29 de janeiro de 2018

Capítulo 60

Chaol estava eriçado ao lado de Yrene enquanto se apressavam pelas ruas estreitas de Antica, abarrotadas de pessoas indo para casa durante a noite. Não com raiva, ela percebeu, mas com propósito.
Aelin reunira um exército, e se eles conseguissem se juntar a eles, levando alguma força do khaganato...
Yrene viu a esperança em seus olhos. O foco.
Uma chance para esta guerra. Mas apenas se pudessem convencer a realeza.
Um último empurrão, ele declarou a ela quando entraram no interior frio da Torre e se apressaram pelas escadas.
Ele não se importava se tivesse que rastejar na frente do khagan. Ele faria uma última tentativa de convencê-lo.
Mas primeiro: Hafiza. E os livros que poderim conter uma arma muito mais valiosa que espadas ou flechas: conhecimento.
Seus passos não vacilaram quando entraram no interior infinito da Torre. Mesmo com tudo o que pesava sobre eles, Chaol ainda murmurou em seu ouvido:
— Não é de admirar que essas suas pernas sejam tão bonitas.
Yrene bateu nele, seu rosto aquecendo.
— Safado.
A esta hora, a maioria das acólitas já começava a jantar. Várias sorriram para Chaol quando passaram por ele na escada, algumas mais jovens, rindo. Ele lhes lançou sorrisos calorosos e indulgentes que as fez perderem o controle sobre suas risadinhas.
Dela. Ele era dela, Yrene queria dizer para nelas. Este homem bonito, corajoso e altruísta – era dela.
E ela iria para casa com ele.
Foi aquele pensamento que a fez voltar a si ligeiramente. A sensação de que essas caminhadas sem fim no interior da Torre agora poderiam ser limitadas. Ela não sentiria o cheiro da lavanda e do pão assado por muito tempo. Não ouviria essas risadinhas.
A mão de Chaol acariciou a dela como se quisesse dizer que ele entendia. Yrene apenas apertou seus dedos com força. Sim, ela deixaria uma parte de si aqui. Mas o que levaria consigo ao sair... Yrene sorria quando chegaram ao topo da Torre.
Chaol ofegava, apoiando uma mão na parede. A porta do escritório de Hafiza entreaberta, deixando a última sombra do pôr-do-sol aparecer.
— Quem construiu isso era um sádico.
Yrene riu, batendo na porta do escritório de Hafiza e empurrando-a para abri-la totalmente.
— Essa seria Kamala. E o rumor diz que ela... — Yrene parou, encontrando o escritório da Alta Curandeira vazio.
Ela o contornou e atravessou o local, caminhando para a sala de trabalho – a porta apenas encostada.
— Hafiza?
Nnão houve resposta, mas ela abriu a porta de qualquer maneira.
Vazio. A estante de livros, misericordiosamente, ainda trancada.
Provavelmente fazendo rondas, ou jantando, então. Embora tenham visto todos descerem para o jantar, ao bater do sino, e Hafiza não estivesse entre eles.
— Espere aqui — disse Yrene, e desceu as escadas para o próximo andar, um nível acima do próprio quarto de Yrene.
— Eretia — chamou ela, entrando na pequena sala.
A curandeira grunhiu em resposta.
— Vi um traseiro agradável passar por aqui há pouco.
A tosse de Chaol soou de cima.
Yrene bufou, mas disse:
— Você sabe onde Hafiza está?
— Em sua sala de trabalho. — A mulher nem se virou — Ela esteve lá o dia todo.
— Você... tem certeza?
— Sim. Eu a vi entrar, fechar a porta, e não saiu mais.
— A porta estava aberta agora.
— Então ela provavelmente passou por mim.
Sem dizer uma palavra? Essa não era a natureza de Hafiza.
Yrene coçou a cabeça, observando o patamar atrás dela. As poucas portas ali. Ela não se incomodou em se despedir de Eretia antes de bater nelas. Uma estava vazia; outra curandeira disse o mesmo: Hafiza estava em sua sala de trabalho.
Chaol esperava no topo das escadas quando Yrene subiu de volta.
— Sem sorte?
Yrene bateu no pé no chão. Talvez ela estivesse paranoica, mas...
— Vamos verificar o refeitório — foi tudo o que ela disse.
Ela pegou o brilho nos olhos de Chaol. A preocupação e o aviso.
Eles desceram dois níveis até Yrene parar em seu próprio andar.
A porta dela estava fechada – mas havia algo cravado debaixo dela. Como se um pé tivesse chutado algo por baixo.
— O que é isso?
Chaol tirou a espada tão rápido que ela nem o viu se mover, cada movimento de seu corpo, sua lâmina, uma dança. Ela se curvou e puxou o objeto para fora. Metal raspou em pedra.
E ali, pendurada em sua corrente... A chave de ferro de Hafiza.
Chaol estudou a porta, as escadas, enquanto Yrene puxava o colar sobre a cabeça com os dedos trêmulos.
— Ela não escorregou a chave ali por acidente — disse ele.
E se ela pensou em esconder a chave aqui...
— Ela sabia que algo estava vindo atrás dela.
— Não houve sinal de entrada forçada ou ataque no andar de cima — ele respondeu.
— Ela poderia ter ficado assustada, mas... Hafiza não faz nada sem pensar.
Chaol colocou uma mão na parte inferior de suas costas, levando-a para a escada.
— Precisamos avisar a guarda – juntar um grupo de buscas.
Ela ia passar mal. Ia vomitar pelos degraus.
Se ela tivesse trazido isso sobre Hafiza...
O pânico não ajuda ninguém. Nada.
Ela se forçou a respirar. Mais uma vez.
— Precisamos ser rápidos. Suas costas podem...
— Consigo lidar com elas. Me sinto bem.
Yrene avaliou sua posição, seu equilíbrio.
— Então depressa.



