20 de janeiro de 2018

Capítulo 5. Três vezes destruição

O caminho que Crânio e o Senador tinham de fazer através da pista do aeroporto até o Tucano que os levaria ao Pantanal passava pelo hangar onde se via aquele estranho avião rosa-choque à espera do mecânico.
Bojudo como um hipopótamo, lá estava o fantástico C-47, com o prefixo PTMSB pintado em preto. Um cargueiro pesadão, que prestava serviço há mais de cinquenta anos. E muitas horas de voo o C-47 ainda teria pela frente: a fortuna de tia Matilde era suficiente para manter o avião sempre novo, como se tivesse sido construído no mês passado.
— Esse calhambeque aéreo é um animalzinho de estimação para tia Matilde. É o “xerimbabo” dela, como dizem por aqui — explicou a voz grossa do Senador. — Sua tia não olha despesas para conservá-lo. Acho até que, aos poucos o avião foi totalmente reconstruído. É como se fosse novo mesmo. Do jeito que saiu da fábrica. Com exceção da cor, é claro!
Crânio achou mais graça na gargalhada do que na brincadeira do Senador.
— Não seria mais prático e mais barato trocá-lo por um avião novo? Mais moderno?
— Claro que seria. Mas ninguém gosta de se desfazer do seu xerimbabo...
Aos poucos, o perfil de tia Matilde ia se tornando mais nítido na mente do sobrinho. Uma pessoa rara, com quem Crânio gostaria de conviver em uma temporada de férias mais descontraída do que imaginava que seria aquela. Desta vez sua preocupação era descobrir uma pista do assassino do professor Elias.
O Senador pareceu adivinhar o pensamento do garoto:
— Andei perguntando por aí e descobri alguém que esteve com o seu professor. Ele andou pelo Taquari, fotografando tudo o que via. Se você quer conhecer o Pantanal pelas mesmas trilhas do professor, eu já sei o jeito. É só usar o mesmo guia que ele empregou, um índio chamado Robson. Está em Nhecolândia. Mandei passar um rádio para lá dizendo que eu preciso do tal Robson. Ele estará nos esperando na minha fazendinha.
O Tucano podia não ser tão espalhafatoso quanto o C-47, mas discreto é que não era. Tinha uma cor amarelo-gema e duas faixas verdes que o decoravam de ponta a ponta. Crânio embarcou, espantado com o poder daquele fazendeiro grandalhão. Em pouco mais de uma hora, o Senador seria capaz de descobrir qualquer coisa e mandar quem quisesse para o lugar que bem entendesse!

