29 de janeiro de 2018

Capítulo 58

A manhã veio e se foi, e Yrene não estava com pressa para se levantar da cama. Nem Chaol. Eles tiveram um almoço tranquilo na sala de estar, sem se incomodar com roupas adequadas.
Hafiza decidiria em seu próprio tempo, se lhe daria aqueles livros. Então eles teriam que esperar.
E então esperar encontrar Aelin Galathynius novamente, ou qualquer outra pessoa que pudesse decifrá-los. Chaol disse o mesmo, depois que Yrene contou o que Hafiza confirmara.
— Deve haver alguma informação considerável dentro desses livros. — refletiu Chaol enquanto mastigava sementes de romã, a fruta como pequenos rubis em sua boca.
— Se eles são tão antigos quanto pensamos — disse Yrene — se tantos desses textos vieram da necrópole ou de locais similares, pode ser um achado. Sobre os valg. Nossa conexão com eles.
— Aelin teve sorte em Forte da Fenda, quando tropeçou naqueles poucos livros.
Ele havia contado a ela na noite passada – da assassina chamada Celaena, que acabou por ser uma rainha chamada Aelin. Toda a história dela, a descoberta. Longa e triste. Sua voz ficou rouca quando ele falou sobre Dorian. Do colar valg do príncipe. Daqueles que perdeu. De seu próprio papel, os sacrifícios que fez, as promessas que havia quebrado. Tudo isso.
E se Yrene já não o amava, ela o amou então, sabendo a verdade. Vendo o homem que ele estava se tornando, se transformando, depois de tudo isso.
— O rei, de alguma forma, os deixou passar durante a sua busca e purga iniciais.
— Ou talvez algum deus se certificou que ele os deixasse — pensou Yrene. Ela levantou uma sobrancelha. — Suponho que não haja qualquer gato de Bastet naquela biblioteca.
Chaol balançou a cabeça e pousou a casca vazia de romã.
— Aelin sempre teve um deus ou dois empoleirados em seu ombro. Nada me surpreenderia neste momento.
Yrene considerou.
— O que aconteceu com o rei? Se ele tinha aquele demônio valg.
O rosto de Chaol escureceu quando se recostou no sofá não tão confortável que substituía o dourado destruído.
— Aelin o curou.
Yrene sentou-se mais reta.
— Como?
— Ela o queimou dele. Bem, ela e Dorian.
— E o homem – o verdadeiro rei – sobreviveu?
— Não. Inicialmente, sim. Mas nem Aelin nem Dorian queriam falar muito sobre o que aconteceu. Ele sobreviveu o tempo suficiente para explicar o que tinha feito, mas acho que ele estava desaparecendo rapidamente. Então Aelin destruiu o castelo. E o rei junto.
— Mas o fogo destruiu o demônio valg dentro dele?
— Sim. E acho que ajudou a salvar Dorian também. Ou, pelo menos, comprou-lhe liberdade suficiente para lutar contra. — Ele inclinou a cabeça. — Por que pergunta?
— Por essa teoria que tive... — O joelho de Yrene balançou. Ela verificou a sala, as portas. Ninguém nas proximidades. — Eu acho... — Ela se inclinou mais perto, agarrando seu joelho — acho que os Valg são parasitas. Infecções.
Ele abriu a boca, mas Yrene avançou.
— Hafiza e eu tiramos uma solitária de Hasar quando vim aqui pela primeira vez. Elas se alimentam de seus hospedeiros, semelhante à forma dos valg. Dominam as necessidades básicas – como fome. E eventualmente matam seus hospedeiros, quando todos os recursos tiverem sido usados.
Chaol ficou absolutamente quieto.
— Mas estas não são larvas sem consciência.
— Não, e foi o que eu quis ver com você ontem. Quanta consciência a escuridão tinha. A extensão do seu poder. Se tinha deixado algum tipo de parasita em sua corrente sanguínea. Não deixou, mas... havia outro parasita se alimentando de você, dando controle.
Ele ficou em silêncio.
Yrene limpou a garganta, acariciando o pulso dele com o polegar.
— Percebi na noite passada. Que eu tinha um dos meus. Meu ódio, minha raiva, medo e dor. — Ela afastou um cacho solto. — Eles eram todos parasitas, alimentando-se de mim durante esses anos. Sustentando-me, mas também se alimentando de mim.
E uma vez que ela entendeu isso – que o lugar que ela mais temia pisar era dentro de si mesma, onde teria que reconhecer o que, exatamente, habitava dentro dela...
— Quando percebi isso, entendi o que os valg realmente são, no fundo. O que suas sombras são. Parasitas. E suportá-las durante essas semanas não era o mesmo que enfrentá-las. Então as ataquei como faria com qualquer outro parasita; examinei em torno delas. Fiz com que fossem até você – atacá-las o mais forte possível para sair de perto de mim. Para que você pudesse enfrentá-las, vencê-las. Para que então você pudesse ir para onde teme pisar, e decidir se, finalmente, estava pronto para lutar.
