29 de janeiro de 2018

Capítulo 40

Ficar de pé e dar alguns passos não eram o mesmo que voltar à capacidade total.
A próxima semana provou isso. Yrene ainda lutava com o que espreitava na espinha de Chaol, ainda agarrando-se – na base da coluna, ela explicara – e ainda o impedindo de ter o pleno movimento. Correr, saltar, chutar: estavam todos fora da questão. Mas, graças à robusta bengala de madeira que arrumara para ele, ele podia ficar de pé, e podia andar.
E era um maldito milagre.
Ele levava a bengala e a cadeira para o treinamento da manhã com Hashim e os guardas, para quando se forçasse demais e não conseguisse administrar a viagem de volta aos seus aposentos. Yrene se juntou a ele durante as lições iniciais, instruindo Hashim sobre onde se concentrar em suas pernas. Para reconstruir melhor os músculos. Para estabilizá-lo ainda mais. Ela fizera o mesmo por Shen, Hashim lhe confiara uma manhã – viera supervisionar a maioria de suas sessões iniciais de treinamento após a lesão.
Então, Yrene estava lá, assistindo do lado de fora, no primeiro dia em que Chaol pegou uma espada contra Hashim. Ou fez o melhor que pôde segurando a bengala com uma mão.
Seu equilíbrio era uma merda, as pernas não eram confiáveis, mas ele conseguiu alguns bons sucessos contra o homem.
E uma bengala... não era uma arma ruim, se a luta exigisse.
Os olhos de Yrene estavam arregalados como pires quando eles pararam e Chaol aproximou-se de seu lugar na parede, inclinando-se pesadamente contra a bengala enquanto seu corpo tremia.
A cor do rosto dela, ele percebeu com satisfação masculina, era de muito mais do que calor. E quando eles finalmente partiram, caminhando lentamente para as sombras das salas, Yrene puxou-o para uma alcova e o beijou.
Inclinando-se contra uma prateleira de suprimentos para ter apoio, suas mãos haviam percorrido toda ela, as curvas generosas e a cintura pequena, emaranhando-se em seus cabelos longos e pesados. Ela o beijou e beijou, sem fôlego e ofegante, e então lambeu – realmente lambeu – o suor do pescoço dele.
Chaol gemeu tão alto que não foi surpresa que um criado tivesse aparecido um momento mais tarde, como se para brigar com dois subalternos por se esquivarem de seus deveres.
Yrene pestanejara quando se endireitou e pediu ao criado curioso que não dissesse nada. Ele assegurou-lhe que não, mas Yrene ficou abalada. Manteve distância pelo resto do caminho de volta.
E todos os dias desde então. Isso o deixava louco.
Mas ele entendia. Com a sua posição, tanto na Torre quanto dentro do palácio, eles deveriam ser mais inteligentes.
Mais cuidadosos.
E com Kadja sempre em seus aposentos...
Chaol manteve as mãos para si mesmo. Mesmo quando Yrene colocava as mãos nas costas dele e o curava, fazendo força para atravessar a parede final de escuridão.
Ele queria dizer a ela para parar, dizer a ela que já era suficiente. Ele viveria com prazer com a bengala pelo resto de sua vida. Ela lhe dera mais do que ele poderia esperar.
Pois ele via os guardas todas as manhãs. As armas e os escudos.
E pensou nessa guerra desencadeando-se finalmente sobre seus amigos. Sua terra natal.
Mesmo que não levasse um exército consigo quando voltasse, ele encontraria alguma maneira de suportar aqueles campos de batalha. Montar, pelo menos, agora era uma opção viável enquanto lutava ao lado deles.
Lutar por... ela.
Ele pensava nisso enquanto caminhavam para jantar uma noite, mais de uma semana depois. Com a bengala, demorou mais do que o habitual, mas ele não se importava com qualquer momento extra que passasse na companhia dela.
Ela usava o seu vestido roxo – o favorito dele – com metade do cabelo preso para cima, e o restando ondulando suavemente no dia úmido pouco usual. Mas ela estava nervosa, agitada.
— O que foi?
A realeza não se importou com a primeira noite em que ele andou sobre as próprias pernas para o jantar. Outro dia de milagre da Torre, embora o próprio khagan tenha elogiado Yrene. Ela irradiou com o louvor. Mesmo que o khagan tenha ignorado Chaol – como fizera desde aquele encontro maldito.
Yrene esfregou a cicatriz no pescoço como se doesse. Ele não havia perguntado sobre isso – não queria saber.
Só porque se perguntasse... Mesmo com uma guerra se aproximando, ele poderia muito bem arranjar tempo para caçar quem tivesse feito aquilo e enterrá-los.
— Convenci Hasar a me levar a uma festa — disse Yrene calmamente.
Ele esperou até que tivessem passado por um grupo de criados antes de perguntar:
— Por que motivo?
Ela respirou fundo.
— Meu aniversário. Daqui três dias.
— Seu aniversário?
— Você sabe, a celebração do dia do seu nascimento...
Ele cutucou-a com um cotovelo, embora sua espinha ondulasse e se movesse com o movimento. A bengala gemeu quando pressionou seu peso sobre ela.
— Não sabia que diabinhas faziam aniversário.
Ela mostrou-lhe a língua.
— Sim, mesmo minha espécie faz.
Chaol sorriu.