* * *

O Tucano amarelo voava baixo sobre o Pantanal, em direção ao aeroporto particular da “fazendinha” do Senador.
— Minhas terras ficam bem próximas da Fazenda Rosa-Pink, a sede do reinado de tia Matilde. Ah, são terras que não acabam mais! Sua tia está sempre comprando novas fazendas e aumentando sempre mais as terras da Rosa-Pink. Certa vez alguém perguntou a ela se pretendia comprar todo o Pantanal. Sabe o que ela respondeu? Que não queria todas as terras, só as do vizinho!
A gargalhada do Senador sobrepôs-se ao ronco do avião. Aos poucos a alegria foi morrendo, e o grandalhão ficou sério, olhando fixamente pela vigia.
— Olhe para baixo, Crânio. Veja o paraíso. Aqui a natureza se protegeu cercada pela cordilheira dos Andes, a leste, e pelas serras de Mato Grosso, a oeste. Você vai conhecer a mais linda reserva natural do mundo. Mas, se você olhar direito, é capaz de chorar. A estupidez, a miséria e a ganância estão acabando com o Pantanal. Ou talvez só a ganância, porque a miséria é resultado da ganância. E a estupidez é sua única explicação.
A fala daquele homem estava emocionada. Cada frase dele era um discurso.
— Imagine se você visitasse o mais completo museu do mundo e notasse o desaparecimento de uma tela de Van Gogh, descobrisse um quadro de Modigliani todo furado com a brasa de cigarros e um Picasso cortado a gilete...
Fez uma pausa, para deixar fazer efeito a horripilante comparação.
— Veja os índios, por exemplo. Você os encontra. Mas serão eles ainda índios? Será que podemos chamar índios esses seres sem espaço para caçar como sempre fizeram seus antepassados? Essas pessoas que já trocaram seus nomes tribais por Terezinha e Sebastião? Esses homens e mulheres cada vez mais atraídos pelas bugigangas dos homens brancos? Cada vez mais contaminados pelas doenças que estamos trazendo para cá? Este é o nosso Van Gogh. Está desaparecendo.
Crânio propôs uma esperança:
— Alguma coisa ainda pode ser feita, Senador. O governo pode proteger as terras indígenas. Pode garantir que cada tribo viva em paz, sem a invasão dos brancos. Os índios também são brasileiros. Merecem a proteção do governo.
O Senador olhou para o rapaz com carinho. Mas com aquele carinho de adulto, que age como se os jovens não entendessem nada do mundo e das pessoas.
— É fácil falar. A identidade cultural de um povo depende de sua atividade econômica. Nossos índios conhecem muito bem a agricultura e cuidam muito bem de suas roças há séculos. Para competir com os agricultores brancos, eles precisam de tratores, de transporte, de mercado para seus produtos. Mas, para continuar como índios, eles precisam caçar, pescar e colher o que a natureza oferece. Sem a atividade do “achá-matá-cumê”, como eles próprios dizem, eles não serão mais índios. Mas, para isso, são necessárias grandes extensões de floresta virgem. Perseguindo a caça, o índio anda o dia inteiro, percorre quilômetros de mata. Mas como o governo irá reservar quilômetros de mata para uma tribo de duzentos ou trezentos indivíduos apenas, quando há milhares de outros brasileiros sem terra, sem ter onde trabalhar, sem ter como se sustentar?
Crânio não estava tão mal informado quanto o Senador parecia julgar.
— A verdade, Senador, é que no final das contas a terra acaba sendo tomada do índio por algum grande fazendeiro, que derruba a mata, planta capim e deixa algumas reses pastando, sem dar sequer empregos para esses brasileiros sem terra.
O Senador sorriu, como se não achasse graça no assunto.
— É isso mesmo, Crânio. O problema do índio faz parte do grande problema que é a concentração de terras nas mãos de poucos. E o resultado é a miséria da maioria. Ai, como pode funcionar um país em que quando se nasce todas as terras já pertencem a alguém?
Por um momento somente o ronco dos motores do tucano respondeu à pergunta do fazendeiro grandalhão, que culpava os fazendeiros pela miséria do Brasil.
— A miséria... Você sabe, Crânio, que atualmente um lavrador brasileiro consome um décimo das proteínas que consumia um escravo cem anos atrás? É... antes os fazendeiros cuidavam melhor dos seus escravos do que os fazendeiros da atualidade cuidam dos trabalhadores livres...
Crânio ficou imaginando que tipo de liberdade era essa.
— O que espanta — continuou o Senador — é notar a que ponto chegou a chamada “civilização”: no mesmo lugar em que um camponês passa necessidades, é subnutrido, doente e desdentado, os índios vivem fortes e saudáveis. Dá pra entender?
