29 de janeiro de 2018

Capítulo 47

A passagem entre os picos gêmeos de Dagul era maior do que parecia.
Continuava por muito tempo, um labirinto crescente de rochas irregulares.
Nesryn e Sartaq não se atreveram a parar.
Teias às vezes bloqueavam seu caminho, ou pairavam acima, mas ainda assim eles seguiam adiante, buscando qualquer caminho para cima. Para onde Kadara poderia levá-los para o céu.
Já aqui embaixo, com as paredes estreitas da passagem, a ruk não conseguia alcançá-los. Se fosse para ter uma chance de serem resgatados, eles teriam que encontrar um caminho para cima.
Nesryn não se atreveu a deixar Falkan sair – ainda não. Não quando tantas coisas ainda podiam dar tão erradas, e deixando as aranhas saberem o tipo de carta que tinham na manga... Não, ainda não arriscaria usá-lo.
Mas a tentação a atiçava. As paredes eram lisas, mal adaptadas para escalar, e quando se apressavam através da passagem, hora após hora, as respirações úmidas e laboriosas de Sartaq ecoavam na rocha.
Ele não estava em forma para escalar. Mal conseguiu ficar ereto ou segurar sua espada.
Nesryn manteve uma flecha pronta para voar enquanto dobravam esquina após esquina, olhando para cima constantemente.
A passagem era tão apertada em certos pontos que eles tinham que se apertar, o céu um gotejamento aquoso acima.
Eles não falaram, não se atreviam a fazer mais do que respirar enquanto mantinham seus passos leves.
Não fez diferença. Nesryn sabia que isso fez pouca diferença.
Uma armadilha havia sido armada para eles, e eles haviam caído. As kharankui sabiam onde eles estavam. Provavelmente os seguiam, organizavam-se.
Passaram-se horas desde que ouviram pela última vez a batida das asas de Kadara.
E a luz... estava começando a desaparecer.
Uma vez que a escuridão caísse, uma vez que o caminho ficasse escuro demais para saberem por onde iam... Nesryn apertou uma mão em Falkan, ainda em seu bolso. Quando a noite começasse, ela decidiu, seria quando o usaria.
Eles atravessaram uma passagem particularmente apertada entre dois pedregulhos, Sartaq grunhindo atrás dela.
— Temos que estar perto do fim — ele respirou.
Ela não lhe disse que duvidava que as aranhas fossem estúpidas o suficiente para permitir que eles corressem de um lado ao outro da passagem e entrassem nas garras de Kadara. Se a ruk machucada pudesse até mesmo aguentar o peso deles.
Nesryn apenas empurrou para dentro, a passagem se tornando uma fração mais larga, contando suas respirações. Elas eram provavelmente umas das últimas...
Pensar dessa forma não ajudava nada e ninguém. Ela vira a morte neste verão, quando aquela onda de vidro quebrara em sua direção. A viu descer, e tinha sido salva.
Talvez ela tivesse sorte de novo, também.
Sartaq tropeçou atrás dela, respirando com dificuldade. Água. Eles precisavam desesperadamente de água e bandagens para suas feridas. Se as aranhas não os encontrassem, então a falta de água no caminho árido poderia muito bem matá-los primeiro. Muito antes que qualquer ajuda chegasse do rukhin Eridun.
Nesryn forçou um passo na frente de outro, o caminho estreitando novamente, a rocha tão apertada quanto um torno. Ela se virou de lado, atravessando, suas espadas raspando.
Sartaq grunhiu e depois soltou um xingamento dolorido.
— Estou preso.
Ela o achou realmente preso atrás dela, seu peito e ombros largos travados entre as paredes. Ele se forçou para frente, sangue escorrendo de suas feridas enquanto ele empurrava e puxava.
— Pare — ela ordenou. — Pare, volte para trás se você puder. — Não havia outro caminho e nada para escalar, mas se eles tirassem as armas...
Seus olhos escuros encontraram os dela. Ela viu as palavras se formando.
Você continua.
— Sartaq — ela respirou.
Eles ouviram então.
Garras clicando em pedra. Deslizando para perto.
Muitas delas. Muitas. Vindo por trás, fechando-os.
Nesryn agarrou a mão do príncipe, puxando.
— Empurre — ela ofegou. — Empurre.
Ele resmungou de dor, as veias em seu pescoço saltando enquanto tentava se espremer, suas botas raspando na pedra solta...
Nesryn plantou os pés no chão, apertando os dentes enquanto o puxava para frente.
Clique, clique, clique...
— Mais forte — ela ofegou.
Sartaq inclinou a cabeça, empurrando contra a rocha que o segurava.
— É um bocado grande, nosso convidado — sibilou uma voz feminina macia. — Tão grande que nem pode se encaixar na passagem. Como faremos festa.
Nesryn fez força e mais força, seu aperto traiçoeiramente escorregadio com suor e sangue de ambos, mas ela apertou seu pulso com força suficiente para sentir os ossos se moviam por baixo...
— Vá — ele sussurrou, esforçando-se para atravessar. — Corra.
Falkan se mexia em seu bolso, tentando emergir. Mas com a pedra pressionando seu peito, a passagem era apertada demais para ele passar até a cabeça.
— Um par bonito — aquela fêmea continuou. — Como seu cabelo brilha como uma noite sem lua. Nós devemos levar ambos de volta à nossa casa, nossos convidados de honra.
Um soluço subiu a garganta de Nesryn.
— Por favor — implorou, examinando a rocha acima deles, a borda no limite superior do passe estreito, os chifres curvos dos picos, puxando e puxando o braço de Sartaq. — Por favor — ela implorou, implorou a qualquer um.
Mas o rosto de Sartaq ficou calmo. Tão calmo.
Ele parou de empurrar, parou de tentar passar para frente.
Nesryn balançou a cabeça, puxando o braço dele.
Ele não se moveu. Nenhum centímetro.
Seus olhos escuros encontraram os dela. Não havia medo neles.
Sartaq disse para ela, de maneira clara e firme:
— Ouvi as histórias dos espiões sobre você. A mulher sem medo de Balruhni no Império de Adarlan. Flecha de Neith. E eu sabia...
Nesryn soluçou, puxando e puxando.
Sartaq sorriu para ela – gentilmente. Docemente. De uma forma que ela ainda não tinha visto.
— Eu te amei antes de tê-la visto — ele falou.
— Por favor — chorou Nesryn.
A mão de Sartaq apertou a dela.
— Eu gostaria que tivéssemos tempo.
Um silvo atrás dele, um volume crescente de patas brilhantes e pretas, então o príncipe se foi. Arrancado de suas mãos.
Como se nunca tivesse estado lá.



