29 de janeiro de 2018

Capítulo 41

Demorou uma semana para fazerem o planejamento.
Mais de uma semana para Sartaq e Houlun descobrirem mapas antigos dos Montes Dagul. A maioria era vaga e inútil. O que os cavaleiros avaliaram do ar, mas não ousaram chegar perto demais para detalhar. O território das kharankui era pequeno, mas tinha aumentado, ficado mais ousado nos últimos anos.
E era para o coração escuro de seu território que eles iriam.
A parte mais difícil foi convencer Borte a ficar para trás.
Mas Nesryn e Sartaq deixaram isso para Houlun. E uma palavra afiada da mãe postiça fez a garota entrar na linha. Mesmo que os olhos de Borte fervessem com indignação, ela se curvou aos desejos de sua avó. Como herdeira, Houlun havia disparado, a primeira obrigação de Borte era para com o povo deles. A linhagem terminava com ela. Se Borte fosse para o emaranhado profundo de Dagul, ela poderia muito bem cuspir no sulde de sua mãe que estava nas encostas de Arundin.
Borte insistiu que, se ela, como herdeira de Houlun, tinha que ficar, então Sartaq, como potencial sucessor khagan, deveria permanecer também.
Em resposta a isso, Sartaq simplesmente se dirigiu para os corredores interiores de Altun, dizendo que ele ser sucessor do pai significasse sentar-se ociosamente enquanto outros lutavam por ele, então seus irmãos poderiam ter a maldita coroa.
Assim, apenas os três iriam, Nesryn e Sartaq voando em Kadara, Falkan escondido como um rato no bolso de Nesryn.
Houve um debate final na noite anterior sobre levar uma legião. Borte defendera essa ideia, Sartaq, não. Não sabiam quantas kharankui habitavam os picos estéreis e entre os bosques. Não podiam arriscar-se desnecessariamente em perder tantas vidas e não tinham tempo para desperdiçar em reconhecimento. Três poderiam entrar – mas um exército de ruks seria avistado muito antes de chegarem.
A discussão se dera sobre a fogueira, mas Houlun estabelecera: uma pequena companhia deveria ir. E se não retornassem dentro de quatro dias, um exército os seguiria. Um dia para voar para lá, outro para pesquisar a área, mais um para entrar, e o último para retornar com os filhotes roubados. Talvez até aprender o que os feéricos temiam das aranhas, como haviam lutado contra elas. Se tivessem sorte.
Eles tinham voado por horas agora, a parede alta dos Montes crescendo mais perto a cada batida das asas de Kadara. Logo cruzariam a primeira crista das montanhas cinzentas e entrariam no território das aranhas. O café da manhã de Nesryn pesava em seu estômago a cada quilômetro que se aproximavam, sua boca tão seca quanto pergaminho.
Atrás dela, Sartaq permaneceu em silêncio durante a maior parte do voo. Falkan dormia no bolso de seu peito, emergindo só de vez em quando com seu focinho com bigodes, cheirando o ar e depois voltando para dentro. Conservando sua força enquanto podia.
O metamorfo ainda dormia quando Nesryn disse a Sartaq:
— Você estava falado sério na noite passada – sobre recusar a coroa se não pudesse lutar?
O corpo de Sartaq era uma parede morna às suas costas.
— Meu pai foi à guerra – todos os khagans foram. Ele possui os suldes Ébano e Marfim precisamente para isso. Mas se de alguma forma vier o dia em que eu teria que negar tais coisas em favor da sobrevivência da linhagem... Sim. Uma vida confinada naquela corte não é o que eu quero.
— E, no entanto, você é favorito para tornar-se khagan um dia.
— Assim dizem os rumores. Mas meu pai nunca sugeriu ou falou disso. Por tudo o que sei, ele poderia coroar Duva em vez disso. Os deuses sabem que ela certamente seria uma boa khagan. E é a única de nós que produziu descendência.
