29 de janeiro de 2018

Capítulo 42

O filhote tinha sido uma armadilha.
Foi o último pensamento que Nesryn teve quando Kadara entrou na teia – a rede entre os dois picos. Construída para não pegar o vento, mas ruks.
Ela só tinha a sensação de que Sartaq jogava seu corpo contra o dela, ancorando-a na sela e segurando apertado quando Kadara gritou.
Rugido e brilho e pedra; xisto e céu cinza e penas douradas. O vento uivando, o grito penetrante de bebê ruk e o berro de Sartaq.
Então, girando, batendo na pedra com tanta força que o impacto ressoou através de seus dentes, seus ossos. Então caindo, caindo, curvando-se contra o corpo de Kadara, curvando-se quando Sartaq estava enrolado sobre Nesryn, protegendo, e ao filhote nas garras de Kadara no impacto final.
Então o bum. E o estalo – o estalo que estourou as alças de couro da sela. Ainda estavam amarrados, ainda presos um ao outro enquanto se distanciavam do corpo de Kadara, o arco de Nesryn voando de sua mão, seus dedos segurando apenas ar...
Sartaq os apertou, seu corpo um muro sólido em torno do dela, enquanto Nesryn percebia onde estava o céu, onde estava a passagem...
Ele rugiu quando atingiram o xisto, enquanto ele a mantinha em cima dele, levando todo o peso do impacto.
Por um batimento cardíaco, havia apenas o deslizamento de pedaços de xisto deslocando-se e o baque de pedra desmoronada das paredes da passagem. Por um batimento cardíaco, ela não conseguia se lembrar de onde seu corpo estava, sua respiração era...
Então, um raspar de asa no xisto.
Os olhos de Nesryn se abriram, e ela estava se movendo antes que tivesse as palavras para nomear seus movimentos.
Um corte em seu pulso, com pequenas pedras e poeira grudados. Ela não o sentiu, mal notou o sangue enquanto procurava cegamente pelas tiras para a sela, soltando-as livre, ofegando através dos dentes enquanto conseguiu levantar a cabeça, para ousar olhar...
Ele estava atordoado. Piscando para o céu cinzento. Mas vivo, respirando, sangue escorrendo pela testa, pela bochecha, saindo de sua boca...
Ela soluçou através de seus dentes, suas pernas finalmente se libertando, permitindo que ela se aproximasse para chegar às dele, para os pedaços de couro enrugados entre eles.
Sartaq estava meio enterrado em xisto. Suas mãos se moviam, mas suas pernas...
— Não estão quebradas — ele brincou. — Não estão quebradas. — Era mais para si mesmo do que para ela. Mas Nesryn conseguiu manter seus dedos firmes enquanto libertava as fivelas. Os espessos couros de equitação haviam salvado sua vida, salvaram sua pele de ser esfolada até os ossos. Ele tomou o impacto para ela, girou-a para que ele atingisse o chão primeiro...
Ela varreu o xisto cobrindo os ombros e braços dele, rocha afiada cortando seus dedos.
A alça de couro no final de sua trança havia se soltado no impacto, e seu cabelo agora caía sobre o rosto, meio bloqueando sua visão da floresta atrás e da rocha em torno deles.
— Levante-se — ela ofegou. — Levante-se.
Ele respirou fundo, piscando furiosamente.
— Levante-se — ela implorou.
Xisto se moveu, e um grito baixo e dolorido ecoou da rocha.
Sartaq ficou rígido.
— Kadara...
Nesryn virou de joelhos, procurando seu arco mesmo quando viu a ruk.
Deitada a dez metros, Kadara estava coberta com a seda quase invisível. Uma rede fantasma, suas asas presas, a cabeça dobrada.
Sartaq ficou de pé, balançando, escorregando no xisto solto enquanto puxava a faca Asterion.
Nesryn conseguiu se levantar, suas pernas tremendo, a cabeça girando enquanto procurava e procurava pelo arco...
Lá. Perto da parede da passagem. Intacto.
Ela se precipitou para a arma enquanto Sartaq corria para a ruk, chegando ao arco exatamente enquanto ele cortava a primeira teia.
— Você ficará bem — ele estava dizendo a Kadara, sangue cobrindo suas mãos, seu pescoço. — Eu vou te tirar...
Nesryn empunhou o arco, pressionando uma mão no bolso. Falkan...
Uma pequena perna empurrada contra ela em resposta. Vivo.
Ela não perdeu tempo e correu para a ruk, puxando sua própria lâmina feérica da bainha que Borte encontrara para ela e cortando os fios grossos. Eles grudavam em seus dedos, arrancando pele, mas ela cortou e cortou, abrindo o caminho, enquanto Sartaq fazia o mesmo do outro lado.
Alcançaram as patas de Kadara ao mesmo tempo.
Viram que suas garras estavam vazias.
A cabeça de Nesryn se ergueu, examinando a passagem, as pilhas de rochas...
O filhotinho fora atirado durante a colisão. Como se mesmo as garras de Kadara não pudessem ficar fechadas contra a dor do impacto. O bebê ruk estava agora caído no chão perto da borda da passagem, lutando para se levantar, chilros baixos de angústia ecoando da rocha.
