29 de janeiro de 2018

Capítulo 5

Chaol mal dormiu. Parcialmente devido ao calor implacável, em parte devido ao fato de que eles estavam numa casa cheia de potenciais aliados, espiões e perigos desconhecidos – talvez da própria Morath – e parcialmente devido ao que aconteceu em Forte da Fenda e tudo o que ele considerava querido.
E parte devido à reunião que ele estava agora a minutos de ter.
Nesryn caminhava com uma agitação pouco característica através da sala de estar que devia ser sua sala de tratamento. Sofás baixos e almofadas enchiam o espaço, o assoalho brilhava, interrompido apenas por tapetes dos tecidos mais espessos e trabalhados – das mãos experientes dos artesãos no oeste, segundo Nesryn. Arte e tesouros do outro lado do império khagan adornavam o espaço, intercalados com palmeiras em vasos se abrindo no calor, e a luz do sol escorrendo através das janelas e portas do jardim.
Às dez de manhã, a filha mais velha do khagan declarara no jantar da noite passada. Princesa Hasar dos olhos ferozes. Uma linda jovem se sentava ao seu lado, a única pessoa a quem Hasar sorriu. Sua amante ou esposa, a julgar pelos longos e frequente toques.
Havia dureza o suficiente no sorriso perverso de Hasar quando ela transmitiu a Chaol o horário em que a curandeira chegaria que o fez perguntar-se quem, precisamente, eles estavam enviando.
Ele ainda não sabia o que fazer com essas pessoas, esse lugar. Esta cidade de alto ensino, essa mistura de tantas culturas e história, habitando pacificamente. Não eram como os espíritos raivosos e quebrados que habitavam na sombra de Adarlan, vivendo em terror, desconfiando uns dos outros, suportando seus piores crimes.
Eles lhe perguntaram sobre o massacre dos escravos em Calaculla e Endovier no jantar.
Ou especificamente, Arghun perguntou. Se o príncipe estivesse entre os novos recrutas de Chaol para a Guarda Real, teria conseguido facilmente fazê-lo entrar na linha com algumas mostras de habilidade e pura dominação. Mas aqui, ele não tinha autoridade para levar o príncipe conivente e altivo ao chão.
Nem quando Arghun quis saber por que o antigo rei de Adarlan julgara necessário escravizar seu povo. E, em seguida, tratá-los como animais. Por que o homem não olhou para o continente do sul e para a educação acima dos horrores e da mancha da escravidão – e evitara instaurá-la.
Chaol oferecera respostas curtas que se aproximavam da verdade. Sartaq, o único deles além de Kashin a quem Chaol estava inclinado a gostar, finalmente cansou do questionamento de seu irmão mais velho e dirigiu a conversa para longe. Para o que, Chaol não tinha ideia. Ele estava ocupado demais lutando contra o rugido em seus ouvidos sobre as informações afiadas da Arghun. E então muito ocupado monitorando cada rosto – real, vizir ou criado – que fez uma aparição no grande salão do khagan. Sem sinais de anéis ou colares negros; nenhum comportamento estranho para comentar.
Ele havia dado a Kashin um aceno sutil de cabeça em certo momento para transmitir-lhe isso. O príncipe fingiu não ver, mas a advertência acendeu em seus olhos: continue procurando.
Então Chaol procurara, prestando somente meia atenção à refeição que se desdobrava diante dele, monitorando cada palavra, olhar e respiração daqueles ao seu redor.
Apesar da morte da irmã mais nova, os príncipes tornavam a refeição viva, a conversa fluía, principalmente em línguas que Chaol não reconhecia. Tal riqueza de reinos naquele salão, representada por vizires, criados e companheiros – a mais nova e jovem princesa, Duva, se casara com um príncipe de cabelos escuros e olhos tristes de uma terra distante, se mantinha perto de sua esposa grávida e falava pouco com qualquer um ao seu redor. Mas quando Duva sorria suavemente para ele... Chaol não achava que a luz que preenchia o rosto do príncipe fosse fingida. E se perguntou se o silêncio do homem não fosse de reticência, mas que talvez ainda não conhecesse o idioma da esposa para continuar.
