29 de janeiro de 2018

Capítulo 55

A agonia o atravessou, interminável e profundamente.
Ele apagou por um minuto. Deixando-o cair livremente neste lugar. Este poço.
O fundo da descida.
O inferno oco embaixo das raízes de uma montanha.
Aqui, onde tudo estava trancado e enterrado. Aqui, onde tudo vinha para se enraizar.
O fundamento vazio, minado e cortado, desmoronou em nada além desse poço.
Nada.
Nada.
Nada.
Sem valor e nada.
Ele viu seu pai primeiro. Sua mãe e seu irmão e aquela montanha fria. Viu as escadas encrustadas com gelo e neve, manchadas de sangue. Viu o homem para quem ele se vendeu com prazer, pensando que deixaria Aelin em segurança. Celaena em segurança.
Ele enviou a mulher que amava para a segurança de outro assassinato. A enviou para Wendlyn, pensando que seria melhor do que Adarlan. Para matar sua família real.
Seu pai emergiu do escuro, o espelho do homem que ele poderia ter se tornado, poderia ser um dia.
Aversão e desapontamento apareceram no rosto de seu pai enquanto ele o contemplava, o filho que poderia ter sido.
O preço do pedido de seu pai... ele pensava que seria uma sentença de prisão.
Mas talvez tenha sido um tiro na liberdade – para salvar seu filho inútil e rebelde do mal que ele provavelmente suspeitava que estivesse prestes a ser desencadeado.
Ele havia quebrado essa promessa a seu pai.
Ele o odiava, e, no entanto, seu pai – aquele horrível e miserável bastardo – sustentou seu lado da barganha.
Ele... ele não.
Perjuro. Traidor.
Tudo o que ele tinha feito, Aelin viera para acabar. Começando com sua honra.
Ela, com sua fluidez, aquela área obscura na qual morava... Ele havia quebrado os seus votos por ela. Partido tudo o que ele era por causa dela.
Ele podia vê-la, no escuro.
Os cabelos dourados, os olhos turquesa que tinham sido a última pista, a peça final do quebra-cabeça.
Mentirosa. Assassina. Ladra.
Ela estava deitada no sol em uma espreguiçadeira na varanda da suíte que tinha ocupado no palácio, um livro no colo. Inclinando a cabeça para o lado, ela o olhou com aquele meio sorriso preguiçoso. Um gato agitando-se de seu repouso.
Ele a odiava.
Ele odiava esse rosto, a diversão e a precisão. O temperamento e a maldade que poderiam destruir alguém apenas com uma palavra – apenas um olhar. Apenas um momento de silêncio.
Ela gostava dessas coisas. Deliciava-se.
E ele tinha sido tão enfeitiçado por isso, por essa mulher que era uma fogueira viva. Estava disposto a deixar tudo para trás. A honra. Os votos que fez.
Por essa mulher altiva, arrogante e moralista, havia quebrado partes de si mesmo.
E depois ela foi embora, como se ele fosse um brinquedo quebrado.
Direto para os braços daquele príncipe feérico, que emergiu do escuro. Que se aproximou daquela poltrona na varanda e sentou-se em sua ponta.
O meio sorriso dela se tornou diferente. Os olhos se acenderam.
O interesse letal e predatório se afiou no príncipe. Ela pareceu brilhar mais. Tornar-se mais consciente. Mais centrada. Mais... viva.
Fogo e gelo. Um fim e um começo.
Eles não se tocaram.
Apenas se sentaram naquela espreguiçadeira, uma conversa tácita passando entre eles. Como se tivessem finalmente encontrado algum reflexo de si mesmos no mundo.
Ele os odiava.
Os odiava por essa facilidade, essa intensidade, essa sensação de conclusão.
Ela o tinha destruído, destruído sua vida e depois passou para este príncipe, como se estivesse indo de um quarto para outro.
E quando tudo foi para o inferno, quando ele virou as costas para tudo o que conhecia, quando mentiu para quem mais importava para manter os segredos dela, ela não estava lá para lutar. Para ajudar.
Ela só havia retornado meses depois, e jogou no rosto dele.
Sua inutilidade. Como ele era nada.
Você me lembra como o mundo deveria ser. O que o mundo pode ser.
Mentiras. As palavras de uma menina que lhe agradecia por oferecer sua liberdade, por empurrar, até que ela estava rugindo no mundo novamente.
Uma garota que parou de existir na noite em que descobriram aquele corpo na cama.
Quando ela atacou seu rosto.
Quando tentou mergulhar aquela adaga em seu coração.
A predadora que ele tinha visto naqueles olhos... tinha sido libertada.
Não havia amarras que pudessem mantê-la contida. E palavras como honra e dever e confiança, tinham ido embora.
Ela destruíra aquele cortesão nos túneis. Deixou o corpo do homem cair, fechou os olhos e pareceu exatamente como era durante aqueles momentos de paixão. E quando ela abriu os olhos novamente...
Assassina. Mentirosa. Ladra.
Ela ainda estava sentada na espreguiçadeira, o príncipe feérico ao seu lado, ambos observando aquela cena no túnel, como se fossem espectadores em um esporte.
