25 de janeiro de 2018

Capítulo 4. O segredo da torre

O velho alemão tinha uma saúde de ferro. Para ele ainda não pesavam as sete décadas que já vivera. Mas, naquela manhã, ele se sentia jovem, leve, poderoso, como se estivesse novamente com pouco mais de vinte anos — última ocasião em que envergara o uniforme negro das SS, as terríveis tropas de elite de Hitler.
Seu destino ficava a pouco menos de uma hora de São Paulo. Ele dirigia sozinho, como sempre fazia. A melhor maneira de garantir sua própria segurança, de manter o perfeito disfarce que o protegia há décadas era dispensar motorista e guarda-costas. Qualquer ostentação poderia tirá-lo do anonimato. E, por enquanto, a curiosidade do público, da polícia e, principalmente, das organizações judaicas era a última coisa que o velho alemão poderia desejar.
Manobrou por uma estradinha de terra que saía despercebida da rodovia e rodou ainda cerca de dois quilômetros. Em pouco tempo estacionava na frente dos altos muros de uma mansão, o Castelo da Vargem Fina, como era chamado pelos moradores simples dos arredores, que assim pronunciavam o nome dado pela Organização ao quartel-general: Castelo Wachenfeld.
A mansão destoava totalmente das construções espalhadas pelos pequenos sítios em volta. Era uma arquitetura de estilo gótico solidamente construída, com uma torre típica de um castelo da Europa central e paredes bem altas, quase completamente encobertas de hera.
O velho alemão saiu do carro e sentiu no rosto a brisa que fazia dançar as folhas secas sobre a terra batida da estradinha. Ergueu os olhos para a torre. Lá em cima, na torre, escondia-se o grande segredo da Organização. O segredo guardado além de todos os segredos. O segredo protegido pela ferocidade dos dobermans, pela boçalidade dos guardas de segurança e pela brutalidade do terrível Komandant. Além de três membros do Supremo Komand da Organização, dois na Europa e um nos Estados Unidos, somente o Komandant no Brasil tinha conhecimento daquele segredo.
E ele era o Komandant da Organização no Brasil.
Participar da criação do segredo fora seu passaporte para a importante tarefa para a qual fora escolhido: comandar, do Brasil, a fabulosa decisão da Organização — a retomada do poder mundial!
Num dos mourões de pedra que sustentavam o portão de ferro da entrada da mansão estava uma pequena placa de bronze, onde se lia a seguinte inscrição: “Lar da Juventude Brasileira”.
O alemão achava que aquela fora uma das mais brilhantes ideias do Supremo Komand da Organização. O disfarce perfeito que permitia, mais ou menos às claras, o recrutamento de crianças e jovens abandonados que, sob a supervisão do Komandant, estavam sendo treinados ali para constituírem o futuro exército do IV Reich.
Por um momento, enquanto trancava o carro, o Komandant pensou na genialidade da Organização ao escolher o Brasil como sede para o IV Reich. Em que outro país haveria maior contingente de crianças abandonadas?
E quem daria por falta delas nas ruas?
Ao longe, era possível ouvir vagamente os ruídos dos jovens da “Juventude Brasileira” em seus exercícios militares matinais. Esses exercícios eram feitos nos campos de treinamento no centro da imensa propriedade de vários alqueires, completamente cercados por muros de pedra.
O alemão levou consigo o jornal que acabara de comprar. No pé da primeira página estava o título que ele havia lido com mais prazer em toda a sua vida:
ATOR ASSASSINADO
ANTES DE ENTRAR EM CENA
Não sorria, pois jamais havia aprendido a sorrir, mas o faria, se soubesse. Estava livre de um pesadelo:
“O porco ator judeu está morto! Finalmente!”, pensava ele, com alívio.
Depois de décadas de medo, de fugas, de sobressaltos, tudo parecia ter mudado para ele. A partir daquele dia, ele não seria mais o eterno fugitivo que os antigos camaradas tinham de esconder. Não seria mais aquele velho solitário, tremendo a cada ruído, sempre à espera da prisão ou da morte. Os bons tempos de segurança e poder absoluto estavam para voltar.
Era preciso ter paciência por mais algum tempo. Dentro de mais alguns dias, ele poderia voltar a vestir com orgulho a farda negra das SS, as tropas de confiança do seu Fuhrer, o seu guia.
“O Grande Adolf Hitler!”, pensava o alemão. “Valeu a pena esperar! Logo voltarei a vestir a farda das tropas SS que fizeram a glória da Alemanha! E que voltarão a comandar o mundo!”
Só mais dois dias e ele estaria recebendo o Esperado, que vivera seus doze anos na África do Sul sob a guarda da Organização.
“E o mundo estará aos pés do IV Reich!”
Para que sua tranquilidade pudesse voltar por inteiro, só faltava mesmo que Solomon Friedman desaparecesse da face da Terra. E até isso, por fim, tinha acontecido.
Atrás das grades do portão de ferro, o porteiro o reconheceu e bateu os calcanhares, procurando empertigar-se o mais que podia.
— Heil Hitler — saudou o velho alemão, quase num sussurro, pensando que aquele que fora um dia um brado orgulhoso transformava-se agora em um murmúrio clandestino, por razões de segurança.
“Mas esta situação há de mudar! E depressa!”
O porteiro o havia reconhecido, mas o doberman, sempre preso pela coleira, não mostrou sinais de boas-vindas. O empregado agarrou firmemente a correia e abriu os portões, contendo a fúria assassina do cão, que latia furiosamente, espumando baba pela bocarra.
O velho alemão olhou em volta para certificar-se de que não havia nenhuma outra fera como aquela à solta.
“Não se pode confiar nesses guardas recrutados no Brasil. Ach! Que povinho desorganizado! Que raça sem disciplina!”
Tudo lhe pareceu em ordem, e o velho alemão atravessou rapidamente as alamedas cercadas de acácias em flor.
Foi recebido à entrada do vasto salão do castelo por um dos guardas de segurança e subiu para o seu Kabinet
Em sua expressão, não havia mais qualquer traço da satisfação que a notícia do jornal lhe provocara, pois em outra parte do jornal havia lido uma nota sobre um processo contra um certo médico. A notícia deixara o alemão furioso.
O tal médico também sentiria o peso da sua fúria.
Agora ele era o Komandant.

