29 de janeiro de 2018

Capítulo 63

Agonia rugiu por sua coluna. Por suas pernas. Seus braços. Em seus próprios dedos.
Pior do que no castelo de vidro.
Pior do que nas sessões de cura.
Mas tudo o que ele podia ver, tudo o que tinha visto, era Yrene, aquele poder lançado para o coração dela...
Chaol bateu no chão, e o grito de Yrene o despedaçou através da dor.
Levante levante levante
— Que pena que todo o trabalho duro não adiantou nada — Duva disse, e apontou um dedo para a espinha dele. — Suas pobres, pobres costas.
Aquele poder sombrio acertou em sua espinha novamente.
Algo rachou.
E de novo. E de novo.
A sensação em suas pernas desapareceu primeiro.
— Pare — Yrene soluçou, de joelhos. — Pare!
— Corra — ele respirou, forçando as palmas das mãos sobre as pedras, forçando os braços a empurrar, erguê-lo...
Duva apenas enfiou a mão no bolso e puxou aquele anel preto.
— Você sabe como isso termina.
— Não — ele rosnou, e suas costas gritaram enquanto tentava e tentava se erguer em suas pernas...
Yrene deu um passo. Outro. Olhos indo entre eles.
De novo não. Ele não suportaria ver isso, suportar viver mais uma vez.
Mas então ele viu o que Yrene segurava em sua mão direita.
Em direção a que ela rastejava.
Sua espada.
Duva riu, pisando em suas pernas esticadas e imóveis, enquanto avançava para Yrene. À medida que Yrene se elevava em seus pés e levantava a espada dele entre as duas.
A lâmina tremia, assim como os ombros de Yrene quando ela soluçava por entre os dentes.
— O que você acha que pode fazer — Duva grunhiu — contra isso?
Chicotes de poder escuro, desdobrados das palmas da princesa.
Não. Ele gemeu a palavra, gritou para o corpo dele, as feridas surgindo em seu corpo, a agonia arrastando-o para baixo. Duva levantou o braço para atacar...
E o Yrene atirou a espada. Um lance direto, sem mira e selvagem.
Mas Duva se abaixou...
Yrene correu.
Veloz como uma corça, ela se virou e correu, entrando no labirinto de corpos e tesouros.
E como um caçador capturando um cheiro, Duva grunhiu e perseguiu sua presa.