Girando e girando, eles voavam pelos degraus da Torre. Perguntando a quem passasse se viram Hafiza. Em sua sala de trabalho, todos disseram.
Como se ela simplesmente tivesse desaparecido para o nada. Em sombras.
Chaol vira o suficiente, suportara o suficiente, para ouvir seu instinto.
E seu instinto lhe disse que algo aconteceu ou estava se desenrolando.
O rosto de Yrene era branco de osso com medo, aquela chave de ferro saltando contra seu peito a cada um de seus passos. Eles chegaram à base da Torre, e Yrene alertou o guarda mais próximo em questão de palavras, calmamente explicando que a Alta Curandeira estava desaparecida.
Mas os grupos de busca demoraram muito para se organizar. Qualquer coisa poderia acontecer no período de minutos. Segundos.
No corredor movimentado do nível principal da Torre, Yrene perguntou a alguns curandeiros sobre a localização de Hafiza. Não, ela não estava no refeitório. Não, ela não estava nos jardins de ervas. Eles tinham acabado de passar por ali e não a viram.
Era um complexo enorme.
— Nós cobriremos mais terreno se nos dividirmos — pensou Yrene, verificando o corredor.
— Não. Eles podem estar por esperando isso. Nós ficamos juntos.
Yrene esfregou as mãos sobre o rosto.
— Histeria generalizada pode fazer... a pessoa agir mais rápido. Mantemos isso entre nós. — Ela baixou as mãos. — Por onde começamos? Ela poderia estar na cidade, poderia estar mo...
— Quantas saídas conduzem da Torre para as ruas?
— Apenas o portão principal, e um pequeno na lateral para as entregas. Ambos muito bem guardados.
Eles visitaram ambos em um período de minutos. Nada. Os guardas foram bem treinados e mantiveram um registro de todos que entraram e saíram. Hafiza não tinha sido vista. E nenhuma carroça entrou ou saiu desde o início da manhã. Antes que Eretia a viu pela última vez.
— Ela tem que estar em algum lugar por perto — Chaol falou, examinando a torre acima, o complexo dos médicos. — A menos que você possa pensar em outra maneira de entrar ou sair. Talvez algo que possa ter sido esquecido.
Yrene ficou completamente imóvel, seus olhos brilhantes como chama no crepúsculo afundando.
— A biblioteca — ela respirou, e se lançou em uma corrida.
Veloz – ela era rápida, e tudo o que podia fazer era tentar acompanhá-la. Correr. Deuses santos, ele estava correndo e...
— Há rumores de túneis na biblioteca — disse Yrene, levando-o a um corredor familiar. — Bem abaixo. Eles se ligam ao exterior. Para onde, não sabemos. Dizem que eles foram selados, mas...
Seu coração trovejou.
— Isso explicaria como puderam ir e vir despercebidos.
E se a velha tivesse sido levada para lá...
— Como eles conseguiram que ela fosse? Sem que ninguém percebesse?
Ele não queria responder. Os valg podiam invocar sombras se desejassem. E se esconder dentro delas. E essas sombras poderiam se tornar mortais em um instante.
Yrene derrapou e parou na frente da mesa principal da biblioteca, a cabeça de Nousha se elevando. O mármore era tão liso que Yrene teve que se agarrar nas bordas da mesa para não cair.
— Você viu Hafiza? — ela perguntou bruscamente.
Nousha olhou de um para o outro. Observou a espada que ele ainda carregava.
— O que está errado?
— Onde ficam os túneis? — exigiu Yrene. — Os que foram fechados, onde ficam?
Atrás dela, um gato de Bastet cinzento saltou de sua vigília na lareira e correu para a biblioteca.
Nousha olhou para um velho sino do tamanho de um melão sobre a mesa. Um martelo estava ao seu lado.
Yrene colocou a mão sobre o martelo.
— Não. Isso os alertará, saberão que sabemos.
A pele morena da mulher pareceu desbotar.
— Vá até o nível inferior. Caminhe direto para a parede. Vire para a esquerda. Siga a parede mais distante até o fim. Onde a pedra é áspera e não polida. Vire à direita. Você vai vê-los.
O peito de Yrene pesava, mas ela assentiu, murmurando as instruções para si. Chaol as memorizou, plantou-as em sua mente.
Nousha levantou-se.
— Devo convocar a guarda?
— Sim — disse Chaol. — Mas silenciosamente. Envie-os atrás de nós. O mais rápido possível.
As mãos de Nousha tremiam quando as dobrou a sua frente.
— Esses túneis foram deixados intocados por muito tempo. Esteja atento. Mesmo nós não sabemos o que está lá embaixo.
Chaol debateu mencionar a inutilidade de avisos crípticos antes de mergulhar na batalha, mas simplesmente entrelaçou os dedos nos de Yrene e se lançou pelo corredor com ela.

