29 de janeiro de 2018

Capítulo 4

De todas as salas de Torre Cesme, Yrene Towers amava este melhor.
Talvez fosse porque a sala, localizada no topo da torre de pedra pálida e seu complexo espalhando-se abaixo, tivesse uma vista incomparável do pôr-do-sol sobre Antica.
Talvez fosse porque este fosse o lugar onde sentira o primeiro fragmento de segurança em quase dez anos. O lugar em que ela examinara pela primeira vez a velha mulher agora sentada na mesa com papéis e livros espalhados, e ouviu as palavras que mudaram tudo: Você é bem-vinda aqui, Yrene Towers.
Passaram-se mais de dois anos desde então.
Dois anos trabalhando aqui, vivendo aqui, nesta torre e nesta cidade de tantos povos, de tantos alimentos e tanto conhecimento.
Tinha sido tudo o que ela sonhara, e ela havia aproveitado todas as oportunidades, todos os desafios, com ambas as mãos. Estudou e ouviu e praticou e salvou vidas, mudou-as, até que subiu ao topo de sua classe. Até onde uma filha de curandeiro desconhecida de Charco Lavrado era abordada por curandeiros velhos e jovens, que haviam treinado suas vidas inteiras, em busca de seus conselhos e assistência.
A magia ajudou. Magia gloriosa e encantadora que poderia deixá-la sem fôlego ou tão cansada que não conseguia sair da cama por dias. A magia exigia um custo para ambos, curandeiro e paciente. Mas Yrene estava disposta a pagar. Ela nunca se importou com as consequências de uma cura brutal.
Se isso significasse salvar uma vida... Silba lhe concedera um dom – e uma jovem estranha deu-lhe outro presente, aquela última noite em Innish há dois anos. Yrene não tinha planos de esbanjá-lo também.
Ela esperou em silêncio enquanto a mulher esbelta a sua frente terminava de ler algumas mensagens em sua mesa cronicamente bagunçada. Apesar dos melhores esforços dos criados, a antiga mesa de jacarandá era sempre caótica, coberta com fórmulas, feitiços ou frascos com um pouco de tônico.
Havia dois desses frascos na mesa agora, orbes claras sobre pés de prata no formato de pernas de íbis. Sendo purificado pelo sol interminável dentro da torre.
Hafiza, curandeira no alto da Torre Cesme, arrancou um dos frascos, girou seu conteúdo azul pálido, franziu a testa e colocou-o na mesa.
— A maldita coisa sempre demora duas vezes mais do que eu prevejo. — Ela perguntou casualmente, usando o próprio idioma de Yrene: — Por que você acha que é assim?
Yrene inclinou-se para frente na poltrona desgastada ao lado da mesa para estudar o tônico. Cada reunião, cada encontro com Hafiza, era uma lição – uma chance de aprender. Ser desafiada. Yrene levantou o frasco de seu suporte, segurando-o contra a luz dourada do pôr-do-sol enquanto examinava o espesso líquido azul ali dentro.
— Uso?
— Uma garota de dez anos de idade desenvolveu uma tosse seca há seis semanas. Viu o médico, que aconselhou chá com mel, repouso e ar fresco. Ficou melhor por um tempo, mas voltou há uma semana com uma recaída ainda mais forte — disse ela.
Os curandeiros de Torre Cesme eram os melhores do mundo, distinguindo-se apenas dos curandeiros da Torre pelo fato de que eles não possuíam magia. Eles eram a primeira linha de inspeção para os curandeiros na torre, seus quartéis ocupando o complexo em torno de sua base.
A magia era preciosa, suas demandas dispendiosas o suficiente para que um Alto Curandeiro há alguns séculos tivesse decretado que, se um paciente viesse, o médico deveria inspecionar a pessoa primeiro. Talvez tivesse sido uma manobra política – um osso lançado aos médicos, muitas vezes ignorados por um povo que clamava por todas as curas da magia.
No entanto, magia não podia curar todas as coisas. Não podia deter a morte, nem trazer alguém de volta dela. Ela aprendeu isso constantemente nos últimos dois anos, e mais cedo. E mesmo com os protocolos com os médicos, Yrene ainda – como sempre fazia – encontrava-se caminhando em direção ao som de tosse nas ruas estreitas e inclinadas de Antica.
Yrene inclinou o frasco.
— O tônico pode reagir ao calor. Tem estado quente, mesmo para nós.
Com o final do verão finalmente perto, mesmo depois de dois anos, Yrene ainda não estava completamente acostumada com o calor implacável e seco da cidade-deus. Felizmente, algum engenheiro há muito tempo inventara uma engenhoca – uma espécie de torre captadora de vento colocada no alto dos edifícios que trazia ar fresco para as salas abaixo, alguns trabalhando em paralelo com os poucos canais subterrâneos que serpenteavam sob Antica para transformar o vento quente em brisas frescas. A cidade era salpicada com as pequenas torres, como mil lanças subindo em direção ao céu, desde as pequenas casas feitas de tijolos de barro até as grandes residências abobadadas cheias de pátios sombreados e piscinas de águas transparentes.
Infelizmente, a Torre precedera essa tacada brilhante e, embora os níveis superiores possuíssem uma ventilação inteligente que esfriava as câmaras abaixo, havia muitos dias em que ela desejava que algum arquiteto inteligente apropriasse a Torre com os últimos avanços. Na verdade, com o aumento do calor e os vários incêndios que ocorriam em toda a torre, a sala de Hafiza estava quase sufocante. O que levou Yrene a acrescentar:
— Você poderia colocá-lo em uma câmara inferior – onde é mais frio.
— Mas e se ele precisa de luz solar? — perguntou Hafiza.
Yrene considerou.
