15 de janeiro de 2018

Capítulo 6. Um encontro inesperado

— O que está fazendo por aqui, garoto? — perguntou o detetive Andrade, saltando do carro e segurando Miguel pelo braço. — O que você quer nesta casa?
— Eu? Nada... —respondeu Miguel, tentando livrar-se do aperto.
— Você não sabe que casa é esta? Vamos, responda!
O detetive Rubens colocou-se entre os dois. Afastou Andrade firmemente com uma das mãos e passou o outro braço em torno dos ombros de Miguel.
— Calma, Andrade. Deixe o garoto comigo.
— Não se meta, Rubens. Eu quero saber o que esse moleque está fazendo aqui. Esta é a casa daquele garoto que desapareceu lá do Dante. Eu quero saber...
Miguel tentou manter a cabeça no lugar. Percebeu que o jeito era bancar o garoto assustado:
— Eu... eu não sabia. O que é que tem essa casa? Eu ia falar com um amigo que...
— Ah, é? — gozou Andrade. — E você também estava visitando amiguinhos quando foi fazer perguntas na casa daquela menina que desapareceu do Equipe? E na casa daquele garoto que sumiu do Vera? Hein? Responda!
Por um instante Miguel não soube o que responder. Ele estava sendo seguido o tempo todo! Por quê? Será que Magrí, Calú e Crânio também estavam sendo seguidos? Era preciso pensar depressa. Se a polícia desconfiava dele, era por causa de alguma coisa que ele tinha dito ou feito no interrogatório lá na sala do professor Cardoso, o diretor do Elite. Então não haveria razão para desconfiar dos outros três, a menos que a polícia soubesse da existência dos Karas.
Impossível! Ou não? Ou... teria o Chumbinho aberto o bico?
Aos poucos, a voz calma do detetive Rubens trouxe de novo o líder dos Karas à realidade:
— Desculpe, Miguel, mas é verdade. Você andou visitando as casas de dois dos garotos desaparecidos. Nós sabemos. Por quê? O que você tem a ver com isso?
— Nada. É que...
Pela primeira vez Miguel estava atordoado. Sua presença de espírito, tão brilhante em situações inesperadas, não lhe trazia qualquer inspiração.
Andrade não estava para brincadeiras:
— Você não acha suspeitas essas suas visitinhas, garoto? Logo quando um colega seu também sumiu?
— O senhor está enganado. Eu vim...
— Garoto, acho melhor me acompanhar até à delegacia. Acho que temos umas coisinhas a esclarecer.
— Espera aí, Andrade — interrompeu Rubens. — O rapaz é menor. Você não pode...
— Posso. Eu não estou prendendo o garoto. Estou apenas querendo interrogar uma possível testemunha.
— Está bem, Andrade — concordou o detetive Rubens com um suspiro resignado. — Vamos, então.
Andrade abriu a porta da viatura e empurrou Miguel para dentro.
— Você fica, Rubens. A bicicleta do garoto não cabe no carro.
Fique aqui com ela. Eu mando uma viatura maior para buscar você e a bicicleta.
O rosto do detetive Rubens alterou-se:
— Nada disso, Andrade. Eu vou também. Faço questão...
— Quem está comandando este caso sou eu. Você fica, Rubens!
Andrade bateu a porta e arrancou. O guincho dos pneus deixou para trás o detetive Rubens e a bicicleta de dez marchas de Miguel.

* * *

Andrade dirigia calmamente, sem usar a sirene, e parecia mais controlado.
— Fique tranquilo, Miguel. Não precisa ter medo de nada. Desculpe o mau jeito, mas às vezes um policial precisa agir depressa. Eu queria falar a sós com você.
Sentado ao lado do detetive, Miguel pensou na única saída que lhe restava. Era arriscado, mas seu instinto o aconselhava a agir depressa.
Andrade nem pegou o microfone do carro para chamar pelo rádio uma viatura que viesse buscar o detetive Rubens e a bicicleta de Miguel. Nada disso. Dirigia devagar e falava com a maior calma do mundo:
— Tenho só uma perguntinha, Miguel. Por que você não deixou aquele menino falar, lá na sala do diretor?
— O Chumbinho? Eu não disse nada...
— Não, você não falou. Mas, de algum modo, você fez com que o garoto calasse a boca. Não sei como você fez, mas meus longos anos de polícia permitem que eu perceba pequenas coisas que não é todo detetive que percebe.
Miguel se sentiu cercado. Todos os seus passos e até os seus gestos de comando como líder dos Karas eram do conhecimento de Andrade! O carro da polícia começou a subir uma ladeira e o detetive teve de diminuir ainda mais a marcha.
— Eu não mandei o Chumbinho calar a boca — afirmou Miguel já com a mão direita na maçaneta da porta. — Pode perguntar a ele.
— Gostaria muito de falar com o Chumbinho, Miguel. Só que agora não é mais possível...
— Não é possível? Por quê?
— Porque o Chumbinho também desapareceu!
O impacto daquela notícia terrível apressou a decisão de Miguel. O carro estava em marcha lenta quando ele abriu a porta e jogou-se no asfalto, rolando para longe da viatura policial.

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