29 de janeiro de 2018

Capítulo 49

Rainha dos valg.
— Maeve é rainha dos feéricos — respondeu Nesryn cuidadosamente.
A aranha riu, baixa e perversamente.
— Assim ela os fez acreditar.
Pense, pense, pense.
— Que... que rainha poderosa deve ser — balbuciou Nesryn. — Para reger ambos. — Falkan mastigou furiosamente, cada fio cedendo tão, tão lentamente. — Você vai... vai me contar? A história?
A aranha a estudou, aqueles olhos sem profundidade como poços do inferno.
— Isso não comprará sua vida, mortal.
— Eu... eu sei. — Ela estremeceu ainda mais, as palavras se apressando para sai. — Mas histórias... Sempre amei histórias – dessas terras especialmente. Buscadora do Vento, minha mãe me chamava, porque sempre estava à deriva de onde o vento me levava, sempre sonhando com essas histórias. E aqui... o vento me trouxe aqui. Então eu gostaria de ouvir uma última história, se me permitir. Antes de encontrar meu fim.
A aranha permaneceu silenciosa por um batimento. Outro. Então ela se instalou sob a escultura do arco – o portão de Wyrd.
— Considere um presente – por sua ousadia por pedir.
Nesryn não disse nada, o coração trovejando em todas as partes do corpo.
— Há muito tempo — disse a aranha suavemente naquela linda voz — em outro mundo, outra vida, existia uma terra de escuridão, frio e vento. Governado por três reis, mestres da sombra e dor. Irmãos. O mundo nem sempre foi assim, não nasceu desse jeito. Mas eles travaram uma guerra poderosa. Uma guerra para acabar com todas as guerras. E esses três reis venceram. Transformaram uma terra devastada num paraíso para aqueles que moravam na escuridão. Por mil anos, governaram, iguais em poder, seus filhos e filhas espalhados pela terra para assegurar seu domínio contínuo. Até que uma rainha apareceu – seu poder, uma nova canção escura do mundo. Que maravilhas ela podia fazer com seu poder, tão horrivelmente maravilhosas...
A aranha suspirou.
— Todos a desejaram, esses reis. Perseguiram-na, cortejaram-na. Mas ela se dignou a aliar-se apenas com um, o mais forte deles.
— Erawan — murmurou Nesryn.
— Não. Orcus, o mais velho dos reis valg. Eles se casaram, mas Maeve não estava contente. Inquieta, nossa rainha passou longas horas refletindo sobre os enigmas do mundo – de outros mundos. E com seus dons, ela encontrou uma maneira de ver. Perfurar o véu entre os mundos. Ver reinos verdes, de luz e música. — A aranha cuspiu, como se tal coisa fosse abominável. — E um dia, quando Orcus saiu para ver seus irmãos, ela tomou um caminho entre reinos. Saiu do seu mundo e entrou no seguinte.
O sangue de Nesryn ficou frio.
— C-como?
— Ela tinha observado. Tinha aprendido sobre tais fendas entre mundos. Uma porta que poderia se abrir e fechar aleatoriamente, ou se alguém conhecesse as palavras certas. — Os olhos escuros da aranha cintilavam. — Nós viemos com ela – suas amadas servas. Nós pisamos com ela nesse... lugar. Neste mesmo ponto.
Nesryn olhou para a pedra polida. Até Falkan pareceu parar para fazer o mesmo.
— Ela nos mandou ficar – para guardar o portão. Para que ninguém pudesse segui-la. Pois ela decidiu que não gostaria de voltar. Para o marido, para o mundo dela. Então ela foi, e nós só ouvimos sussurros que nossas irmãs e parentes menores carregaram ao vento.
A aranha ficou em silêncio.
— O que vocês ouviram? — Nesryn perguntou.
— Que Orcus chegou, seus irmãos a reboque. Que Orcus soube que a esposa o deixou e descobriu como ela fez isso. Foi além do que ela tinha feito e encontrou uma maneira de controlar o portão entre os mundos. Forjou chaves para isso, compartilhando-as com seus irmãos. Três chaves, para os três reis.
Eles foram de um mundo para o outro, abrindo os portões quando queriam, varrendo seus exércitos e devastando esses reinos enquanto caçavam por ela. Até que chegarem a este mundo.
Nesryn mal conseguiu respirar para perguntar:
— E eles a encontraram?
— Não — disse a aranha, algo como um sorriso na sua voz. — Sua Majestade Sombria deixara estas montanhas, encontrara outra terra e se preparou bem. Ela sabia que um dia seria encontrada. E planejava se esconder à plena vista. Assim ela fez. Ela encontrou um povo belo e de vida longa – quase imortais – governado por duas rainhas-irmãs.
Mab e Mora. Deuses santos...
— E usando seus poderes, ela as enganou. As fez acreditar que tinham outra irmã, uma irmã mais velha para governar com elas. Três rainhas – para os três reis que poderiam vir um dia. Quando voltaram para o palácio delas, ela destruiu a mente de todos aqueles que moravam lá também. E de qualquer um que aparecesse. Plantando o pensamento que uma terceira rainha sempre existiu, sempre governou. Se eles de alguma forma resistiam ao poder dela, ela encontrava maneiras de acabar com eles.
Uma risada perversa.
Nesryn tinha ouvido as lendas. Do poder escuro e sem nome de Maeve – uma escuridão que podia devorar as estrelas. Que Maeve nunca revelara uma forma feérica, apenas aquela escuridão mortal. E ela vivera muito mais do que qualquer feérico conhecido. Viveu tanto tempo que a única vida a se comparar era... Erawan.
Uma vida valg. Para uma rainha valg.
A aranha novamente parou. Falkan quase alcançara suas mãos, mas ainda não o suficiente para liberá-las.
— Então os reis valg chegaram, mas não souberam quem os enfrentou na guerra? — Nesryn perguntou.