— Traga espelhos. Reflita a luz solar através da janela e concentre-a sobre o frasco. Ajuste-os algumas vezes ao dia para combinar com o caminho do sol. A temperatura mais fria e a luz solar mais concentrada podem fazer o tônico ficar pronto mais cedo.
Assentiu, satisfeita. Yrene passara a apreciar aqueles assentimentos, a luz naqueles olhos castanhos.
— Pensamento rápido salva vidas mais frequentemente do que a magia — foi a única resposta de Hafiza.
Ela dissera isso mil vezes antes, geralmente onde Yrene estava envolvida – para seu orgulho eterno – mas Yrene inclinou a cabeça em agradecimento e colocou o frasco de volta em sua posição.
— Então — Hafiza falou, dobrando as mãos sobre a mesa quase reluzente de jacarandá — Eretia me informa que ela acredita que você está pronta para nos deixar.
Yrene se endireitou no assento, a mesma cadeira em que sentara no primeiro dia que escalara os mil degraus até o topo da torre e implorou a admissão. A mendicância tinha sido a menor das suas humilhações naquela reunião, o outro momento foi quando ela atirou a bolsa de ouro na mesa de Hafiza, mostrando que ela não se importava com o custo e que tomasse tudo. Sem perceber que Hafiza não aceitava dinheiro de seus alunos. Não, eles pagavam por sua educação de outras maneiras. Yrene sofreu infinitas indignidades e degradações durante o ano que trabalhou no Porco Branco, mas nunca esteve mais mortificada do que no momento em que Hafiza ordenou que ela devolvesse o dinheiro para aquela bolsa marrom. Agarrando o ouro da mesa como um jogador de cartas lutando para recolher seus ganhos, Yrene havia debatido se pulava ou não das janelas em arco atrás da mesa de Hafiza.
Muito havia mudado desde então. Lá se foram os vestidos simples, o corpo muito magro. Embora Yrene supusesse que as infinitas escadas da Torre houvessem mantido o peso que ganhara com uma alimentação constante e saudável, graças às enormes cozinhas da Torre, os inúmeros mercados repletos de comida, e os restaurantes em cada rua movimentada e sinuosa.
Yrene engoliu uma vez, tentando e não encolher-se diante do rosto da curandeira. Hafiza tinha sido a única pessoa aqui a quem Yrene nunca conseguia ler, nunca antecipava. Ela nunca demonstrou mau temperamento – algo que não podia ser dito sobre muitos dos instrutores aqui, especialmente Eretia – e nunca levantara a voz. Hafiza tinha apenas três expressões: satisfeita, neutra e desapontada. Yrene morria de terror com as duas últimas.
Não por algum castigo. Não havia tal coisa aqui. Sem diminuição da ração, sem dor ameaçando-os. Não como no Porco Branco, onde Nolan teria diminuído seu salário se ela saísse da linha ou se não satisfizesse os clientes, ou se tentasse despejar todas as noites os restos de comida para os ouriços meio selvagens que rondavam as ruas imundas de Innish.
Ela chegou ali pensando que seria mais do mesmo: pessoas que levariam seu dinheiro, que tornariam mais difícil sair. Ela passou um ano trabalhando no Porco Branco devido aos aumentos de Nolan em seu aluguel, à diminuição em seu salário, o corte de suas pequenas gorjetas e o conhecimento de que a maioria das mulheres de Innish trabalhava nas ruas, e seu estabelecimento, nojento como era, era uma alternativa muito melhor.
Ela nunca mais falou consigo mesma – não desde que chegou aqui. Desde que atirara aquele ouro na mesa de Hafiza e estava pronta para fazer tudo, até vender-se, apenas por uma chance de aprender.
Hafiza nem sequer considerou a possibilidade. Seu trabalho estava em oposição direta às pessoas que o faziam, pessoas como Nolan. Yrene ainda lembrava da primeira vez que ouviu Hafiza falar com aquele seu sotaque forte e adorável, quase as mesmas palavras que a mãe de Yrene lhe falava constantemente: eles não cobravam, de estudantes ou pacientes, porque que Silba, a Deusa de Cura, os abençoou de graça.
Em uma terra com tantos deuses que Yrene ainda lutava para mantê-los todos em mente, pelo menos Silba permanecia a mesma.
Mais uma coisa inteligente que o khaganato fizera ao reparar os reinos e territórios durante seus anos de conquista: manter e adaptar os deuses de todos. Incluindo Silba, cujo domínio sobre os curandeiros havia sido estabelecido nestas terras há muito tempo. A história era escrita pelos vencedores, aparentemente. Ou como, Eretia, tutora direta de Yrene, já havia dito a ela. Mesmo os deuses não eram mais imunes à história do que meros mortais.
Mas isso não impediu Yrene de oferecer uma oração a Silba e quaisquer deuses que pudessem estar ouvindo, quando finalmente respondeu:
— Estou pronta, sim.
— Para nos deixar. — Tais palavras simples, oferecidas com esse rosto neutro – tranquilas e pacientes. — Ou você considerou a outra opção que lhe apresentei?
Yrene considerara. Ela pensou nisso sem parar nas duas semanas desde que Hafiza a convocara para este escritório e falou a única palavra que apertou um punho em torno de seu coração: fique.
Fique e aprenda mais – fique e veja o que essa vida incipiente que ela construíra aqui poderia crescer.
Yrene esfregou seu peito como se ainda pudesse sentir aquele aperto semelhante a um torno.
— A guerra está voltando para minha terra novamente – o continente do norte — era assim que eles a chamavam aqui. Yrene engoliu em seco. — Eu quero estar lá para ajudar aqueles que lutam contra o controle do império.