Olhando Archer Finn caindo para as pedras, o sangue escorrendo, rosto tenso com choque e dor.
Observando Chaol ficar lá, incapaz de se mover ou falar, enquanto respirava a morte diante dela, a vingança.
Enquanto Celaena Sardothien terminava, estilhaçando completamente.
Ele ainda tentou protegê-la. Afastá-la. Reconciliar-se.
Você sempre será meu inimigo.
Ela rugiu essas palavras como se fossem de dez anos de raiva.
E ela quis dizer isso. Quis dizer como qualquer criança que perdeu e sofreu na mão de Adarlan diria.
Como Yrene.
O jardim apareceu em outro bolso da escuridão. O jardim e a casa de campo e a mãe e a criança rindo.
Yrene.
O que ele não viu chegando. A pessoa que ele não esperava encontrar.
Aqui na escuridão... aqui estava ela.
E ainda assim ele havia falhado. Não tinha feito bem a ela, nem a Nesryn.
Ele deveria ter esperado, deveria ter respeitado as duas o suficiente para terminar com uma e começar com outra, mas supôs que também falhara nisso.
Aelin e Rowan ficaram naquela espreguiçadeira ao sol.
Ele viu o príncipe feérico gentilmente, reverentemente, pegar a mão de Aelin, virando-a. Expondo o pulso ao sol. Expondo as fracas marcas de grilhões.
Ele viu Rowan esfregar o polegar sobre essas cicatrizes. Viu o fogo nos olhos de Aelin.
Uma e outra vez, Rowan acariciou aquelas cicatrizes com o polegar. E a máscara de Aelin desapareceu.
Havia fogo nesse rosto. E raiva. E malícia.
Mas também tristeza. Medo. Desespero. Culpa.
Vergonha.
Orgulho e esperança e amor. O peso de um fardo da qual fugira, mas agora...
Eu te amo.
Eu sinto muito.
Ela tentara explicar. Falara tão claramente quanto podia. Tinha lhe dado a verdade, assim ele poderia juntar as peças quando ela partisse e entender. Ela quis dizer essas palavras. Eu sinto muito.
Sinto muito pelas mentiras. Pelo o que tinha feito com ele, com sua vida. Por ter jurado que o escolheria, escolheria a ele, não importa o quê. Sempre.
Ele queria detestá-la por essa mentira. Essa falsa promessa, que ela havia descartado nas florestas enevoadas de Wendlyn.
E ainda.
Lá, com esse príncipe, sem a máscara... aquele era o fundo de seu poço.
Ela veio a Rowan com a alma mancando. Tinha ido até ele como era, como nunca fora com ninguém. E ela voltou inteira.
Ainda esperava – esperava para estar com ele.
Chaol desejava Yrene, a tinha levado para sua cama sem nem pensar em Nesryn, e no entanto, Aelin...
Ela e Rowan olharam para ele agora. Ainda como um animal na floresta, ambos. Mas seus olhos cheios de compreensão. Entendimento.
Ela se apaixonou por outra pessoa, queria outra pessoa – tanto quanto ele queria Yrene.
E, no entanto, Aelin, ímpia e irreverente, o honrou. Mais do que ele honrou Nesryn.
O queixo de Aelin abaixou como se para dizer sim.
E Rowan... O príncipe a deixou voltar para Adarlan. Para fazer o certo pelo seu reino, mas também para decidir por si mesma o que queria. Quem ela queria. E se Aelin tivesse escolhido Chaol em seu lugar... Ele sabia, no fundo, que Rowan teria se afastado. Se tivesse feito Aelin feliz, Rowan teria ido embora sem nunca contar o que sentia.
A vergonha o pressionava, doentia e oleosa.
Ele a chamou de monstro. Por seu poder, suas ações e ainda...
Ele não a culpava.
Ele entendia.
Que talvez ela tivesse prometido coisas, mas... ela mudou. Os caminhos mudaram.
Ele entendia.
Ele prometeu a Nesryn – ou tinha implicado isso. E quando mudou, quando o caminho havia sido alterado; quando Yrene apareceu...
Ele entendeu.
Aelin sorriu suavemente para ele enquanto ela e Rowan ondulavam em um raio de sol e desapareciam.
Deixando um chão de mármore vermelho, o sangue se juntando.
Uma cabeça batendo com um som oco sobre azulejos lisos.
Um príncipe gritando em agonia, em raiva e desespero.
Eu te amo.
Vá.
Isso – se houvesse um momento de virada, era esse.
Quando ele se virou e correu. E deixou seu amigo, seu irmão, naquele salão.
Quando fugiu daquela luta, daquela morte.
Dorian o perdoou. Não usou contra ele.
No entanto, ele ainda correu. Ainda foi embora.
Tudo o que ele havia planejado, trabalhado para salvar, tudo desmoronou.
Dorian estava de pé diante dele, com as mãos nos bolsos, um sorriso fraco no rosto.
Ele não merecia servir tal homem. Tal rei.
A escuridão avançou ainda mais. Revelando aquela sala de conselho vermelha. Revelando o príncipe e o rei que ele serviu. Revelando o que tinham feito. Com seus homens.
Naquela câmara sob o castelo.
Como Dorian sorriu. Sorriu enquanto Ress gritava, enquanto Brullo lhe cuspia no rosto.
