29 de janeiro de 2018

Capítulo 43

Sem o suporte, Chaol recebeu uma égua negra, Farasha, cujo nome era tão inadequado quanto possível. Significava borboleta, disse-lhe Yrene quando se juntaram no pátio do palácio três dias depois.
Farasha era qualquer coisa menos isso.
Puxando o freio, pateando e jogando a cabeça para o lado, Farasha saboreou testar seus limites por muito tempo antes que a companhia acabasse de se reunir. Os criados haviam ido no dia anterior para preparar o campo.
Ele sabia que a realeza lhe daria seu cavalo mais feroz. Não um garanhão, mas um perto o suficiente para combinar com sua fúria. Farasha nasceu furiosa, ele estava disposto a apostar.
E ele seria condenado se deixasse esse rei fazer com que ele pedisse outro cavalo. Um que não estiraria suas costas e pernas demais.
Yrene franziu o cenho para Farasha, para ele, enquanto acariciava a crina de sua montaria castanha.
Ambos os belos cavalos, embora menores se comparados ao surpreendente garanhão Asterion com que Dorian presenteara Chaol por seu aniversário no inverno passado.
Outra celebração de aniversário. Em outra época – outra vida.
Ele se perguntou o que aconteceu com aquele belo cavalo, a quem ele nunca havia dado nome. Como se soubesse, no fundo, quão fugazes seriam aquelas poucas semanas felizes. Ele se perguntou se ainda estava nos estábulos reais. Ou se as bruxas o saquearam – ou deixaram que suas terríveis montarias os usassem para encher suas barrigas.
Talvez fosse por isso que Farasha ressentisse sua própria presença. Talvez ela sentisse que ele havia esquecido aquele garanhão de coração nobre no norte. E queria fazê-lo pagar por isso.
A raça era uma ramificação dos Asterions, Hasar chilreara enquanto passava trotando em seu garanhão branco, circulando duas vezes. A cabeça afilada em forma de cunha e as caudas altas eram marcadores duplos de sua ancestralidade feérica. Mas esses cavalos, os Muniqi, foram criados para os climas desérticos desta terra. Para as areias que eles deveriam atravessar hoje, e as estepes que haviam sido a pátria dos khagan.
A princesa até mesmo apontou para uma leve protuberância entre os olhos dos cavalos – o jibbah – o marcador da maior cavidade nasal que permitia que o Muniqi prosperasse nos desertos secos e inflexíveis desse continente.
E então havia a velocidade de Muniqi. Não tão rápido, admitira Hasar, como um Asterion. Mas perto.
Yrene observara a pequena lição da princesa, rosto cuidadosamente neutro, usando o tempo para ajustar a bengala de Chaol atrás de sua sela onde ela prendera e depois arrumando as roupas que vestia.
Enquanto Chaol estava em sua jaqueta de cerimônia e calça marrom, Yrene havia pedido um vestido.
Eles a envolveram em branco e dourado contra o sol, sua longa túnica caindo até os joelhos para revelar calças soltas e leves colocadas sobre botas castanhas de cano alto. Um cinto circulava sua cintura fina e correntes brilhantes de ouro e prata se cruzavam entre seus seios. O cabelo ela deixara em sua forma habitual, a metade preso para cima, mas alguém entremeara fios de ouro através dele.
Linda. Linda como um nascer do sol.
Havia, talvez, trinta deles no total, ninguém que Yrene realmente conhecesse, já que Hasar não havia se incomodado em convidar qualquer um dos curandeiros da Torre. Os cães de pernas altas passavam pelo pátio, passando entre os cascos dos cavaleiros da dúzia de guardas. Definitivamente não Muniqi, aqueles cavalos. Bons o suficiente para guardas – os homens não recebiam animais perto dessa qualidade – mas, sem aquela consciência que o Muniqi possuíam, como se ouvissem todas as palavras faladas.
Hasar sinalizou para Shen, de pé orgulhoso no portão, que soprou um chifre.
E então eles estavam fora.
Para uma mulher que comandava navios, Hasar parecia muito mais interessada no patrimônio equino de sua família. E parecia mais do que ansiosa para libertar suas habilidades como cavaleira Darghan. A princesa amaldiçoou e franziu a testa enquanto as ruas da cidade ficavam mais estreitas. Mesmo com a notícia dada com bastante antecedência para limpar o caminho de Antica, as ruas estreitas e íngremes diminuíram sua velocidade consideravelmente.
E então havia o calor brutal. Já suando, Chaol montava ao lado de Yrene, mantendo um controle apertado em Farasha, que tentou morder um não, mas dois vendedores que olhavam das calçadas. Borboleta, de fato.