— Parece que bastaria ensinar os brancos a viver como os índios, em comunhão com a natureza, e ensinar aos índios as coisas boas da civilização dos brancos.
O Senador pousou a mão nos cabelos do garoto como um pai.
— E todo mundo viveria de mãos dadas, não é? Você tem toda a razão. Todas as razões do seu coração de menino. Mas o que você está propondo é impossível. É lindo, mas é impossível. O nosso sistema exige que um lavrador produza muito, cada vez mais, sem preservar a natureza. O que nós chamamos “progresso” não existe nas sociedades indígenas. Eles não precisam de progresso. Vivem do mesmo modo há gerações, utilizando os mesmos conhecimentos dos seus antepassados. Qualquer “progresso” desorganizaria seu modo de vida. Não existe progresso com ordem, por mais que escrevam isso em todas as bandeiras. Progredir significa desorganizar tudo o que está em ordem, propondo um novo tipo de organização. Levar o progresso ao índio é o mesmo que destruí-lo. Significa quebrar o equilíbrio harmonioso do índio com a natureza. Significa matá-lo.
Crânio sentia-se confuso. Aquilo tudo era demais para ele. Como aceitar que o progresso pudesse ser mau?
— Ah, Crânio, o progresso! — suspirou o Senador. — Quem pode deter essa praga que chamam progresso? Aqui no Pantanal, o índio já está deixando de fazer parte do meio que ele controlava há gerações sem alterá-lo em nada. Hoje, o índio pantaneiro mata jacarés para comprar radinho de pilha e óculos escuros. Em troca de uma paga ridícula, dizima a natureza para plantar o capim que engordará o gado das grandes fazendas. E o pagamento servirá, por exemplo, para comprar açúcar refinado.Nossos índios já esqueceram que foram eles mesmos que descobriram as folhas de stevia, um adoçante trezentas vezes mais doce que o açúcar dos brancos. Nossos índios estão desaparecendo e sendo levados a contribuir para o próprio fim...
O Tucano voava baixo e Crânio olhou ansioso as cores do Pantanal, como se fosse possível ajudar os últimos índios antes que eles desaparecessem.
— Esta beleza está acabando, Crânio. É o quadro de Modigliani furado com brasa de cigarro. A derrubada e a queimada das árvores vão levar o Pantanal à extinção em algumas décadas. Já não há lugar para pássaros, capivaras, onças e quatis. Derruba-se a natureza, queima-se a natureza, para criar pastagens. Depois, quando os arbustos novos começam a aparecer, mostrando o esforço de recuperação do Pantanal, os biocidas são pulverizados periodicamente para matar esses arbustos e manter “limpas” as pastagens... O vento leva esses venenos para todos os lados, envenenando e matando animais e vegetação. Aqui, o povo chama esses produtos químicos de “matamato”. Só que isso está matando muito mais do que o povo pode suspeitar...
Sacudiu a cabeça violentamente, como que espantando um pesadelo.
— Ah, o progresso! Ah, a civilização! Você não se sente orgulhoso de tudo isso? Mas deixe só eu falar do nosso Picasso, o quadro cortado a gilete deste museu.Você verá essa barbaridade no Pantanal. Em nenhum lugar do mundo, o equilíbrio da natureza é tão perfeito e tão fantástico como aqui. Esse equilíbrio depende de uma corrente onde um elo apoia o outro. Tanto no entrelaçamento da vida quanto no entrelaçamento da morte. Aqui, a morte é vida. Cada ser que desaparece ressurge garantindo a sobrevivência de outro. Mas há pessoas que acham muito elegante andar com sapatos e bolsas feitos de couro de jacaré. Para satisfazer essa vaidade, dois milhões de jacarés são mortos todos os anos por aqui. E o jacaré é responsável por não haver esquistossomose no Pantanal, você sabia? Ele é também o elo da corrente que mantém a população de piranhas em equilíbrio. Sem eles, as piranhas estão se reproduzindo aos milhões e dizimando os peixes menores. Neste museu, no lugar da tela de Picasso, daqui a pouco estará um quadro cinza e negro, retratando um pântano nojento, povoado somente pelas piranhas... E todos que aqui vêm parecem felizes em participar desse festim de destruição. Ao longo da rodovia Transpantaneira divertem-se atirando em pássaros só pelo prazer de vê-los cair. Boiando nos corixos, nos pequeninos rios, o que se encontra são latas de cerveja e frascos plásticos...
Um tripulante apareceu pedindo que atassem os cintos de segurança. O Tucano preparava-se para pousar. O Senador recostou-se na poltrona.
— Aqui tudo depende do modo de olhar o Pantanal, Crânio. Você pode conhecer o paraíso, mas o inferno está próximo, está bem aí, para quem quiser ver...