Nesryn, no entanto, não tinha tal desculpa. Ela ficou em silêncio e assombrada no jantar. Ele só percebeu que ela se banhou antes disso, graças aos gritos e batidas em seu quarto, seguido de um criado ferido que se mostrava saindo de seus aposentos. O homem não voltou, nem um substituto chegou.
Kadja, a criada designada para Chaol, ajudou-o a se vestir para o jantar, depois se despir para a cama e trouxe café da manhã esta manhã imediatamente após seu despertar.
O khagan certamente sabia como comer bem.
Carnes estranhamente temperadas, tão tenras que soltavam do osso; arroz de várias cores; pães enrolados cobertos em manteiga e alho; vinhos ricos e licores das vinhas e destilarias de todo o seu império. Chaol dispensara esse último, aceitando apenas a taça cerimonial oferecida antes que o khagan fizesse um brinde aos seus novos convidados. Para um pai aflito, foi mais caloroso do que Chaol esperava.
Nesryn, no entanto, tomou um gole de sua bebida, comeu apenas um pouco de sua refeição e esperou um minuto até pedir para retornarem à sua suíte. Ele concordou, claro, mas quando eles fecharam as portas da suíte e perguntou se ela queria conversar, ela havia dito que não. Ela queria dormir e o veria de manhã.
Ele teve a coragem de perguntar a Nesryn se queria compartilhar seu quarto ou o dela.
A porta batendo com força foi ênfase suficiente.
Então, Kadja o ajudou a deitar cama, onde ele se virava e revirava, suando e desejando poder chutar os lençóis em vez de ter que puxá-los com as mãos. Até mesmo a brisa fresca que flutuava através do sistema de ventilação inteligentemente trabalhado – o ar trazido por torres captadoras de vento entre as cúpulas e construções para resfriar por canais sob o palácio, depois espalhado entre os quartos e salões – não oferecia nenhum alívio.
Ele e Nesryn nunca tinham sido bons em falar. Eles tentaram, geralmente com resultados desastrosos.
Eles fizeram tudo fora de ordem, e Chaol se amaldiçoou uma e outra vez por não estar bem com ela. Por não tentar ser melhor.
Ela mal olhou para ele nos últimos dez minutos em que esperavam que a curandeira chegasse. Seu rosto estava abatido, seu cabelo bagunçado sobre os ombros, e não vestiu o uniforme de capitã, voltando a usar sua habitual túnica azul meia-noite e calça preta. Como se não pudesse vestir as cores de Adarlan.
Kadja vestiu-o de novo com a casaca verde petróleo, chegando até a esticar as fivelas pela frente. Havia um orgulho silencioso em seu trabalho, não como a timidez e o medo de tantos criados do castelo em Forte da Fenda.
— Ela está atrasada — murmurou Nesryn. De fato, o relógio de madeira ornamentado no canto anunciava que a curandeira tinha dez minutos de atraso. —Devemos chamar alguém para descobrir se ela vem?
— Dê tempo a ela.
Nesryn parou diante dele, franzindo a testa.
— Precisamos começar imediatamente. Não há tempo a perder.
Chaol respirou fundo.
— Entendo que você queira voltar para casa, para sua família...
— Eu não vou apressá-lo. Mas mesmo um dia faz a diferença.
Ele notou as linhas de tensão que encurvavam sua boca. Forçando-se a parar de contemplar e temer onde Dorian pudesse estar agora tinha sido um esforço de vontade pura nesta manhã.
— Depois que a curandeira chegar, por que você não procura seus parentes na cidade? Talvez tenham ouvido falar da sua família em Forte da Fenda.
Um movimento cortante de sua mão esbelta.
— Eu posso esperar até que você termine.
Chaol levantou as sobrancelhas.
— E andar de um lado para o outro o tempo todo?
Nesryn afundou no sofá mais próximo, a seda dourada suspirando sob seu leve peso.
— Eu vim aqui para ajudá-lo – com isso, e com a nossa causa. Não vou fugir para suprir minhas próprias necessidades.
— E se eu lhe der uma ordem?