Ele manteve um olho sobre a égua e o outro na cidade passando. E enquanto cavalgavam para o portão leste, para as colinas áridas e cobertas de escombros, Yrene apontou marcos e informações.
A água corria através de aquedutos que atravessavam os edifícios, alimentando as casas e as fontes públicas, inúmeros jardins e parques dispersos. Um conquistador poderia ter tomado esta cidade há três séculos, mas esse mesmo conquistador cuidou bem dela. Aperfeiçoou-a e nutriu-a.
Eles atravessaram o portão oriental, depois passaram por uma longa e empoeirada estrada que cortava a extensão além da cidade propriamente dita. Hasar não se incomodou em esperar, e lançou seu garanhão em um galope que os deixou acenando para o pó.
Kashin, afirmando que não queria comer o pó dela por todo o caminho até o oásis, seguiu o exemplo depois de dar um pequeno sorriso em direção a Yrene e um assobio para seu cavalo. Então a maioria dos nobres e vizires, aparentemente já tendo feito suas apostas, lançou-se em várias corridas a uma velocidade vertiginosa através das cidades esvaziadas com bastante antecedência. Como se este reino fosse seu campo de jogos.
Festa de aniversário, de fato. A princesa provavelmente estava entediada e não queria parecer muito irresponsável com seu pai. Embora ele tenha ficado surpreso ao descobrir que Arghun se juntara a eles. Certamente com a maioria de seus irmãos afastados, ele teria aproveitado a chance de criar uma trama. Mas Arghun galopava perto de Kashin enquanto se misturavam no horizonte.
Alguns da nobreza ficaram para trás com Chaol e Yrene, deixando os outros colocarem alguns quilômetros entre eles, saindo da última das cidades periféricas, seus cavalos molhados de suor e arquejando enquanto subiam uma grande colina rochosa. As dunas começavam logo do outro lado, disse-lhe Yrene. Eles parariam para dar água aos cavalos aqui – então fariam a última etapa da cavalgada nas areias.
Ela sorria levemente para ele enquanto eles subiam a colina, seguindo uma trilha através dos arbustos. Cavalos haviam passado por ali; arbustos quebrados e destruídos por cavaleiros descuidados. Alguns galhos até abrigavam manchas de sangue, já secas no sol brutal.
Alguém deveria esfolar o cavaleiro que tinha sido tão imprudente com sua montaria.
Outros haviam chegado ao topo da colina, deram água aos seus cavalos e se moveram. Tudo o que ele viu foram corpos e cavalos desaparecendo no céu – como se simplesmente saíssem da borda da montanha e virassem ar.
Farasha pisoteou e subiu o caminho até a colina, e as costas e coxas de Chaol se esforçaram para permanecer no lguar sem o suporte para estabilizá-lo. Ele não ousou deixar que a égua sentisse um traço de desconforto.
Yrene alcançou a cimeira primeiro, suas roupas brancas como um farol no dia azul sem nuvens ao redor deles, os cabelos brilhando como ouro escuro. Ela esperou por ele, o cavalo castanho ofegando, sua crina brilhando com os tons de rubi mais profundos.
Ela desmontou quando ele exortou Farasha até a última colina, e então...
Ele ficou sem ar.
O deserto.
Um mar estéril e sibilante de areia dourada. Montes e ondas e ravinas, ondulando para sempre, vazio e ainda zumbindo. Não se via uma árvore, arbusto ou brilho de água.
A mão implacável de um deus tinha dado forma a este lugar. Ainda soprava sua respiração sobre ele, mudando as dunas grão por grão.
Ele nunca vira algo assim. Era uma maravilha. Era um mundo completamente novo.
Talvez fosse uma bênção inesperada que a informação que eles procurassem residisse aqui.
Chaol atraiu a atenção para Yrene, que estava lendo seu rosto. Sua reação.
— Tal beleza não é para todos — disse ela. — Mas me encanta, de alguma forma.
Este mar onde nenhum navio navegaria, que alguns homens olhariam e veriam apenas morte ardente. Ele viu só silêncio – e limpeza. E uma vida lenta e rastejante. Beleza natural e selvagem.
— Sei o que você quer dizer — ele concordou, desmontando cuidadosamente de Farasha.
Yrene monitorou-o, mas não fez nada além de segurar a bengala, deixando-o encontrar a melhor maneira de passar uma perna para o outro lado, se virar gemendo, tomar impulso e depois deslizar para baixo para o chão arenoso. A bengala estava instantaneamente em sua mão, embora Yrene não fizesse um movimento para estabilizá-lo enquanto ele finalmente soltava a sela e alcançava as rédeas de Farasha.