Por fim, depois de tantos anos, uma força estava se recuperando. A própria Adarlan havia sido dividida, se os rumores fossem verdade, por Dorian Havilliard – o filho do rei morto – no norte, e pelo duque Perrington, no sul. Dorian era apoiado por Aelin Galathynius, a rainha há muito perdida agora crescida e com poder e fome vorazes de vingança, a julgar pelo que fizera no castelo de vidro e seu rei. E Perrington, segundo o boato, era apoiado por horrores que surgiram de algum pesadelo sombrio.
Mas se essa fosse a única chance de liberdade para Charco Lavrado...
Yrene estaria lá para ajudar, da maneira que pudesse. Ela ainda podia sentir o cheiro da fumaça tarde da noite ou quando era drenada depois de uma cura difícil. Fumaça daquele fogo que os soldados adarlanianos haviam começado e que queimara sua mãe. Ela ainda ouvia os gritos dela e sentia a textura daquele tronco de árvore sob suas mãos enquanto se escondia na borda da Floresta Carvalhal. Enquanto assistia queimarem sua mãe viva. Depois que sua mãe matou aquele soldado para ganhar tempo para Yrene para correr.
Já fazia dez anos. Quase onze. E embora ela tivesse atravessado montanhas e oceanos... havia alguns dias em que Yrene sentiu como se ainda estivesse de pé em Charco Lavrado, sentindo o cheiro daquela fumaça, farpas entrando em suas mãos, assistindo enquanto soldados tiravam suas tochas e queimavam sua casa também.
O chalé que abrigou gerações de curandeiros Towers.
Yrene supôs que fosse apropriado, de alguma forma, ela acabar em uma torre. Com apenas o anel na mão esquerda como prova de que uma vez, durante centenas de anos, existiu uma linhagem de curandeiras prodigamente talentosas no sul de Charco Lavrado. Um anel com que ela agora brincava, a última prova de que a mãe, a mãe de sua mãe e todas as mães antes deles viveram e curaram em paz. Era o primeiro de apenas dois objetos que Yrene não venderia – mesmo antes de se vender.
Hafiza não respondeu, e então Yrene prosseguiu, o sol afundando mais nas águas cor de jade do porto em toda a cidade:
— Mesmo com a magia agora de volta ao continente do norte, muitos dos curandeiros talvez não tenham o treinamento, se algum tiver sobrevivido em absoluto. Eu poderia salvar muitas vidas.
— A guerra também poderia reivindicar a sua vida.
Ela sabia disso. Yrene levantou o queixo.
— Estou ciente dos riscos.
Os olhos escuros de Hafiza suavizaram.
— Sim, sim, você está.
Ela havia saído mortificada daquele primeiro encontro com Curandeira.
Yrene não tinha chorado por anos – não desde aquele dia em que sua mãe se tornara cinzas no vento – e no momento em que Hafiza perguntara sobre os pais de Yrene... ela enterrou o rosto nas mãos e chorou. Hafiza tinha saído daquela mesa e abraçado-a, esfregando suas costas em círculos reconfortantes.
Hafiza costumava fazer isso. Não apenas para Yrene, mas para todos os seus curandeiros, quando as horas eram longas e as costas doloridas e a magia tirava tudo e ainda não era suficiente. Uma presença silenciosa e estável que os suportava, acalmava-os.
Hafiza era o mais perto de uma mãe para Yrene do que qualquer uma já foi durante esses onze anos. E agora a semanas de distância de seus vinte e dois anos, ela duvidava que encontrasse outra como ela.
— Eu fiz os testes — disse Yrene, mesmo que Hafiza soubesse disso. Ela os entregara a Yrene, supervisionando a esmerada semana de testes de conhecimento, habilidade e real prática humana. Yrene tinha certeza de que recebera a nota mais alta de sua classe. Tão perto de uma pontuação perfeita como alguém já conseguira ali. — Estou pronta.
— Realmente, está. E eu ainda me pergunto o quanto você pode aprender em cinco anos, dez anos, se já aprendeu tanto em dois.
Yrene fora habilidosa demais para começar com os acólitos nos níveis mais baixos da Torre. Ela seguia sua mãe desde que tinha idade suficiente para andar e conversar, aprendendo lentamente, ao longo dos anos, como todos os curandeiros da família fizeram. Aos onze anos, Yrene havia aprendido mais do que a maioria em décadas. E mesmo durante o período de anos que se seguiram, onde fingiu ser uma garota comum ao trabalhar na fazenda da prima de sua mãe – a família não tinha certeza do que realmente fazer com ela, não querendo que soubessem dela quando a guerra e Adarlan podiam destruir tudo o que ela silenciosamente havia praticado.
Mas não muito, não visivelmente. Durante esses anos, vizinhos vendiam vizinhos até mesmo por um sussurro de magia. E mesmo que a magia tivesse desaparecido, levando o dom de Silba com ela, Yrene tivera o cuidado de não parecer mais do que uma parente de fazendeiro simples, cuja avó talvez tivesse lhe ensinado alguns remédios naturais para febres ou dor de parto ou membros torcidos e quebrados.
Em Innish, ela fora capaz de fazer mais, usando dinheiro de seu bolso para comprar ervas, pomadas. Mas muitas vezes não se atrevia, nem com Nolan e Jessa, que a observavam durante dia e noite. Assim, nos dois últimos anos, ela queria aprender o máximo que pudesse. Mas também foi libertador. De anos de sufocamento, de mentiras e de se esconder.
E naquele dia, quando ela se afastou do barco e sentiu sua magia se revolver, sentiu que alcançava um homem que coxeava pela rua... Ela caiu em um estado de choque que não terminou até que ela acabou chorando na mesma cadeira três horas mais tarde.
Yrene suspirou pelo nariz.
