29 de janeiro de 2018

Capítulo 52

Chaol e Yrene galoparam de volta para Antica no amanhecer.
Eles deixaram um bilhete para Hasar alegando que Yrene tinha um paciente gravemente doente que precisava ser verificado, e galoparam através das dunas sob o sol nascente.
Nenhum deles dormira muito, mas se o que tinham adivinhado sobre os curandeiros fosse verdade, não arriscariam demorar-se.
As costas de Chaol doíam graças à cavalgada do dia anterior, assim como a... cavalgada noturna. Várias cavalgadas. E quando os minaretes e as paredes brancas de Antica apareceram, ele estava sibilando pelos dentes.
Yrene franziu a testa para ele por todo o doloroso caminho pelas ruas cheias até o palácio. Eles não tinham discutido arranjos para dormir, mas ele não se importava se tivesse que subir cada uma das escadas da Torre. Para a cama dela ou a dele. O pensamento de deixá-la, mesmo por um instante...
Chaol estremeceu quando desceu de Farasha, a égua negra suspeitamente bem comportada, e aceitou a bengala da mão estável mais próxima que pegara com Yrene.
Ele deu alguns passos na direção dela, sua coxa dolorida, mas Yrene levantou uma mão de advertência.
— Não pense em tentar me tirar desse cavalo, ou me carregar ou qualquer coisa.
Ele olhou para ela com ironia, mas obedeceu.
— Qualquer coisa?
Ela ficou num lindo tom de escarlate enquanto deslizava da égua, passando as rédeas para o rapaz do estábulo à espera. O homem soltou um suspiro de alívio, absolutamente agradecido por não ter a tarefa de lidar com a impetuosa Farasha, que avaliava o pobre homem que tentava arrastá-la para o estábulo como se fosse almoçá-lo. Cavalo de Hellas, de fato.
— Sim, qualquer coisa — disse Yrene, alisando suas roupas amassadas. — É provável que por casa desse qualquer coisa você esteja mancando mais do que antes.
Chaol deixou que viesse para o seu lado, e equilibrou-se em sua bengala o suficiente para pressionar um beijo em sua têmpora. Ele não se importava com quem viu. Quem recebesse um relatório sobre isso. Todos poderiam ir para o inferno. Mas, atrás deles, ele poderia jurar que Shen e os outros guardas sorriam de orelha a orelha.
Chaol piscou para ela.
— Então é melhor você me curar, Yrene Towers, porque eu pretendo fazer uma grande quantidade de qualquer coisa com você esta noite.
Ela corou ainda mais profundamente, mas inclinou o queixo para cima, afetada e dona de si.
— Vamos nos concentrar nesses pergaminhos primeiro, seu velhaco.
Chaol sorriu largo e sem restrições, e sentiu alegria em cada centímetro de seu corpo dolorido enquanto caminhavam de volta para o palácio.