Ela apenas balançou a cabeça, sua cortina de cabelo escuro balançando com o movimento.
E antes que ele pudesse dar essa ordem exata, uma batida rápida ecoou na pesada porta de madeira.
Nesryn gritou uma palavra que ele assumiu significasse “entre” em halha, e ele ouviu os passos quando se aproximaram. Silenciosos e leves.
A porta da sala de estar abriu-se sob a pressão de uma mão de cor de mel.
Foi o olhar dela que Chaol percebeu primeiro.
Ela provavelmente parava as pessoas na rua com esses olhos, um marrom dourado vibrante que parecia iluminado de dentro. Seu cabelo castanho com mechas dourado-escuras caía pesadamente, ondulando ligeiramente até sua cintura estreita.
Ela se movia com uma graça ágil, seus pés vestidos com práticos sapatos de tecido preto – rápidos e flexíveis ao atravessar a sala, não percebendo ou não se importando com o mobiliário ornamentado.
Jovem, talvez um ano ou dois a mais que os vinte.
Mas aqueles olhos... eles eram muito mais velhos do que isso.
Ela parou da cadeira de madeira esculpida em frente ao sofá dourado, Nesryn se levantando. A curandeira – pois não havia mais ninguém que pudesse ser, com aquela graça calma, aqueles olhos claros, e aquele vestido de musselina simples e azul pálido – olhou entre eles dois. Ela era um pouco mais baixa do que Nesryn, construída com delicadeza semelhante, apesar de sua estrutura delgada... Ele não olhou longamente para as outras características com as quais a curandeira tinha sido generosamente abençoada.
— Você é de Torre Cesme? — perguntou Nesryn na própria língua de Chaol.
A curandeira apenas olhou para ele. Algo como surpresa e raiva iluminando esses olhos notáveis.
Ela colocou uma mão no bolso do vestido e ele esperou que ela retirasse algo, mas ela permaneceu lá. Como se estivesse agarrando um objeto ali dentro. Não uma fêmea pronta para ser atropelada, mas um veado, que pesa as opções de lutar ou fugir, colocar-se no chão, abaixar a cabeça e atacar.
Chaol manteve seu olhar. Ele treinou muitos jovens durante os anos como capitão – e os tinha levado todos a seguirem-no.
Nesryn perguntou algo em halha, sem dúvida uma repetição de sua pergunta.
Uma cicatriz fina cortava a garganta da curandeira. Talvez três centímetros de comprimento.
Ele sabia que tipo de arma fizera aquela cicatriz. Todas as possibilidades que explodiram em sua cabeça para o que poderia ter acontecido não foram agradáveis.
Nesryn ficou em silêncio, observando-os.
A curandeira apenas se virou, caminhou até a mesa perto das janelas, sentou-se e puxou um pergaminho para ela da pilha arrumada na mesa.
Quem quer que fossem esses curandeiros, o khagan estava certo: eles certamente não responderam ao seu trono. Ou eram concentrados em si mesmos para serem impressionados por qualquer tipo de nobreza e poder.
Ela abriu uma gaveta, encontrou uma caneta de vidro e segurou-a sobre o papel.
— Nome.
Ela não tinha sotaque – ou, ao contrário, o sotaque dessas terras.
— Chaol Westfall.
— Idade.
O sotaque. Era de...
— Charco Lavrado.
Sua caneta estancou.
— Idade.
— Você é de Charco Lavrado?
O que está fazendo aqui, tão longe de casa?
Ela desviou um olhar nada impressionado para ele.
Ele engoliu em seco e respondeu:
— Vinte e três.
Ela rabiscou algo.
— Descreva onde a lesão começa. — Cada palavra era cortante, sua voz, baixa.
Teria sido um insulto ser atribuída ao seu caso? Teria outras coisas a fazer quando fora convocada para cá? Ele pensou novamente no sorriso perverso de Hasar na noite anterior. Talvez a princesa soubesse que essa mulher não era louvada por suas maneiras.
— Qual é o seu nome?
A pergunta veio de Nesryn, cujo rosto estava começando a apertar.