— Eu poderia voltar aqui um dia para continuar meus estudos. Mas – com todo o devido respeito, eu sou uma curandeira completa agora. — E ela poderia se aventurar aonde seu presente a chamasse.
As sobrancelhas brancas de Hafiza ergueram-se contra sua pele morena.
— E quanto ao Príncipe Kashin?
Yrene se mexeu em seu assento.
— O que tem ele?
— Vocês já foram bons amigos uma vez. Ele continua gostando de você, e isso não é algo pequeno para se ignorar.
Yrene lançou um olhar que poucos se atreveriam a dirigir à Alta Curandeira.
— Será que ele interferirá com meus planos de ir embora?
— Ele é um príncipe, e não foi-lhe negado nada, exceto a coroa que cobiça. Ele pode pensar que sua saída não é algo que ele tolere.
O medo chegou através dela, começando em sua coluna vertebral e terminando enrolado profundamente em seu intestino.
— Eu não lhe dei nenhum encorajamento. Deixei meus pensamentos sobre esse assunto perfeitamente claros no ano passado.
Tinha sido um desastre. Ela repassara as coisas que havia dito várias e várias vezes, os momentos entre eles, tudo o que levara àquela terrível conversa naquela grande barraca Darghan em cima das estepes varridas pelo vento.
Começou alguns meses depois de ela ter chegado à Antica, quando um dos criados favoritos de Kashin ficara doente. Para sua surpresa, o próprio príncipe estava na cabeceira do homem, e durante as longas horas em que Yrene curava, a conversa fluíra, e ela se encontrou... sorrindo. Ela curou o criado e, ao ir embora naquela noite, foi escoltada pelo próprio Kashin até os portões da Torre. E nos meses que se seguiram, a amizade surgiu entre eles.
Talvez mais livre, mais leve com a amizade que fizera, ela também acabou se aproximando de Hasar, que gostara de Yrene depois de precisar de alguma cura própria. E enquanto Yrene lutara para encontrar companheiros dentro da Torre graças aos horários conflitantes dela e de seus colegas, o príncipe e a princesa se tornaram amigos de fato. Assim como a amante de Hasar, Renia, de rosto doce, tão adorável dentro como por fora.
Eles formavam um grupo estranho, mas... Yrene aproveitava sua companhia, gostava dos jantares para as quais Kashin e Hasar a convidavam, quando Yrene sabia que realmente não tinha motivos para estar lá. Kashin muitas vezes conseguia encontrar uma maneira de sentar ao lado dela, ou perto o suficiente para envolvê-la na conversa. Durante meses, as coisas iam bem, melhor do que bem. E então, Hafiza levou Yrene para as estepes, o lar originário da família khagan, para supervisionar uma cura extenuante. Com Kashin como acompanhante e guia.
A Alta Curandeira examinou Yrene, franzindo a testa um pouco.
— Talvez sua falta de encorajamento o tenha deixado mais ansioso.
Yrene esfregou as sobrancelhas com o polegar e o indicador.
— Nós mal nos falamos desde então. — Era verdade. Embora principalmente devido à recusa de Yrene de ir aos jantares para os quais Hasar e Renia ainda a convidavam.
— O príncipe não parece um homem facilmente dissuadido – certamente não em questões de coração.
Ela sabia disso. Gostou daquilo de Kashin. Até que ele quis algo que ela não podia lhe dar.
Yrene gemeu.
— Eu terei que ir embora como um ladrão na noite, então?
Hasar nunca a perdoaria, embora ela não tivesse dúvidas de que Renia tentaria acalmá-lo e a fazê-lo pensar. Se Hasar era pura chama, então Renia era água corrente.
— Se decidir permanecer, não terá que se preocupar com tais coisas.
Yrene endireitou-se.
— Realmente usaria Kashin como uma maneira de me manter aqui?
Hafiza riu, um pouco de calor surgindo.
— Não. Mas perdoe uma velha por tentar usar quaisquer meios necessários para convencê-la.
Orgulho e culpa brotaram em seu peito. Mas Yrene não disse nada – não tinha resposta.
Voltar ao continente do norte... Ela sabia que não havia ninguém e nem nada para ela.
Nada além de guerra implacável, e aqueles que precisariam de sua ajuda.
Ela nem sabia para onde ir, para onde navegar, como encontrar aqueles exércitos e seus feridos. Ela tinha viajado muito antes, fugira dos inimigos inclinados a matá-la, e pensar em fazer tudo de novo... Ela sabia que alguns a chamariam de louca. Hafiza colocara uma grande oferta diante dela. Ela pensara nessas coisas por muito tempo.
No entanto, nenhum dia se passou sem que Yrene olhasse para o mar ao pé da cidade – olhando para o norte.
A atenção de Yrene, de fato, deslizou da Alta Curandeira para as janelas atrás dela, até o horizonte distante e escurecendo, como se fosse um castelo.
Hafiza disse, um tom mais suave:
— Não há pressa para decidir. As guerras duram muito.
— Mas eu precisarei...
— Há uma tarefa que preciso que você faça primeiro, Yrene.
Yrene se calou naquele tom, à sugestão de comando nela.
Ela olhou para a carta que Hafiza lia quando perguntou:
— Qual?
— Há um convidado no palácio – um convidado especial do khagan. Eu lhe pediria para tratá-lo. Antes de decidir se agora é o momento certo para sair dessas costas, ou se é melhor permanecer.
Yrene inclinou a cabeça. Era raro – muito raro para Hafiza passar um pedido do khagan para outra pessoa.
— Qual é a sua doença? — Palavras comuns, comuns para curandeiros que recebem casos.
— Ele é um homem jovem, com vinte e três anos. Saudável em todos os aspectos, em boas condições físicas. Mas sofreu uma lesão grave na espinha no início deste verão que o deixou paralisado dos quadris para baixo. Ele não consegue sentir nem mover as pernas, e usa uma cadeira de rodas. Estou ignorando o exame inicial dos médicos para apelar diretamente a você.
