29 de janeiro de 2018

Capítulo 53

Yrene subiu tempestuosamente os degraus da Torre, com cuidado para não esmagar o pergaminho em seu punho.
A bagunça do quarto dele o sacudiu. Também a chacoalhou, mas...
Não era medo de dano ou morte. Algo mais o abalou.
Na outra mão, ela apertou o medalhão, o metal quente contra sua pele.
Alguém sabia que eles estavam perto de descobrir o que quer que quisessem manter em segredo. Ou ao menos suspeitava que eles pudessem aprender algo e destruíram quaisquer fontes possíveis. E depois que eles começaram a juntar as peças nas ruínas em Aksara...
Yrene controlou seu temperamento quando alcançou o andar mais alto da Torre, o calor sufocando-a.
Hafiza estava em sua oficina particular, reclamando para si mesma sobre um tônico que ondulava com fumaça espessa.
— Ah, Yrene — disse ela sem olhar para cima enquanto media uma gota de líquido. Frascos, bacias e taças cobriam a mesa, espalhados entre os livros abertos e um conjunto de ampulhetas de bronze de várias medidas. — Como foi sua festa?
Reveladora.
— Adorável.
— Suponho que o jovem lorde finalmente tenha entregado seu coração.
Yrene tossiu.
Hafiza sorriu quando finalmente levantou a cabeça.
— Ah, eu sabia.
— Nós não estamos... isto é, não há nada oficial...
— Esse medalhão sugere o contrário.
Yrene colocou a mão sobre ele, as bochechas esquentando.
— Ele não é... ele é um lorde.
Às sobrancelhas erguidas de Hafiza, o temperamento de Yrene se inflamou. Quem mais sabia? Quem mais tinha visto e comentado e apostado?
— Ele é um Senhor de Adarlan — ela esclareceu.
— É mesmo?
— Adarlan.
— Pensei que você tivesse passado disso.
Talvez ela tivesse. Talvez ela não.
— Não é nada para se preocupar.
Um sorriso conhecido.
— Bom.
Yrene respirou fundo pelo nariz.
— Mas, infelizmente, você não está aqui para me dar todos os detalhes suculentos.
— Ai. — Yrene fez uma careta. — Não.
Hafiza mediu outras poucas gotas em seu tônico, a substância dentro girando. Ela pegou uma ampulheta de dez minutos e virou-a, areia branca como osso caindo na base antiga. Uma proclamação de uma reunião começada antes de Hafiza dizer: — Suponho que tenha algo a ver com esse pergaminho em sua mão?
Yrene olhou para o corredor aberto e depois correu para fechar a porta. Em seguida, as janelas abertas.
Quando terminou, Hafiza baixou o tônico, o rosto incomumente grave.
Yrene contou do saque nos aposentos de Chaol. Os livros e pergaminhos levados. As ruínas do oásis e sua teoria de que talvez os curandeiros não tivessem simplesmente surgido aqui, mas tinham sido plantados ali, em segredo.
Contra os valg e seus reis.
E pela primeira vez desde que Yrene a conheceu, o rosto moreno da velha mulher pareceu ficar branco. Seus olhos claros se tornaram largos.
— Você tem certeza – que estas são as forças que se acumulam no seu continente? — Hafiza estabeleceu-se na cadeira pequena atrás da mesa de trabalho.
— Sim. Lorde Westfall viu-os ele mesmo. Os combateu. É por isso que ele veio. Não para levantar um exército contra meros homens leais ao império de Adarlan, mas um exército para combater demônios que usam os corpos de homens, demônios que criam monstros. Tão vasto e terrível que até o pleno poder de Aelin Galathynius e Dorian Havilliard não são suficientes.
Hafiza balançou a cabeça, o ninho de cabelos brancos se movendo.
— E agora vocês dois acreditam que os curandeiros têm algum papel a desempenhar?
Yrene passou o ritmo.
— Possivelmente. Fomos perseguidos implacavelmente em nosso próprio continente, e sei que não soa como qualquer coisa para seguir em frente, mas se um grupo de feéricos com tendência para a cura começou uma civilização aqui tanto tempo atrás... Por quê? Por que deixar Doranelle, por que chegar tão longe, e deixar tão poucos vestígios, mas garantir que a cura e o legado sobrevivessem?
— Foi por isso que você veio – e trouxe esse pergaminho.
Yrene colocou o pergaminho diante da Alta Curandeira.
— Já que Nousha conhecia apenas lendas vagas e não sabia ler a língua escrita aqui, pensei que a senhora pudesse ter a verdade. Ou me contar o que esse pergaminho contém.
Hafiza desenrolou cuidadosamente o pergaminho, prendendo seus cantos com vários frascos. Letras negras e estranhas tinham sido escritas lá. A Alta Curandeira traçou um dedo enrugado sobre alguns dos símbolos.
— Eu não sei ler essa língua. — Ela passou a mão sobre o pergaminho novamente.
Os ombros de Yrene caíram.
— Mas isso me lembra... — Hafiza examinou as estantes em sua oficina, algumas delas fechadas em vidro. Ela se levantou, passando para uma caixa fechada no canto sombrio da sala. As portas não eram de vidro, mas de metal. Ferro.