A égua ficou tensa, como se estivesse pensando em se lançar contra ele, mas ele lhe lançou um olhar sério, a bengala gemendo enquanto Chaol a apertava contra o chão de pedras.
Os olhos escuros de Farasha brilhavam como se forjados no reino ardente de Hellas, mas Chaol manteve-se alto, tão alto quanto podia. Não quebrou o olhar.
Finalmente, a égua bufou e se dignou a deixá-lo levá-la para o cocho incrustado de areia e meio despencando com a idade. Talvez estivesse ali desde que o deserto passou a existir, dando água aos cavalos de uma centena de conquistadores.
Farasha pareceu entender que eles deveriam entrar naquele oceano de areia e bebeu com entusiasmo. Yrene trouxe seu cavalo, mantendo-o a uma distância saudável de Farasha.
— Como você está se sentindo?
— Sólido — ele respondeu, e era verdade. — Ficarei dolorido quando chegarmos lá, mas a tensão não é tão ruim.
Sem a bengala, ele não se atrevia a tentar caminhar mais do que alguns passos. Mal conseguiria gerenciá-lo.
Ela colocou uma mão na parte baixa de sua coluna, depois nas coxas, deixando sua magia avaliar. Mesmo com as roupas e o calor, a pressão das mãos dela o deixou ciente de cada centímetro separando-os.
Outros se reuniram em torno do antiga e enorme cocho, então ele se afastou do toque avaliador de Yrene, levando Farasha a uma distância segura. Montar a égua novamente, no entanto...
— Tome seu tempo — murmurou Yrene, mas permaneceu a poucos passos de distância.
Ele tivera um bloco no palácio. Aqui, sem subir na borda precária do cocho... A distância entre seu pé e o estribo nunca parecera tão grande. Dançar sobre um pé enquanto levantava o outro, apoiar e fazer força com este pé enquanto tomava impulso para jogar o corpo para cima, balançando a perna ao redor da sela... Chaol foi para os degraus, sentindo os movimentos que ele fazia mil vezes antes. Ele aprendera a montar aos seis anos – estivera sobre um cavalo quase toda a vida.
É claro que lhe foi dado um demônio de cavalo desta vez.
Mas Farasha ficou quieta, olhando para o mar de areia, para a trilha de cascos descendo a montanha – a sua entrada para o deserto. Mesmo com os ventos se deslocando, arrastando as areias para novas formas e vales, a trilha que os outros deixaram era clara o suficiente. Ele podia até mesmo imaginá-los subindo alguns montes e depois voando abaixo, pouco mais do que pontos pretos e brancos.
E, no entanto, ele permanecia aqui. Encarando os estribos e a sela.
— Posso encontrar um bloco ou balde... — Yrene ofereceu casualmente.
Chaol se moveu. Talvez não tão gracioso quanto gostaria, talvez com mais esforço do que pretendia, mas ele conseguiu, a bengala gemendo enquanto ele a usava para empurrar-se para cima, então batendo na pedra enquanto ele a soltava para agarrar o pito da sela, logo que seu pé deslizou – parcamente – no estribo. Farasha deslocou seu peso enquanto ele se elevou mais alto na sela, suas costas e coxas gritando enquanto ele passava a perna para o outro lado, mas ele estava montado.
Yrene caminhou até a bengala caída e tirou o pó dela.
— Nada mal, lorde Westfall. — Ela prendeu a bengala atrás de sua sela e montou na égua. — Nada mal.
Ele escondeu seu sorriso, o rosto ainda quente, e cutucou Farasha pela última colina de areia.
Eles seguiram devagar as trilhas que os outros haviam deixado, o calor ondulando nas areias.
Subindo e descendo, o único som sendo o bater abafado dos cacos de seus cavalos e as areias suspirantes. O grupo deles serpenteava em uma longa fileira. Os guardas estavam postados por toda parte, alguns carregando postes altos com a bandeira do khagan e a insígnia de um cavalo escuro correndo. Marcadores da direção geral para o oásis. Ele teve pena de que os pobres homens tivessem sido ordenados a ficar no calor por um capricho da princesa, mas não disse nada.
As dunas diminuíram depois de um tempo, o horizonte mudando para revelar uma planície arenosa. E à distância, acenando e balançando no calor...
— Lá nós montaremos acampamento — disse Yrene, apontando para um denso amontoado verde. Nenhum sinal da antiga cidade dos mortos enterrada sobre a qual Hasar afirmara que o oásis crescera. Não que ele esperasse ver muito de seu ponto de observação.