Ela não tinha nenhum plano. Ela não tinha nada.
Sem opções. Nada.
A espinha de Chaol...
Se fora. Todo esse trabalho... fragmentado.
Yrene percorreu as pilhas de ouro, procurando, procurando...
As sombras de Duva explodiram em torno dela, enviando fragmentos de ouro voando no ar. Dourando cada respiração que Yrene tomou.
Ela arrancou uma espada curta de um baú transbordando de tesouros enquanto corria, a lâmina zumbindo pelo ar.
Se ela pudesse prendê-la, derrubar Duva por tempo suficiente...
Um golpe de poder quebrou o sarcófago de pedra diante dela. Pedaços de pedra voaram.
Yrene ouviu o baque antes de sentir o impacto.
Então sua cabeça gritou de dor, e o mundo inclinou-se.
Ela lutou para ficar de pé com cada batimento cardíaco, cada pedaço de foco que já dominara.
Yrene não deixou seus pés tropeçarem. Ela continuou se movendo, comprando qualquer tipo de tempo. Circulando uma estátua, ela...
Duva estava diante dela.
Yrene forçou-se a parar, aquela espada curta tão próxima do intestino da princesa, do útero...
Ela esticou os dedos, deixando cair a arma. Duva ficou firme, braços arrebatando o pescoço de Yrene. Imobilizando-a.
A princesa sibilou, empurrando-a de volta para a passagem central:
— Este corpo não gosta de correr tanto.
Yrene se debateu, mas Duva manteve seu aperto firme. Muito forte – para alguém de seu tamanho, ela era muito forte.
— Quero que você veja. Que ambos vejam — Duva zombou em seu ouvido.
Chaol tinha rastejado metade do caminho. Rastejado, sangue escorrendo, suas pernas não respondendo. Para ajudá-la.
Ele parou, sangue escorrendo de sua boca quando Duva entrou no corredor central, pressionando Yrene contra si.
— Devo fazer você me ver matá-lo, ou fazê-lo assistir enquanto coloco esse anel em você?
E mesmo com aquele braço empurrado contra a garganta, Yrene rosnou:
— Não toque nele.
Sangue em seus dentes cerrados, os braços de Chaol se esticaram e se curvaram enquanto tentava se levantar.
— É uma pena eu não ter dois anéis — Duva meditou para Chaol. — Tenho certeza de que seus amigos pagariam maravilhosamente por você. — Um grunhido. — Mas suponho que sua morte seja igualmente devastadora.
Duva afrouxou o braço eio de Yrene para apontar para ele...
Yrene se moveu.
Ela pisou no pé da princesa. Direto no peito do pé.
E enquanto a princesa balançava, Yrene bateu a palma da mão no cotovelo da mulher, soltando o braço de sua garganta.
Então, Yrene podia girar e dirigir o cotovelo diretamente no rosto de Duva.
Duva caiu como uma pedra, jorrando sangue.
Yrene pulou para a adaga na cintura de Chaol. A lâmina cantou enquanto a desembainhava e se jogou em cima da princesa atordoada, empurrando-a.
Puxou a lâmina para cima, para mergulhá-la no pescoço da mulher, para cortar a cabeça. Aos poucos.
— Não — Chaol disse rouco, a palavra cheia de sangue.
Duva o destruíra – destruiu tudo.
Pelo sangue que saía de sua boca, de sua garganta...
Yrene chorou, a adaga sobre o pescoço da princesa.
Ele estava morrendo. Duva quebrara algo dentro dele.
As sobrancelhas de Duva começaram a se contrair enquanto ela se movia.
Agora.
Ela tinha que fazer isso agora. Usar esta lâmina. Terminar.
Terminar, e talvez ela pudesse salvá-lo. Parar aquele sangramento interno letal. Mas a coluna, sua coluna...
Uma vida. Ela fez um juramento de nunca tirar uma vida.
E com esta mulher diante dela, a segunda vida em seu ventre...
A adaga baixou. Ela faria isso. Ela faria isso, e...
— Yrene — Chaol respirou, e a palavra estava tão cheia de dor, tão baixa...
Era tarde demais.
Sua magia podia senti-la, sua morte. Ela nunca tinha falado sobre aquele terrível dom – que os curandeiros sabiam quando a morte estava próxima. Silba, senhora das mortes gentis.
A morte que ela daria a Duva e seu filho não seria esse tipo de morte.
A morte de Chaol não seria esse tipo de morte.
Mas ela...
Mas ela...
A princesa parecia tão jovem, mesmo enquanto se mexia. E a vida em seu ventre...
A vida diante dela...
Yrene deixou a faca cair no chão.
Seu tilintar ecoou sobre o ouro, a pedra e os ossos.
Chaol fechou os olhos no que ela poderia ter jurado ser alívio.
Uma leve mão tocou seu ombro.
Ela conhecia aquele toque. Hafiza.
Mas enquanto Yrene olhava, enquanto se virava e soluçava...
Dois outros estavam atrás da Alta Curandeira, segurando-a na posição vertical. Deixando Hafiza se debruçar ao lado de Duva e soprar uma respiração no rosto da princesa, enviando-a para o sono imperturbável.
Nesryn. Seu cabelo soprado de vento, suas bochechas rosadas e rachadas...
E Sartaq, seu próprio cabelo muito mais curto. O rosto do príncipe estava tenso, os olhos arregalados quando viu sua irmã inconsciente e sangrando. Quando Nesryn murmurou:
— Nós chegamos tarde demais...
Yrene pulou pelas pedras para Chaol. Seus joelhos se esfolaram na rocha, mas ela mal sentiu, mal sentia o sangue que escorria pela sua têmpora enquanto pegava a cabeça em seu colo e fechava os olhos, levantando o poder.
Um lampejo branco, mas havia vermelho e preto em todos os lugares.