Qualquer alegria durou pouco.
Chaol percebeu que alguma coisa estava errada no momento em que entraram em sua ala silenciosa.
No momento em que viu os guardas murmurando, os criados fugindo. Yrene apenas trocou um olhar com ele, e eles se apressaram o mais rápido que puderam. Fios de fogo dispararam ao longo de suas costas, abaixo das coxas, mas se algo tivesse acontecido...
As portas de sua suíte estavam entreabertas, com dois guardas parados do lado de fora que lhe deram um olhar cheio de piedade e temor. Seu estômago revirou-se.
Nesryn. Se ela tivesse voltado, se algo tivesse acontecido com aquele valg caçando-os...
Ele invadiu a suíte, seu corpo protestante sendo esquecido, sua cabeça ficando silenciosa.
A porta de Nesryn estava aberta.
Mas nenhum corpo estava esparramado na cama. Nenhum sangue manchava o tapete ou salpicava as paredes.
O quarto dele também. Mas ambos estavam... destruídos.
Em pedaços, como se algum grande vento tivesse quebrado as janelas e atacado o espaço.
A sala de estar era pior. Seu habitual sofá dourado estava destruído. Os quadros, a arte fora arrancada, rachada ou cortada.
A mesa fora saqueada, os tapetes virados...
Kadja estava ajoelhada no canto, juntando os cacos de um vaso quebrado.
— Tenha cuidado — sibilou Yrene, caminhando para a garota enquanto recolhia os cacos com as próprias mãos — Arranje uma vassoura e pá em vez de usar suas próprias mãos.
— Quem fez isso? — perguntou Chaol calmamente.
O medo brilhava nos olhos de Kadja quando ela se levantou.
— Estava assim quando cheguei nesta manhã.
— Você não ouviu nada? — Yrene exigiu.
A dúvida afiada dessas palavras deixou-o tenso. Yrene não confiava na criada nem por um instante, sempre inventando tarefas que a manteriam longe, mas Kadja fazer isso...
— Como não estava aqui, meu senhor, eu... eu usei a noite para visitar meus pais.
Ele tentou não se encolher. Uma família. Ela tinha família aqui, e ele nunca se incomodara em perguntar.
— E seus pais podem jurar que você esteve com eles a noite toda?
Chaol girou.
— Yrene.
Yrene nem olhou para ele enquanto estudava Kadja. A criada murchou sob aquele olhar feroz.
— Mas suponho que deixar a porta destrancada para alguém teria sido mais inteligente.
Kadja se encolheu, os ombros se curvando para dentro.
— Yrene, poderia ter sido qualquer coisa. Qualquer um...
— Sim, qualquer um. Especialmente alguém que procurava por algo.
As palavras clicaram no mesmo momento em que tomou a desordem da sala.
Chaol se virou para a criada.
— Não limpe mais a bagunça. Tudo aqui pode oferecer alguma prova de quem fez isso. — Ele franziu a testa. — Quanto você já conseguiu limpar?
Pelo estado da sala, não muito.
— Eu apenas comecei. Pensei que o senhor não voltaria até esta noite, então eu não...
— Está bem. — Quando ela se encolheu, ele acrescentou: — Vá para seus pais. Tire o dia de folga, Kadja. Fico feliz que não estivesse aqui quando isso aconteceu.
Yrene fez uma careta para ele que dizia que a garota poderia muito bem ter sido a causa daquela bagunça, mas manteve a boca calada. Dentro de um minuto, Kadja partiu, fechando as portas do corredor com um clique silencioso.
Yrene passou as mãos pelo rosto.
— Eles levaram tudo. Tudo.
— Será? — Ele coxeou até a mesa, olhando para as gavetas enquanto apoiava uma mão na superfície. As costas doeram e se contorceram...
Yrene foi para o sofá dourado, levantando as almofadas arruinadas.
— Todos os livros, os pergaminhos...
— Era de conhecimento comum que estaríamos fora. — Ele se inclinou completamente contra a mesa, quase suspirando com o peso saindo de suas costas.
Yrene traçou um caminho pela sala, inspecionando todos os lugares onde havia escondido os livros e pergaminhos.
— Eles levaram tudo. Até mesmo A Canção do Princípio.
— E o quarto?
Ela foi para lá na mesma hora. Chaol esfregou as costas, sibilando suavemente.
— Rá!
Ela emergiu novamente, acenando uma de suas botas no ar.
— Pelo menos eles não encontraram isso.
Aquele primeiro pergaminho. Isso trouxe um sorriso para sua boca.
— Pelo menos sobrou isso.
Yrene segurou a bota no peito como se fosse um bebê.
— Eles estão ficando desesperados. Isso torna as pessoas perigosas. Não devemos ficar aqui.
Ele examinou o dano.
— Você está certa.
— Então iremos diretamente para a Torre.
Ele olhou através das portas abertas para o vestíbulo. Para o quarto de Nesryn.
Ela devia voltar em breve. E quando voltasse, encontrá-lo fora, com Yrene... Ele a tratara de forma abominável. Ele se deixara esquecer o que prometeu, o que deixou implícito, em Forte da Fenda. No navio até aqui. E Nesryn talvez não o segurasse a nenhuma promessa, mas ele havia quebrado muitas delas.
— O que foi? — A pergunta de Yrene era apenas mais do que um sussurro.
Chaol fechou os olhos. Ele era um bastardo. Ele arrastara Nesryn até aqui, e foi assim que ele a havia tratado. Enquanto ela estava fora procurando respostas, arriscando sua vida, enquanto procurava um pouco de esperança para criar um exército... Ele enviaria a mensagem imediatamente. Para ela retornar o mais rápido possível.
— Não é nada — disse Chaol finalmente. — Talvez você deva ficar na Torre esta noite. Há guardas suficientes lá para fazer qualquer um pensar duas vezes. — Ele acrescentou quando a dor cintilou em seus olhos: — Eu não posso parecer estar fugindo. Especialmente com a realeza agora começando a pensar que eu poderia ser alguém de interesse. Que Aelin continua a ser uma fonte de preocupação e intriga... talvez eu deva usar isso para minha vantagem. — Ele brincou com a bengala, jogando-a de uma mão para outra. — Mas eu deveria ficar aqui. E você, Yrene, deveria ir.
Ela abriu a boca para se opor, mas fez uma pausa, endireitando-se. Um brilho de aço entrou em seus olhos.
— Eu mesma levarei o pergaminho para Hafiza, então.
Ele odiou a rispidez da voz dela enquanto assentia, o escurecimento daqueles olhos. Ele também falhou com ela.
Em não terminar antes as coisas com Nesryn, deixar claro. Ele fez uma confusão.
Um tolo. Ele tinha sido um tolo em pensar que poderia passar por cima disso. Mudar para além da pessoa que tinha sido, os erros que cometeu.
Um tolo.

7 comentários:

  1. Respostas
    1. Eu gostei do personagem do Chaol, ele faz muita merda, assim como qualquer humano, mas ao menos ele encara seus problemas de frente e tenta resolvê-los da melhor forma que puder

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    2. Pensei em milhões de ofensas agora, mas prefiro não dizer nenhuma delas porque n quero meu comentário removido e queria dizer que ele n é nenhum bosta, talvez muito errante e um pouco tolo, desesperançoso, mas ele n é um bosta! É um personagem bem construido e desenvolvido, mt bom e leal, que não deveria ser tão absurdamente julgado!...

      (eu ia continuar digitando, mas é provável que vc n leia isso e é mais válido continuar com o livro do que usar meus bons argumentos com alguém como você).

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  2. Ele quer agradar todo mundo é só faz merda

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  3. "Mas, atrás deles, ele poderia jurar que Shen e os outros guardas sorriam de orelha a orelha."

    Eu estava sorrindo desse jeito, mas aí cheguei na parte do quarto destruindo e das coisas que sumiram 😑

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  4. "Qualquer alegria durou pouco." Sobre os livros de trono de vidro

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Comentários de volta!
Passamos algumas horas sem essa opção, mas estamos à ativa novamente :)

Boa leitura! E SEM SPOILER!