Ela retirou uma chave ao redor de seu pescoço e a abriu. Acenou para Yrene.
Meio tropeçando pela sala em sua pressa, Yrene alcançou o lado de Hafiza. Em algumas das lombadas, quase desfazendo-se com a idade...
— Marcas de Wyrd — murmurou Yrene.
— Foi-me dito que estes não eram livros para olhos humanos – que era melhor o conhecimento ser mantido trancado e esquecido, para que não encontre seu caminho para o mundo.
— Por quê?
Hafiza deu de ombros, estudando, mas não tocando os textos antigos arquivados diante delas.
— Isso foi tudo o que minha predecessora me disse: não são para olhos humanos. Oh, uma vez ou outra, fiquei bêbada o suficiente para debater abrir os livros, mas toda vez que retiro essa chave... — ela brincou com o longo colar, a chave do ferro negra pendurada nele. A única que correspondia com o gabinete. — Eu reconsidero. — Hafiza pesou a chave na palma da mão. — Não sei como ler esses livros, nem o que esse idioma é, mas se esses pergaminhos e livros estavam na própria biblioteca, então o fato de que estes foram trancados aqui... Talvez este seja o tipo de informação pela qual vale a pena matar.
Gelo escorria por sua espinha.
— Chaol – lorde Westfall conhece alguém que pode ler essas marcas. — Aelin Galathynius, ele havia contado a ela. — Talvez devêssemos levá-los para ela. O pergaminho, e esses poucos livros.
A boca de Hafiza apertou quando fechou as portas de ferro do armário e trancou com um forte clique.
— Devo pensar nisso, Yrene. Os riscos. Se esses livros devem sair.
Yrene assentiu.
— Sim, claro. Mas temo que possamos não ter muito tempo.
Hafiza deslizou a chave de ferro de volta para baixo de suas vestes e voltou para a mesa de trabalho, Yrene seguindo-a.
— Eu conheço um pouco da história — admitiu Hafiza. — Pensei que fosse um mito, mas... minha predecessora me contou, quando cheguei aqui. Durante o festival da Lua de Inverno. Ela estava bêbada, porque eu a enchia com álcool para revelar seus segredos. Mas, em vez disso, ela me deu uma lição de história cheia de divagações. — Hafiza bufou, sacudindo a cabeça. — Eu nunca esqueci, principalmente porque estava tão decepcionada que três garrafas de vinho caro – compradas com todo o dinheiro que tive – me conseguiram tão pouco.
Yrene se inclinou contra a antiga mesa de trabalho enquanto Hafiza estava sentada e entrelaçou os dedos no colo.
— Ela me contou que há muito tempo, antes que o homem viesse para cá, antes dos senhores dos cavalos e dos ruks acima das estepes, esta terra pertencia aos feéricos. Um pequeno reino, aqui sua capital. Antica foi construída em cima de suas ruínas. Mas eles ergueram templos para seus deuses além das muralhas da cidade – nas montanhas, perto do rio, nas dunas.
— Como a necrópole em Aksara.
— Sim. E ela me disse que não queimaram seus corpos, mas os abrigaram dentro dos sarcófagos, nem martelo ou outra ferramenta não podem abri-los. Foram selados com feitiços e fechaduras inteligentes. Para nunca serem abertos.
— Por quê?
— A tola bêbada me disse que era porque eles viviam com medo de alguém entrar. Pegar seus corpos.
Yrene estava feliz por estar encostada na mesa.
— Da maneira como os valg agora possuem os humanos.
Um aceno de cabeça.
— Ela balbuciou sobre como eles deixaram seu conhecimento de cura para nós encontrarmos. Que eles tinham roubado de outro lugar, e que seus ensinamentos constituíram a base da Torre. A própria Kamala foi treinada em suas artes, seus registros descobertos em túmulos e catacumbas há muito perdidos para nós. Ela fundou a Torre com base no que ela e sua pequena ordem aprenderam. Adorou a Silba porque ela era a deusa da cura deles também. — Hafiza fez um gesto para as corujas esculpidas em toda a sala de trabalho, na Torre em si, e esfregou a têmpora. — Então, sua teoria poderia ser válida. Nunca aprendi como os feéricos chegaram aqui, onde eles foram e por que desapareceram. Mas eles estiveram aqui, e de acordo com a minha predecessora, eles deixaram alguns tipos de conhecimento ou poder por trás. — Um olhar franzido para aquela estante de livros trancada.
— Que alguém está tentando apagar. — Yrene engoliu. — Nousha vai me matar quando ouvir que aqueles livros e pergaminhos foram levados.
— Oh, ela pode muito bem fazer isso. Mas provavelmente vai caçar primeiro quem quer que tenha feito isso.
— O que tudo isso significa? Por que ter tantos problemas?
Hafiza voltou para seu tônico, para a ampulheta quase vazia.
— Talvez seja para você aprender. — Ela adicionou mais algumas gotas de líquido ao seu tônico, pegou o vidro de um minuto e o virou. — Eu devo considerar os livros, Yrene.