Seus olhos estavam claros, brilhantes.
— Essa é uma grande realização.
— Certamente foi. — Ela considerou o que ele havia relatado – sobre Aelin e o demônio dentro do rei morto. — O fogo limpa. É purificante. Entre as artes da cura, não é usado muitas vezes. Difícil demais de manejar. Água é mais bem ajustada à cura. Mas existem dons de cura pura. Como o meu.
— Luz — disse Chaol. — Pareciam luzes surgindo contra a escuridão.
Ela assentiu.
— Aelin conseguiu libertar Dorian e seu pai. Grosseiramente, e um não sobreviveu. Mas e se um curandeiro com meu tipo de dom fosse tratar alguém possuído – infectado por valg? O anel, o colar, são dispositivos de implantação. Como água ruim, ou comida contaminada. Simplesmente um portador de algo pequeno, o núcleo desses demônios, que então crescem dentro de seus hospedeiros. Removê-lo é o primeiro passo, mas você disse que o demônio pode permanecer mesmo depois.
Seu peito começou a subir em um ritmo desigual enquanto ele assentia.
— Acho que posso curá-los — Yrene sussurrou. — Acho que os valg... acho que são parasitas, e posso tratar as pessoas que estão infectadas.
— Então todos que Erawan capturou, mantidos com anéis e colares...
— Potencialmente, poderíamos libertá-los.
Ele apertou sua mão.
— Mas você teria que se aproximar deles. E o poder deles, Yrene...
— Eu presumiria que é aí que Aelin e Dorian entrariam. Para segurá-los.
— No entanto, não há como testar essa teoria. Sem riscos consideráveis. — Seu maxilar apertou. — Tem que ser o motivo do agente de Erawan que a está caçando. Para apagar esse conhecimento. Para evitar que você perceba por meio da minha cura. E o transmita a outros curandeiros.
— Se esse for o caso, porém... Por que agora? Por que esperar tanto tempo?
— Talvez Erawan nem considerasse a possibilidade. Até Aelin ter expulsado o valg de Dorian e do rei. — Ele esfregou o peito. — Mas hexiste um anel. Era de Athril, amigo do rei Brannon e Maeve. Ele concedia imunidade dos valg a Athril. Estava perdido para a história, o único de seu tipo. Aelin o encontrou. E Maeve o queria o suficiente para trocar Rowan por ele. A lenda diz que a própria Mala forjou para Athril, mas... Mala amava Brannon, não Athril.
Chaol disparou do sofá, e Yrene o observou andar.
— Havia uma tapeçaria. No quarto antigo de Aelin. Uma tapeçaria que mostrava um veado e escondia a entrada que levava até ao tumba onde a chave de Wyrd tinha sido escondida por Brannon. Foi a primeira pista de Aelin que a colocou nesse caminho.
— E? — A palavra era pouco mais que um impulso de ar.
— E havia uma coruja entre os animais da floresta. Era a forma de Athril. Não a de Brannon. Tudo aquilo foi codificado – a tapeçaria, a tumba. Símbolos sobre símbolos. Mas a coruja... Nós nunca pensamos. Nunca consideramos.
— Consideraram o quê?
Chaol parou no meio da sala.
— Que a coruja não era apenas a forma animal de Athril, mas de sua lealdade por outra pessoa.
E, apesar do dia quente, o sangue de Yrene esfriou enquanto dizia:
— Silba.
Chaol assentiu lentamente.
— A Deusa da Cura.
— Mala não forjou esse anel de imunidade — Yrene sussurrou.
— Não. Ela não. Silba.
— Precisamos ir a Hafiza — disse Yrene em voz baixa. — Mesmo que ela não nos deixe levar os livros, devemos perguntar se podemos vê-los – ver por nós mesmos o que poderia ter sobrevivido todo esse tempo. O que esses curandeiros feéricos podem ter aprendido naquela guerra.
Ele fez sinal para ela se levantar.
— Vamos agora.
Mas as portas da suíte se abriram e Hasar entrou, seu vestido dourado e verde fluindo.
— Bem — ela disse, sorrindo à falta de roupas deles, seus cabelos desgrenhados. — Pelo menos vocês dois estão confortáveis.
Yrene teve a sensação de que o mundo estava prestes a ser derrubado por baixo dela enquanto a princesa sorria para Chaol.
— Nós tivemos algumas notícias. De suas terras.
— O quê. — As palavras eram um grunhido.
Hasar cutucou suas unhas.
— Ah, só que o exército da rainha Maeve conseguiu encontrar Aelin Galathynius, que foi tão sorrateira. Aconteceu uma bela batalha.

3 comentários:

  1. Esse livro devia se chamar Torre das Revelações porque é uma atras da outra

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  2. Uma pergunta: se Maeve na vdd é uma rainha valg, pq ela ia querer o anel de Athril? Se ele concede imunidade aos valg e destruiu o demónio de Dorian, não destruiria ela tbm???!

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Passamos algumas horas sem essa opção, mas estamos à ativa novamente :)

Boa leitura! E SEM SPOILER!