* * *

O velho fusquinha de Andrade estava estacionado próximo ao Colégio Elite, como se o detetive fosse mais um dos pais que vinham buscar o filho no final das aulas.
Esperava encontrar somente Magrí e Calú, mas não se espantou quando viu Chumbinho, Miguel e Crânio junto com os dois. Aquele grupo não se largava!
Mesmo que ninguém tivesse combinado o encontro, os Karas sentiram um certo alívio ao distinguir a silhueta gorda do detetive no meio das mamães e dos choferes que buscavam os filhos na escola.
Magrí beijou as gordas bochechas de Andrade, sentindo o arranhar da barba, que o detetive não raspara naquela manhã.
— Eu não queria meter vocês novamente em uma encrenca cabeluda, meninos, mas...
— Nós fazemos parte da confusão, Andrade — simplificou Miguel. — Calú era muito amigo de Solomon Friedman!
—- É... era mesmo... Por isso eu acho que Calú pode me ajudar nesta investigação. Mas só com informações, entenderam bem? Desta vez eu não vou admitir que vocês...
O olhar dos cinco impediu que Andrade fosse adiante com a proibição. O detetive desistiu e convidou:
— Querem uma carona?
Pronto! Os cinco teriam de espremer-se no minúsculo fusquinha mais uma vez! Magrí ia sempre no banco dianteiro, e os quatro tinham de encontrar lugar no banco de trás. Chumbinho odiava ser o menor de todos e ficava danado quando sugeriam que ele viajasse no colo de alguém. Enfiou-se no estreito compartimento que havia junto ao para-brisa traseiro.
— Vocês têm mais alguma informação sobre o crime de ontem à noite, não é, meninos? — começou Andrade.
— Temos — confirmou Magrí.
— Para o Ibirapuera?
— Para o Ibirapuera!
O detetive engatou a marcha. Sempre no Parque do Ibirapuera ou no Jardim Zoológico! Aqueles meninos nunca queriam testemunhas quando tinham de contar alguma descoberta a ele. Bom, se eles gostavam de brincar de polícia e ladrão, o que ele podia fazer?
Calú pegou um jornal que encontrou sobre o banco do fusquinha. Deu uma rápida olhada numa pequena notícia impressa na página dobrada e exclamou:
— Ora vejam só! Ferenc Gábor chega hoje ao Brasil!
— Quem?
— Ferenc Gábor. Coitado do velho Sol! Como ele gostaria de estar vivo agora! Vocês nem imaginam: Ferenc Gábor era um velho amigo do Sol. Um amigo dos tempos terríveis. Está vindo pela primeira vez ao Brasil. Justamente um dia depois da morte de Sol...
— Ferenc Gábor? — estranhou Miguel. — Nunca ouvi...
— Ferenc Gábor tem tudo a ver com o passado de Solomon Friedman, Miguel. Uma coincidência... uma macabra coincidência...
Nas mãos de Calú, Miguel leu:
EXPOSIÇÃO DO MESTRE DAVI SEGAL CHEGA HOJE A SÃO PAULO
Sob o título, a foto de um quadro, com um velho sorridente ao lado. A legenda dizia:
Ferenc Gáhor, curador universal da obra de Davi Segai, chega hoje a São Paulo, trazendo uma exposição com telas inéditas, pintadas pelo gênio judeu-alemão do expressionismo pouco antes de sua morte no campo de concentração de Sobibor.
Entalado atrás do banco traseiro, Chumbinho coçou a cabeça:
— Engraçado... acho que eu já ouvi esse nome... Ferenc Gábor... Só não me lembro onde...
— Você acompanha arte, Chumbinho?
— Ferenc Gábor está vindo da França — explicou Crânio. — Aqui diz que ele vive lá, onde cuida dos quadros de Davi Segai, o mestre do expressionismo...
— Não... não tem nada a ver com nenhum “ismo”... Eu ouvi esse nome aqui... no Brasil.... tenho certeza. Só não consigo lembrar...
Calú não estava prestando atenção ao que Chumbinho dizia. Seus pensamentos focavam-se apenas na tragédia do seu amigo assassinado. O crime comovera a cidade, fizera chorar o Brasil. Naquele momento, o corpo do grande ator judeu, do grande cidadão brasileiro, estava sendo velado na Biblioteca Municipal, recebendo o último adeus da comunidade teatral que tanto devia a Solomon Friedman. Calú desejaria estar lá e lá permanecer até que o caixão fosse fechado, quando, então, do velho Sol só restaria a lembrança... e a saudade. Mas a saudade só teria cabimento depois que o assassino estivesse desmascarado. Enquanto isso, Calú sentia-se obrigado a agir, em vez de simplesmente ficar chorando sobre as flores que adornavam o caixão.
— Solomon Friedman gostaria de estar vivo... Por várias razões o velho Sol gostaria de ter vivido mais um pouco. Pelo menos para rever esse velho amigo...
Uma lágrima escorreu pela face do garoto.

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