Yrene voltou para o quarto, abriu a janela para deixar entrar a brisa na câmara sufocante e sentou-se na cama por um minuto antes de voltar a andar.
Ela deixou o pergaminho com Hafiza, pensando que estaria mais seguro na estante de livros trancada do que em qualquer outro lugar, mas não eram pergaminhos ou livros antigos que encheram sua cabeça quando saiu e desceu as escadas.
Progresso. Eles fizeram progressos na lesão de Chaol de forma significativa, e voltaram a encontrar seu quarto destroçado.
O quarto dele, não deles. Ele deixara claro o suficiente mais cedo.
Os passos de Yrene eram inabaláveis, mesmo que suas pernas doessem de quase dois dias de equitação. Tinha que haver alguma conexão – seu progresso, esses ataques.
Ela nunca conseguiria pensar em sua sala silenciosa e abafada. Ou na biblioteca, não quando saltaria a cada passo ou miado curioso de um gato de Bastet.
Mas havia um lugar, silencioso e seguro. Um lugar onde ela poderia trabalhar através dos fios emaranhados que os levara até al.



O Útero estava vazio.
Depois que Yrene se lavou e vestiu o fino robe lavanda pálido, ela entrou na câmara cheia de vapor, incapaz de deixar de olhar para aquela banheira na parede mais distante. Onde a curandeira tinha chorado poucas horas antes de sua morte.
Yrene esfregou as mãos sobre o rosto, respirando com força.
Banheiras acenavam de ambos os lados, as águas borbulhantes convidativas, prometendo acalmar seus membros doloridos.
Mas Yrene permaneceu no centro da câmara, em meio a todos aqueles sinos tocando suavemente, e encarou a escuridão acima.
De uma estalactite muito longe na escuridão para ver, uma gota de água caiu, pousando em sua sobrancelha. Yrene fechou os olhos para o respingo frio e forte, mas não fez nenhum movimento para limpar a água.
Os sinos cantaram e murmuraram, as vozes de suas irmãs há muito tempo mortas. Ela se perguntou se aquela curandeira que morreu... Se sua voz agora cantava aqui.
Yrene olhou para a corda mais próxima de sinos pendurados na câmara, vários tamanhos e tipos. O próprio sino dela... Com os pés nus e silenciosos, Yrene foi até a pequena estalagmite brotando do chão perto da parede, até o corredor entre ela e outro pilar a poucos metros de distância. Sete outros sinos estavam pendurados, mas Yrene não precisava de um lembrete para saber qual era o dela.
Yrene sorriu para o pequeno sino prata, comprado com o ouro daquela estranha. O nome dela estava gravado na lateral – talvez pelo mesmo joalheiro de quem Chaol comprara o amuleto pendurado em seu pescoço. Mesmo aqui, ela não queria se separar dele.
Gentilmente, ela passou o dedo pelo sino, pelo nome e pela data em que entrou na Torre.
Um toque fraco e doce saltou na direção de seu toque. Ele ecoou nas paredes das rochas, mais alto que outros sinos. Fazendo alguns deles tilintarem como se em resposta.
Ao redor, o som de seu sino dançou, e Yrene virou-se, como se pudesse seguir o com.
E quando o som arrefeceu...
Yrene tocou o sino novamente. Um som mais alto e mais claro.
O toque voltou pela sala, e ela observou, rastreou.
Ele desapareceu mais uma vez. Mas não antes que seu poder cintilasse em resposta.
Com mãos que não pertenciam inteiramente a ela, Yrene tocou o sino pela terceira vez.
E quando seu canto encheu a sala, Yrene começou a andar.
Para todo lugar que o toque ecoou, Yrene seguiu.
Seus pés descalços batendo contra a pedra úmida, ela rastreou o caminho do som através do Útero, como se fosse um coelho correndo à frente.
Ao redor das estalagmites subindo do chão. Evitando as estalactites que descendo cima.
Atravessando a sala; escorregando pelas paredes; deixando as velas tremendo. Continuamente, ela rastreou esse som.
Passou pelos sinos de gerações de curandeiras, todos cantando em seu rastro.
Yrene também passou os dedos ao longo deles.
Uma onda de som respondeu.
Vá onde você teme pisar.