A curandeira acalmou-se enquanto observava Nesryn, piscando como se realmente não a tivesse notado.
— Você... é daqui?
— Meu pai era — respondeu Nesryn. — Ele se mudou para Adarlan, casou com minha mãe, e agora tenho família lá e aqui. — Ela impressionantemente escondeu qualquer vestígio de medo à menção deles quando acrescentou: — Meu nome é Nesryn Faliq. Eu sou o Capitã da Guarda Real de Adarlan.
A surpresa nos olhos da curandeira ficou cautelosa. Mas ela novamente olhou para ele.
Ela sabia quem ele era. O olhar transmitiu – a análise. Ela sabia que já tinha ocupado esse título, e agora era outra coisa. Então, o nome, a idade... as perguntas eram besteira. Ou algum absurdo burocrático. Ele duvidava que fosse o último.
Uma mulher de Charco Lavrado, reunida com dois membros da corte de Adarlan...
Não demorou muito para lê-la. O que viu. De onde a marca em sua garganta poderia ter vindo.
— Se você não quer estar aqui — Chaol falou grosseiramente — então envie outra pessoa.
Nesryn girou para ele.
A curandeira apenas manteve seu olhar fixo.
— Não há mais ninguém para fazer isso.
As palavras não ditas disseram o resto: Eles enviaram o seu melhor.
Com essa postura firme e auto-assegurada, ele não duvidou disso. Ela voltou a inclinar a caneta.
— Descreva onde a lesão começa.
Uma batida forte na porta da sala de estar cortou o silêncio. Ele virou, amaldiçoando-se por não ter ouvido a abordagem.
Mas era a princesa Hasar, vestida de verde e dourado e sorrindo como um gato.
— Bom dia, Lorde Westfall. Capitã Faliq. — Com seu cabelo trançado balançando a cada passo, Hasar dirigiu-se à curandeira, que a olhou com uma expressão que Chaol se atreveu a chamar de exasperação e inclinou-se para beijá-la na bochecha. — Você geralmente não é tão mal-humorada, Yrene.
Ali – um nome.
— Eu esqueci meu kahve esta manhã. — A bebida grosseira, temperada e amarga com que Chaol engasgara no café da manhã. Um gosto adquirido, Nesryn dissera quando perguntada sobre isso mais tarde.
A princesa sentou na borda da mesa.
— Você não veio jantar noite passada. Kashin estava mal-humorado sobre isso.
Os ombros de Yrene se tensionaram.
— Eu tive que me preparar.
— Yrene Towers trancando-se na Torre para trabalhar? Eu posso morrer de choque.
Pelo tom da princesa, ele preencheu o suficiente. A melhor curandeira de Torre Cesme tornou-se assim graças a tal ética de trabalho extenuante.
Hasar o olhou.
— Ainda na cadeira?
— A cura leva tempo — Yrene falou suavemente à princesa. Não sem um toque de subserviência ou respeito no tom. — Nós estávamos apenas começando.
— Então você concordou em fazer isso?
Yrene cortou a princesa um brilho afiado.
— Estávamos avaliando as necessidades do lorde — ela fez um movimento com o queixo para as portas. — Devo encontrá-la quando eu terminar?
Nesryn lançou a Chaol um olhar impressionado e cauteloso. Uma curandeira dispensando uma princesa do império mais poderoso do mundo.
Hasar inclinou-se para enrolar os cabelos castanhos dourados de Yrene no dedo.
— Se você não fosse abençoada pela deusa, eu também arrancaria sua língua. — As palavras eram veneno com mel. Yrene apenas ofereceu um sorriso fraco e perplexo antes que Hasar pulasse da mesa e lhe desse uma inclinação zombeteira da cabeça. — Não se preocupe, Lorde Westfall. Yrene curou lesões semelhantes e muito piores do que as suas. Ela é capaz de fazê-lo voltar a caminhar para seu mestre novamente em algum momento.
Com esse amável tiro de despedida, que deixou Nesryn com os olhos arregalados, a princesa desapareceu.
Eles esperaram alguns momentos para se certificar de que ouviram a porta exterior sendo fechada.
