15 de janeiro de 2018

Capítulo 5. O plano de Miguel

O silêncio ocupou todo o esconderijo dos Karas. Não havia medo no ar, pois aquele grupo não era de sentir medo. Mas os cinco corações batiam apressados, injetando ânimo nos cinco corpos, para enfrentar toda a ação que estava para vir.
As notas agudas da gaitinha do Crânio se fizeram ouvir, tornando ainda mais pesado o ambiente. Miguel estava pensando. Pensando estavam todos, e Chumbinho deu uma tossida que revelava o seu nervosismo.
— É o pó... Isto aqui está cheio de pó... — desculpou-se o menino.
Sentado nas pernas, que era o jeito de Miguel sentar-se, o líder dos Karas encostou o queixo no peito e fechou os olhos, em grande concentração. A seu lado, o coração de Magrí fazia subir e descer o último do nome do colégio, impresso na camiseta da menina.
Quase encostado no geniozinho dos Karas, Calú sussurrou, com malícia:
— Você já notou os peitinhos que estão crescendo na Magrí?
Por um instante, a calma do Crânio pareceu perturbada:
— Numa hora como esta, você...
— Calma! — brincou Calú. — Eu esqueci que você só pensa cientificamente...
Crânio conseguiu controlar-se:
— Eu não penso só em máquinas, Calú. Eu penso em carne também...
— Não vá me dizer agora que você também é humano... Mas a provocação de Calú não encontrou ouvidos. Crânio estava novamente tocando a gaitinha, e em seu cérebro só havia lugar para o mistério dos estranhos desaparecimentos.
O líder dos Karas levantou a cabeça e olhou para Chumbinho. Decidiu que estava na hora de acabar com a brincadeira do menino. O plano que tinha de ser posto em prática era arriscado, e ele não podia expor um garotinho como aquele a uma quadrilha tão impiedosa. Miguel encerrou a reunião, dizendo que tinha prova de matemática naquele dia e precisava estudar na biblioteca.
— E a investigação?
— Não avançamos muito hoje, Chumbinho. Recomeçaremos amanhã. O Elite está cheio de policiais. Acho que não temos nada a temer por enquanto. O tal oferecedor deve esperar por uma oportunidade melhor.
Um a um, todos os Karas foram deixando o esconderijo. Os mais veteranos, Magrí, Calú e Crânio, sabiam muito bem que Miguel jamais adiaria uma ação. Entenderam que o amigo tinha um plano e sabiam que “estudar na biblioteca” era um código que indicava, a cada um, qual a próxima tarefa a cumprir.
Chumbinho não sabia disso, e foi pensando, revoltado:
“Esperar?! Mas o próprio Crânio não disse que o tal oferecedor poderia estar agindo agora mesmo? De repente, vem o Miguel e diz que a polícia tem tudo sob controle e que não vai acontecer mais nada... E eu que achava os Karas um grupo tão sensacional! Bom, se Miguel pensa que eu vou ficar parado enquanto ele estuda pra tal provinha, está muito enganado!”
E, apressadamente, Chumbinho foi fazer o que achava que tinha de fazer.

* * *

Cada um por sua vez, todos os Karas veteranos passaram pela biblioteca, depois que Miguel saiu de lá.
Na página 112 do texto da peça O auto da Compadecida, de Ariano Suassuna, Calú encontrou sua tarefa em código. No Minhas sessenta melhores partidas, de Bobby Fischer, Crânio descobriu o que tinha de fazer. E no Karatê vital, de Matsutatsu Oiama, estava a parte da Magrí.
Não havia um minuto a perder. As ordens de Miguel eram claras. E os Karas puseram-se a campo.

* * *

Miguel sabia que aqueles desaparecimentos tinham algum detalhe em comum. Tinham de ter. Quando eles descobrissem qual era esse detalhe, certamente chegariam à solução do problema.
Examinando as notícias dos jornais, Miguel verificou que o método da quadrilha era sequestrar todos os três estudantes de uma mesma escola antes de passar para a próxima. Isso queria dizer que o tal oferecedor infiltrava-se em uma escola, ganhava a confiança de três meninos ou meninas, oferecia a droga e depois abandonava aquela escola.
Aí estava um padrão: nove escolas haviam sido “visitadas” pelo tal oferecedor de drogas em pouco mais de dois meses. Isso queria dizer que o bandido ficava mais ou menos uma semana em cada colégio. Portanto, deveria ser um só. Se houvesse mais de um, certamente poderiam atacar mais de uma escola na mesma semana. O oferecedor era um só, mas quem seria ele? Um dos professores?
Miguel achava difícil encontrar um professor que trabalhasse nos dez colégios ao mesmo tempo. Mas, de qualquer forma, tinha mandado Crânio comparar as listas de professores de todas as escolas envolvidas.
Um dos funcionários não poderia ser, pois ninguém consegue mudar de emprego a cada semana. Além disso, o quadro de funcionários do Elite era o mesmo desde o começo do ano. Não seria um dos alunos? Bobagem! Como é que um estudante poderia frequentar um colégio diferente a cada semana?
Havia os pipoqueiros, sorveteiros e vendedores de bugigangas que sempre cercam os colégios, disputando as mesadas dos estudantes.
Mas foi fácil verificar que todos os vendedores ao redor do Elite eram sempre os mesmos há muito tempo, e nenhum outro havia aparecido para fazer concorrência.
Assim, por eliminação, a lógica dizia que o oferecedor não agia dentro das escolas. Mas ele tinha de agir. Senão, como explicar que todos os estudantes tivessem desaparecido em suas escolas, e não em suas casas, seus clubes ou outro lugar qualquer? Como explicar Bronca, dentro do Elite, falando com o Chumbinho e assombrado como um cretino?
Claro! O oferecedor trabalhava dentro dos colégios. Era alguém de dentro. Só podia ser. E, se faltavam ainda dois alunos para completar a trinca que deveria desaparecer do Elite, o oferecedor ainda estava ali por perto. Mas quem seria ele?
Crânio tinha razão. O plano parecia perfeito, sem uma falha, produto de uma mente criminosa fora de série.
Era preciso procurar outras peças para montar aquele quebra-cabeça. Tinha de haver alguém ou alguma coisa comum ao Bronca e aos outros vinte e sete infelizes que tinham caído nas mãos do cérebro criminoso.
Por isso tinha mandado Magrí localizar as famílias de nove dos desaparecidos, separado mais nove para Calú investigar, ficando com os últimos nove para si.
Quem sabe se depois, juntando o que cada um ouvisse, fosse possível esclarecer aquele mistério?

* * *

Entardecia quando Miguel estacionou a bicicleta na porta de uma rica mansão no Jardim Europa, depois de já ter conversado com duas famílias de estudantes desaparecidos, e de não ter conseguido localizar uma terceira. Foi aí que um carro da polícia parou ao seu lado.
— Olá, Miguel — cumprimentou alguém de dentro do carro.
O líder dos Karas ouviu nitidamente o barulho irritante do molho de chaves.

3 comentários:

  1. Acho que mudei de idéia. ... deve ser o Bino, (acho que é esse o nome) o Miguel disse que ele tinha vindo de uma escola a pouco tempo!

    Flavia

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    Respostas
    1. eu achei que fosse o diretor..
      porém mudei de ideia..hehehe
      to achando que é um dos policiais..

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Boa leitura! E SEM SPOILER!