— Levante-se, Kadara — comandou Sartaq, sua voz quebrando. — Levante-se.
As grandes asas se moveram, os xisto clamando enquanto a ruk tentava obedecer. Nesryn cambaleou em direção ao filhote, o sangue inconfundível em sua cabeça cinza penugenta, seus grandes olhos escuros, arregalados de terror e suplica...
Aconteceu tão rápido que Nesryn não teve tempo de gritar.
Num momento, o filhotinho abriu seu bico para pedir ajuda.
No seguinte ele gritou, os olhos flamejando quando uma longa perna cor de ébano emergiu de trás de um pilar de pedra e atingiu sua espinha.
Ossos quebraram e sangue pulverizou. E Nesryn parou derrapando, balançando tão forte que ela caiu para trás em seu traseiro, um grito sem palavras em seus lábios quando o filhotinho foi jogado ao redor da rocha, agitando e gritando...
Então ficou em silêncio.
Ela tinha visto coisas horríveis, coisas que a deixaram doente e a impediram de dormir, e ainda assim o bebê ruk, aterrorizado e suplicante, com dor e arrasado, ficando em silêncio...
Nesryn girou, os pés escorregando nos xistos enquanto corria para Kadara, em direção a Sartaq, que viu o filhote sendo atirado por trás daquela pedra e gritou para Kadara para voar...
A poderosa ruk tentou e não se levantou.
— VOE — gritou Sartaq.
Lentamente, tão lentamente A ruk levantou-se pesadamente sobre as pernas, seu bico raspando o chão, arrastando a rocha solta.
Ela não conseguiria fazê-lo. Não subiria no ar a tempo. Para além da teia que envolvia a linha de árvores... Sombras se mexeram. Escorregaram mais perto.
Nesryn guardou a espada e puxou o arco, a flecha tremendo ao apontar para a rocha.
O filhote fora levado para trás, depois das árvores a cem metros de distância.
— Vamos, Kadara — implorou Sartaq. — Levante-se!
O pássaro estava parcamente em forma para voar, muito menos carregando pessoas...
Pedras fizeram barulho e escorregaram atrás dela. Do labirinto de pedras dentro da passagem.
Presos. Eles estavam presos...
Falkan se moveu em seu bolso, tentando se livrar. Nesryn o cobriu com o antebraço, pressionando.
— Ainda não — ela sussurrou. — Ainda não.
Seus poderes não eram os de Lysandra. Ele tentou e não conseguiu se transformar num ruk esta semana. Mas o lobo era tão grande quanto ele conseguia. Qualquer coisa maior estava além de sua magia.
— Kadara...
A primeira das aranhas saiu da linha das árvores. Tão preta e elegante quanto a sua irmã caída.
Nesryn deixou sua flecha voar.
A aranha caiu para trás, gritando – um som profano que sacudiu as pedras enquanto a flecha se afundava em um olho.
Nesryn imediatamente tinha outra flecha preparada, recuando na direção de Kadara, que agora estava começando a estender suas asas...
A ruk tropeçou.
— Voe! — Sartaq gritou.
O vento agitou o cabelo de Nesryn, fazendo fragmentos de xisto rolarem. O chão retumbou atrás, mas Nesryn não se atreveu a tirar os olhos da segunda aranha que emergiu das árvores. Ela disparou novamente, a música de sua seta abafada pelas batidas das asas de Kadara. Uma batida pesada e dolorida, mas mantendo-se firme...
Nesryn olhou para trás para respirar. Apenas uma vez, apenas para ver Kadara balançando e subindo, lutando por cada batida de asas, para cima através da passagem estreita, sangue e xisto pingando dela. Exatamente quando uma kharankui apareceu de uma das sombras das rochas no alto, as pernas flexionadas como se prestes a pular sobre as costas da ruk...
Nesryn disparou, uma segunda flecha seguindo a dela. De Sartaq.
Ambas encontraram seu alvo. Uma através de um olho, a outra através da boca aberta da aranha.
Ela gritou, caindo de seu poleiro. Kadara inclinou-se para esquivar-se, evitando a frente irregular do pico. A aranha em queda atravessou o labirinto de pedra à frente.
Mas então Kadara estava no céu cinzento, batendo as asas como um inferno.
Sartaq girou em direção a Nesryn, enquanto olhava para a fileira de pinheiros.
Para onde quase uma dúzia de kharankui surgiu, sibilando.
Sangue cobria o príncipe, cada respiração vindo forte, mas conseguiu agarrar o braço de Nesryn e resfolegar:
— Corra.
Assim eles fizeram.
Não para os pinheiros atrás.
Mas para a penumbra da passagem sinuosa à frente.

3 comentários:

  1. Que medo, não se pode fazer isso com filhotes Sarah!

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  2. Se eu chorei ao ler o sofrimento do bebê ruk? Sim ou com certeza? 😭💔

    CORRE CAMBADA, CORRE QUE OS BICHOS DE ESTIMAÇÃO DO CAPIROTO ESTÃO LOGO ATRÁS O.O

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  3. Ai meu coração desse jeito não vai aguentar, corre galera corram para as montanhas

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Boa leitura! E SEM SPOILER!