— Precisamente. — Um ronronar encantado. — Disfarçada em um corpo feérico, eles não a reconheceram, os tolos. Mas ela usou isso contra eles. Sabia como derrotá-los, como seus exércitos funcionavam. E quando percebeu o que eles tinham feito para chegar aqui, as chaves que possuíam... ela as queria. Para bani-los, matá-los e usar as chaves como achava conveniente dentro deste mundo. E em outros. Então ela as pegou. Juntou-as e as levou, cercando-se de guerreiros feéricos para que outros não perguntassem como exatamente ela sabia de tantas coisas. Oh, a inteligente rainha afirmou que era da comunhão com o mundo espiritual, mas... ela sabia. Havia dirigido acampamentos de guerra. Sabia como funcionavam os reis. Então roubou as chaves. Armou para enviar dois desses reis de volta, Orcus sendo um deles. E antes que ela pudesse ir atrás do último, o mais jovem que amava seus irmãos tão profundamente, as chaves foram tiradas dela. — Um silvo.
— Por Brannon — Nesryn respirou.
— Sim, o rei do fogo. Ele viu a escuridão nela, mas não a reconheceu. Ele se perguntou, suspeitou, mas tudo o que ele sabia dos valg, nosso povo, era dos soldados machos. Os grunhidos de príncipes e reis. Ele não sabia que uma mulher... Quão diferente, quão extraordinária uma fêmea valg é. Até ele foi enganado por ela; ela encontrou caminhos em sua mente para evitar que ele percebesse de fato. — Outra risada suave e adorável. — Até agora, quando tudo deve estar claro para seu espírito intrometido... Mesmo agora, ele não sabe. Para a chegada de sua ruína – sim, a sua ruína, e dos outros.
Uma náusea atravessou Nesryn. Aelin. Ruína de Aelin.
— Mas, enquanto não adivinhou corretamente sobre as origens da nossa rainha, ainda sabia que seu fogo... Ela temia muito o seu fogo. Como todos os verdadeiros valg temem. — Nesryn guardou a informação. — Ele foi embora, construindo o seu reino muito longe, e ela também construiu suas defesas. Tantas defesas inteligentes, Erawan deveria ascender novamente e perceber que a rainha que procurava para seu irmão, que conquistou mundos para encontrar, estava aqui o tempo todo. Que ela construíra exércitos de feéricos, e os deixaria batalhar uns contra os outros.
Uma aranha em uma teia. Isso é o que Maeve era.
Falkan alcançou as mãos de Nesryn, mastigando a seda lá. Sartaq permaneceu inconsciente, perigosamente perto da aranha.
— Então vocês esperaram esses milhares de anos... pela volta dela para essas montanhas?
— Ela nos ordenou que mantivéssemos a passagem, para proteger a fenda no mundo. Assim nós fizemos. E assim faremos, até ela nos convocar novamente para seu lado.
A cabeça de Nesryn girava. Maeve – ela pensaria nisso mais tarde. Se vivessem até lá.
Ela moveu os dedos para Falkan, sinalizando para ele.
Silenciosamente, mantendo-se nas sombras, o metamorfo correu para o escuro.
— E agora você sabe – como a Vigília Negra veio morar aqui. — A aranha levantou-se com um poderoso impulso. — Espero que tenha sido uma última história apropriada para você, Buscadora do Vento.
Nesryn abriu a boca quando a aranha avançou, girando os pulsos atrás de suas costas...
— Irmã — uma voz feminina sibilou da escuridão além. — Irmã, uma palavra.
A aranha parou, girando seu corpo bulboso em direção à entrada do arco.
O quê.
Um pulsar de medo.
— Há um problema, irmã. Uma ameaça.
A aranha correu em direção à sua igual, estalando:
— Diga-me.
— Ruks no horizonte do norte. Pelo menos vinte...
A aranha sibilou.
— Guarde os mortais. Eu vou lidar com os pássaros.
Clicando as pernas, pedras deslocando-se ao redor dela. O coração de Nesryn martelou enquanto flexionava seus dedos doloridos.
— Sartaq — ela sussurrou.
Os olhos dele abriram-se. Alertas. Calmos.
A outra aranha se aproximou, menor que a líder. Sartaq ficou tenso, os ombros esticados como se tentasse explodir a seda que o segurava.
Mas a aranha apenas sussurrou:
— Depressa.

8 comentários:

  1. Não tenho palavras para descrever esse capítulo, tô só tremendo msm

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  2. Então essa é a estória de Maeve? Bem agora eu tô surpresa.

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    1. POIS É! Por essa eu realmente não esperava

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    2. Acho que ninguém esperava por essa. Estou passada

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  3. A Maeve consegue ser mais fdp do q eu achava q ela era

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  4. É incrível q as vilãs da Sarah sejam mais fodas q os vilãos. Se vc comparar, elas são ainda mais espertas q eles.

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  5. A Sarah é uma escritora maravilhosa, estou chocada com a história da Maeve, eu sabia que tinha algo errado com ela desde a herdeira do Fogo porque essa vadia sempre temeu o fogo da Aelin, mas jamais poderia imaginar que ela é uma rainha valg. Estou começando a achar que no último livro todos os guerreiros feéricos irão se juntar a Aelin quando descobrirem a verdade sobre sua amada rainha, mas o problema é o juramento de sangue. Que merda mano, só quero ver como essa merda irá se resolver

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Passamos algumas horas sem essa opção, mas estamos à ativa novamente :)

Boa leitura! E SEM SPOILER!