12 comentários:

  1. Ah não... por que algo terrível sempre tem que acontecer após revelações difíceis à um personagem, e então ele é deixado sozinho?

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  2. Esse livro tá me arrepiando mais que os beijos do @

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  3. ah não
    biblioteca não
    túnel não
    vou ter pesadelos

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  4. minha reação à esse capítulo: MERDAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAA
    "A calmaria antes da tempestade" é sempre assim

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  5. Good sempre biblioteca......gnt eu quero muuito sabe quem e esse agnt
    Logo hafira gosto tanto dela

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  6. Restam poucos capítulos e a história n parece estar chegando na conclusão. Prevejo o final trágico como no Império de Tempestades

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  7. Há! Eu bem que desconfiei que algo assim ia acontecer desde o momento que a Hafisa contou aquelas coisas para a Yrene.
    Xente! Essa história está completamente louca! Mal consigo acompanhar tantas reviravoltas! Medo pelo final do livro O.O

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  8. Todos são suspeito, mas dos príncipes acho que consigo excluir de certeza dois, Hassa e Satarq, e tenho quase certeza que o primogênito tbm não é. Minha suspeita maior é Hashim. O bom Hashim, sempre a sombra dos irmãos... até de Hafixa eu tava desconfiando... to ficando louca já jkkkkkkkk

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    1. Tbm desconfio fortemente dele, o irmão que obdece sem pestanejar, esse interesse em Yrene...

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  9. Eu to suspeitando de mta gente..pode ser a criada..a bibliotecaria..alguma curandeira ou um dos irmaos..

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Boa leitura, E SEM SPOILER!