A mente de Yrene agitou-se. Era um processo complexo e longo curar esse tipo de ferimento. A espinha era quase tão difícil quanto o cérebro. Conectada a ele de perto. Nesse tipo de cura, não era uma questão de deixar sua mágica agir sobre o corpo – não era assim que funcionava. Ele deveria encontrar os lugares e canais certos, descobrir a quantidade correta de magia para exercer. Fazer com que o cérebro voltasse a enviar sinais para a coluna vertebral, descer por aqueles caminhos quebrados; substituir os núcleos danificados. E depois disso... aprender a caminhar novamente. Levaria semanas. Meses, talvez.
— Ele é um jovem ativo — continuou Hafiza. — A lesão é semelhante ao guerreiro que você ajudou no inverno passado, nas estepes.
Ela já havia adivinhado – provavelmente por isso fora chamada. Dois meses para curar o lorde cavaleiro que caiu de sua montaria e feriu a coluna vertebral. Não era uma ferida incomum entre os Darghan, alguns dos quais cavalgavam cavalos e outros que montavam ruks, e eles confiavam há muito tempo nos curandeiros da Torre. Trabalhar no guerreiro tinha sido a primeira vez em que aplicara as lições sobre o assunto, precisamente por que Hafiza a acompanhara até as estepes. Yrene estava bastante confiante de que poderia fazer outra cura por conta própria desta vez, mas foi a maneira como Hafiza olhou para a ela – apenas uma vez – que fez Yrene parar. Fez-lhe perguntar:
— Quem é ele?
— Lorde Chaol Westfall. — Não é um nome do khaganato. Hafiza acrescentou, segurando o olhar de Yrene: — Ele era Capitão da Guarda Real e agora é Mão do novo Rei de Adarlan.
Silêncio.
Yrene ficou em silêncio, em sua cabeça, seu coração. Somente o grito das gaivotas voando acima da Torre e as vozes dos vendedores indo para casa nas ruas escurecendo além das altas paredes do complexo que preenchiam a sala da torre.
— Não.
A palavra saiu de Yrene em uma respiração.
A boca fina de Hafiza apertou.
— Não — disse Yrene novamente. — Eu não vou curá-lo.
Não havia suavidade, nada maternal no rosto de Hafiza, quando ela respondeu:
— Você fez um juramento ao entrar nessas salas.
— Não. — Era tudo em que ela podia pensar para dizer.
— Estou bem ciente do quão difícil pode ser para você...
Suas mãos começaram a tremer.
— Não.
— Por quê?
— A senhora sabe por quê. — As palavras eram um sussurro estrangulado. — A s-s-senhora sabe.
— Se você vir soldados de Adarlan sofrendo nesses campos de batalha, passará por cima deles? — Era a primeira vez que Hafiza era cruel com ela.
Yrene esfregou o anel em seu dedo.
— Se ele foi o Capitão da Guarda do último rei, ele... ele trabalhou para o homem que ... — As palavras caíram e tropeçaram. — Ele recebeu ordens dele.
— E agora serve a Dorian Havilliard.
— Que se entregou às riquezas de seu pai – a riqueza do meu povo. Mesmo que Dorian Havilliard não participasse, o fato de ele se afastar enquanto aconteceu... — As paredes de pedra pálida a pressionaram, mesmo a torre sólida debaixo delas parecia pesar. — Você sabe o que os homens do rei fizeram nesses anos? O que seus exércitos, seus soldados, seus guardas fizeram? E me pede para curar um homem que deu ordens a eles?
— É uma realidade de quem você é – de quem somos. Uma escolha que todos os curandeiros devem fazer.
— E você fez isso muitas vezes? Em seu reino pacífico? — perguntou Yrene.
O rosto de Hafiza escureceu. Não com ira, mas com memória.
— Uma vez eu fui convidada para curar um homem que se feriu quando evitava a captura. Depois de ter cometido um crime tão indescritível... Os guardas me contaram o que ele fez antes de eu entrar na cela. Eles o queriam remendar para poder viver e ser julgado. Sem dúvida, ele seria executado – eles tinham vítimas dispostas a testemunhar e provas em abundância. A própria Eretia viu a última vítima. Sua última. Reuniu todas as provas de que precisava e ficou naquele tribunal e condenou-o com o que tinha visto. — A garganta de Hafiza balançou. — Eles o acorrentaram naquela cela, e ele estava ferido o suficiente para que eu soubesse... Eu sabia que poderia usar minha magia para piorar o sangramento interno. Eles nunca saberiam. Ele estaria morto de manhã, e ninguém se atreveria a me questionar. — Ela estudou o frasco de tônico azul. — Foi o mais próximo que já estive de matar. Eu queria matá-lo pelo que tinha feito. O mundo seria melhor. Eu estava com as mãos em seu peito – estava pronta para fazer isso. Mas eu lembrei. Lembrei-me do juramento que fiz, e lembrei-me de que me pediram para curá-lo para que ele vivesse, para que a justiça fosse encontrada para as vítimas. E suas famílias. — Ela olhou nos olhos de Yrene. — Não era minha morte para tomar.
— O que aconteceu? — As palavras saíram tremidas.
— Ele tentou se declarar inocente. Mesmo com o que Eretia apresentou, com o que a vítima estava disposta a falar. Era um monstro por completo. Eles o condenaram, e ele foi executado no nascer do sol no dia seguinte.
— A senhora assistiu?
— Não. Voltei para cá. Mas Eretia assistiu. Ela ficou na frente da multidão e esperou até levarem seu cadáver para um carrinho. Ficou pelas vítimas que não puderam assistir. Então voltou para cá, e nós choramos por um longo, longo tempo.
