25 de janeiro de 2018

Capitulo 5. O grande ódio

Para a primeira audiência do Komandant, fora convocado o médico que a Organização escolhera para cuidar dos jovens recrutas da Brasilianische Jugend.
— Como está o Komandant? — perguntou o médico.
— Furioso, como sempre — respondeu o guarda da porta de entrada. — Talvez um pouco mais furioso do que sempre...
Acompanhado do guarda, o médico subiu com dificuldade as escadas cobertas de tapetes e esperou que ele batesse na grossa porta de nogueira do Kabinet. Como resposta, os dois ouviram a conhecida voz do Komandant:
— Kommen Sie! Entre!
Protegido por grossas cortinas, o amplo Kabinet estava na penumbra. Atrás de uma mesa de trabalho, entalhada à mão em madeira de lei, uma pequena lâmpada destacava apenas um rosto. Era uma carranca irreal, uma máscara velha e dura, imóvel como se tivesse sido entalhada a machete pelo mesmo artesão que construíra a mesa.
O médico atravessou o tapete que ocupava quase toda a sala e aproximou-se da  mesa.
— Guten Morgen, Herr Komandant!
Ia sentar-se, mas a carranca falou, detendo o movimento do médico e deixando-o ridiculamente curvado, como se esperasse um chute no traseiro.
— Não lhe dei licença para sentar-se, Herr Doktor!
A carranca levantou-se, mostrando o corpo que a sustentava. O velho Komandant era alto e empertigado, como se tivesse engolido um cabo de vassoura inteirinho. Vestia um terno de montanhês alpino, com botas de montar. Naquele velho, a vestimenta parecia uma farda.
— Desculpe mein Komandant...
O Komandant começou a andar em círculos sobre o tapete, provocando um som cavo com o tacão das botas. Os dois alemães falavam um português perfeito, de quem mora há anos no Brasil, mas o sotaque de ambos era áspero, como se duas serras conversassem. O velho deteve as passadas e voltou-se furioso para o médico-.
— Como foi cometer este erro, Herr Doktor?
O Komandant estendeu-lhe o jornal dobrado. O médico reconheceu a notícia sobre o processo a que estava respondendo por um dos muitos erros médicos que já cometera em sua carreira. O Komandant sacudia-lhe o jornal à frente do nariz como se quisesse que o médico o engolisse:
— O que me diz a isso, Herr Doktor?
O médico gaguejou:
— Isto, Herr Komandant, é uma conspiração desses malditos judeus que dominam os conselhos de Medicina. Eles não sabem reconhecer um verdadeiro médico ariano... Estão me processando só porque eu me recusei a atender uma negra que estava com uma gravidez complicada. Aqueles judeus do conselho estão se aproveitando disso só para me prejudicar! Juro que vou me vingar deles! Eu juro, Herr Komandant! Eu pensei que...
— O senhor só pode pensar o que lhe mandam pensar, Herr Doktor! Esses inócuos juramentos de vingança só servem para ameaçar nossa segurança. Os pequenos ódios, as pequenas vinganças pessoais devem ser deixados de lado diante do Grande Ódio, da Grande Vingança!
O médico sentia-se cada vez menos à vontade:
— É claro, Herr Komandant!
— O senhor foi escolhido para cuidar da saúde dos recrutas da Brasilianische Jugend, a Juventude Brasileira, comandada pela Organização. Logo, outro médico assumirá suas funções, e o senhor terá apenas um paciente, o Esperado. Lembra-se? Faltam apenas alguns dias para começar a sua gloriosa missão. A maior honra que o senhor jamais recebeu em sua vida! Se quer ser um dia o Ministro da Saúde Ariana do IV Reich, não se esqueça da lealdade à Organização. Do contrário...
— É claro, Herr Komandant. Eu não serei mais...
— O senhor só pode ser ou deixar de ser o que a Organização ordenar, Herr Doktor! O senhor deveria orgulhar-se da tarefa para a qual a Organização o escolheu!
— Mas eu me orgulho, Herr Komandant! O meu sangue ariano...
— Só deveria haver um tipo de sangue, Herr Doktor: tipo “O”, positivo, universal... e branco!
O médico já conseguira empertigar-se e procurava a palavra certa para evitar a tempestade de fúria que se armava com as palavras do Komandant.
— É claro que sim, Herr Komandant! É claro que sim! É o meu tipo de sangue, Herr Komandant! É o meu... Todos os outros tipos impuros de sangue deverão ser derramados sobre a Terra!
— Concorda com isso, Herr Doktor!
— É claro que sim, Herr Komandant! Sempre concordei!
A carranca fez uma pausa, valorizando ao máximo o que tinha a dizer:
— Herr Doktor, o senhor é médico. Como médico, o senhor sabe que é preciso destruir os micróbios que infeccionam o organismo humano. Eu também quis ser médico, mas a guerra determinou outro destino para o meu talento. E eu seria o maior médico do mundo! Seria o maior de todos porque aprendi que, para salvar as vidas que valem a pena, é preciso eliminar todas as outras que infeccionam a sociedade e ameaçam a superior raça ariana! Por isso é preciso destruir todas as raças que infestam o Lebensraum, o espaço vital ariano. Sem compaixão! Sem piedade!
— Sim, sim, é claro Herr Komandant...
— Dentro de alguns dias, o senhor estará aqui, no Castelo Wachenfeld, ajudando a mim, que fui encarregado pelo Supremo Komand de preparar o Esperado para assumir o IV Reich. Desse momento em diante, todo o sucesso de anos de trabalho dependerá da sua atenção. Se o senhor, mais uma vez, apenas uma vez, cometer um erro, eu mandarei matá-lo como a um cão!
No alto da parede do Kabinet, sobre a ampla mesa entalhada, o olhar do médico, mais acostumado à penumbra, já podia ler a inscrição da faixa que sempre estivera ali, esperando o momento de novamente ser o grande lema do mundo:
Der Fuhrer befiehlt wirparieren, nicht ràsonnieren...
Emoldurado entre o olhar do médico e a faixa, o Komandant imobilizara-se novamente em forma de pedra, duro, impiedoso, tresloucado!
“O Fuhrer deseja vossa obediência, nunca vosso raciocínio...”
O médico engoliu o significado da frase e a agressão que a simples existência do Komandant significava. Tudo justificado pelo título com que o Komandant entrara para a História:
Todesengel... o “Anjo da morte”!

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