Nesryn mordeu o lábio.
— Por que você não se casou? — Ela nunca teve a coragem de perguntar. Embora certamente viu-se perguntando-se durante estas semanas.
As mãos de Sartaq se flexionaram nas rédeas antes de ele responder.
— Eu estive muito ocupado. E as mulheres que foram apresentadas como noivas potenciais... Elas não eram para mim.
Ela não tinha o direito de provocar, mas perguntou:
— Por quê?
— Porque sempre que eu apresentava Kadara a elas, elas se encolhiam ou fingiam estar interessadas nela, ou perguntavam quanto tempo eu passaria longe.
— Ansiando por ausências frequentes, ou porque sentiram sua falta?
Sartaq riu.
— Eu não poderia dizer. A pergunta em si dizia o suficiente para eu saber que não eram para mim.
— Então seu pai lhe permite casar com quem quiser?
Território perigoso e estranho. Ela esperava que ele a provocasse sobre isso, mas Sartaq ficou quieto.
— Sim. Embora o casamento arranjado de Duva... Ela estava de acordo. Ela não queria ter que procurar através de uma corte de cobras para encontrar um bom homem e ainda rezar para que ele não a engane. Me pergunto se há algo a ser dito por isso. Ela teve sorte, de qualquer jeito, calmo como é, seu marido a adora. Vi o rosto dele no momento em que se conheceram. Vi o dela também. Alívio, e... algo mais.
E o que seria deles – e de seu filho – se outro fosse escolhido para o trono?
— Por que não acabar com esta tradição de competir uns com os outros? — Nesryn perguntou com cuidado.
Sartaq ficou em silêncio por um longo minuto.
— Talvez um dia, quem pegar o trono acabe com isso. Ame seus irmãos mais do que honre a tradição. Gosto de acreditar que avançamos em relação aos séculos passados, quando o império ainda estava incipiente. Mas talvez agora, nesses anos de paz relativa, talvez este seja um momento perigoso. — Ele deu de ombros, seu corpo se deslocando contra o dela. — Talvez a guerra resolva o assunto de sucessão para nós.
E talvez fosse porque eles estavam tão altos acima do mundo, porque aquela terra escura ficava mais perto, mas Nesryn perguntou:
— Não há nada que o afaste da guerra se ela o chamar, então?
— Você soa como se reconsiderasse esse seu objetivo para nos arrastar para o norte.
Ela endureceu.
— Admito que estas semanas aqui... antes era mais fácil pedir sua ajuda. Quando o rukhin era uma legião sem nome e sem rosto. Quando não eu conhecia seus nomes, suas famílias. Quando não conhecia Houlun, ou Borte. Ou antes de saber que Borte estava prometida.
Uma risada baixa com isso. Borte recusara-se totalmente a responder as perguntas de Nesryn sobre Yeran. Ela disse que nem valia a pena falar.
— Tenho certeza de que Borte gostaria de ir à guerra, mesmo que apenas para competir com Yeran pela glória no campo de batalha.
— Uma verdadeira guerra de amor, então.
Sartaq sorriu ao ouvido.
— Você não faz ideia. — Ele suspirou. — Começou há três anos – essa competição entre eles. Logo após a morte da mãe dela.
Sua pausa foi pesada o suficiente para que Nesryn perguntasse:
— Você conheceu bem a mãe dela?
Levou um momento para ele responder.
— Eu mencionei uma vez que fui enviado para outros reinos para avaliar disputas ou murmúrios de descontentamento. A última vez que meu pai me enviou, levei uma pequena unidade de rukhin junto – com a mãe de Borte entre eles.
Mais uma vez, esse silêncio pesado. Nesryn lentamente, cuidadosamente, colocou a mão no antebraço que a cercava.
Músculos fortes sob o couro deslocaram-se então.
