20 de janeiro de 2018

Capítulo 6. E se chamava Robson

Crânio foi acordado em meio à mais linda madrugada que poderia ter sonhado.
Do negror absoluto, as cores iam surgindo, separando-se e definindo-se sem pressa, em direção a luzes mais diversas que as cores do arco-íris. Com o colorido, amanheciam também os sons, numa sinfonia que começa com delicadeza e cresce lenta, misturando os acordes, até todos os instrumentos tocarem juntos, levando o ouvinte a sentir-se parte daquele grande espetáculo chamado “vida”.
O Senador não estava à vista. Crânio lembrou-se de ter ouvido vagamente um ruído de motores em meio ao seu sono pesado. Deveria ser o Tucano amarelo levando o cadáver do coureiro.
Ainda estava inebriado por tudo o que via, quando lhe apresentaram o “quebra-torto”, o café da manhã de todo mundo naquele lugar. Um angu de farinha com peixe, àquela hora da madrugada!
— Coma, garoto. Isso é a sustança do Pantanal.
— Estou sem fome...
Por sorte, havia um tipo de pão pesado, ainda quente, e leite à vontade, cheiroso e espumante. Crânio comeu valentemente e distribuiu pão molhado em leite para o Cabo Malandro e para os outros macaquinhos.
Um empregado veio informar-lhe uma mensagem de rádio de tia Matilde. O conserto do avião rosa-choque corria bem e, dentro de um ou dois dias, os dois finalmente se encontrariam.
Iluminado pelas cores do amanhecer, o guia índio esperava pelo garoto ao pé da varanda. Um índio! Aquilo era um índio? Tinha um porte altivo e um físico de dar inveja a qualquer atleta. Mas, pelo jeito, estava disfarçado de branco. Cabelos penteados e fixados à força de gomalina, óculos escuros e uma camiseta nova, onde se lia o nome de uma universidade americana. Pendurado na cintura, um radinho a pilha berrava um rock de sucesso, quase impedindo a conversação.Aquilo era um índio. E se chamava Robson!
Poucas palavras Crânio havia ouvido dos empregados daquela fazenda. Pareciam todos sérios demais, calados demais. Mas aquele índio era diferente. Trazia um sorriso deslumbrado no rosto que não se apagava nunca, e falava sem parar,sempre alto, disputando com o volume do radinho a pilha.
— É melhor ir pela água, moço novo — propôs o guia, sem tocar no preço dos seus serviços, que pelo jeito tinha sido acertado pelo Senador. — Já tem uma chalana preparada. Hoje a gente corre os corixos até o ninhal da praia vermelha.
Depois...Antes de partir, o gênio dos Karas voltou para o quarto em busca da caixa de slides. A malinha estava aberta, jogada na cama, e suas coisas estavam espalhadas por todos os lados.
A caixa de slides tinha desaparecido!