— Yrene Towers — foi tudo o que Chaol disse.
— E daí.
Lá se fora a fraca diversão. Bem.
— A falta de movimento começa nos meus quadris.
Os olhos de Yrene se dirigiram para eles, dançando sobre ele.
— Você é capaz de usar sua masculinidade?
Ele tentou não hesitar. Mesmo Nesryn piscou à franca questão.
— Sim — ele disse com força, lutando contra o calor em suas bochechas.
Ela olhou entre eles, avaliando.
— E foi até o fim?
Chaol travou o queixo.
— Como isso é relevante? — E como ela havia descoberto o que estava entre eles?
Yrene apenas escreveu algo.
— O que você está escrevendo? — Ele exigiu, amaldiçoando a condenada cadeira por impedi-lo de ir rapidamente até ela e arrancar o papel de suas mãos.
— Estou escrevendo um gigante não.
A qual ela sublinhou então.
Ele rosnou:
— Suponho que você vai perguntar sobre meus hábitos no banheiro agora?
— É o próximo tópico na minha lista.
— Eles são inalterados — ele cuspiu. — A menos que você precise que Nesryn confirme.
Yrene simplesmente se voltou para Nesryn, imperturbável.
— Você o viu lutar com isso?
— Não responda — ele grunhiu para Nesryn.
Nesryn teve o bom senso de afundar-se em uma cadeira e permanecer quieta.
Yrene levantou-se, pousou a caneta e deu a volta na mesa. A luz do sol da manhã pegou em seus cabelos, rodeando sua cabeça como uma coroa.
Ela se ajoelhou aos seus pés.
— Você removerá suas botas ou devo fazer isso?
— Eu vou faço.
Ela se sentou sobre os calcanhares e assistiu-o se mover. Outro teste. Para discernir quão móvel e ágil ele era. O peso de suas pernas, ter que ajustar sua posição constantemente... Chaol apertou os dentes enquanto segurava o joelho, tirando o pé da plataforma de madeira e inclinando-se para remover a bota em alguns puxões fortes. Quando terminou de tirar a outra, ele perguntou:
— Calças também?
Chaol sabia que ele deveria ser gentil, deveria suplicar para que ela o ajudasse, e ainda assim...
— Depois de uma bebida ou duas, eu acho — disse Yrene. Então olhou por cima do ombro para uma Nesryn perplexa. — Desculpe — ela acrescentou, e soou apenas um pouco menos afiada.
— Por que está se desculpando com ela?
— Suponho que ela tenha o infortúnio de compartilhar sua cama hoje em dia.
Ele se segurou para não pegar os ombros dela e apertá-los com força.
— Já fiz algo para você?
Isso pareceu dar-lhe uma pausa. Yrene apenas arrancou as meias, atirando-as em cima de onde ele descartara as botas.
— Não.
Uma mentira. Ele cheirou e provou.
Mas isso a concentrou, e Chaol observou enquanto Yrene pegava seu pé nas mãos magras. Observou, já que ele não sentiu além do movimento em seus músculos abdominais. Ele não podia dizer se ela estava apertando ou segurando levemente, se suas unhas estavam cravando; não sem olhar. Então olhou.
Um anel adornava seu quarto dedo – uma aliança de casamento.
— Seu marido é daqui? — Ou esposa, ele supôs.
— Eu não sou... — ela piscou, franzindo o cenho para ele. Ela não terminou a frase.
Não era casada, então. O anel de prata era simples, a granada não mais do que uma gota. Provavelmente desgastado para evitar que os homens a incomodassem, como havia visto muitas mulheres nas ruas de Forte da Fenda.
— Consegue sentir isso? — perguntou Yrene. Ela tocava cada dedo.
— Não.
Ela o fez no outro pé.
— E isso?
— Não.
Ele passara por esses exames antes – no castelo, e com Rowan.
— Sua lesão inicial — Nesryn falou, enquanto também se lembrava do príncipe — era por toda a coluna vertebral. Um amigo que tem algum conhecimento de cura reparou o melhor que podia. Recuperou o movimento na parte superior do corpo, mas não abaixo dos quadris.