— É uma longa história, e uma difícil, mas houve violência entre o rukhin e o grupo que procurou derrubar nosso império. A mãe de Borte... um deles entrou e atirou covardemente por trás. Uma flecha envenenada no pescoço, logo quando estávamos prestes a deixá-los se render. — O vento uivou por eles. — Não deixei nenhum deles sair depois disso.
As palavras frias e ocas e disseram o suficiente.
— Carreguei seu corpo de volta eu mesmo — continuou Sartaq, as palavras rasgadas pelo vento. — Ainda posso ouvir Borte gritando quando pousei em Altun. Ainda a vejo ajoelhada sozinha nas encostas de Arundin depois do enterro, agarrando-se ao sulde de sua mãe, onde havia sido plantado no chão.
Nesryn aumentou seu aperto no braço dele. Sartaq colocou sua própria mão enluvada sobre a dela e apertou gentilmente enquanto soltava um longo suspiro.
— Seis meses depois — continuou ele — Borte competiu no Encontro – os três dias anuais de concursos e corridas entre todos os clãs. Ela tinha dezessete anos, e Yeran, vinte, e eles estavam cara a cara na final, a grande corrida. Quando se aproximaram do final, Yeran fez uma manobra que poderia ser considerada trapaça, mas Borte viu isso chegando a um quilômetro de distância e o venceu de qualquer maneira. E depois bateu nele com força quando ele desceu para a terra. Literalmente. Ele saltou do ruk e ela o derrubou no chão, socando seu rosto pela manobra de merda que ele tentou e que quase matou Arcas. — Ele riu para si mesmo. — Não conheço os detalhes do que se seguiu mais tarde na celebração, mas eu o vi tentando falar com ela em um ponto e a vi rir na cara dele antes de se afastar. Ele franziu o cenho até eles saírem na manhã seguinte, e, tanto quanto sei, eles não se viram por um ano. Até o próximo Encontro.
— O que Borte ganhou novamente — adivinhou Nesryn.
— Ela realmente ganhou. Por pouco. Ela fez a manobra questionável desta vez, caindo no processo, mas tecnicamente ganhou. Acho que Yeran estava mais secretamente aterrorizado com o quão perto ela esteve de se ferir permanente ou morrer, então a deixou ter a vitória. Ela nunca me contou os detalhes dessa celebração, mas ficou abalada por alguns dias. Todos supusemos que fosse de seus ferimentos, mas isso nunca a incomodara antes.
— E este ano?
— Este ano, uma semana antes do Encontro, Yeran apareceu em Altun. Não viu Houlun, nem a mim. Simplesmente foi direito onde Borte estava no corredor. Ninguém sabe o que aconteceu, mas ele ficou por menos de trinta minutos e depois saiu. Uma semana depois, Borte ganhou a corrida de novo. E quando ela foi coroada vencedora, o pai de Yeran levantou-se para declarar o compromisso dela com o seu filho.
— Uma surpresa?
— Considerando que sempre que Borte e Yeran estão juntos eles pulam na garganta um do outro, sim. Mas também uma surpresa para Borte. Ela saiu, mas eu os vi discutindo no corredor mais tarde. Se sabia ou não sobre isso, ou queria que fosse revelado dessa forma, ela ainda não diz. Mas não contestou o noivado. Embora também não o tenha abraçado. Nenhum dia foi marcado para o casamento, mesmo que a união certamente aliviaria nossos... laços tensos com o Berlad.
Nesryn sorriu um pouco.
— Espero que eles se resolvam.
— Talvez essa guerra também faça isso por eles.
Kadara se aproximou cada vez mais da parede dos Montes, a luz tornando-se tênue e fria com nuvens passando pelo sol. Eles ultrapassaram os limites imponentes dos primeiros picos, subindo em uma corrente ascendente, e Dagul se espalhou diante deles.
— Deuses sagrados — sussurrou Nesryn.