Sua culpa – tudo isso. Cada momento de dor, essas mortes...
A escuridão mostrou as mãos de Dorian enquanto manejavam aqueles instrumentos embaixo do castelo. Enquanto sangue escorria e o osso se separava. Mãos firmes, limpas. E aquele sorriso.
Ele sabia. Ele sabia, tinha adivinhado. Nada acertaria isso. Com os homens dele; com Dorian, deixado para viver com as recordações.
Com Dorian, que ele abandonou naquele castelo.
Naquele momento, uma e outra vez, a escuridão lhe mostrou.
Enquanto Dorian segurava seu chão. Como ele revelou sua magia, tão boa quanto uma sentença de morte, e comprou a ele tempo para correr.
Ele tivera tanto medo – medo da magia, da perda, de tudo. E esse medo... foi o que o fez agir. Que o fez correr. Ele se agarrou tanto a ele, lutou contra ele e isso lhe custou tudo. Tarde demais. Demorou, era tarde quando viu claramente.
E quando o pior aconteceu; quando viu aquele colar; quando viu seus homens balançando nos portões, seus corpos partidos bicados por corvos...
Isso o transformou em seu cerne. Neste poço oco sob a montanha que ele tinha estado.
Ele desmoronou. Se deixara perder de vista.
E encontrou um pouco de paz em Forte de Fenda, mesmo após a lesão, e ainda...
Era como aplicar um remendo sobre uma ferida de faca no intestino.
Não curava. Sem amarras e raivoso, ele não queria se curar.
Na verdade não. Seu corpo, sim, mas mesmo isso...
Uma parte dele tinha sussurrado que era merecido.
E a lesão da alma... Ele estava satisfeito em deixá-la apodrecer.
Fracassado, mentiroso e quebrador de juramentos.
A escuridão inchou, um vento evolvendo-o.
Ele poderia ficar aqui para sempre. No escuro.
Sim, a escuridão sussurrou.
Ele poderia permanecer, e sentir raiva, odiar e se encurralar em nada além de sombra.
Mas Dorian permanecia diante dele, ainda sorrindo fracamente. Esperando.
Esperando.
Por... ele.
Ele tinha feito uma promessa. Não a quebrara ainda.
De salvá-los.
Seu amigo, seu reino.
Ele ainda os tinha.
Mesmo aqui no fundo deste inferno escuro, ele ainda os tinha.
E a estrada que viajou até agora... Não, ele não olharia para trás.
E se continuarmos, apenas para mais dor e desespero?
Aelin sorriu à sua pergunta, naquele telhado em Forte de Fenda. Como se tivesse entendido, muito antes dele, que ele encontraria esse poço. E descobriria a resposta por si mesmo.
Então não é o fim.
Este...
Este não era o fim. Esta fenda nele, esse fundo, não era o fim.
Ele ainda tinha uma promessa.
Esta ele manteria.
Não é o fim.
Ele sorriu para Dorian, cujos olhos de safira brilharam com alegria – com amor.
— Eu vou para casa — ele sussurrou para seu irmão, seu rei.
Dorian apenas inclinou a cabeça e desapareceu na escuridão.
Deixando Yrene de pé atrás dele.
Ela estava brilhando com luz branca, brilhante como uma estrela recém-nascida.
— A escuridão pertence a você — Yrene disse calmamente. — Para moldar no que quiser. Para dar poder ou torná-la inofensiva.
— Alguma vez foi dos valg para começar? — Suas palavras ecoaram em nada.
— Sim. Mas é sua para manter agora. Este lugar, esse núcleo final.
Permaneceria nele, uma cicatriz e um lembrete.
— Será que vai crescer de novo?
— Somente se você deixar. Somente se não preenchê-la com coisas melhores. Somente se não perdoar. — Ele sabia que não significava apenas aos outros. — Mas se você for bom consigo mesmo, se você... se você se ama... — A boca de Yrene tremia. — Se você se ama tanto quanto eu o amo...
Algo começou a bater em seu peito. Um ritmo de tambor que tinha silenciado aqui.
Yrene ergueu uma mão em sua direção, sua iridescência ondulando na escuridão.
Não é o fim.
— Será que vai doer? — ele perguntou com voz rouca. — O caminho de volta – a saída?
O caminho de volta à vida, para si mesmo.
— Sim — murmurou Yrene. — Mas apenas esta última vez. A escuridão não quer perdê-lo.
— Temo que não possa dizer o mesmo.
O sorriso de Yrene foi mais brilhante do que o brilho que ondulava em seu corpo. Uma estrela.
Ela era uma estrela caída.
Ela estendeu a mão novamente. Uma promessa silenciosa – do que esperava do outro lado da escuridão.
Ele ainda tinha muito a fazer. Juramentos para manter.
E olhar para ela, para aquele sorriso...
Vida. Ele tinha uma vida para aproveitar, para lutar.
E a quebra que começara e terminara aqui... Sim, pertencia a ele. Ele fora permitido a quebrar, para que essa forja pudesse começar.
Para que ele recomeçasse.
Ele devia a seu rei, seu país.
E devia a si mesmo.
Yrene assentiu como se dissesse sim.
Então, Chaol se levantou.
Ele examinou a escuridão, esse pedaço dele. Não travou diante dela.
E sorrindo para Yrene, ele pegou sua mão.