— Então você pediu que ela fizesse uma para você? — considerando como a última festa tinha sido... poderia muito bem terminar com uma dessas pessoas escorregando para um quarto escuro. Especialmente se Yrene vestisse aquele vestido novamente.
— Não exatamente — respondeu Yrene com ironia. — Mencionei que meu aniversário estava chegando, e quão maçante os seus planos eram...
Ele riu.
— Presunçosa você.
Ela bateu as pestanas.
— E eu poderia ter mencionado que nos meus anos aqui, nunca estive no deserto e estava debatendo fazer uma viagem por minha conta, mas que ficaria triste por não comemorar com ela...
— E suponho que ela tenha sugerido um oásis que sua família possui?
— Uma pequena excursão durante a noite para Aksara — Yrene cantarolou. — Meio dia de viagem para o leste, para seu acampamento permanentes de tendas no oásis.
Então a curandeira poderia armar esquemas, afinal. Mas...
— Estará fervendo neste calor.
— A princesa quer uma festa no deserto. Então terá uma. — Ela mordeu seu lábio, aquelas sombras dançando novamente. — Eu também consegui perguntar a ela sobre Aksara. Sua história.
Chaol preparou-se.
— Hasar ficou entediada antes de me contar muito, mas disse ter ouvido uma vez que o oásis cresceu acima de uma cidade dos mortos. Que as ruínas agora não são muito mais que o portal. Eles não gostam de arriscar perturbar os mortos, de modo que eles nunca vão na primavera em si – para se aventurar na selva ao redor.
Não era de se admirar que ela estivesse preocupada.
— Não só cavernas são encontradas, então.
— Talvez o que Nousha disse signifique algo diferente; talvez também existam cavernas com informações. — Ela soltou uma respiração. — Suponho que descobriremos. Tive certeza de bocejar enquanto Hasar contava, o suficiente para eu duvidar que ela se pergunte por que eu quis saber de tudo isso.
Chaol beijou-a, um roçar rápido de sua boca que ninguém poderia ver.
— Esperta, Yrene.
— Eu quis te contar na outra semana, mas aí você ficou de pé e eu esqueci.
Ele usou sua mão livre para acariciá-la ao longo da espinha. E um pouco mais baixo.
— Nós fomos envolvidos de outra forma.
Seu rosto corou em um lindo tom de rosa, mas um pensamento o atingiu.
— O que você realmente quer de aniversário? E quantos anos?
— Vinte e dois. E eu não sei. Se não fosse por isso, eu nem teria levantado o assunto.
— Você não ia me contar?
Ela fez uma careta.
— Achei que com tudo pressionando-o, aniversários não tivessem importância — a mão dela deslizou para dentro do bolso – para segurar aquela coisa sobre a qual ele nunca perguntara.
Eles se aproximaram do clamor de jantar no grande salão. Ele roçou os dedos contra os dela. Ela parou em um pedido silencioso, o corredor se espalhando diante deles, criados e vizires passando.
Chaol inclinou-se sobre a bengala enquanto descansava, deixando-a estabilizar seu peso.
— Estou convidado para esta festa no deserto, pelo menos?
— Ah, sim. Você e todas as minhas outras pessoas favoritas: Arghun, Kashin e um punhado de agradáveis vizires.
— Estou feliz por estar incluído, considerando que Hasar me odeia.
— Não — os olhos de Yrene escureceram. — Se Hasar o odiasse, não acho que você estaria vivo agora.
Deuses acima. Esta era a mulher com quem ela fazia amizade.
— Pelo menos Renia estará lá — Yrene continuou — mas Duva não deve estar no calor em sua condição, e seu marido não deixará de ficar ao seu lado. Tenho certeza de que, uma vez que chegarmos lá, informações ou não, provavelmente vou desejar poder dar uma desculpa semelhante.
— Nós temos alguns dias. Podemos, tecnicamente, fazer o mesmo se precisarmos sair.
As palavras afundaram. O convite e a implicação. O rosto de Yrene ficou deliciosamente vermelho, e ela bateu no braço dele.
— Patife.
Chaol riu e olhou pelo corredor para um canto sombreado. Mas Yrene sussurrou:
— Nós não podemos.
Não para sua triste piada, mas para a vontade que ela sem dúvida viu crescendo em seus olhos. A vontade que ele viu borbulhando nos dela.
Ele arrumou a jaqueta.
— Bem, tentarei encontrar um presente adequado que se possa comparar com um retiro no deserto, mas não garanto.
Yrene passou o braço através do braço livre de Chaol, não mais do que uma curandeira escoltando seu paciente para a mesa.
— Eu tenho tudo de que preciso — foi tudo o que ela falou.

4 comentários:

  1. "E quando eles finalmente partiram, caminhando lentamente para as sombras das salas, Yrene puxou-o para uma alcova e o beijou."

    Me lembrei do armário de vassouras e.e

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  2. Tô com medo. Tudo indo bem entre eles, já vimos isso uma vez. Tudo lindo de repente bum, explode a bomba.
    E essa Hasar é muito esperta, duvido que a Yrene conseguiu manipular essa daí ..

    Flavia

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Passamos algumas horas sem essa opção, mas estamos à ativa novamente :)

Boa leitura! E SEM SPOILER!