Picos cinza escuro de rochas estéreis. Pinheiros finos que atravessam os vales profundamente abaixo. Sem lagos, sem rios.
Mal visível através da mortalha de fios cobrindo tudo.
Algumas redes eram grossas e brancas, sufocando a vida das árvores. Algumas eram redes brilhando entre picos, como se tentassem pegar o próprio vento.
Sem vida. Sem sons de insetos ou ganidos de bestas. Sem folhas murmurando ou asas se agitando.
Falkan tirou a cabeça do bolso enquanto examinavam a terra morta abaixo e soltou um grito.
Nesryn quase fez o mesmo.
— Houlun não estava exagerando — murmurou Sartaq. — Elas cresceram com força.
— Onde aterrissaremos? — perguntou Nesryn. — Mal se vê um ponto seguro. Eles poderiam ter levado os filhotes e os ovos para qualquer lugar.
Ela escaneou os picos e os vales em busca de qualquer sinal de movimento, qualquer cintilação daqueles corpos pretos e lustrosos. Mas não viu nada.
— Vamos dar uma volta por aqui — disse Sartaq. — Ter uma ideia do terreno. Talvez descubramos uma coisa ou duas em relação aos seus hábitos alimentares.
Deus acima.
— Mantenha Kadara alto. Voe casualmente. Se parecemos estar à procurara de algo, elas podem emergir em bando.
Sartaq assobiou bruscamente para Kadara, que realmente subiu mais alto do que sua ascensão habitual. Como se estivesse feliz por subir um pouco mais longe do território coberto abaixo.
— Fique escondido, amigo — disse Nesryn a Falkan, com as mãos tremendo quando acariciou o bolso do peito. — E se eles nos observam por baixo, é melhor te manter em segredo até que menos esperem.
As minúsculas patas de Falkan bateram em compreensão, e ele deslizou de volta no bolso.
Eles voaram em círculos ociosos por um tempo, Kadara ocasionalmente mergulhando como se estivesse em busca de uma águia ou falcão. Na caçada ao almoço, talvez.
— Aquele conjunto de picos — disse Sartaq depois de um tempo, apontando para o ponto mais alto dos Montes. Chifres que se dirigiam para o céu, dois picos-irmãos que se aproximavam tanto que poderiam muito bem ter sido uma vez uma única montanha. Entre as suas cúpulas de garras, uma passagem cheia de xisto se espalhava por um labirinto de pedra. — Kadara continua olhando para eles.
— Circule, mas mantenha distância.
Antes que Sartaq pudesse dar a ordem, Kadara obedeceu.
— Algo está se movendo na passagem — Nesryn respirou, apertando os olhos.
Kadara se aproximou, mais perto dos picos do que era sábio.
— Kadara — advertiu Sartaq.
Mas a ruk forçou as asas, frenética. Correndo.
Assim como a coisa na passagem tornou-se clara.
Correndo sobre o xisto, balançando e batendo asas cobertas por penugem...
Um filhote.
Sartaq praguejou.
— Mais rápido, Kadara. Mais rápido.
A ruk não precisava de encorajamento.
O filhote gritava, aquelas asinhas tão pequenas agitando-se enquanto tentava e não conseguia levantar do chão. Ele viera dos pinheiros que fluíam até a borda da passagem, e agora visava o centro do labirinto de pedra.
Nesryn soltou seu arco e colocou uma flecha no lugar, Sartaq fazendo o mesmo atrás dela.
— Nem um som, Kadara — alertou Sartaq assim que a ruk abriu o bico. — Você vai alertá-los.
Mas o filhote estava gritando, seu terror era palpável mesmo à distância.
Kadara pegou um vento e voou.
— Vamos — respirou Nesryn, uma flecha voltada para o bosque, para qualquer coisa horrível da qual o filhote tivesse escapado, sem dúvida, seguindo-o.
O bebê ruk aproximou-se da parte mais larga da boca da passagem, batendo na parede da pedra à frente. Como se soubesse que mais esperavam por dentro.
Preso.
— Aproxime-se, atravesse a passagem e saia — Sartaq ordenou ao seu ruk, que se inclinou tanto para a direita, que os músculos do abdômen de Nesryn tensionaram enquanto ela fazia força para se manter a sela.
Kadara nivelou, deixando descendo metro por metro em direção ao filhotinho agora girando, gritando para o céu enquanto contemplava o ruk que se aproximava.
— Firme — comandou Sartaq. — Firme, Kadara.
Nesryn manteve sua flecha apontada para o labirinto de pedra à frente, Sartaq torcendo-se para cobrir a floresta atrás. Kadara voou cada vez mais perto da passagem revestida de xisto, para o filhote trêmulo e acinzentado agora mantendo-se tão imóvel, esperando a salvação nas garras de Kadara se desenrolasse.
Dez metros. Sete.
O braço de Nesryn se esforçou para manter a flecha esticada.
Um vento soprou para Kadara, empurrando-a de lado, o mundo inclinando-se com luz cintilante.
Assim que Kadara se estabilizou, assim que suas garras se abriram para pegar o bebê ruk, Nesryn percebeu o que a coisa cintilante era. O que a mudança de ângulo revelou à frente.
— Cuidado!
O grito quebrou de sua garganta, mas tarde demais.
As garras de Kadara se fecharam ao redor do filhote, arrancando-o do chão logo que ela voou através dos picos da passagem.
Direto para uma teia gigante tecida entre eles.

5 comentários:

  1. E pensar que a Aelin já roubou de aranhas como essas... Só ela mesmo, viu

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  2. Oh meu Deus, eu estava imaginando o filhote gritando desesperado e quase desceu lágrimas de tanta pena que senti, um dos meus pontos fracos são animais sofrendo (independente da espécie) *^*

    Aaaaaaaaaaaaa agora fodeu!

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  3. Tanta pena do filhotinho, mas eu sabia que era uma isca. Fiquei dividida entre torcer pra que eles salvassem o ruck ou que eles saíssem dali. Triste!

    Flavia

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Comentários de volta!
Passamos algumas horas sem essa opção, mas estamos à ativa novamente :)

Boa leitura! E SEM SPOILER!