* * *

O Tucano pousara em uma pista aberta há pouco tempo, um rasgão na mata, feito a trator, como uma estrada que vem de nenhum lugar e vai para lugar algum. Como a dar as boas-vindas ao seu parente amarelo, um bando de tucanos passou voando, inclinados para a frente pelo peso dos bicos.
À distância de um grito do pequeno aeroporto, a casa da fazenda espalhava-se por uma imensa clareira. O movimento de empregados era intenso, como seria de se esperar de uma fazenda de um grandalhão com uma voz como aquela. Era a perfeita imagem de qualquer latifúndio brasileiro. Tudo parecia muito normal.
Somente um detalhe não escapou a Crânio: entre os empregados não havia uma mulher.
— O tal guia ainda não apareceu, garotão — o Senador deixara Crânio na varanda da casa da fazenda e agora voltava com a informação. — Mas não deve demorar. Estará aqui amanhã de manhã, quando você acordar.
Em lugar de cães e gatos, uma meia dúzia de saguis e um macaco-prego eram os animais de estimação naquela fazenda. Formavam um grupo amigável e barulhento, sempre à roda do visitante e à espera de alguma fruta ou algum carinho. O mais animado era Cabo Malandro, o macaco-prego, que gostou do colo de Crânio. Tinha o tamanho de um bebê e uma curiosidade equivalente. Cutucava os bolsos do garoto como se ali fosse um armazém de amendoins.
Estava úmido, abafado. O calor era forte, apesar de já haver escurecido há mais de uma hora. Crânio cocou a cabeça do macaquinho, que se enrolou de prazer.O rapaz sentia-se mole. Havia comido um pacu recheado, e o Senador havia feito experimentar um cálice de licor de pequi. Agora, o cansaço daquele dia desurpresas começava a abatê-lo.
— Você deve estar exausto — observou o Senador. — O seu dia não foi fácil.
Bem, o meu também não foi. Acho que o certo é terminá-lo por aqui. Amanhã será um dia melhor. Sem aviões, sem cachorros ferozes e sem sustos. Você vai adorar o Pantanal.
— Será que ainda resta alguma coisa para se ver no museu do Pantanal?
— Resta muito, garotão. Muito! Esqueça o que eu lhe disse no avião.
Deslumbre-se! O guia que irá com você é um dos melhores. Será fácil encontrar a pista que você está procurando.
— Pista? Que pista, Senador?
— Eu disse “pista”? É um modo de dizer “seguir a trilha”. Não é isso o que você pretende? Seguir a trilha do seu professor?
Antes que Crânio pudesse responder, um ruído de gente veio da escuridão. Os dois estavam na varanda da casa, e demorou um pouco até que as vozes se transformassem em um grupo de empregados sob a luz de lampiões. Carregavam um corpo imóvel.
— Veja, Senador. Nós...
Pareceram desconcertados ao notar que o Senador não estava sozinho. Depois de um momento de hesitação, um deles falou:
— Acabamos de encontrar. Este nunca mais vai matar jacarés.
O corpo foi colocado no chão da varanda, aos pés do Senador. Era um homem magro, mal vestido. De sua boca aberta, atochada com terra, saíam formigas enormes, carnívoras, que se espalhavam pelo rosto e entravam pelas narinas. Cabo Malandro veio espiar de perto, assustado.
O empregado explicou, com o olhar inseguro, pulando de Crânio para o Senador, como se temesse falar algo que não devia:
— O infeliz estava à beira do Taquari, pendurado numa árvore como um papagaio. Acho... acho que foram os Formigas-paradas...
O Senador interrompeu, autoritário:
— Esqueçam essa bobagem de espíritos malignos. Não há nada de espiritual num assassinato. Isso foi feito por gente! Lavem o corpo e tirem essa sujeira da boca dele. Amanhã vamos levá-lo para Nhecolândia.
Enquanto os homens desapareciam na escuridão, levando o cadáver, o olhar de Crânio procurou o Senador, pedindo uma explicação.
— É um “coureiro”, garotão. Um desses que vivem nos corixos, pelas madrugadas, matando jacarés.
— Mas como ele foi morto? Por quê? E por que as formigas?
O Senador sorriu tristemente. Olhou para a escuridão como se procurasse uma ameaça à espreita nas sombras.
— Isso é besteira! O povo ignorante fala dos Formigas-paradas, assombrações que atacam os coureiros solitários. Mas ninguém ainda viu nenhum desses fantasmas. Besteira!

* * *

Antes de deitar-se, Crânio examinou a caixa de slides, amassada porque estava na malinha com que ele havia golpeado o cão negro, farejador de cocaína. Tudo em ordem. Ele haveria de encontrar o lugar onde tinham sido fotografados os slides roubados,
— Formigas-paradas... Assombrações... Quem mataria um homem e depois lhe encheria a boca com um bolo de terra e formigas? Parece um aviso, ou uma espécie de vingança macabra!
O sono avançava depressa e Crânio adormeceu pensando naquele enorme fazendeiro que o trouxera a um lugar como aquele, onde vivia aparentemente sem família, sem mulher e sem filhos, e onde só trabalhavam homens. Uma fazenda de solteirões? Em pleno Pantanal?

2 comentários:

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Boa leitura, E SEM SPOILER!