Yrene ficou quieta por alguns segundos, o suficiente para que suas mãos se estabilizassem.
— Então eu devo curar esse homem, assim ele poderá encontrar justiça em outro lugar?
— Você não conhece a história dele, Yrene. Sugiro ouvi-la antes de contemplar tais coisas.
Yrene balançou a cabeça.
— Não haverá justiça para ele – não se ele serviu o rei antigo e ao novo. Não se ele é suficientemente esperto para permanecer no poder. Eu sei como Adarlan funciona.
Hafiza a observou por um longo momento.
— No dia em que você entrou nesta sala, tão terrivelmente magra e coberta com a poeira de uma centena de estradas... Eu nunca tinha sentido tal dom. Olhei para aqueles seus belos olhos, e quase engasguei com o poder que sentia em você.
Desapontamento. Ela sentiu uma nota de decepção na voz da Alta Curandeira.
— Eu pensei em mim mesma — Hafiza prosseguiu. — Onde essa jovem estava escondida? Que deus cuidou dela, a guiou até a minha porta? Seu vestido estava em farrapos ao redor de seus tornozelos e, no entanto, você entrou ereta como qualquer senhora nobre. Como se fosse a herdeira da própria Kamala.
Até que Yrene atirara o dinheiro na mesa e desabou momentos depois. Ela duvidava que a Alta Curandeira já tivesse feito tal coisa.
— Até o seu nome de família: Towers. Uma dica sobre a associação de seus ancestrais com a Torre, talvez. Perguntei-me naquele momento se eu finalmente tinha encontrado minha herdeira – minha substituta.
Yrene sentiu as palavras como um golpe no intestino. Hafiza nunca insinuara...
Fique, a Alta Curandeira oferecera. Para não apenas continuar o treinamento, mas também assumir o manto agora colocado diante dela.
Mas nunca tinha sido a ambição de Yrene reivindicar esta sala como sua. Não quando seus olhos sempre iam parar no Mar Estreito. E mesmo agora... era uma honra além das palavras, sim. Mas uma que soava vazia.
— Eu perguntei o que você queria fazer com o conhecimento que eu lhe daria — Hafiza prosseguiu. — Lembra-se do que me respondeu?
Yrene lembrava. Ela não se esqueceu nem por um momento.
— Eu respondi que queria usá-lo para fazer algo de bom para o mundo. Para fazer algo com minha vida inútil e desperdiçada.
As palavras a guiaram nesses anos – juntamente com o bilhete que ela carregava todos os dias, mudando-o de bolso para bolso, nos seus vestidos. Palavras de uma estranha misteriosa, talvez um deus que tivesse usado a pele de uma jovem maltratada, cujo presente de ouro a tinha levado até aqui. A salvado.
— E assim você deve fazer, Yrene — falou Hafiza. — Um dia voltará para casa, e fará o bem, fará maravilhas. Mas antes, peço isso a você. Ajude esse jovem. Você já fez a cura antes – pode fazê-la novamente agora.
— Por que não você?
Ela nunca pareceu tão mal-humorada, então... ingrata.
Hafiza lhe deu um sorriso pequeno e triste.
— Não é minha própria cura que é necessária.
Yrene sabia que a Alta Curandeira também não falava do homem ferido, tampouco. Ela engoliu a secura em sua garganta.
— É uma ferida da alma, Yrene. E deixá-la supurando esses anos... Não posso culpá-la. Mas eu vou responsabilizá-la se você se deixar entrar em algo pior. E vou chorar por você.
Os lábios de Yrene tremeram, mas ela os pressionou, piscando para afastar a queimação em seus olhos.
— Você passou nos restes, melhor do que qualquer um que tenha galgado esta torre — disse Hafiza suavemente. — Mas permita este ser meu teste pessoal para você. O final. Então, quando decidir ir, poderei despedir-me, mandá-la para a guerra e saber... — Hafiza colocou a mão em seu próprio peito. — Saber que, onde quer que a estrada a leve, por mais escuro que esteja, você estará bem.
Yrene engoliu o pequeno som que tentou sair dela e, em vez disso, olhou para a cidade, suas pedras pálidas resplandecentes com a última luz do pôr-do-sol. Através das janelas abertas atrás da Alta Curandeira, uma brisa noturna com cheiro de lavanda entrou, esfriando o rosto e arruinando a nuvem de cabelos brancos de Hafiza.
Yrene colocou a mão no bolso de seu vestido azul pálido, seus dedos tocando a suavidade familiar do pedaço de pergaminho dobrado. Ela o segurou como costumava fazer quando navegava até aqui durante aquelas primeiras semanas de incerteza, mesmo depois que Hafiza a admitiu, durante as longas horas e dias e momentos difíceis que quase a quebraram enquanto ela treinava.
Um bilhete escrito por uma estranha que salvou sua vida e concedeu sua liberdade em questão de horas. Yrene nunca soubera seu nome, aquela jovem que vestia suas cicatrizes como algumas senhoras vestiam suas melhores joias. A jovem que era uma assassina treinada, mas tinha comprado a educação de um curandeira.
Tantas coisas, tantas coisas boas vieram daquela noite. Yrene às vezes se perguntava se realmente aconteceu – poderia ter acreditado ser um sonho se não fosse pelo bilhete em seu bolso, e o segundo objeto que Yrene nunca vendera, mesmo quando o ouro diminuiu.
O broche ornamentado de ouro e rubi, que valia mais que quarteirões inteiros de Antica.
As cores de Adarlan. Yrene nunca soube de onde a jovem viera, de onde vieram os socos que haviam deixado hematomas persistentes em seu rosto bonito, mas ela falava de Adarlan como Yrene. Como todas as crianças que perderam tudo para Adarlan falavam – aquelas crianças com seus reinos deixados em cinza, sangue e ruína.
Yrene passou o polegar sobre o bilhete, sobre as palavras ali assinadas:

