliz por você.
Os olhos de Nesryn se arregalaram quando Chaol finalmente se levantou, levando Yrene consigo. Seus movimentos eram como tão suaves quanto qualquer manobra que poderia ter feito se não tivesse um suporte invisível da magia de Yrene fluindo entre eles.
Nesryn limpou as lágrimas quando Chaol fechou a distância entre eles e a abraçou com força.
— Obrigado — ele falou na orelha de Nesryn.
Ela o apertou.
— Obrigada por me trazer aqui. Para tudo isso.
Para o príncipe que agora olhava Nesryn com uma emoção silenciosa e ardente.
Ela acrescentou:
— Temos muitas coisas para lhes contar.
Chaol assentiu.
— E nós, a vocês.
Eles se separaram, e Yrene se aproximou – jogando seus braços em torno de Nesryn também.
— O que vamos fazer com todo esse ouro? — exigiu Eretia, levando Hafiza para longe, quando guardas formaram um caminho vivo para eles para fora da tumba. — Esse lixo brega — ela cuspiu, franzindo o cenho para uma estátua imponente de um soldado feérico.
Chaol riu e Yrene se juntou a ele, deslizando o braço ao redor de sua cintura enquanto seguiam atrás das curandeiras.
Vivo, Yrene disse-lhe. Ao sair do escuro, Chaol finalmente sentiu que era verdade.