* * *

O índio Robson fazia a chalana navegar livremente. Os remos apenas relavam a superfície das águas, deixando a correnteza conduzir a embarcação suavemente.
Crânio começou a entender o que o Senador queria dizer ao comparar o Pantanal ao paraíso. Estavam num corixo que ia dar no rio Taquari, cercados pelo roxo dos ipês, no auge da floração, e pelo amarelo das flores dos cambarás. As árvores formavam enormes ramalhetes separados de quando em quando pelas salinas, lagoas coloridas de água salgada, lembrança do lendário mar dos Xaraés, que há milhares de anos dera origem ao Pantanal. Em volta dessas lagoas, o sal não deixava crescer nenhuma vegetação.
As águas do corixo eram tranquilas, e Crânio podia ver peixes coloridos, como em um aquário.
— Pena que você não quis pescar, moço novo. Se quiser, Robson pode mostrar as melhores grotas para descobrir dourado, pacu, pintado e até jaú!
— Obrigado, Robson. Prefiro olhar, só.
— Bonito o nome Robson, não é mesmo? Conheci um moço branco e ricocom esse nome. Pedi e ele me deu o nome. Agora é meu, Robson!
— Ele lhe deu seu nome? — brincou o rapaz. — E ficou sem nome nenhum?
— Não. Eu dei outro nome pra ele. Dei o nome de Sariruá.
— E ele?
— Ele riu. Deve ter ficado contente!
Crânio não disse nada.
— Robson é o melhor guia do Pantanal, moço novo — gabou-se o índio,falando de si como se fosse outra pessoa. — Robson estudou, sabe ler. Conhece tudo e por isso cobra caro. Não é como esses índios que andam por aí. Não sabem nada e aceitam trabalhar pelo dinheiro de duas pingas. Por isso acabam devendo tanto nos armazéns dos contrabandistas de peles que o jeito é matar jacarés à noite para cobrir as dívidas!
Robson denunciava uma das táticas infalíveis dos contrabandistas, que faziam de cada índio miserável do Pantanal um assassino de jacarés. Um destruidor do próprio meio, cuja destruição o tornara miserável.
— Teve um turista que disse a Robson que o nome Pantanal está errado. Que pantanal é o mesmo que pântano, e que pântano é um lugar escuro, com árvores mortas. Robson nunca viu esse tal de pântano e nem quer ver. O que Robson sabe é que o Pantanal nunca foi escuro e nunca deu medo a ninguém. O único pântano que tem por aqui é esse pântano de sangue. Do sangue dos jacarés...
O índio sorriu, mostrando dentes perfeitos.
— De Pantanal Robson entende. Robson é o melhor guia do Pantanal! Por isso Robson cobrou caro do tal turista. Ah, se cobrou!
Entusiasmado por ter alguém a ouvi-lo, Robson não calava a boca. Aos poucos, Crânio foi se desligando daquela tagarelice, só tendo olhos e atenção para o objetivo que o trouxera ao Pantanal. Alguém lhe roubara os slides, mas Crânio não precisava deles. Cada foto daquela sequência estava registrada em sua memória prodigiosa. Se aquele fosse mesmo o roteiro do professor, ele o reconheceria na hora. Até aquele momento, porém, nada lhe parecia familiar. Mas tudo parecia sem limites, como quando se sonha acordado.
Robson identificava cada ruído para o visitante. Aquele pio agourento era da inhuma, e aquele bando estridente que passava voando eram araras vermelhas. Nas baías, periquitos, maritacas e tuins disputavam coquinhos nas palmeiras de pequi.
De repente, um som fortíssimo e assustador sobrepôs-se aos demais.
— É o macho guariba. O macacão está marcando o seu território, moço novo. Outro macho que quiser entrar lá vai ter de brigar! Dizem que é o som animal mais forte do mundo. Robson não conhece o mundo todo, mas esse é o barulho mais forte do mundo pantaneiro. E o Pantanal Robson conhece. Por isso cobra caro.
O sol já estava alto quando a chalana entrou num corixo mais largo. O maior habitante daquelas águas reinava absoluto por todos os lados, nas águas, nas baías e nas praias, como um imperador preguiçoso. O jacaré!
— Veja, moço novo. A maior riqueza do Pantanal. O “colete” dele vale muito. Mas não valia nada quando o pai do avô de Robson pescava livre nesses rios. O que valia era o jacaré. Não valia dinheiro, mas valia muito. O pai do avô de Robson contava que isso aqui estava cheio de jacarés.
— E o que eu estou vendo é pouco?
— Tinha muito mais, moço novo. Muito mais! Isso não é nada perto do que tinha antes. Mas o preço do colete do jacaré está acabando com ele. Por isso tem tanta piranha...
Crânio olhou assustado para as águas.
— Aqui não tem piranha, moço novo. Fique sossegado.
Na margem, uma capivara bebia à vontade, quase ao lado de um jacaré-açu, que nem parecia ligar para a presença de um almoço tão fácil.
— O jacaré não ataca assim, sem mais nem menos. Dá até para chegar perto...
Um pássaro enorme, de papo vermelho, pôs-se a correr desengonçado, como se não conseguisse voar. Batia as asas, abertas numa envergadura de mais de dois metros, fazendo o barulho de um trapalhão. Por fim alçou um voo elegante, poderoso, dominando os ares como um rei que sabe de sua importância. Era o tuiuiú, ou jaburu, a ave-rei do Pantanal. O símbolo daquele zoológico de sonhos.
Robson manobrou, fazendo a chalana costear a margem, quase roçando um jacaré. À frente, um capão de árvores parecia ser o destino daquela manobra. Os sons eram algo que Crânio nem podia imaginar. Tinham chegado à praia Vermelha. Aquilo era um ninhal.
O coração do rapaz disparou. Imediatamente reconheceu o capão de árvores. Estavam na pista certa. O professor Elias estivera ali!
— O pai do avô de Robson contava que antes não tinha disso por aqui. Ninguém sabe dizer por que de uma hora para outra os pássaros resolveram viver juntos, nesses ninhais. Robson acha que isso só começou depois que os homens brancos apareceram. Vai ver os pássaros têm medo dos homens brancos. Nunca fizeram isso enquanto só havia homens índios.
Era um espetáculo de cobrar ingresso dobrado. Centenas de pássaros de todos os tipos, marrequinhas, biguás, curicis, socos, garças, emas, baguaris, cabeças-secas e até colhereiros coabitavam o capão de árvores, formando uma comunidade interprotetora, superpovoada, barulhenta. Ninhos de todos os tamanhos espalhavam-se pelos galhos, e filhotes famintos faziam uma gritaria infernal. Em volta e embaixo, gaviões, jacarés e sucuris aguardavam pacientemente por um descuido que lhes valesse o almoço. Mas nenhum se aproximava, temeroso das consequências de um ataque das aves enfurecidas.
— Não faça barulho, moço novo. Se os pássaros se assustarem, podem fugir tão depressa que acabarão derrubando os filhotes dos ninhos. E aí vai ser a festa dos jacarés e das sucuris...
A chalana seguiu silenciosamente, passando por baixo do ninhal. Crânio imaginou que em nenhum lugar do mundo encontraria uma concentração de vida colorida e barulhenta como aquela. Teria sido o medo do homem branco destruidor que reunira tanta beleza?

Um comentário:

Se você não tem conta no Google e quiser comentar, utilize a opção Nome/URL e preencha seu nome/apelido/nick; o URL pode deixar em branco.

Boa leitura, E SEM SPOILER!