25 de janeiro de 2018

Capitulo 6. Um cadáver embrulhado em jornal

Estavam em um dos bosques de eucaliptos do Parque do Ibirapuera e um sol tímido aquecia suavemente os seis amigos.
Andrade já guardara no bolso o impresso amarelo com a suástica. Caiu era mesmo impressionante! Num momento de crise como o de encontrar o seu querido amigo e professor assassinado, o rapazinho conseguira descobrir no cesto de lixo um papel amarelo amassado que poderia ser uma pista. Uma pista valiosa. Andrade só não sabia como ligar uma organização neonazista de malucos com o assassinato de um dos maiores atores do Brasil.
Somente Chumbinho aceitou o sorvete oferecido por Andrade. O gordo detetive abriu cuidadosamente a embalagem do seu picolé. À sua frente, Caiu não parecia o mais bonito dos alunos do Colégio Elite. Parecia o mais furioso, o mais revoltado e o olhava quase como se ele, Andrade, tivesse alguma culpa a confessar.
Andrade suava, mesmo sob a temperatura agradável, até um pouquinho fria, do pequeno bosque. Passou o lenço pela careca e enfrentou o olhar de Calú.
— Eu compreendo que você esteja revoltado, Calú. Mas eu juro que vou descobrir quem matou o seu amigo! Você me ajudou muito com a descoberta do panfleto amarelo. Eu também já avancei, pelo meu lado. Ontem à noite, no teatro, depois que vocês saíram, surgiu uma pista que pode ser importante. Acho que é possível identificar quem estava sentado naquela poltrona da sexta fileira!
Magrí espantou-se:
— Como? Então você já sabe quem é o assassino?
— Quem era ele eu não sei, Magrí. Mas consegui descobrir, com o homenzinho que administra o teatro, um sujeito muito organizado, que alguns ingressos foram reservados pela produção para serem ofertados pelos atores aos seus convidados particulares à estreia. E a poltrona da sexta fileira fazia parte dessa reserva!
— Sensacional, Andrade! — cumprimentou Chumbinho. — E qual dos atores recebeu esse ingresso?
— Vocês não vão acreditar, meninos: o ingresso foi recebido e ofertado a alguém pelo próprio Solomon Friedman!