Sartaq levou Duva para o khagan. Chamou seus irmãos e irmãs.
Porque Yrene insistiu que eles estivessem lá. Chaol e Hafiza também.
O khagan, no primeiro cintilar de emoção que Yrene já vira, pulou para a inconsciente Duva coberta de sangue quando Sartaq coxeou para o salão onde eles esperavam. Vizires pressionaram. Hasar soltou um suspiro que Yrene poderia ter jurado ser de verdadeira dor.
Sartaq não deixou que o pai a tocasse. Não permitiu que ninguém além de Nesryn se aproximasse quando ele colocou Duva em um sofá baixo.
Yrene manteve alguns passos para trás, silenciosa e assistindo, Chaol ao seu lado.
Esse vínculo entre eles... Ela podia senti-lo, quase. Como uma ligação viva de luz fresca e sedosa que fluía dela – para ele.
E ele realmente não parecia se importar que uma parte de sua coluna, de seus nervos, conservasse danos permanentes enquanto vivessem.
Sim, ele agora poderia mover as pernas com um movimento limitado, mesmo quando sua magia estivesse drenada. Mas ficar em pé – nunca seria uma possibilidade naqueles tempos. Ela supôs que logo aprenderiam como e quando o nível de seu poder se correlacionaria a ele precisar da bengala, da cadeira ou de nenhuma delas.
Mas Chaol estava certo. Se ele estava de pé, com bengala ou sentado... não o mudava. Quem ele era. Ela tinha se apaixonado por ele bem antes de ele ter andado. O amaria não importava como ele atravessasse o mundo.
E se brigarmos?, Yrene perguntou-lhe no caminho para cá. O que será então?
Chaol apenas beijara sua têmpora. Nós já brigamos o tempo todo. Não será nada novo. Ele acrescentou: Acha que eu gostaria de estar com alguém que não chuta minha bunda regularmente?
Mas ela franziu a testa. Ele continuou. E esse vínculo entre nósYrene... não muda nada. Você e eu. Você precisará do seu próprio espaço; eu vou precisar do meu. Então, se pensar por um momento que ficará livre para dar frágeis desculpas para nunca sair do meu lado...
Ela o cutucou nas costelas. Como se eu desejasse ficar ao seu redor o dia inteiro como uma garota apaixonada!
Chaol riu, apertando-a com mais força. Mas Yrene apenas deu um tapa em seu braço e disse: E acho que você pode cuidar de si mesmo.
Ele apenas beijou sua testa novamente. E foi assim.
Agora, Yrene passou os dedos contra os dele, a mão de Chaol se curvando na sua, enquanto Sartaq limpava a garganta e segurava a mão magra de Duva. Para exibir a aliança de casamento ali.
— Nossa irmã foi escravizada por um demônio enviado por Perrington na forma deste anel.
Murmúrios e pessoas se mexendo.
— Absurdo — Arghun cuspiu.
— Perrington não é um homem. Ele é Erawan — declarou Sartaq, ignorando seu irmão mais velho, e Yrene percebeu que Nesryn devia ter contado tudo a ele. — O rei valg.
Ainda segurando a mão de Yrene, Chaol acrescentou para todos ouvirem:
— Erawan enviou esse anel como um presente de casamento, sabendo que Duva iria colocá-lo, sabendo que o demônio a capturaria. No dia de seu casamento. — Eles deixaram o segundo anel na Torre, trancado dentro de um dos cofres antigos, para ser eliminado mais tarde.
— O bebê — o khagan exigiu, os olhos naquela cintura inchada, as marcas arruinando seu pescoço onde Hafiza já havia removido os piores dos estilhaços.
— Estas são mentiras — Arghun ferveu. — De pessoas desesperadas e trapaceiras.
— Não são mentiras — Hafiza cortou, queixo erguido. — E nós temos testemunhas que dirão o contrário. Guardas, curandeiras e seu próprio irmão, o príncipe, se não acreditar em nós.
Desafiar a palavra da Alta Curandeira... Arghun fechou a boca.
Kashin foi para a frente da multidão, ganhando uma encarada de Hasar enquanto passava por ela.
— Isso explica... — Ele olhou para a irmã adormecida. — Ela não tem sido a mesma.
— Ela era a mesma — disse Arghun.
Kashin lançou um olhar para seu irmão mais velho.
— Se você se dignasse a passar algum tempo com ela, teria percebido as diferenças. — Ele balançou a cabeça. — Pensei que o mau humor fosse pelo casamento arranjado, depois a gravidez. — Sofrimento inundou seus olhos quando encarou Chaol. — Ela fez isso, não fez? Ela matou Tumelun.
Uma onda de choque atravessou o salão enquanto todos os olhos estavam fixos sobre ele. Mas Chaol voltou-se para o khagan, cujo rosto estava pálido e devastado de uma maneira que Yrene ainda não tinha visto, e não podia imaginar. Perder uma filha, suportar isso...
— Sim — respondeu Chaol, inclinando a cabeça para o khagan. — O demônio confessou, mas não foi Duva. O demônio fez parecer que Duva lutava contra cada segundo – furiosa com a morte da sua filha.
O khagan fechou os olhos por um longo momento.
Kashin levantou as palmas para Yrene no pesado silêncio.
— Você pode curá-la? Se ela ainda permanecer lá dentro? — Um pedido quebrado. Não de um príncipe para uma curandeira, mas de um amigo para outro. Como já haviam sido, como ela esperava que fossem novamente.
A multidão estava focada em Yrene agora. Ela não deixou um pingo de dúvida curvar sua coluna quando respondeu:
— Eu vou tentar.
— Há coisas que o senhor deve saber, Grande Khagan — Chaol acrescentou. — Sobre Erawan. A ameaça que ele apresenta. O que você e essa terra podem oferecer contra ele. E podem ganhar no processo.
— Você pensa em planejar em um momento como este? — Arghun criticou.
— Não — Chaol disse claramente, sem hesitação. — Mas considere que Morath já chegou a estas margens. Já matou e prejudicou aqueles que você gosta. E se não nos levantarmos para encarar essa ameaça... — Seus dedos apertaram os de Yrene. — A princesa Duva será apenas a primeira. E a princesa Tumelun não será a última vítima de Erawan e dos valg.
Nesryn deu um passo à frente.
— Nós chegamos com notícias graves do sul, Grande Khagan. As kharankui estão voltando novamente, chamadas pela... força sombria que as comanda. — Muitos se agitaram com o termo que ela usara. Mas alguns se entreolharam, confusão em seus olhos, e Nesryn explicou: — Criaturas da escuridão do reino valg. A guerra já vazou para estas terras.
Murmúrios silenciosos e farfalhar de trajes.
Mas o khagan não afastou os olhos de sua filha inconsciente.
— Salve-a — disse ele. Palavras dirigidas a Yrene.
Hafiza assentiu sutilmente para Yrene, fazendo um gesto para frente.
A mensagem era suficientemente clara: um teste. O final. Não entre Yrene e a Alta Curandeira. Mas algo muito maior.
Talvez o que realmente tivesse chamado Yrene para essas margens. A guiado por dois impérios, sobre montanhas e mares.
Uma infecção. Um parasita. Yrene enfrentou-os antes.
Mas esse demônio dentro... Yrene se aproximou da princesa adormecida.
E começou.

3 comentários:

  1. "a morte vai reivindicar vocês dois - juntos"
    porra, Sarah
    não mata

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  2. "— Para manter sua vida amarrada neste mundo, tivemos que ligá-la a outra. Com a dela. Duas vidas — Hafiza esclareceu — agora compartilhando uma trama."

    "Quando for a hora, se a morte for gentil ou cruel... Ela reivindicará vocês dois."

    Apesar de toda essa merda eu achei isso lindo, ain meu coração *-*
    Desse jeito a tia Sarah vai acabar comigo

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Comentários de volta!
Passamos algumas horas sem essa opção, mas estamos à ativa novamente :)

Boa leitura! E SEM SPOILER!