— Como foi conseguida – a lesão?
Suas mãos se moviam sobre o pé e o tornozelo, tocando e testando. Como se ela realmente tivesse feito isso antes, como a princesa Hasar comentara.
Chaol não respondeu imediatamente, lembrando daqueles momentos de terror, dor e raiva.
Nesryn abriu a boca, mas ele a interrompeu.
— Eu levei um golpe nas costas enquanto lutava, um golpe mágico.
Os dedos de Yrene estavam levantando as pernas, acariciando e apertando. Ele não sentiu nada disso. Suas sobrancelhas concentraram-se.
— Seu amigo deve ter sido um curandeiro dotado se você recuperou tanto movimento.
— Ele fez o que pôde. Então me disse para vir aqui.
Suas mãos empurraram e pressionaram as coxas, e ele observou com um pequeno horror crescente enquanto ela as deslizava cada vez mais alto. Ele estava prestes a perguntar se ela ia ter certeza por si mesma do funcionamento de sua masculinidade, mas Yrene levantou a cabeça e encontrou seu olhar.
Por fim, seus olhos eram uma chama dourada. Não como o metal frio de Manon Bico Negro, refletindo um século de violência e instintos predatórios, mas... como uma longa chama na noite de inverno.
— Eu preciso ver suas costas — Yrene falou. Então ela se afastou. — Deite-se na cama mais próxima.
Antes que Chaol pudesse lembrá-la de que não era tão fácil fazer isso, Nesryn se moveu instantaneamente, empurrando-o para o quarto dele. Kadja já havia feito a cama e deixou um buquê de laranjeiras na mesa ao lado. Yrene cheirou o ar – como se fosse desagradável. Ele se absteve de perguntar.
Ele dispensou a ajuda de Nesryn para subir na cama com um aceno de mão. Era baixa o suficiente para ele conseguir sozinho.
Yrene estava na entrada, observando enquanto ele apoiava uma mão no colchão, outra no braço da cadeira, e com um poderoso impulso, colocou-se numa posição sentada na cama. Ele desabotoou cada um dos botões recém-polidos de sua casaca e depois tirou-a para fora. Juntamente com a camisa branca abaixo.
— De barriga para baixo, suponho?
Yrene deu um rápido aceno.
Agarrando os joelhos, fazendo força com o abdômen, puxou as pernas para o colchão enquanto se deitava de costas. Por alguns batimentos cardíacos, sacudiu as pernas. Movimento não controlado, ele percebeu depois da primeira vez que aconteceu semanas atrás. Ele ainda podia sentir aquele peso esmagador no peito depois de ter entendido.
Era um efeito da lesão – que geralmente acontecia se ele se movia por conta própria.
— Espasmos nas pernas são comuns em lesões assim — forneceu o Yrene, observando-os desaparecerem na quietude mais uma vez. — Isso pode acalmar com o tempo. — Ela acenou com uma mão para ele em uma lembrança silenciosa para virar de barriga para baixo.
Chaol não disse nada quando se sentou para colocar um tornozelo sobre o outro, deitar de novo sobre as costas e depois se virou, as pernas seguindo o exemplo.
Se ela estava impressionada com o fato de ele ter recuperado as manobras com tanta rapidez, ela não deixou transparecer.
Nem levantou uma sobrancelha.
Dobrando as mãos sob o queixo, ele olhou por cima do ombro e a observou se aproximar, observou o movimento de Nesryn ao sentar-se quando a mulher começou a andar novamente.
Ele examinou Yrene em busca de qualquer tipo de magia cintilante. Como seria, ele não tinha a mínima idei. Dorian era gelo e vento e luz; Aelin era uma furiosa chama de fogo, mas cura mágica... Era algo externo, algo tangível? Ou algo que apenas seus ossos e sangue pudessem testemunhar?
Ele já se recusara esse tipo de perguntas – talvez uma vez tivesse se recusado à ideia de permitir que a magia o tocasse. Mas o homem que tinha feito essas coisas, temia essas coisas... Ele estava feliz em deixá-lo na ruína quebrada do castelo de vidro.