* * *

O velho alemão levou menos de uma hora do Castelo Wachenfeld até a sua pequena loja de taxidermia, numa ruazinha do bairro do Bexiga, perto do centro de São Paulo.
Durante toda a viagem para a loja onde ele reassumiria o disfarce que o protegera no Brasil durante todos aqueles anos, o Komandant saboreou a morte de Solomon Friedman, esquecendo-se do médico incompetente e seus processos.
“Agora não será mais necessário enviar aqueles panfletos ameaçadores para o maldito ator judeu. Ele está morto!”
Os panfletos amarelos tinham sido apenas uma espécie de pequena vingança por ele ser obrigado a viver escondido, com medo de cruzar com Solomon Friedman, o único ser vivo que poderia reconhecê-lo como o Todesengel, o “Anjo da morte”.
O Komandant tinha orgulho de ver seu nome nos livros de História. Só não concordava com eles. Quando se alistou nas tropas SS, ele era pouco mais que um adolescente, filho de um taxidermista de Hamburgo. Depois que foi promovido a tenente e designado para o campo de concentração de Sobibor, treinou um grupo de prisioneiros para embalsamar a cabeça de cada criança judia que saía das câmaras de gás.
“Mas esses malditos historiadores deturparam todo o meu trabalho! Eu mandei fazer aquilo com uma finalidade científica, para preservar aquelas cabeças de crianças, de modo que, no futuro, os cientistas alemães pudessem estudar as características raciais daquele povo de vermes que logo não mais existiria sobre a face da Terra. Mas a História não me compreendeu, e a fúria do mundo desabou sobre mim depois da descoberta da minha galeria de dezoito mil cabeças infantis embalsamadas... Que injustiça! Que falta de compreensão!”
Durante décadas, o alemão estivera a salvo das organizações judaicas, para quem ele era apenas um judeu como eles, sobrevivente do campo de concentração de Sobibor, na Polônia. Um judeu recluso, um homem que vivia recolhido com seus fantasmas, sem conviver com a colônia judaica, sem conviver com ninguém.
Em 1944, quando o III Reich estava perdido, seu plano tinha sido perfeito. Conseguira trocar de identidade com um judeu fugitivo de Sobibor e fora “libertado” pelas tropas soviéticas que avançavam sobre a cidade russa de Brest-Litóvsk, na fronteira com a Polônia.
“Mas por que é que eu tinha, com os diabos, de refugiar-me depois da guerra justo no mesmo país que acolhera Solomon Friedman, um dos três malditos judeus que eu não tive tempo de liquidar naquela madrugada, no porão do armazém russo?”
Mas agora o pesadelo tinha terminado, e o Komandant poderia sentir-se seguro. Agora ele podia agir tranquilo até que pudesse voltar a ser quem era. Depois, novamente no poder, ele alteraria os livros de História, registrando neles sua verdadeira atuação na Segunda Guerra Mundial.
“E o mundo há de reconhecer o meu valor!”
Rodou em volta do quarteirão onde ficava sua oficina de taxidermia até encontrar uma vaga para estacionar, em local permitido. Ele desprezava esses brasileiros que deixam os carros até debaixo das placas de proibido estacionar. Ele não. O Komandant respeitava as leis.
Abriu as portas da oficina e acendeu uma luz muito fraca. Sentou-se na frente da bancada de trabalho e tirou uma cadernetinha do bolso. Folheou-a lentamente.
Ali estavam todos os nomes. Todos os homens que haveriam de ajudar a Organização a instalar o IV Reich. Que estratégia brilhante! Um plano perfeito. O IV Reich seria imbatível! Na semana seguinte à chegada do Esperado, cada um daqueles homens chegaria ao Brasil, e os últimos detalhes da tomada do poder mundial estariam acertados.
— E o mundo há de reconhecer o meu valor! — repetiu o Komandant, em voz alta.
Guardou a cadernetinha numa gaveta, trancou-a e foi até a geladeira, onde guardara o trabalho que deveria terminar até o final da semana. Uma senhora rica o encarregara de empalhar seu velho gato angorá de estimação, que acabara de morrer. O cadáver do animalzinho estava duro como pedra, embrulhado em um jornal do dia anterior.
O Komandant pegou o pacote, colocou-o sobre a bancada de trabalho e começava a desembrulhá-lo quando uma notícia naquele jornal deixou-o branco e gelado como o cadáver do gato. Como uma ressurreição dos infernos, a legenda de uma foto trouxe para ele o pesadelo de volta: Ferenc Gábor, curador universal da obra de Davi Segai, chega hoje a São Paulo...

* * *

A revelação de Andrade calou os Karas por um momento, revoltados com a ironia da situação. Solomon Friedman tinha convidado seu próprio assassino para a estreia!
Miguel quebrou a linha de pensamento de todos, tentando pôr um pouco de ordem no que tinham conseguido juntar:
— Muito bem, pessoal. Já sabemos que o provável suspeito pode ser um velho com sotaque alemão, possivelmente um neonazista que manda impressos com ofensas aos judeus. Um velho alemão que estava sentado na sexta fileira e foi visto por aquela testemunha. Um homem que esbarrou em Calú, na porta que leva da plateia aos camarins. Alguém que se gaba de ter um inferno particular. Um demônio. E agora sabemos que a vítima o conhecia. Podemos até pensar que o velho Sol o estimava, pois chegou a convidá-lo para a estreia, sem saber que era ele quem lhe mandava impressos com aquelas ofensas nojentas...
Miguel fez uma pausa, raciocinando. Era preciso dar mais um passo, mas ele não sabia qual.
— Se o velho Sol conhecia seu próprio assassino, talvez a gente encontre novas pistas no passado de Solomon Friedman — sugeriu Crânio, voltando-se para Calú. — Você não acha?
— Nem sei o que achar, Crânio! — lamentou-se Calú.
— O velho Sol sempre conversava comigo sobre sua vida na Europa. Era muito alegre, falador e contava as barbaridades que viveu durante a guerra como se tudo não passasse de uma aventura, como se fosse um roteiro de cinema. Na verdade, ele achava importante passar adiante sua experiência. Ele vivia dizendo que o conhecimento do Mal era a única maneira de impedir que o Mal se repetisse...
Calú começou a rememorar a vida do seu velho e querido professor para os amigos. À medida que falava, tudo lhe revolvia a alma, aumentando-lhe a tristeza...

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