Para onde precisar ir – e mais um pouco. O mundo precisa de mais curandeiros.

Yrene respirou aquela primeira brisa da noite, sentiu o cheiro das especiarias e do sal entrando na Torre.
Ela finalmente olhou de volta para Hafiza, a Alta Curandeira esperava. Paciente.
Yrene se arrependeria se recusasse. Hafiza cederia, mas Yrene sabia que se deixasse para lá, se de alguma forma decidisse permanecer, ela... se arrependeria. Pensaria nisso. Imaginaria se reembolsara a extraordinária bondade que tinha recebido de forma tão má. Imaginaria o que sua mãe teria dito sobre isso.
E mesmo que esse homem tivesse vindo de Adarlan, mesmo que ele estivesse atado àquele massacre...
— Eu vou encontrá-lo. Avaliá-lo — falou Yrene. Sua voz apenas temia ligeiramente. Ela apertou aquele pedaço de papel no bolso. — E depois decidirei se vou curá-lo.
Hafiza considerou.
— É justo o suficiente, garota — ela disse calmamente. — Justo o suficiente.
Yrene soltou um suspiro.
— Quando o vejo?
— Amanhã — Hafiza respondeu, e Yrene estremeceu. — O khagan pediu que vá à câmara de Lorde Westfall amanhã.