Pela distância, poderia muito bem estar a mais de trinta minutos. Certamente isso, no ritmo deles.
Apesar do suor escorrendo de suas roupas brancas, Yrene estava sorrindo. Talvez ela estivesse precisando de um dia de folga. Para respirar ao ar livre.
Ela notou sua atenção e se virou. O sol havia trazido as sardas, escurecendo a pele para um brilhante castanho, seus cabelos ondulados sobre o rosto sorridente.
Farasha puxou as rédeas, seu corpo tremendo de impaciência.
— Eu tenho um cavalo Asterion — ele disse, e a boca dela curvou-se em uma expressão impressionada. Chaol deu os ombros. — Eu gostaria de ver quanto um Muniqi alcança.
As sobrancelhas dela se estreitaram.
— Você quer dizer... — Ela notou a extensão plana e lisa entre eles e o oásis. Perfeita para correr. — Oh, eu não poderia... um galope?
Ele esperou as palavras sobre sua coluna, suas pernas. Nenhuma veio.
— Está com medo? — ele perguntou, arqueando uma sobrancelha.
— Destas bestas? Sim. — Ela se encolheu em sua montaria, agitada embaixo dela.
— Ela é tão doce quanto uma vaca leiteira — disse ele sobre o cavalo de Yrene.
Chaol inclinou-se para dar um tapinha no pescoço de “Borboleta”. Ela tentou mordê-lo. Ele puxou as rédeas o suficiente para dizer a ela que ele estava plenamente consciente disso.
— Vou correr com você — disse ele.
Os olhos de Yrene brilharam. E para seu choque, ela perguntou:
— O prêmio?
Ele não conseguia se lembrar da última vez. A última vez que se sentiu tão consciente de cada respiração, do sangue fervendo e de cada vibração em seu corpo.
— Um beijo. Quando e onde eu escolher.
— Como assim, onde?
Chaol apenas sorriu. E deixou Farasha correr livre.
Yrene praguejou mais sujo do que ele jamais ouvira, mas não se atreveu a olhar para trás – não quando Farasha tornou-se uma tempestade negra sobre a areia.
Ele nunca chegara a experimentar o Asterion. Mas se fosse mais rápido do que isso...
Voando sobre a areia, Farasha era um raio de luz escuro que atravessava o deserto dourado. Tudo o que ele podia fazer era segurar-se, apertando os dentes contra a reclamação de seus músculos.
Ele esqueceu de tudo de qualquer maneira ao borrão de marrom avermelhado e preto que surgiu no canto de sua visão – e o cavaleiro branco sobre ele.
O cabelo de Yrene subia e descia atrás dela em um emaranhado de cachos dourados, levantando-se a cada trovejar das pernas de sua égua na areia dura. Roupa branca fluía no vento, ouro e prata brilhava como estrelas e seu rosto...
Chaol não podia respirar enquanto observava a diversão selvagem no rosto de Yrene, a alegria não controlada.
Farasha percebeu a égua que se aproximava deles, chegando perto a cada batida de cascos, e fez força para frente. Para deixá-los na poeira.
Ele a dirigiu com as rédeas e os pés, maravilhando-se que pudesse mesmo fazer isso. Que a mulher agora aproximando-se, agora correndo ao lado dele, irradiando para ele como se ele fosse o único neste mar estéril e ardente... Ela fizera isso. Deu-lhe isso.
Yrene sorria, e então estava rindo, como se não pudesse conter a risada dentro de si.
Chaol pensou que era o som mais bonito que já havia escutado.
E neste momento, voando juntos sobre as areias, devorando o vento do deserto, seu cabelo castanho-dourado voando como uma bandeira atrás dela...
Chaol sentiu, talvez pela primeira vez, como se estivesse desperto.
E ele estava agradecido, até seus próprios ossos, por isso.

5 comentários:

  1. É tão lindo esses momentos deles *-* aproveitem porque tenho certeza de que logo vai dá merda, é típica calmaria antes da tempestade

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    1. KKKKKK ENTENDEDORES ENTENDERÃO!

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    2. A mais pura verdade 😩 ahh esse arghun indo com eles na festa não me cheira bem, pra mim eles estão bem consciênte sobre essas tentativas de manipulação deles.

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  2. Hasar disparando na frente... sei não. .. ela tá armando alguma coisa!

    Flavia

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  3. Quando vem esses momentos lindos eu sempre me preparo para a morte de alguém logo em seguida. Essa autora sacana curte deixar a gente no sofrimento u.u

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Boa leitura, E SEM SPOILER!