11 comentários:

  1. Me lembrou quando... esqueci o nome daqueles, eles atacaram Aelin, lembram? Aí mostraram os erros, culpa dela... se alimentavam da dor e do sofrimento dela.

    O começo da narrativa me lembrou um pouco...

    Enfim, faz tempo desde que li a série, por isso que minha memória está ruim x_x

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  2. Maaano, se isso acontecer com todos eles, eu não vou aguentar não!
    Imagina isso acontecendo com a Manon, com o Rowan, com o Lorcan, Aedion...
    E por falar nisso, eu acho que o Lorcan é filho da Maeve. Não sei como, mas acho.

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  3. Tem muito de Harry Potter nessa história - tanto do Ronald Weasley quando destruiu o medalhão, quanto do Harry, quando foi encontrar a morte. Independente disso, foi ótimo.

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  4. Tudo o que posso dizer desse capítulo é: chorei do começo ao fim e ainda estou chorando

    Me lembrei de Herdeira do Fogo, quando aqueles príncipes valg pegaram a Aelin. Foi só encarando de frente tudo o que aconteceu, os erros, culpa, a dor e conseguindo perdoar os outros e principalmente a si mesmos e dessa forma o Chaol pode finalmente se reerguer e lutar.

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    1. Me lembrei dessa parte também

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  5. Nossaaaaa... como a culpa consumia o Chaol... ele precisava muito se perdoar!!! Que lindo a yrene estendendo a mão pra ele!!

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  6. Que capítulo meus amigos...que capítulo ❤️

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Boa leitura, E SEM SPOILER!