Nesryn mal podia ver através das lágrimas enquanto contornava e se apertava pela passagem. À medida que se precipitava entre as rochas, braços se esforçando, pés infalíveis.
Continue. A palavra era uma música em seu sangue, seus ossos, enquanto ela mergulhava para dentro da passagem.
Continue e saia; encontre ajuda...
Mas a passagem finalmente se abriu aberta em uma câmara mais ampla. Nesryn cambaleou pelo espaço que lhe foi aberto, arquejando, o sangue de Sartaq ainda cobrindo suas palmas, seu rosto ainda nadando diante dela...
A passagem se curvou para frente, e Nesryn tropeçou por ela, voltando a mão para onde Falkan agora colocava a cabeça.
Ela soluçou ao vê-lo, soluçou enquanto os cliques e os silvos começaram a soar novamente atrás dela, aproximando-se mais uma vez.
Tinha acabado. Estava feito, era como se ela o tivesse matado. Ela nunca deveria ter fugido, nunca ter feito nada disso...
Ela correu para a curva na passagem, pedras espalhando-se debaixo de suas botas.
Levar ambos de volta à nossa casa...
Vivos. A aranha tinha falado como se fossem levá-los vivos para seu covil. Para uma breve abertura antes de o banquete começar. E se ela tivesse falado verdade...
Nesryn bateu uma mão sobre um Falkan que se retorcia, ganhando um grito de indignação.
— Ainda não. Ainda não, meu amigo — ela falou, suave como o vento através da grama.
E quando Nesryn desacelerou seus passos, parando completamente, ela sussurrou seu plano para ele.



As kharankui não tentaram esconder sua chegada.
Sibilando e rindo, dobraram a esquina da passagem.
E pararam quando viram Nesryn ofegante de joelhos, sangue saindo dos cortes em seus braços, na clavícula, enchendo o ar apertado com seu perfume. Ela viu as criaturas tomarem o cenário ao redor dela, seu sangue manchando as pedras.
Como se tivesse levado uma queda feia. Como se não pudesse continuar.
Clicando, comunicando-se umas com as outras, elas a cercaram. Uma parede de membros e presas antigas e abdômen inchado, bulboso. E os olhos. Mais olhos do que ela poderia contar, seu reflexo em todos eles.
Seu tremor não foi fingido.
— Uma pena que não tenha dado muito esporte — uma comentou.
— Teremos isso depois — respondeu outra.
Nesryn estremeceu.
Uma suspirou.
— Quão fresco o sangue dela cheira. Quão limpo.
— P-por favor — implorou.
As kharankui apenas riram.
Então a que estava atrás dela saltou.
Derrubando-a contra o xisto, pedra cortando seu rosto, as mãos, Nesryn gritou contra as garras que pressionaram suas costas. Gritou quando conseguiu olhar por cima do ombro para ver as fieiras pairando acima das pernas dela.
Para ver a seda que saindo delas, pronta para ser tecida. Para embrulhá-la firmemente.

11 comentários:

  1. Não Sarah vc não é doida de criar o shippe pra destruí-lo desse jeito. Sim eu chorei.

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    1. Não foi a única que chorou...
      E eu shippo muuuuuuito esses dois

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  2. "Eu te amei antes de te-la visto"..chorando aqui, com essa declaração de Sartaq

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  3. — Eu te amei antes de tê-la visto — ele falou.
    — Por favor — chorou Nesryn.
    A mão de Sartaq apertou a dela.
    — Eu gostaria que tivéssemos tempo.
    Um silvo atrás dele, um volume crescente de patas brilhantes e pretas, então o príncipe se foi. Arrancado de suas mãos.

    Parece aquela cena da Nesta e do Cassian em Corte de Asas e Ruínas.


    •Amanda Souza∆

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    1. nossa, amo Corte de Espinhos e Rosas, da Sarrah tb, Corte de Asas e Ruínas em especial, ammmmmo!

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  4. Vou ter um ataque cardíaco, desse jeito, nãooooo morre Nesryn, Sartaq

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  5. Se um deles morrer eu n respondo por mim

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  6. Pensei a mesma coisa Amanda Souza... o Cassian e a Nestha... ahhh a Nesyrin merece ser feliz... alguém que a ame de verdade, ela sempre foi prêmio de consolação

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  7. Pensei a mesma coisa Amanda Souza... o Cassian e a Nestha... ahhh a Nesyrin merece ser feliz... alguém que a ame de verdade, ela sempre foi prêmio de consolação

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  8. Ah nao!!! Só que me faltava meu shopping morrer

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