Demais. Muitas coisas quebradas e rasgadas e devastadas...
Seu peito quase não subia. Ele não abriu os olhos.
— Acorde — ela ordenou, sua voz quebrando. Ela mergulhou em seu poder, mas o dano... Era como tentar remendar buracos em um navio que naufragava.
Demais. Demais e...
Gritos, passos ao redor deles.
Sua vida começou a se transformar em névoa em torno de sua magia. A morte circundava, uma águia com um olho sobre eles.
— Lute — Yrene soluçou, sacudindo-o. — Você, homem teimoso, lute contra isso.
Qual era o objetivo, o motivo de tudo isso, se agora, quando importava...
— Por favor — ela sussurrou.
O peito de Chaol levantou-se, uma nota alta antes da última respiração...
Ela não podia suportar isso. Não suportaria...
Uma luz cintilou. Dentro daquela massa fraca de vermelho e preto.
Uma vela se acendeu. Um florescimento de branco.
Então outra.
Outra.
Luzes floresceram ao longo desse interior quebrado. E onde eles brilhavam...
Carne se juntava. Osso suavizava.
Luz após luz após luz.
Seu peito continuou a subir e a descer. Subir e descer.
Mas dentro da dor e no escuro e na luz...
Uma voz de mulher familiar e estrangeira. Uma voz que era tanto de Hafiza quanto de... outra.
Alguém que não era humano, nunca foi. Falando pela própria Hafiza, suas vozes se misturando à escuridão.
O dano é grande demais. Deve haver um custo para ser reparado.
Todas aquelas luzes pareciam hesitar àquela voz do outro mundo.
Yrene roçou ao longo delas, atravessou-as como um campo de flores brancas, as luzes balançando e balançando neste lugar calmo da dor.
Não luzes... mas curandeiras.
Ela conhecia suas luzes, suas essências. Eretia – essa mais próxima dela era Eretia.
A voz que era tanto de Hafiza quanto da Outra dissenovamente, Deve haver um custo.
Pelo que a princesa fez com ele... Não havia retorno.
Eu pagarei. Yrene disse dentro da dor e do escuro e da luz.
Uma filha de Charco Lavrado pagará a dívida de um filho de Adarlan?
Sim.
Ela poderia ter jurado que uma mão suave e quente acariciou seu rosto.
E Yrene sabia que não pertencia a Hafiza ou a Outra. Não pertencia a nenhuma curandeira viva.
Mas de alguém que nunca a abandonou, mesmo quando foi transformada em cinzas ao vento.
A Outra disse: Você oferece por sua própria vontade?
Sim. Com todo o meu coração.
Tinha sido dele desde o início, de qualquer maneira.
Essas mãos amorosas e fantasmas roçaram sua bochecha novamente e desapareceram.
A Outra disse: Eu escolhi bemVocê deve pagar a dívida, Yrene Towers. E espero que veja isso pelo o que é de verdade.
Yrene tentou falar. Mas a luz acendeu, suave e calmante.
Ela a cegou, dentro e fora. Deixou-a encolhendo-se sobre a cabeça de Chaol, seus dedos segurando a camisa dele. Sentindo seus batimentos cardíacos trovejando nas palmas de suas mãos. O raspar de sua respiração contra sua orelha.
Havia mãos em seus ombros. Dois conjuntos. Eles apertaram, um comando silencioso para levantar a cabeça. Yrene o fez.
Hafiza estava atrás dela, Eretia ao seu lado. Cada uma com uma mão no ombro dela.
Atrás delas estavam duas curandeiras. Cada uma com as mãos nos ombros delas.
Atrás delas, mais duas. E mais. E mais.
Uma corrente de poder vivo.
Todas as curandeiras da Torre, jovens e velhas, estavam naquela sala de ouro e osso.
Todas conectadas. Todas canalizando para Yrene, até o local que ainda segurava em Chaol.
Nesryn e Sartaq estavam a poucos metros de distância, a primeira com uma mão sobre a boca. Porque Chaol...
As curandeiras da Torre baixaram as mãos, cortando a ponte de contato, enquanto os pés de Chaol se moviam.
Então seus joelhos.
E então seus olhos se abriram, e ele estava olhando para Yrene, as lágrimas dela caindo em seu rosto incrustado de sangue. Ele levantou uma mão para tocar seus lábios.
— Morto?
— Vivo — ela sussurrou, e baixou o rosto para o dele. — Muito vivo.
Chaol sorriu contra sua boca, suspirando profundamente quando disse:
— Bom.
Yrene ergueu a cabeça, e ele sorriu novamente para ela, o sangue seco soltando de seu rosto com o movimento.
E onde aquela cicatriz uma vez marcara sua bochecha... apenas pele sem marcas permanecia.

9 comentários:

  1. Olha, criei o rio amazonas aqui

    ResponderExcluir
  2. Espero que esse preço não seja muito cruel.

    ResponderExcluir
  3. Que capítulo foi esse Senhor? Eu chorei, meu Deus, que livro é esse? Eu achava que iria odiar esse livro, mas me arrependo de ter julgando antes de ler.

    ResponderExcluir
  4. Meu Deus... quanto sofrimento... pensei que Chaol morreria... qual será o preço?

    ResponderExcluir
  5. Caramba quase que eu preciso ser curada de um ataque cardíaco socorro tia Sara quer matar a gente😲😲

    ResponderExcluir
  6. Que preço e esse???? Aí caramba.....

    ResponderExcluir
  7. Tive um ataata cardíaco.Mds jurei que tudo ia dar merda

    ResponderExcluir

Se você não tem conta no Google e quiser comentar, utilize a opção Nome/URL e preencha seu nome/apelido/nick; o URL pode deixar em branco.

Boa leitura, E SEM SPOILER!