Yrene caminhou, os sinos tocando, tocando, tocando. Ainda assim ela seguiu o som de seu próprio sino, aquela doce, canção clara acenando para frente. Puxando-a.
Essa escuridão ainda habitava nele; em sua ferida. Eles tinham forçado bastante contra ela, mas ainda assim permaneceu.
No dia anterior ele contou coisas que quebraram seu coração, mas não toda a história.
Mas se a chave para derrotar esse fragmento da escuridão de valg não estava em só enfrentar as memórias, se as explosões de sua magia não fizeram nada...
Yrene seguiu o toque do sino prata para onde parou: Um antigo canto da sala, as correntes enferrujadas com a idade, alguns dos sinos verdes da oxidação.
Aqui, o som de seu sino ficou em silêncio.
Não, não silencioso. Mas esperando. Cantarolando contra a pedra.
Havia um pequeno sino, pendurado no final de uma corrente. Tão oxidado que a escrita era quase impossível de ler.
Mas Yrene leu o nome lá.
Yafa Towers.
Ela não sentiu a dor da pedra quando caiu de joelhos. Ao ler esse nome, a data... duzentos anos atrás.
Uma mulher Towers. Uma curandeira Towers. Aqui – com ela. Uma mulher Towers tinha cantado nesta sala durante os anos em que Yrene morou aqui. Mesmo agora, mesmo tão longe de casa, ela nunca havia estado sozinha.
Yafa. Yrene falou o nome, uma mão em seu coração.
Vá onde você teme pisar...
Yrene olhou para a escuridão do Útero acima.
Alimentando. O poder do valg estava se alimentando dele...
Sim, a escuridão acima parecia dizer. Não havia um gotejamento; nem um sino tocava.
Yrene olhou para as mãos, caídas ao seu lado. Convocou o leve brilho branco de poder. Deixou-o encher a sala, ecoando na rocha a música silenciosa. O eco daqueles sinos, as vozes de milhares de suas irmãs, a voz da Towers antes dela.
Vá onde você teme pisar...
Não o vazio que espreita dentro dele. Mas o vazio dentro de si mesma.
Aquele que tinha começado no dia em que soldados se reuniram em torno de sua casa, puxando-a para fora por seus cabelos na grama brilhante.
Será que Yafa sabia, aqui nesta câmara tão longe sob a terra, o que aconteceu naquele dia através do mar? Será que ela assistiu os últimos dois meses e enviou sua antiga música enferrujada no silêncio urgindo?
Não eram todos homens maus, Yrene.
Não, eles não eram. Os homens que ele havia comandado, com quem havia treinado, que usaram o mesmo uniforme, se curvavam ao mesmo rei que os soldados que vieram naquele dia...
Não eram homens maus. Havia pessoas em Adarlan que valia a pena salvar – valia a pena lutar. Eles não eram seus inimigos, nunca tinham sido. Talvez ela soubesse disso bem antes de ter revelado sua história no oásis ontem.
Talvez ela não quisesse saber.
Mas o que permanecia dentro dele, aquele fragmento do demônio que havia ordenado tudo...
Eu sei o que você é, disse Yrene em silêncio.
Pois era o mesmo que habitou dentro dela esses anos, tirando dela, mesmo enquanto a sustentava. Uma criatura diferente, mas ainda a mesma.
Yrene guardou sua magia de volta, o brilho se esvaindo. Ela sorriu para a doce escuridão acima. Eu entendo agora.
Outra gota de água beijou sua sobrancelha em resposta.
Sorrindo, Yrene estendeu a mão para o sino de sua antepassada. E o tocou.

3 comentários:

  1. "Mas Yrene leu o nome lá.
    Yafa Towers."


    Minha garganta se fechou quando li esse nome, krl mano, eu senti que estava no lugar da Yrene, que eu fosse a Yrene. O bom de ser leitora é que não lemos uma história, a gente vive a história. Eu sinceramente estou emocionada com a parte final desse capítulo

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  2. Mais alguém notou que Duva e o marido não foram na tal viagem? Desconfio...

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    1. Ah, mas ela tá grávida... Cavalgar pro meio do deserto não deve ser muito confortável. Se bem que ela poderia pedir uma liteira e ser carregada, né...

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Comentários de volta!
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Boa leitura! E SEM SPOILER!