Yrene ficou sobre ele por um momento, examinando suas costas.
Suas mãos eram tão quentes quanto o sol da manhã, quando colocou as palmas na pele entre os ombros.
— Você foi atingido aqui — ela observou calmamente.
Havia uma marca. Uma palidez fraca e salpicada em sua pele onde o golpe do rei o atingira. Dorian havia lhe mostrado usando um truque com dois espelhos de mão antes de partir.
— Sim.
Suas mãos seguiram pelo sulco da coluna vertebral.
— Ele rasgou-o aqui, triturando e cortando. — As palavras não eram para ele, mas como se ela estivesse falando sozinha, perdida em transe.
Ele lutou contra a memória dessa dor, o entorpecimento e o esquecimento que convocou.
— Você pode dizer isso? — perguntou Nesryn.
— A minha magia me diz. — A mão de Yrene ficou paralisa no meio de suas costas, empurrando e cutucando. — Foi um poder terrível – o que o atingiu.
— Sim — foi tudo o que ele disse.
Suas mãos foram descendo mais e mais, até que empurraram a cintura de suas calças alguns centímetros para baixo. Ele sibilou através de seus dentes e olhou por cima de seu ombro nu.
— Um pequeno aviso.
Yrene o ignorou e tocou a parte mais baixa de suas costas. Ele não sentiu isso. Ela passou os dedos por sua espinha como se contasse as vértebras.
— Aqui?
— Posso senti-la — disse Chaol.
Ela recuou.
— Aqui?
Nada.
Seu rosto ficou sério, como se ela estivesse fazendo uma nota mental da localização. Ela começou nas bordas externas de suas costas, rastejando, perguntando onde ele parava de sentir seu toque. Ela pegou o pescoço e a cabeça dele em suas mãos, torcendo-os de um lado para o outro, testando e avaliando.
Finalmente, ordenou que ele se movesse. Não se levantar, mas virar-se para cima.
Chaol olhou para o teto arqueado e pintado enquanto Yrene mexia e cutucava seu peito, os músculos do abdômen, e ao longo de suas costelas. Ela alcançou o feixe dos músculos que levavam sob suas calças, continuou a descer e ele exigiu:
— Sério?
Yrene lançou-lhe um olhar incrédulo.
— Há algo que esteja particularmente envergonhado que eu veja?
Oh, ela certamente teria uma briga, esta Yrene Towers de Charco Lavrado. Chaol manteve seu olhar fixo, o desafio nele.
Yrene apenas bufou.
— Eu tinha esquecido que os homens do continente do norte são tão corretos e comedidos.
— E aqui não são?
— Não. Os corpos são celebrados, sem vergonha para esconder, homens e mulheres, ambos.
Isso explicaria a criada que não tinha pudores sobre tais coisas.
— Eles pareciam muito vestidos para o jantar.
— Espere até as festas — respondeu Yrene friamente. Mas ela levantou as mãos da cintura já baixa de suas calças. — Se não notou nenhum problema externa ou internamente com sua masculinidade, então não preciso olhar.
Ele empurrou para longe a sensação de que ele tinha cerca de treze anos e tentava falar com uma garota bonita pela primeira vez e terminou:
— Tudo bem.
Yrene deu um passo para trás e entregou-lhe a camisa. Ele sentou-se, braços e músculos abdominais esticando-se, e vestiu-a.
— E? — perguntou Nesryn, seguindo-os.
Yrene brincou com uma onda pesada e solta de seus cabelos.
— Eu preciso pensar, falar com minha superior.
— Pensei que você fosse a melhor — Nesryn  falou cuidadosamente.
— Eu sou uma dos muitos que são habilidosos — admitiu Yrene. — Mas a Alta Curandeira me atribuiu a este caso. Eu gostaria de falar com ela primeiro.
— É ruim? — Nesryn exigiu. Ele estava agradecido por ela ter feito isso – ele não tinha coragem.
Yrene apenas olhou para ele, seu olhar franco e sem medo.
— Você sabe que é ruim.
— Mas você pode ajudá-lo? — Nesryn insistiu, com mais força desta vez.