8 comentários:

  1. Sabia que ela teria um papel maior no futuro hauaha mds,a Celaena é de outro mundo por fazer tanta coisa e tudo refletir de forma positiva agora, ou quase kkkkk

    ResponderExcluir
  2. Quero muito que ela descubra logo que foi a Cel/Aelin que ajudou ela aaaaa

    ResponderExcluir
  3. Manooo A Celaena/ Aelin é foda, e eu nunca vou me cansar dessas surpresas.

    ResponderExcluir
  4. Gente eu sou doida, não me julguem por começar a shippar a Yrene com o Chaol (detalhe: eles nunca se viram na vida, mas tô shippando heuheu quando a loucura ataca é meio impossível se livrar dela)

    Esses pensamentos da Yrene sobre a Aelin me tocaram profundamente, que saudades da nossa querida rainha cadela cuspidora de fogo 😢

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Não é louca não. ..Também estou shipando

      Excluir
  5. Porque eu ja estou shippando ela e chol?? Mds e tantos ships

    ResponderExcluir
  6. Meu porque será que a parte dela é bem mais legal do que a de chaol, até da nesryn é mais interessante, tipo acho que a dele quem sabe fica melhor eu já amo essa curandeira e tô louca pra um dia ela ver Aelin de novo

    ResponderExcluir

Se você não tem conta no Google e quiser comentar, utilize a opção Nome/URL e preencha seu nome/apelido/nick; o URL pode deixar em branco.

Boa leitura, E SEM SPOILER!