— Eu curei essas feridas antes, mas isso... isso precisa ser visto — disse Yrene, encontrando seu olhar agora.
— Quando – quando você saberá? — perguntou Nesryn.
— Quando eu tiver tempo de pensar.
Para decidir, Chaol percebeu. Ela queria decidir se o ajudaria.
Ele segurou o olhar de Yrene novamente, deixando-a ver que ele, pelo menos, entendeu. Ele estava contente por Nesryn não ter entendido a ideia. Tinha a sensação de que Yrene se veria com o rosto pressionado contra a parede se ela percebesse.
Mas para Nesryn... os curandeiros eram irrepreensíveis. Sagrados como um dos deuses aqui. Sua ética inquestionável.
— Quando você voltará? — perguntou Nesryn.
Nunca, ele quase respondeu.
Yrene passou as mãos nos bolsos.
— Eu avisarei — foi tudo o que ela disse, e saiu.
Nesryn olhou para ela e esfregou o rosto.
Chaol não disse nada.
Mas Nesryn endireitou-se e depois correu para a sala de estar. Pegou um papel e então...
Nesryn parou na entrada de seu quarto, com as sobrancelhas cruzadas, o papel de Yrene nas mãos. Ela entregou para ele.
— O que isso sequer significa?
Havia quatro nomes escritos no papel, sua escrita em bagunça.

Olgnia.
Marte.
Rosana.
Josefin.

Era o nome final que havia sido escrito várias vezes.
O nome final que tinha sido sublinhado, uma e outra vez.
Josefin. Josefin. Josefin.
— Talvez eles sejam outros curandeiros na Torre que possam ajudar — ele mentiu. — Talvez ela temesse que os espiões ouvissem a sugestão de outra pessoa.
A boca de Nesryn se curvou para o lado.
— Vamos ver o que ela diz – quando retornar. Pelo menos sabemos que Hasar pode rastreá-la, se necessário. — Ou Kashin, cujo nome tinha feito a curandeira hesitar. Não que ele fosse obrigar Yrene a trabalhar com ele, mas... era uma informação útil.
Chaol estudou o papel novamente. O fervoroso sublinhado desse último nome.
Como se houvesse necessidade de se lembrar enquanto estava aqui. Na presença dele. Como se ela precisasse que seja lá quem fossem, eles soubessem que ela se lembrava deles.
Ele conhecera outra talentosa jovem curandeira de Charco Lavrado. Seu rei a amava o suficiente para considerar fugir com ela, buscar uma vida melhor para eles. Chaol sabia o que acontecera em Charco Lavrado durante a sua juventude. Sabia o que Sorscha suportara lá – e o que havia sofrido em Forte da Fenda.
Ele atravessou as pastagens cicatrizadas de Charco Lavrado ao longo dos anos. Tinha visto as cinzas e casas de pedra abandonadas, seus telhados de colmo há muito tempo desaparecidos. Proprietários escravizados, mortos ou fugitivos em outro lugar. Distantes.
Chaol percebeu enquanto segurava aquele pedaço de papel, que Yrene Towers não voltaria.

6 comentários:

  1. Bem... Já deu pra notar que teremos uma bagunça amorosa aqui. Nesryn, Chaol, Khadir, Sartaq, Irene e quem mais entrar na roda.

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  2. Nãaaooo
    Ela volta sim <3 Ela tem que voltar ...

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  3. Sinceramente esse foi o melhor capítulo até agora, devo admitir que ri bastante com os diálogos da Yrene e Chaol.
    Eu tô amando essa curandeiro
    Se shippo Chaol e Yrene? Sim ou com certeza? Eu quero eles dois juntos *-*

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  4. Que triste... Isso me lembra a Aelin no primeiro livro quando ficava pensando que estava beijando o filho de seu inimigo e que isso era errado... ;-; Aí aí

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  5. Muitas farpas trocadas entre Chaol e Yrene e isso tá com cara de rolo. .. e as coisas com a Nesryn não andam bem mesmo! Sei não. .. Acho que vou shipar esses dois!

    Flavia

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Boa leitura, E SEM SPOILER!